26/03/16

Maria Rosa Mística - Sermão X, do Padre Antônio Vieira

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 Heranças de Inácio de Loyola e dos Primórdios da Companhia de Jesus

A vocação religiosa de Inácio de Loyola (1491-1556), fundador da Companhia de Jesus, só se manifestaria alguns anos após a batalha de Pamplona, na qual ficaria gravemente ferido. Inácio tinha já seus 30 anos, quando em 1521 Henrique II determinou conquistar o trono de Navarro valendo-se do apoio militar dos franceses. Inácio na altura prestava serviço militar ao exército de Espanha, que desde 1512 tinha incorporado o reino navarrês sob seu território. Nesta disputa de 1521, Loyola fez parte do pequeno exército de 1000 castelhanos incumbidos de defender Pamplona frente à numerosa tropa de 12000 gasco-navarrenses. A inferioridade numérica do exército espanhol de Carlos V fez com que muito de seus chefes militares debandassem da batalha. Inácio, porém, movido por uma honra aos moldes medievais, se propôs guerrear até a morte, preciso fosse. Recuado em um castelo, Loyola e alguns companheiros resistiram quanto puderam, até que Inácio foi finalmente alvejado por uma bala de canhão do exército inimigo, cedendo Pamplona e vitória decisiva a Henrique II de Navarra.

Debilitado, o futuro fundador da ordem inaciana se viu obrigado a um repouso forçado, uma vez que “não podia apoiar-se sobre a perna”. A inércia e o fastio sobre o leito de recuperação contrastavam em muito com a vida agitada e dinâmica de “homem dado às vaidades do mundo

(…) sobretudo no exercício das armas”. Segundo sua autobiografia, Inácio gostaria de ter passado este tempo de recuperação e repouso com leitura dos diversos livros de cavalaria que circulavam a Europa no momento. Nessas obras o protagonista heróico é sempre o cavaleiro, cujas referências e valores retratam o mundo medieval, especialmente aqueles que remetem à esfera bélica. Tendo em vista essas características, ao expor seu contato com este tipo de literatura, Inácio de Loyola não só evidenciaria a circulação deste genre nos primórdios da modernidade, como também estaria exibindo certa familiaridade e apreço pela mentalidade e pelo universo medieval.

Ora enfermo e sem o acesso aos tradicionais livros de cavalaria, já que na casa na qual se repousava Inácio não “encontrou nenhum daqueles que ele costumava” ler, foi-lhe dado para leitura “uma Vita Christi e um livro da vida dos Santos em língua pátria”. Foi assim que leu Santo Inácio durante a convalescença, foram a Vida de Cristo escrita pelo cartuxo Ludolfo de Saxónia (morto em 1377), vulgarmente chamado «o Cartuseano», e traduzida por Ambrósio Montesino (cf. A. CODINA, «Los origenes de los Exercicios espirituales» p. 220ss). O livro de vidas de santos que leu Santo Inácio foi uma tradução do Flos Sanctorum ou Vida dos Santos, a que, movido por um tédio absoluto, aos poucos Inácio foi se rendendo a literatura e leitura religiosa e “lendo-os muitas vezes, algum tanto se ia afeiçoando ao que ali encontrava escrito”. Com efeito, consta sua autobiografia, que sua “conversão a Deus” foi um processo lento, de uma luta interna entre a “diversidade dos espíritos que se agitavam: um do demônio e o outro de Deus”. A primeira o fazia pensar sobre as coisas mundanas, nomeadamente os louvores cavaleirescos, enquanto a segunda o inclinava para a vida religiosa e contemplativa.

Este processo de conversão se consolidou de fato, segundo relatou Santo Inácio, quando “estando uma noite desperto, viu claramente uma imagem de Nossa Senhora com o santo Menino Jesus”. Neste encontro, Loyola “ficou com tal asco de toda a vida passada, e especialmente de coisas da carne, que lhe parecia terem desaparecido da alma todas as imagens que antes nela tinha impressas”. Assim, no lugar do costumeiro ímpeto bélico, cresceu em Santo Inácio cada vez mais o desejo de “ir a Jerusalém, descalço e comendo só ervas, e em fazer todos os mais rigores que via que os santos tinham feito”.

Embora tenha rejeitado seu passado, Inácio de Loyola, mesmo depois de sua canonização, nunca se desassociou por completo de seu passado militar e continuou a ser visto como um guerreiro ou militante, mas desta vez em prol da Igreja. De fato, o próprio Vieira o via nesta luz. Tanto que em seu “Sermão Primeiro: Anjo”, da série sobre São Francisco Xavier, Vieira pergunta, “E para acudir a um e outro dano, que há mister a Igreja? Quanto ao da guerra, há mister quem a defenda; e quanto ao da ruína, quem lhe restaure e acrescente em uma parte o que lhe faltou e se lhe diminuiu na outra”. “Para isso”, acrescenta o pregador, “ foi necessário no nosso caso que Deus levantasse não só um, senão dous famosos capitães”. Para António Vieira, esses capitães seriam “Inácio e Xavier”, e detalha, “um com o nome e obrigação de defensor, outro com o nome e obrigação de restaurador: Inácio para defender a Igreja na guerra contra os hereges do Setentrião; e Xavier para lhe restaurar as ruínas nas gentilidades do Oriente”.

Como se verá adiante, a linguagem militarizada nos discursos sacros, como bem demonstra o exemplo acima, não é atributo único dos seguidores de Loyola, desde o medievo que a linguagem militar se encontra em sermões, mesmo naqueles que não são sermões de guerra. Contudo, sem dúvida que o passado militar de Inácio de Loyola ajudou a estruturar o sentido de dever que movia o Padre António Vieira. Igualmente, é importante notar que este fascínio pela Terra Santa, que expressou e caracterizou os primeiros impulsos religiosos de Inácio veio, primordialmente, de duas referências, uma medievo-cruzadística e outra medievo-hagiográfica.

A primeira, como já mencionado, teria sido importada graças a carreira militar de Santo Inácio e sua apropriação conseqüente das leituras dos romances de cavalaria, principalmente dos relatos de cruzados. Já suas referências medievo-hagiográficas teriam sido adquiridas das leituras que fez enquanto repousava no antigo castelo de seu pai. Este segundo genre, o hagiográfico, faz-se constituído por um corpo literário dedicado aos relatos das vidas e lendas dos santos cristãos. As origens deste tipo de texto remontam aos primórdios do Cristianismo, conhecendo seu extenso ápice de divulgação durante todo o medievo, embora, é claro, sua circulação também tenha se estendido para a modernidade. Assim, segundo consta uma nota de rodapé em sua autobiografia, Inácio, durante seu período de convalescença, teria tido acesso aos, e lido os seguintes textos:

“Vida  de  Cristo  escrita  pelo  cartuxo  Ludolfo  de Saxónia (morto em 1377), vulgarmente chamado o Cartuseano, e traduzida por Ambrósio Montesino. O livro de vidas de santos que leu Santo Inácio foi uma tradução do Flos Sanctorum ou Vida dos Santos, a Legenda Áurea ou a Historia Lombarda. Por todos estes títulos é conhecida na história literária o livro escrito no século XIII pelo célebre dominicano Jacobo de Voragine (Varazze), e que tantas edições alcançou. Morreu em 1298, em Génova, onde foi arcebispo. Santo Inácio utilizou uma tradução castelhana, com   prólogo   de   Fr.   Gaubero   M. Vagad”.

Novamente, faz-se importante a fixação de que os santos que inspiraram Inácio de Loyola, através de leituras hagiográficas, eram santos que viveram durante a Idade Média, e que como tais, representariam valores teológicos do medievo. Portanto, embora infuso pelo movimento humanístico que borbulhava na Europa universitária da Idade Moderna, é inegável o papel preponderante do ideário medieval do homem que fundaria a Companhia dos Jesuítas. Esta herança medieval torna-se ainda mais visível nos relatos da vida universitária ditadas por Inácio, uma vez que durante seus anos de estudo, o autor relata ter tido contato com grandes filósofos medievais como Santo Alberto Magno e Pedro Lombardo.

Porém, antes mesmo de ter iniciado seu percurso acadêmico, Inácio de Loyola atingiu seu grande objetivo religioso e peregrinou à Terra Santa, conhecendo marcos importante da topografia cristã. Intencionado a permanecer em Jerusalém, Santo Inácio viu seus objetivos cruzadísticos frustrados, uma vez que lhe foi negado esta permissão. Um dos principais motivos que dificultou sua permanência em Jerusalém foi os avanços das forças do Império Otomano liderado pelo Magnífico Suleimão (1494-1566) sobre as possessões cristãs do Leste europeu. Conquistas estas que em 1521 culminariam na captura de Belgrado pelos turcos.

O avanço das potências islâmicas sobre os cristãos gerou um estado calamitoso em Jerusalém e suas redondezas. De modo que a falta de segurança nesta cidade fez com que o provincial do local informasse ao recém convertido Inácio “com boas palavras, como tinha sabido da sua boa intenção de ficar naqueles lugares santos”. Porém naquela conjuntura e “pela experiência que tinha de outros”, o superior “pensava que não convinha” a permanência de Inácio na Terra Santa, até “porque muitos tinham tido aquele desejo, e uns tinham sido presos e outros tinham morrido” o que era demasiado inconveniente para a administração da cidade já que “depois a religião ficava obrigada a resgatar os presos”. Não restou a Santo Inácio alternativa senão regressar, já que a insistência em permanecer poderia lhe resultar em excomunhão. Retornado à Europa, e lhe negado sua primeira inclinação religiosa de residir no Oriente Médio, Inácio de Loyola se conformou e “entendeu que era vontade de Deus que não estivesse em Jerusalém”.

Fazendo-se valer de uma segunda opção, ou de um ideal alternativo o peregrino resolve-se por ajudar as almas”, e para tal objetivo decide-se por aprofundar os estudos. Tanto mais que, com seu fervor religioso apoiado em seus conhecimentos acadêmicos e direcionado por suas experiências espirituais enquanto peregrino e mendicante, Inácio de Loyola desenvolveu aquilo que seria por muitos considerado seu grande legado, os Exercícios Espirituais. Embora os primeiros esboços desta obra tenham sido escritos por volta de 1522, enquanto Inácio esteve em retiro em Manresa, antes mesmo de ter embarcado em peregrinação para Terra Santa, os Exercícios Espirituais foram imprescindíveis para ajudar Loyola em seu segundo objetivo religioso, ou seja, na salvação das almas.

Com efeito, os Exercícios Espirituais refletem tanto o retiro espiritual pelo qual o recém desarmado cavaleiro passava em Manresa, quanto servirá, mais tarde, de inspiração pedagógica para os inúmeros colégios jesuítas. A obra ditava uma metodologia, uma espécie de guia para um frutífero exame de consciência, como retrata seu primeiro capítulo:

Por este nome, exercícios espirituais, entende-se todo o modo de examinar a consciência, de meditar, de contemplar, de orar vocal e mentalmente, e de outras operações espirituais, conforme adiante se dirá. Porque, assim como passear e dispor a alma, para tirar de si todas as afeições desordenadas e, depois de tiradas, buscar e achar a vontade divina na disposição da sua vida para a salvação da alma se chamam exercícios espirituais.

Este manual auxiliaria na ampliação do renome de Inácio, já que em alguns círculos tornar-se-ia bastante recorrido como prática espiritual e a partir do qual houve uma adesão significativa à metodologia inaciana. Ficando particularmente conhecido, os Exercícios Espirituais e o estilo de vida proposto por Loyola consolidou-se paulatinamente. Como resultado, Inácio, em conjunto com alguns dos seus mais fiéis seguidores, fizeram em Montremartre no ano de 1534, um voto no qual prometiam dedicarem suas vidas ao missionarismo e obediência papal. Como era de se esperar, a partir deste voto de obediência, Inácio, e seu cada vez mais crescente número de adeptos, conquistaram um poderoso aliado ao ganhar o favor do Papa Paulo III, pontífice que reconheceria a Companhia de Jesus por bula papal, oficialmente em 1540.

Ironicamente, junto com o renome, os inacianos conheceram também a má reputação. A infâmia da Companhia daria origem a um duradouro mito difamador. Este mito acompanhou a ordem inaciana desde seus primórdios, já que “a história do antijesuitismo encontra as suas primeiras germinações no momento embrionário, nos primeiros passos que conduziram à criação de uma das mais influentes instituições católicas”. Assim, ao conquistar poderosos aliados, a ordem inaciana conheceu, igualmente, implacáveis inimigos.

Em Portugal, por exemplo, os jesuítas tiveram seu mais ilustre aliado na figura central do regime monárquico, o rei D. João III. Isto porque logo, desde sua implantação no reino, a Companhia de Jesus recebeu o patronato do Piedoso que, na condição de chefe de um reino altamente católico, se provou um forte protetor da nova ordem. Todavia, como inimigo, apenas algumas décadas mais tarde a política portuguesa, liderada pelo Marquês de Pombal, serviria como palanque para o crescente antijesuítismo que se espalhava. Mas por ora, em 1540, os ventos ainda estavam favoráveis para uma calorosa recepção da ordem inaciana em terras lusitanas.

Por volta desta data, Portugal encontrava-se no auge de suas expansões ultramarinas e bem aparelhada materialmente para colocar em andamento seu plano político-religioso de expansão territorial do império aliada à cristianização católica do “Novo Mundo”. No entanto, no âmbito de realização deste desígnio, seria preciso mais do que um aparelhamento material, já que se tornava imprescindível um hábil corpo de catequizadores dispostos a enfrentar as dificuldades inerentes à um missionarismo nas diversas colônias do Ultramar.


Ciente desta demanda, o embaixador de Portugal em Roma, D. Pedro Mascarenhas, por indicação de Diogo de Gouveia, o Velho, fez saber, junto ao rei, sobre a Companhia de Jesus, sugerindo-lhe que seus membros pudessem ser uma excelente opção para ajudar no processo de conversão dos infiéis e gentis que habitavam as diversas colônias portuguesas. Acatando esta sugestão, D. João III requisitou a presença e o trabalho desses missionários no reino ao líder inaciano. De Roma, Inácio de Loyola atendeu aos pedidos de D. João III, enviando dois de seus religiosos à Lisboa em 1540. Santo Inácio, porém, permaneceu em Roma a serviço da Companhia de Jesus, onde morreria aos 65 anos de idade em 1556, tendo acompanhado a rápida proliferação de sua ordem.


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Fonte:
Raquel Drumond Guimarães: “Vestígios do medievo nos Sermões do Padre António Vieira”. (Tese apresentada, como requisito parcial para obtenção do título de Doutor, ao Programa de PósGraduação em História, da Universidade Federal de Santa Catarina. Linha de pesquisa: Relações de poder e subjetividades. Orientador: Prof. Dr. Valmir Francisco Muraro). Florianópolis, 2012.

Nota:
A imagem inicial inserida no texto não se inclui na referida tese.
As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.
O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho.
Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade.

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