20/03/16

Sermão da Bula da Santa Cruzada, do Padre Antônio Vieira

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O jesuíta, judeus e cristãos novos: a recuperação econômica de Portugal

O protagonista do nosso trabalho nasceu no dia 6 de fevereiro de 1608, na cidade de Lisboa, filho de Cristóvão Vieira Ravasco e Maria de Azevedo. Quando tinha seis anos de idade, sua família mudou-se para o Brasil, indo instalar-se na cidade de Salvador.

Ali recebeu as primeiras letras no colégio dos jesuítas, iniciando um caso de amor que duraria por toda a sua existência. Diz-nos os seus biógrafos que certo dia fugiu de casa, mais precisamente no dia 5 de maio de 1623, indo instalar-se nas dependências desta poderosa e influente ordem religiosa, onde iniciou o seu noviciado.

Mais uma vez seus biógrafos são unânimes em afirmar que não era dos noviços mais destacados, e a não existência de observações acerca de sua pessoa nestes primeiros tempos por parte de seus superiores torna crível esta afirmação. Como passou da mediocridade à agudeza de engenhos não é de relevância para a presente exposição e nem será explicada por nenhum historiador ou “vieirista”, mas conta-nos o seu primeiro biógrafo, jesuíta como ele, que pedia insistentemente em suas preces a Virgem que lhe iluminasse a inteligência. Até que um dia, um estalo aconteceu em sua cabeça e passou a se destacar em todas as disciplinas do noviciado. Certamente uma maneira da Companhia de Jesus engrandecer-se, por meio de seu insígne membro.

Foi transferido para as missões do Espírito Santo, como um dos inúmeros estágios pelos quais tem que passar um noviço da companhia, e foi lá que entrou em contato com o que podemos chamar de a razão de ser inaciana, a vida missionária. Aprender a linguagem dos indígenas, observar seus hábitos e costumes, para ensinar a doutrina católica ou, melhor, traduzi-la aos nativos, foi, sem dúvida, uma das experiências mais marcantes de sua vida, e as perspectivas missionárias jamais o deixariam. Mesmo na fase da vida em que esteve mais compenetrado nas questões políticas e “mundanas” do Império Português, acreditamos que nunca esqueceu o espírito missionário, ao contrário do que afirma o seu maior biógrafo.

É certo que durante o período que viveu na Bahia conheceu e ouviu falar a respeito dos muitos cristãos-novos que existiam na região. Presenciou a existência de muitos mercadores abastados pertencentes a este grupo criado desde os tempos do rei D. Manuel, mercadores que faziam circular grande quantidade de riquezas pelos territórios do império português. Obviamente, não significa dizer que todos os grandes comerciantes da região pertenciam a este grupo, mas o simples fato de existir grandes mercadores entre os seus membros possibilitava que estivessem sob os olhares da população e não passassem despercebidos. Era notório também a grande quantidade de cristãos-novos dedicados a atividades mais modestas, tais como o artesanato e outros ofícios manuais.

Presenciou também invasão holandesa à Bahia, em 1624, patrocinada pela Companhia das Índias Ocidentais, com o objetivo de atingir o império espanhol, contra o qual estava em guerra. Já aos dezoito anos de idade, ainda noviço,fora incumbido por seus superiores de narrar estes episódios para o provincial geral dos jesuítas situado em Roma, na carta anua de 1626, sem dúvida por já conhecerem seus dons para a escrita e oratória. Tal carta deveria ser escrita anualmente por todas as províncias da Companhia de Jesus no mundo, descrevendo as atividades exercidas e acontecimentos ocorridos no ano.

Sobre a chegada dos primeiros holandeses e a batalha que se estendeu, Vieira narrou com grande vivacidade, narração esta que era apenas o despontar do talento que seria apreciado por tantos no futuro:

Com a luz do dia seguinte apareceu a armada inimiga, que repartida em esquadras vinha entrando. Tocavam-se em todas as naus trombetas bastardas, ao som de guerra, que com o vermelho dos paveses vinham ao longe publicando sangue. Divisavam-se as bandeiras holandesas, flâmulas e estandartes, que ondeando das antenas e mastaréus mais altos desciam até varrer com tanta majestade e graça que, a quem não se temera, podiam fazer uma alegre e formosa vista. Nesta ordem se vieram chegando muito a seu salvo, sem lho impedirem os fortes porque , como o porto é tão largo, tinham lugar para se livrar dos tiros.

Tanto que emparelhou com a cidade, a almiranta a salvou sem bala, e despediu um batel com bandeira de paz. Mas à salva, e à embaixada, antes de a ouvirem, responderam os nossos pelouros, o que vendo os inimigos se puseram todos em guerra. Viraram logo as naus enfiadas sobre a terra , e por onde iam passando descarregavam os costados na cidade, forte e navios que estavam abicados na praia; o que continuaram segunda e terceira vez até que, depois do meio dia, puseram todos a proa em terra, e as três dianteiras, em determinação em abalroarem a fortaleza, mas, impedidas dos baixos, lançaram ferros e em arvores secas, como se foram todas de fogo e ferro, começaram a desfazer tanto nele que parecia pelejava nelas o inferno. E tal foi a tempestade de ferro e fogo, tal o estrondo e a confusão que a muitos , principalmente aos poucos experimentados, causou perturbação e espanto, porque por uma parte os muitos relâmpagos fuzilando feriam os olhos, e com a nuvem espessa de fumo não havia quem visse; por outra, o contínuo trovão da artilharia tolhia o uso da língua e das orelhas, e tudo junto, de mistura com as trombetas e mais instrumentos bélicos, era terror de muitos e confusão de todos.

Em tal carta continua narrado, com as mesmas imagens e cores, a resistência de poucos portugueses frente ao invasor, pois a maioria tinha debandado em fuga. Narra também a prisão do governador, Diogo de Mendonça Furtado, pelo inimigo, a agonia dos moradores que iam refugiar-se em fazendas do interior e nas aldeias das missões jesuíticas. Narrou a resistência do bispo da região, D. Marcos Teixeira, que conseguira fugir para o Espírito Santo e reunir uma força composta por brancos e indígenas, que juntamente com os socorros provenientes de Espanha, Pernambuco e Rio de Janeiro, conseguiram expulsar os holandeses em 30 de abril de 1625.

Neste episódio de sua vida, o então noviço presenciou o poderio das companhias de comércio holandesas, experiência que conservou a vida toda, e as quais intentou imitar quando, anos depois, era conselheiro do rei D. João IV. De fato, se a Companhia das Índias Ocidentais jamais conseguiu subjugar a Bahia, onde estava Vieira, por quase vinte cinco anos dominou o restante do nordeste açucareiro, extraindo e produzindo grandes riquezas na região, em particular numerosíssimas caixas de açúcar, em aliança com os donos de engenho das localidades, antigos súditos dos Felipes espanhóis. A Companhia concedeu liberdade de consciência em matéria religiosa, seja aos católicos, seja aos judeus, estes últimos no resguardo dos lares, com o objetivo de não cometer escândalo público e não ofender o cristianismo reformado, apesar dos protestos, e não poucos, que esta liberalidade causou, seja entre católicos, seja entre predicantes calvinistas.

A possibilidade de professar livremente as crenças religiosas atraiu inúmeros judeus provenientes de Amsterdã, onde existia uma grande e próspera comunidade judaica. Seus membros eram, em grande parte, sefarditas, judeus vindos da península ibérica, a maioria fugidos das perseguições do Santo Ofício, notadamente portugueses. Era tal o número de portugueses na comunidade judaica de Amsterdã, e também em outras, que muitos na Europa tinham as palavras português e judeu como sinônimas A presença de indivíduos que professavam a fé de seus antepassados, sem o risco de serem presos e queimados em praça pública, fez muitos cristãos-novos da região passarem para a lei de Moisés. No entanto, é um erro afirmar que todos os cristãos-novos tornaram-se judeus ou judaizavam no Pernambuco holandês. Muitos permaneciam fiéis ao catolicismo e quando passavam para o judaísmo, tinham crises de consciência. Assim, o cristão-novo pernambucano, mesmo no Pernambuco holandês, exemplificava aquilo que dele disse Novinsky: um homem divido entre o catolicismo e o judaísmo, entre o antigo modelo social ao que estavam acostumados, com cultos às escondidas e prestes a serem denunciados a todo o tempo, e o novo que despontava, embora esta nova religião não implicasse ausência de preconceitos, críticas e perseguições, como a experiência mostrou.

Tudo isto o jovem Vieira, da Bahia, via, tinha notícias. E todos estes fatos, provavelmente, contribuíram para a sua defesa da aceitação dos judeus e cristãos-novos na economia do reino, anos mais tarde.

Em 1626, Viera terminou o seu noviciado na Companhia e, provavelmente, teria seguido a vida missionária se não fosse obrigado, pelos votos de obediência, espinha dorsal da vida monástica e jesuítica, a prosseguir nos estudos de filosofia e teologia. É saborosa a descrição que João Lúcio de Azevedo faz do ambiente de estudos da Companhia de Jesus naquela época, o ambiente que Vieira viveu por oito anos, possivelmente com algumas singelas diferenças do descrito, mas sem perder a essência : as esgrimas de teses proferidas em latim, apresentadas em aulas ou em solenidades;as inúmeras matérias em que se dividiam estas teses, podendo ser lógicas, matemáticas, metafísicas, etc; as escolas que poderiam fornecer o arsenal de argumentos, tais com a aristotélica, a Ambrosina, Bernardina, Tomista agostinianas; o modo de argumentar, podendo ser escolástico, metafórico, expositivo, histórico.

O mesmo Azevedo coloca que as disputas de teses eram o triunfo do silogismo, e é bem interessante notar o quanto este triunfo ficou arraigado em sua vida, pois a base para a argumentação do seu pensamento profético-messiânico, conforme veremos adiante, eram os silogismos. Poderíamos até falar, com certo tom de pilhéria, obviamente, que foram os silogismos que o levaram à alçada do Santo Ofício, conforme veremos adiante também.

Durante estes oito anos de estudos, Vieira se destacou em todas os cursos, seja o de filosofia, seja o de teologia, estando apto para lecioná-los. Recusou-se a servir-se das apostilas dadas para estes estudos, preparando o seu próprio material.

É digno de nota que estes papéis do período de sua formação lhe serviram por longos anos da vida. Basta notar que quando esteve sob a alçada da Inquisição, os inquisidores lhe apreenderam muitos cadernos, que pareciam muito antigos, pelo fato de muitos destes serem muito amarelados, o que faz supor que possivelmente poderia existir papéis desde a época de sua formação. No entanto, possivelmente estavam dentro da ortodoxia da Ordem como argumenta Azevedo, visto que estes papéis não continham novidades dogmáticas e religiosas; prova disto está no fato de seus superiores, que tudo observavam nos formandos, o terem indicado pra lecionar teologia no colégio da Bahia, pois os regulamentos da ordem excluem os que são inclinados às novidades os cargo de magistério. O que não surpreende, visto que a Ordem foi o baluarte da ortodoxia católica nestes tempos de contestações, derivadas principalmente com a Reforma Protestante. Como pedir flexibilidade de ortodoxia para um grupo que detinha este papel de capital importância para a Igreja?

Ordenou-se sacerdote em 19 de dezembro de 1634, mas começou a pregar desde, 1633, provavelmente nas aldeias em que os jesuítas doutrinavam os indígenas e certamente na igreja de Nossa Senhora dos Pretos, Bahia. Aqui começava a ensaiar a arte de pregar, que o consagrou em tantos lugares. Já na Bahia era reconhecido como notável pregador.

Quando os holandeses novamente tentaram tomar esta região, em 1638, com um exército de mais de 4000 homens e foram derrotados, lá estava o padre a escarnecer de sua derrota, após quarenta dias de tentativa

Os tiros da artilharia inimiga que se contaram foram mais de 1600, e chovendo a maior parte deles pela cidade, o que faziam? Uns caíam saltando e rolavam furiosamente pelas ruas e praças; outros, destroncavam os telhados, despendido outras tantas balas quantas eram as pedras e telhas e foi coisa verdadeiramente milagrosa que a nenhuma pessoa matasse ou ferisse, nem ainda tocasse, dentro da cidade , sendo que chegaram a levar e a despir a algumas ainda as roupas mais interiores, mas sem nódoa ou sinal nos corpos. E para maior excesso de maravilha, quando as balas que choviam por elevação na cidade nenhum dano fizera aos moradores , é certo que as nossas colubrinas, que também jogavam por elevação desde as portas da Sé, caindo por vale onde o inimigo tinha assentado o seu arraial, mataram muito dos hereges.

O padre, neste mesmo sermão, lembra aos ouvintes que o rei Davi, num de seus salmos diz que o castigos dos maus é uma tempestade de fogo e enxofre dada de beber num copo. Assim,

Estes eram os brindes que o flamengo fazia à cidade;mas ela lhe respondia muito à portuguesa, porque recebendo tão pouco dano da chuva das suas balas como se fosse de água, a nossa o executava neles tão verdadeiro como de ferro e fogo. Eles brindavam à nossa saúde, nós à sua morte.

A empolgação frente à retirada dos holandeses não durou por muito tempo. Em 23 de janeiro de 1639, uma armada proveniente da Europa com forças de Espanha e Portugal, comandadas pelo Conde da Torre, chegou à Bahia com o objetivo de tomar Pernambuco, mas somente em outubro estava pronta para o combate. E neste combate naval, que se deu no início de 1640, a frota do Conde da Torre foi rechaçada pela resistência holandesa, sendo perseguida até auto-mar.

Obviamente, este ataque não ficaria sem réplica, e os holandeses voltaram à Bahia com uma esquadra de vinte navios. Muitos pregadores subiram ao púlpito, exortando a população à penitencia e a ter fé na misericórdia divina. Quando coube Vieira a pregar, este preferiu pregar não ao povo, mas a Deus, para que não abandonasse o povo português, o povo que desde o seu início tinha sido consagrado por Ele.

Ouvimos a nossos pais, lemos nas nossas histórias e ainda os mais velhos viram, em parte com os seus olhos , as obras maravilhosas, as proezas, as vitória , as conquistas, que por meio dos portugueses obrou em tempos passados a vossa onipotência, Senhor. Vossa mão foi a que sujeitou tantas nações bárbaras, belicosas e indômitas, e as despojou dos domínios de suas próprias terras para nelas os plantar, como plantou, com tão bem fundadas raízes; e para nelas os dilatar, como dilatou e estendeu em todas as partes do mundo, na áfrica, na Ásia, na América. Porque não foi a força de seu braço, nem a da sua espada a que lhes sujeitou as terras que possuíram, e as gentes e reis que avassalaram, senão a virtude de vossa destra onipotente, e a luz e o premio supremos do vosso beneplácito, como que neles vos agradastes e deles vos servistes.

Observamos, neste trecho, a presença de um importante elemento da mentalidade portuguesa nestes tempos, a crença na providência divina para levar a fé católica aos quatro cantos do mundo. O reino português , consagrado por Deus desde o seu nascimento, não poderia sucumbir frente aos hereges, sob o perigo das nações dominadas pelo consentimento divino, acharem que a sua fé que era a verdadeira. Se tornassem senhores daquela região

Entrarão os hereges nesta igreja e nas outras; arrebentarão essa custodia em que agora estais adorado dos anjos; tomarão os cálices e vasos sagrados vão aplica-los a suas nefandas embriagueses; derrubarão dos altares os vultos e estátuas dos santos vão deforma-las a cutiladas e vão mete-las no fogo; e não perdoarão nem as da Virgem Maria... enfim, Senhor, despojados assim os templos e derrubados os altares, acabar-se-á no Brasil a cristandade católica, acabar-se-á o culto divino, nascerá erva nas igrejas como nos campos; e não haverá quem entre nelas. Passará um dia de natal, e não haverá memória do vosso nascimento; passará a Quaresma e a semana santa e não se celebrarão os mistérios da vossa paixão. [...] já sei, Senhor, que haveis de vos enternecer e arrepender!

Realmente parece que a bronca do padre fez Deus mudar de idéia quanto ao que seria o destino da Bahia. A esquadra holandesa tinha se afastado sem causar outros danos maiores. Assim ganhava fama o pregador que podia até mesmo fazer Deus enternecer perante a sorte trágica de um povo.

Na mesma Bahia, já podemos também observar a utilização dos seus talentos oratórios no púlpito ao serviço dos governantes. De fato, numa sociedade fortemente marcada pelo religioso, o domínio do púlpito representava um grande instrumento, seja para a legitimação, seja para contestação dos poderes estabelecidos. Assim, em janeiro de 1641, por ocasião da comemoração da Festa de Reis, em presença de ilustres membros da aristocracia local, entre eles, o vice-rei do Brasil, Marquês de Montalvão, o jesuíta Antônio Vieira louvava os atos do invictíssimo monarca Felipe IV, o grande, que tinha ido pessoalmente combater revoltosos na região da Catalunha, valentia esta que garantiria a vitória sobre eles. Agradecia também ao Marquês, representante de Felipe IV, legitimo herdeiro de D. Sebastião, as rendas pelas quais o colégio dos jesuítas da Bahia fora dotado, juntamente com outros da colônia. Numa resposta provavelmente dirigida aos que ainda criam num retorno do rei D. Sebastião, desaparecido nas areias marroquinas durante a batalha de Alçácer e Quibir de 1578 e que fez o reino português passar ao jugo espanhol, Vieira é claro: Felipe IV tinha herdado de D. Sebastião o sangue, a coroa e afeição aos jesuítas.

Herdou, disse e quem diz herança supõe verdadeira morte.

Vieira, neste episódio, estabelece uma polêmica com os sebastianistas, movimento que acalentava o sonho de um possível retorno do rei D. Sebastião, mesmo tantos anos desaparecido. É interessante notar que este movimento, que se tornou um grande instrumento de resistência ao domínio dos Felipes espanhóis, teve grande apoio dos jesuítas portugueses. Dos colégios da Companhia em Portugal saíram muitas obras que fomentavam esta resistência, mormente proféticas, dando esperança de uma redenção ao reino. Entretanto, parece que o padre não compactuava estas opiniões, comum aos seus irmãos de hábito e se compactuou algum dia, o que não é totalmente inverossímil, neste momento estava longe delas. Falamos isto, porque, conforme veremos adiante, no que diz respeito às profecias que corriam pelo reino e pela Europa, o padre viva num constante analisar e refletir, buscando encaixa-las nos tempos e fatos que vivia e presenciava.

Como o ano de 1640 passara sem a volta do rei D. Sebastião, que segundo as muitas profecias que circulavam pelo reino estaria encoberto para manifestar-se naquele ano, o padre finaliza no mesmo sermão:

Viva pois o santo e piedoso rei (que já é passado o ano de 40), viva e reine eternamente com Deus, e sustente-nos desde o céu, com suas orações, o reino, que com seu demasiado valor nos perdeu na terra.

Partindo da perspectiva de que não estava sendo oportunista, mas que acreditava realmente nas idéias que estava pregando, conforme defendemos e veremos melhor no capítulo seguinte, qual não deve ter sido a sua confusão quando as notícias da Restauração Portuguesa, ocorrida em dezembro de 1640, chegaram às terras baianas. Um golpe encabeçado por parte da nobreza portuguesa e letrados do reino colocou o duque de Bragança no trono, que assumiu a coroa sob o título de D. João IV.Tal como narrava Bandarra, o grande profeta do sebastianismo e das esperanças lusas: o nome do rei a ser aclamado seria João e no ano de 40.

Logo seus superiores lhe incumbiram, juntamente com o padre Simão de Vasconcelos, cronista da Companhia, de ir a Lisboa prestar juramento de fidelidade ao novo rei aclamado, acompanhando D. Fernando Mascarenhas, filho do então vice-rei do Brasil, Marquês de Montalvão, que tinha aderido à causa da Restauração. O episódio do desembarque do padre em Portugal pode ser encarado como o prenúncio da conturbada trajetória que seguiria no reino por quase quarenta anos. Conta-nos Azevedo que a população buscou matar D. Fernando Mascarenhas, pois o tinha como traidor, aliado de Castela, sendo necessária a intervenção do governador da localidade, que o levou para sua casa como prisioneiro, juntamente com os dois jesuítas, para aplacar a fúria popular.


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Fonte:
SALOMÃO PONTES ALVES: "O PALADINO DOS HEREGES: A DEFESA DOS CRISTÃOS - NOVOS E JUDEUS PELO PADRE ANTÔNIO VIEIRA". (Defesa apresentada ao programa de pós-graduação em história social da Universidade Federal Fluminense como requisito para obtenção do grau de mestre em História. Orientador: Ronaldo Vainfas). Niterói, 2007.

Nota:
A imagem inicial inserida no texto não se inclui na referida tese.
As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.
O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho.
Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade.

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