27/03/16

Maria Rosa Mística: Sermão XII, do do Padre Antônio Vieira

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 Guerra como ato de caridade e amor

Segundo os teólogos medievais, o espírito a preencher os corações dos guerreiros e os levarem ao combate deveria se inspirar no mesmo amor que Deus, em sua infinita bondade, demonstrava a humanidade. O mote então se transforma em “ame ao seu inimigo” com suas mortes e destruições sendo vistas como atos de caridade e amor. “a Igreja não perseguia, mas ao contrário, expressava amor quando ela castigava o pecado.” Basicamente, a guerra se torna um ato de caridade ao inimigo. Observa-se que, em uma estranha reviravolta, a mesma caridade que inspirou São Francisco, agora inspirava o soldado a matar. Esta tipologia bélica da guerra como um ato de amor e caridade reforçava a “preocupação medieval de viver uma vita apostólica e expressar os ideais Cristãos ativamente através de trabalhos de caridade".

Isto é, amor deveria guiar os corações dos guerreiros cristãos. Quando estes usavam força contra o inimigo era para os castigarem, para puni-los, não só com a finalidade de lhes causarem dano, mas também com o intuito de lhes mostrarem o caminho do bem, o caminho correto. Ao castigá-los usando contra eles a violência, os guerreiros dispunham-se a desviar os inimigos do caminho do mal, salvando-os de uma vida de pecados. Às vezes, para cumprir esse ato de caridade, fazia-se necessário matá-los, pois na morte o inimigo não mais pecará, não mais causará injúrias a Deus.

Quando a morte do inimigo não procedia, a caridade também poderia tomar a forma da conversão. Usando as cruzadas como exemplo, “enquanto Deus e os cruzados poderiam se beneficiar do trabalho dos Cristãos, também seus inimigos, pois uma vez que o objetivo das cruzadas tinha sido legitimamente retornado às mãos dos Cristãos, a conversão estava aberta como um caminho para eles” . Nesta lógica, a guerra se torna um encargo missionário impulsionado pelo amor e a caridade. Agindo com benevolência, os guerreiros poderiam oferecer a seus inimigos de fé a oportunidade de se arrependerem e de buscarem a “Verdade” através da conversão. Em um exemplo claro deste conceito de amor e caridade medieval para com o inimigo, temos a Crónica dos Sete Primeiros Reis, que durante os relatos da monarquía de D. Afonso II traz um excerto sobre o tema.

O texto relata os eventos logo após a redenção das tropas mouras em 1217. Tratava-se do combate decisivo sobre o domínio do Castelo de Alcácer do Sal, onde os portugueses saíriam definitivamente vitoriosos. Neste conflito, os portugueses clamavam o direito sobre o Castelo, que desde o reinado de D. Sancho I (1185-1211) tinha sido perdido às forças Almoádas. Segundo o cronista, os portugueses tinham lutado fervorosamente para reconquistar o Castelo e, após um cerco exaustivo de dois meses, os “infiéis” finalmente se renderam.

Logo após a batalha, existe um detalhe curioso no qual o autor da crônica informa que “tres dias da tomada” do lugar, o “acayde” que tinha sido feito prisioneiro foi “bautisado e feyto Christão”. Esse pormenor, registrado em algumas poucas linhas de texto, é de extrema importância, pois indica diretamente a conversão pós-guerra, um ato claro de amor e caridade para com o inimigo. No entanto, alguns pontos devem ser ressaltados. Primeiro, não se pode afirmar ao certo se de fato existiu uma conversão do alcaide muçulmano. Porém, para fins desta tese a veracidade deste registro como fato histórico importa pouco. O mero fato do cronista ter incluído em sua crônica um relato sobre uma conversão pós-guerra é bastante simbólico. O conteúdo da narrativa se reduz ao que o cronista, conforme dos ditames da sociedade em que vivía, quis legar como história oficial do reino. Neste sentido, a escolha de se registrar uma ato de caridade e amor tão cristão quanto a oferta de conversão é revelador, pois demonstra que um dos beneficios que poderia advir de algo tão brutal como uma guerra seria a conversão. Segundo, presumindo que a conversão de fato tenha acontecido, não se pode desconsiderar a possibilidade de a conversão ser mais consequência da extrema pressão pela qual o alcaide, enquanto prisioneiro de guerra, deveria estar passando, sendo esta oferecida como uma possível alternativa à sua morte.

Ainda lembrando desses dois ressalves, essa passagem é bastante indicativa e rara. Dentre toda a produção da crônística medieval analisada, esta narrativa foi a única a apresentar um relato de uma conversão pós-guerra de forma prática. Muitas das outras passagens que abordam o tema da conversão são relacionadas à justificativa e legitimação bélica pré-batalha. Trata-se, portanto, de um caso raro e único que, na sua singularidade, demonstra o quanto a conversão servia como pretexto e fator legitimador de guerras, mas que excepcionalmente era apresentado como fato concretizado. Por isso, este pequeno registro, que poderia passar despercebido, torna-se tão importante. O conceito da violência como um ato de caridade e amor transgrediu a medievalidade, e se tornaria um dos mais importantes e impactantes conceitos na história da modernidade. A esperança de que uma guerra, conduzida com o espírito da caridade e do amor, poderia levar Deus aos não crentes multiplicando o rebanho cristão.

Explica Vieira sobre os princípios que regem o amor bélico que,

Não chamar inimigos aos inimigos, está no império da vontade, e na obediência da língua; mas não ter os inimigos por inimigos parece que está fora da jurisdição do entendimento”. Este tipo de amor exprime o que há de mais sublime nas doutrinas cristã, “Serem inimigos, e conhecê-los por inimigos, e não os ter por inimigos? Sim: a tanto chega a fineza da filosofia cristã”, afirmou. Isto porque “Na virtude da caridade cristã, tomada em toda a largueza de sua perfeição”, existem três graus” de amor ao próximo, e são eles, “amar os amigos, como a amigos; amar os nimigos, como inimigos; amar os inimigos, como a amigos”, este último exprime “o grau altíssimo de caridade”, facto já compreendido e confirmado pela auctoritas dos maiores teólogos da cristandade, “Santo Agostinho, S. João Crisóstomo, S. Gregório Papa, e comummente todos os Padres, entre os quais S. Bernardo”, todos estão em concórdia que “o amor dos inimigos é o mais alto, o mais sublime, o mais heróico, o mais divino acto da caridade”.

Em um outro sermão, Vieira se justifica, “posto que a matéria do amor dos inimigos seja tão pregada”. Para o pregador existia ainda uma outra consideração a ser avaliada sobre o amor ao inimigo. Se “as pessoas soberanas são superiores a toda a lei”, se ainda assim “são obrigados também os reis a amar seus inimigos?”. Sim, é a conclusão que chega Vieira, pois “por mais altas e soberanas que sejam (…) todas igualmente, como os outros cristãos, sem nenhuma excepção nem privilégio, estão sujeitas ao preceito de Cristo, e obrigadas a amar seus inimigos, e a lhes fazer bem”.

Contudo, Vieira é cuidadoso em fazer a distinção entre os inimigos próprios e os inimigos de Deus e, por exemplo bíblico, descreve como deverá ser a postura do rei perante cada um. “Porque David era soldado de Deus, e capitão-general de seus exércitos; e aqueles a quem chamvam seus inimigos, eram os inimigos de Deus”, esclarece Padre António, “observando tal diferença e distinção entre uns e outros, que aos inimigos seus amava e fazia bem, e só aos de Deus perseguia e fazia cruel guerra; tão insigne vingador das injúrias divinas, como perdoador das próprias”.
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Fonte:
Raquel Drumond Guimarães: “Vestígios do medievo nos Sermões do Padre António Vieira”. (Tese apresentada, como requisito parcial para obtenção do título de Doutor, ao Programa de Pós-Graduação em História, da Universidade Federal de Santa Catarina. Linha de pesquisa: Relações de poder e subjetividades. Orientador: Prof. Dr. Valmir Francisco Muraro). Florianópolis, 2012.

Nota:
A imagem inicial inserida no texto não se inclui na referida tese.
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O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho.
Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade.

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