01/01/16

Sermão dos Bons Anos, Padre Antônio Vieira


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A posição de Vieira na Companhia de Jesus

Não se trata neste trabalho de recuperar biograficamente Vieira, mas de identificar alguns traços curiosos de sua vida, como por exemplo, o fato de não restar dúvida que foi um filho dileto da Ordem Inaciana, tanto quanto Francisco Xavier, embora tivessem atuado em direções opostas (o primeiro no Ocidente e o segundo no Oriente), com algumas diferenças que não cabe aqui considerá-las, o que não é de se estranhar, visto que Antônio Vieira sobressaiu-se um tanto rápido no interior da mesma, notadamente por suas qualidades intelectuais.

Essa particularidade deve ser avaliada através de um conjunto: a perspicácia dos padres em captar sua inteligência; a formação com base nos clássicos, como Virgílio, Ovídio e Sêneca e comentários da Bíblia e do Cântico dos Cânticos; sua versatilidade em conviver nos ambientes mais diferenciados; sua tendência para a pregação; sua fé e o fato de ser educado na fase áurea da Companhia de Jesus, ou seja, quando esta já se encontrava estruturada e consolidada, entre outras.

Serafim Leite, não deixa transparecer sua origem mestiça, herdada pelo lado da avó materna, o que é observado por João Lúcio de Azevedo, o qual acreditava ser sua bisavó africana e levada como escrava para Portugal, uma vez que nessa época a população de origem afro já era abundante no Reino, além do seu retrato evidenciar indícios de traços mestiços.

 O pai, Cristóvão Vieira Ravasco, embora de família de poucas posses, recebera certa educação formal, comprovado pelo ofício que exerceu ainda no reino ao servir no exército e se tornar escrivão das devassas dos pecados públicos de Lisboa e na Bahia, ao exercer o cargo na Relação, teria retornado ao reino após seis anos, enquanto que a mãe vivera recolhida e dedicada ao filho.

Ao vir para o Brasil com os pais com apenas seis anos de idade, é bem possível que tenha experimentado as emoções das histórias contadas durante o trajeto das várias e monótonas semanas em alto mar, histórias essas que retratavam ataques de corsários, tempestades e outras aventuras, que possivelmente poderiam ter ficado registradas em sua memória e ter influenciado Vieira na idade adulta.

A Bahia daquele tempo era tida como a corte do Brasil, abrigava duas vezes mais índios do que negros e portugueses; contava com mais ou menos quarenta engenhos de açúcar e o colégio, pode-se dizer, onde se centrava a intelectualidade da colônia, quando este á havia adotado o método do Ratio Studiorum (estudo de Gramática: latim e exercício de memória; Humanidades e Retórica: destreza da formulação mental e formação oral dos pensamentos, inspirados em Cícero e Virgílio e antologia de outros autores latinos; dialética: de acordo com a lógica da Escolástica Medieval, de Santo Anselmo e Guilherme Ockan) e considerada a única via possível para se escolarizar.

Percebe-se que a mãe o teria educado e o influenciado um tanto em questão de fé, por se tornar devoto de Nossa Senhora das Maravilhas, cujo altar adornava o interior da sé da Bahia, a qual teria operado o milagre do aprendizado hábil nos estudos, o que teria acontecido após uma dor de cabeça terrível e o transformado num aluno diferenciado na argüição, se bem que a mãe almejasse outro destino para o filho.

A argúcia dos padres diante de uma possível represália dos pais o levou, ainda noviço, para a aldeia do Espírito Santo, próximo de Salvador, num povoado de indígenas que recebiam doutrinação e onde conheceria de perto a obra prática dos jesuítas junto aos nativos, o que deve ter-lhe causado fortes impressões e o teria influenciado em abraçar o trabalho de missionário, o que pode ser comprovado pelo vivo interesse no aprendizado da língua indígena, com intenções ser usado na evangelização.

Nessa época, vários prodígios relacionados a Vieira, são relatados por vários biógrafos, entre eles, João Lúcio de Azevedo, fruto da própria Companhia de Jesus, o que sugere que os padres deveriam ter-lhe preparado uma carreira ao notarem seu talento para a evangelização, uma vez que o reitor Fernão Cardim fora à casa dos pais de Vieira justificar sua fuga para o Colégio, num tempo e lugar, onde certas virtudes prezadas pelos padres, eram um tanto raras, dada a soltura dos costumes tão comum no ultramar daqueles tempos e que contrastava com o sentimento religioso, tão presente nas pregações dos membros da Companhia de Jesus.

Por essa tempo já circulavam histórias na boca do povo sobre a estada de São Tomé na região e suas façanhas para converter selvagens; cerimoniais religiosos com nuances pagãs, fruto do teatro do culto católico representados em cortejos, dos quais participavam os estudantes do Colégio da Bahia, os quais figuravam como atores e que atraía o povo e o motivava à penitência e á devoção; o contato com as relíquias sacras das mais variadas, a exemplo do corpo de Anchieta, sempre venerado e exaltado por seus feitos nos momentos mais propícios.

Estudar num colégio religioso jesuíta, significava ainda participar diariamente da missa, da confissão e comunhão amiudamente; praticar ao menos por três dias os Exercícios Espirituais e imaginar o terror do Inferno; ganhar contas bentas, relicários e imagens santas; ouvir sermões, nos quais eram retratados a missão da Ordem, eleita por Deus. O contato com a biblioteca não poderia impressionar menos: as crônicas contavam os feitos heróicos dos primeiros jesuítas, com destaque para o primeiro apóstolo do Brasil.

A arte arquitetônica que retrata a Bahia dos seiscentos, coloca em evidência poucos prédios de vulto e entre eles, o Colégio jesuíta destacava-se pela arquitetura expressiva, pode-se dizer arrojada para o local e a época.

Era na Instituição jesuíta onde se hospedavam autoridades que se dirigiam à Bahia até resolverem problemas de moradia fixa e daqueles que encontravam-se em trânsito para a Índia ou desta para Lisboa.

O tempo equivalente de dois anos para o noviciado era preenchido com uma série de atividades, a fim de discipliná-los rigidamente (embora sem castigos corporais, o que não era comum), era dividido entre a pregação, a catequese e a escola (os pilares da missão do jesuíta), de forma a não tempo para as lembranças familiares e de amigos. Abolia-se portanto, todas as relações com o mundo exterior.

Segundo ainda João Lúcio de Azevedo, os alunos dedicavam-se a cumprir regras escritas, a exemplo dos exercícios de memória, com textos decorados do Antigo e Novo Testamento (...) repetição de tons, para as inflexões do púlpito, orientação sobre o porte e adamares, sobre o andar, o riso, a voz, a posição das mãos, a direção do olhar, o modo de compor o vestido, enquanto que as conversações ocorridas durante os intervalos eram entremeadas por reflexões entre as história de vida e morte do Salvador, a morte individual, o céu, o inferno, os vícios, as virtudes, os mártires católicos, as heresias, pedagogia justificada para o aprendizado necessário para manter o espírito ligado às coisas da fé e servir para a edificação e onde a obediência deve ser cega e assimilada através da leitura da obra de Afonso Rodrigues, O Exercício da Perfeição, a exemplo de Loyola, embora o mesmo afirme que nessa segunda fase da Companhia de Jesus, as regras já não fossem tão rígidas, como no reinado de D. João III.

Foi apenas com dezesseis anos que Antônio Vieira presenciara a primeira invasão holandesa e o comportamento do clero, do povo e das tropas, claramente relatados na Carta Ânua, na qual justifica inclusive o atraso ocasionado pela dificuldades de transporte e pelas circunstâncias, isto é,

..de sobressaltos que impediram o notar e não deram lugar a escrever. Na Bahia, alguns dias antes da chegada dos inimigos, estando no coro dois dos nossos padres, viu um deles a Cristo senhor Nosso, com uma espada desembainhada contra a cidade da Baía, como quem a ameaçava. Ao outro dia apareceu o mesmo Senhor com três lanças, com que parecia atirava para o corpo da igreja. (...) os que isto viram que prognosticava algum castigo grande.

Em seguida, narra os horrores e a insistência do ataque holandês e a fuga em massa, inclusive os padres do Colégio a carregar objetos de valor, como a prata e os ornamentos, dirigiram-se à Quinta do Tanque50, enquanto que no dia seguinte, os inimigos tomaram as casas reais, onde o governador, desamparado de todos e acompanhado só de um filho e três ou quatro homens, foram presos e despojados, além de saquearem varias residências,

arremetem com furor diabólico às sagradas imagens dos santos e do mesmo Deus (...). A esta tiram a cabeça, àquela cortam os pés e mãos, umas enchem de cutiladas, a outra lançam no fogo. Desarvoram e quebram as cruzes, profanam altares, vestiduras e vasos sagrados; usando dos cálices, onde ontem se consagrou o sangue de Cristo, para em suas desconcertadas mesas servirem a Baco, e dos templos e mosteiros dedicados ao serviço e culto divino, para suas abominações e heresias.

Vieira refere-se ainda às dificuldades de acomodação, à parca mesa, à situação um tanto precária em que se encontravam os enfermos e feridos e à caridade prestada pelos jesuítas aos mais necessitados.

Em 1627, embora atrasado nos estudos, foi enviado ao colégio de Olinda, para aprender retórica, com o diferencial de dominar o latim e o português de forma invejável e pouco ou nada se sabe sobre suas atividades entre o tempo que passou em Olinda até se tornar sacerdote, visto que reaparece em cena em 1633, a pregar domesticamente antes de se ordenar e, em cujo discurso esclarece as funções da oratória:...persuadir e mover o ouvinte, no Sermão do Nascimento do Menino Deus.

Essa postura nos leva a crer que Vieira de fato persuadiu e moveu seus superiores, pois nesse mesmo ano pregou publicamente numa Quarta Feira da Quaresma, na Igreja a Conceição da Praia, ocasião em que a Bahia encontrava-se em guerra contra os holandeses e na presença do general de armas portuguesas, não poupou elogios ao exército baiano, comandado por um conterrâneo.

Ao que se sabe, esporadicamente, foi aparecendo em púlpito nas mais diversas igrejas baianas, incluindo a Catedral, cujos discursos apresentavam conteúdos diferenciados, como por exemplo, os morais, teológicos, evangélicos, sociais, filosóficos, patrióticos e até políticos, o que evidencia seu domínio na arte da oratória e o conhecimento da causa da Companhia de Jesus; do que representava o nordeste da Colônia do Brasil, para a economia portuguesa, agora dominado pelos holandeses e o domínio em relação aos demais assuntos coloniais.

Antônio Vieira entrara para a Ordem durante o governo de Múcio Vitelleschi (1615- 1645), momento um tanto delicado, dadas as difamações publicadas na Monita Secreta, o que teria levado Vicente Carafa (1645-1649), se esforçara para recuperar a imagem da Instituição, como por exemplo, incentivar o estudo das letras e proibir seus membros de possuírem bens seculares, o que foi reforçado entre 1652-1664, com Gosvino Nickel, para amenizar os ataques, além de evitar o nacionalismo exacerbado no interior da Ordem, com intenções de inibir essas dissenções internas ( postura que demonstra rivalidades internas, uma vez que a Ordem abrigava candidatos das mais diversas nacionalidades européias e, muitas vezes, serviam os interesses de seus soberanos ), além de impor a prestação de contas aos provinciais assim que deixassem o cargo.

Esse superior da Ordem enfrentou ainda as crises em torno dos debates contra o jansenismo, as quais teria influenciado ordens religiosas como a do Oratório, Dominicana e Carmelita, justamente contrários e críticos dos jesuítas e o galicanismo, o que acabou atraindo um sem número de inimigos, cuja maioria encontrava-se em Portugal.

Durante o generalato de João Paulo Oliva (1664-1682), ajustou as regras em relação à moral, uma forma de impor respeito interno e amenizar as críticas externas quanto ao envolvimento de seus membros com o temporal, se afastando dos princípios pregados pelo seu fundador, numa época em que a Companhia encontrava-se estável economicamente.

Para entender Vieira, torna-se necessário olhar o tempo de Vieira, com os olhos do mesmo e ao praticar essa tática, o que chama um tanto a atenção do estudioso é a contestação ao pai, ainda na adolescência, ao participar-lhe o desejo de professar, justamente numa época em que a paternidade era incontestada. Sua decisão definitiva teria acontecido dois meses mais tarde, ao fugir de casa e ir para o Colégio, atitude não aprovada pelos seus progenitores, mas comum nas instituições jesuítas, por ser um local em que os superiores agiam de forma a captar talentos, fortuna ou posição social, qualidades vistas como valiosas para a Ordem, através de discursos vários, a partir do incentivo do amor à roupeta (...) aos afagos e uma série de outros incentivos, os quais acabavam por sensibilizar os mais jovens e inexperientes.

Ainda muito jovem recebera a missão de escrever as Cartas Ânuas, exercício um tanto delicado, uma vez que era necessário dominar o latim de forma elegante, para relatar minuciosamente a situação de todos os núcleos jesuítas na Colônia ao Geral de Roma e Vieira o fez da melhor forma possível.

O fato de ir para Lisboa no momento cruciante que o Reino atravessava com as guerras pela Restauração; conseguir se posicionar em favor de D. João IV, exercer forte influência junto à Corte e obter regalias até então nunca delegadas a quem que seja, são provas de seu talento, perspicácia e desenvoltura, atitudes que justificariam a conquista rápida do casal reinante, seja pelo caráter temperamental do rei; conhecimento da causa restauracionista, da evangelização ou de assuntos que envolviam a delicada situação colonial. Todos eles facilitaram a carreira de pregador, de político e de diplomata durante a maior parte do reinado de D. João IV.

Sua aproximação à Corte permitiu-lhe ainda tornar-se mestre de D. Teodósio, envolver-se em políticas casamenteiras (a favor do Príncipe) e diplomáticas um tanto desastrosas ao negociar a independência do reino, inclusive os diversos contatos com comunidades judaicas em vários países, onde teve oportunidade de conhecer sua política, sua economia, sua sociedade, sua cultura e sua visão de mundo (embora raras foram as ocasiões em que expôs essas experiências em seus sermões, cartas ou nas demais obras), revelam tato e habilidade amalhados durante o aprendizado de jesuíta e as normas de Inácio de Loyola.

Esse sucesso teria facilitado inclusive para que seus familiares fossem premiados com várias mercês de D. João IV, igualmente convencido a proibir o seqüestro dos bens dos judeus e não poupar esforços para que se criasse uma Companhia de Comércio para o Brasil, em 1648, com capital judaico, a fim de recuperar as finanças do Reino e Ultramar e que levantaria suspeitas de heresia na Ordem, pelo Tribunal do Santo Ofício, embora o ponto culminante que marcou sua desaprovação na Instituição, teria sido pelo fato de opinar na na polêmica divisão da Província Portuguesa da Companhia de Jesus e incitar a independência do Alentejo, Ilhas e Angola, ocasião em que o geral o teria despedido. E, mais uma vez D. João IV livrara-lhe da dispensa em Carta ao provincial Antônio Mascarenhas, datada de 1644:

(...) O padre Antônio Vieira fez um papel em que representava alguns meios em ordem à conservação deste reino; e ainda que foi conveniente recolher-se por ser publicado (posto que sem culpa sua) contra o que pedia a importância da matéria e o segredo dela. Eu me não houve por desservido do seu zelo; e assim quero que o tenhais entendido, e que me havereis por bem servido de que por esta causa não padeça vexação, e vô-lo encomendo assim o mais apertadamente que posso; e encarregarei-lhe fizesse uma política para o príncipe: ordenareis que lhe dê toda a comodidade necessária para essa obra.

Outra semente de certa discórdia foi o seu envolvimento na disputa jurídica do Engenho de Sergipe do Conde, contenda entre o Colégio de Santo Antão de Lisboa e o Colégio da Bahia, herdado com a morte de Mem de Sá, pelo Colégio e Misericórdia e pobres, no caso da morte de seus filhos. Consta que a filha falecida por último, deixara seus bens, incluindo o referido engenho ao Colégio de Lisboa. E, Vieira, como não podia deixar 67 de ser, defendia a causa de sua Província, isto é, da Bahia e que a Ordem não teria poupado esforços no sentido de tornar legítima sua posse.

A imprensa divulgou a proposta direcionada aos cristõas-novos e, imediatamente, a edição teria sido apreendida, fato visto com complacência pelo soberano da época, D. João IV, o qual justificou ao Santo Tribunal, lembrando que o próprio Rei nomeava vários de seus membros.

Em meio a auditórios dos mais requintados, o púlpito das igrejas e catedrais mais famosas do reino foram palco para seus discursos, cujos temas, os mais heterogêneos e questionadores, eram argüidos com elegância, além de demonstrar que possuía conhecimento profundo das Escrituras, o que fica evidenciado no conteúdo dos sermões proferidos, principalmente nos do tempo de sua estada em Lisboa e acarretaram-lhe fama desmedida de um lado, e conflitos com a própria Ordem e com o Tribunal do Santo Ofício, por outro, por exemplo ao acalentar profecias bandarristas com desmedida sutileza, o que pode ser observado no Sermão dos Bons Anos; ao criticar o excesso de impostos cobrados ao povo, enquanto o clero e a nobreza também devessem contribuir de forma eqüitativa, no Sermão de Santo Antônio.

Vários panegíricos justificam sua presença e influência junto à Corte, embora os temas apocalípticos, as tendências teológicas e coloquial quanto à interpretação da História, a condenação às festividades pagãs, a evangelização, as homílias e discursos enconomiásticos e restauracionistas onde deixa claro os louvores ao Rei e um exarcebado patriotismo com intenções de infundir a confiança de vencer a guerra contra Castela, mas que seguiam o modismo da época.

Sua carreira de missionário teria se iniciado ainda em Lisboa, claramente ressentido com D. João IV, ao perder o cargo de árbitro nas questões políticas, em virtude do fracasso das viagens diplomáticas, experiência nova para o reino luso e quando esse mais necessitava do sucesso das mesmas, dado o momento da Restauração, a qual se arrastara até 1668.

Durante a maior parte da década de 1600, Vieira proferiu cinco sermões, dos seis escritos, em meio a uma situação deveras delicada com a subida de Afonso VI ao trono; seu desterro para o Porto o banimento para Coimbra, onde foi ouvido por várias vezes a mesa do Santo Ofício, com uma saúde precária, ocasião em que perdera o direito à liberdade e à voz.

A temática evangélica e política que mais caracterizaram suas falas, encontram-se no Sermão da Epifania, em que deixou transparecer abatimento e indignação com os problemas do Maranhão. Procurou tocar a Rainha quanto à necessidade de dar seqüência à evangelização, caso contrário faltaria religião naquelas paragens, no Sermão do santíssimo Sacramento.

Próximo a esse, numa Sexta Feira da Quaresma, Vieira redirecionou seu discurso, desta vez político, contra a nobreza ambiciosa e, de certa forma, imprevisível nas decisões e, por isso mesmo incapaz de destruir reinos, crítica que poderia ser interpretada pela situação interna delicada do Reino; a guerra contra Castela e sua luta pela recuperação do espaço na Corte.

Através de uma exposição aparentemente filosófica e moral, mas de forte conteúdo econômico, combate o Conselho do Rei, por sua ineficácia; gasto excessivo dos conselheiros, pagos pelo Estado, com a ressalva de que razões de Estado e razões de Deus, não se separam.

Na Universidade de Coimbra, época que coincide com seu desterro, discorreu sobre as várias heresias, insinuando uma forte crítica ao grupo conimbriscense, por seu vanguardismo, além de contrariar o avanço científico, no sermão de Santa Catarina, comprovando sua forte ligação aos princípios da Nova Escolástica.

Na Capela Real de Lisboa, seus discursos têm a ver muito pouco com os acontecimentos e problemas ligados à colônia do Brasil e, sim mais ligados à política econômica do reino, frente às nações européias, Oriente e África e questões internas.

Ao assumir o trono, D. Pedro, procurou afastar todos os que, direta ou indiretamente se ligavam ao irmão, D. Afonso, como o marquês de Cascais, D. Rodrigo de Meneses, ligado às finanças do Reino e Pedro Vieira da Silva, secretário, inclusive chamar para seu confessor, o padre Manuel Fernandes, em detrimento de Vieira. Poderíamos arriscar a influência de Maria Francisca de Sabóia, cujo confessor era o jesuíta francês Villes, o qual defendia interesses de seu país e ao fato do casal reinante não ser favorável às manipulações públicas do orador em questão.

Os sermões proferidos em Lisboa, em sua maioria panegíricos, Vieira mostra que não se afastara das questões políticas, embora pregações de caráter moral, congratulatória, filosófica e teológicas, estejam presentes sem suas falas, com o diferencial de que a moral estivesse sempre vinculada à política, sendo que os primeiros estivessem ligados à causa da perda de valimento junto a D. Pedro, daí o objetivo de chamar-lhe a atenção ou por não prestigiar o orador, como fizeram seus pais em tempos passados.

O panegírico de Santo Inácio, por exemplo, além de destacar a missão evangélica da Companhia de Jesus, deixa transparecer o misticismo cabalístico e a perseguição à sua pessoa e a outros membros da Ordem e estaria incluindo o tratamento injusto e cruel do tribunal do Santo Ofício de Lisboa, enquanto que no sermão dos Pretendentes ou da Terceira Quarta Feira da Quaresma, não pregado, ligou a moral à política, com uma arte insuperável, assim como a defesa ao absolutismo.

Justificou que sua viagem a Roma objetivava a canonização dos 39 mártires, vítimas de corsários calvinistas, em viagem para o Brasil mas, na realidade o que estava em jogo era obter um breve papal que o isentasse da Inquisição, diante da falta de valimento do monarca, com quem não poderia contar naquele momento.

Recebido com uma certa deferência pelos irmãos da Companhia e pelo Geral, o Padre João Paulo Oliva, um tanto sensível às suas qualidades intelectuais, foi por ele introduzido nos meios sociais e eclesiásticos de Roma, incluindo a Corte de Cristina, da Suécia, um dos centros da intelectualidade de Roma, a cidade mais cosmopolita da época, por abrigar políticos de todos os reinos católicos europeus, interessados em manter um política de boas relações com o Papa.

A sua produção de cartas é um tanto generosa, dada a possibilidade de se manter informado sobre tudo o que acontecia no mundo de então e o acesso à troca de correspondência entre os membros da Ordem, deram-lhe oportunidade de saber com antecedência sobre as várias decisões papais antes que as mesmas fossem divulgadas oficialmente.

Quanto aos sermões proferidos em Roma, à primeira vista, panegíricos e apologéticos, dissimulou várias críticas àqueles que se supõem vencedores e, excluindo o Sermão do Mandato, de 1670 e tratando do primeiro de Santo Antônio, panegírico e apologético, coloca em evidência a qualidade do Santo para socorrer nos casos de perda de objetos, hábito notório no Brasil da época e conservado até a atualidade: o de prendê-lo até alcançar a graça ou do responsório que se reza para tal.

No Sermão de Santo Antônio de 1671, não pronunciado, exaltou a localização de sua terra natal relacionado-a com a missão apostólica e a qualidade de vários portugueses que se exilaram para cumprir deveres para com a pátria, perderam suas vidas, mas seus feitos foram reconhecidos, embora um de seus filhos (ele) também se exilara por vontade própria, por perseguições de seus conterrâneos, quando poderia ser mártir sem sair dela, lembrando que a justiça divina não faltará.

A laicização de Roma é um dos temas preferidos do Sermão de Cinzas, de 1672, ocasião em que insiste na preparação da morte e quando as festas profanas de Roma, são duramente criticadas.

Dos Cinco Sermões da Funda de David, coloca em evidência o julgamento severo em relação á corrupção dos costumes e da acumulação desenfreada de capital, em detrimento da causa religiosa, com o único fim de sustentar a aparência; o perigo do avanço da religião reformada e a dificuldade de converter a própria Roma.

O talento para negociar com Deus é tratado no Sermão de Santa Isabel, diferente daquele para negociar os bens materiais e que, no primeiro caso, falta tato aos cortesãos e aos ministros.

 Em quase todos os sermões proferidos em Roma, deixa transparecer os fortes vínculos que o ligavam à Escolástica mas, em nenhum momento deixou transparecer as suas preocupações e nem fez referências às lutas políticas, trabalhadas por ele de forma um tanto camuflada.

O Apocalipse e o Juízo Final permearam vários dos seus discursos, notadamente no Sermão das Lágrimas de São Pedro e de São Bartolomeu, onde ambos são descritos nos mínimos detalhes e reforça a missão evangélica do povo português ao terminar sua temporada em Roma, com o Sermão de Santo Antônio.

Com uma série de incidentes em Portugal que envolviam sua pessoa, não lhe permitiram sua volta no tempo programado, daí foi desfrutando do que a cidade lhe oferecia: confabulou com cristãos-novos, influenciado pelo padre Baltazar da Costa, provincial de Malabar, e pelas informações do procurador português no Japão, sobre as aversões dos nativos em relação aos batavos, engenhou a criação e uma Companhia privilegiada e atrelada ao capital judaico, para combatê-los.

Era evidente que D. Pedro negasse, uma vez que a transação viera a público e Vieira foi acusado por propagar panfletos que ameaçavam fidalgos e o próprio D. Pedro, motivo mais do suficiente para que o Santo Ofício se manifestasse contra em troca de ajuda financeira ao Reino, enquanto o povo protestava,os bispos o pressionavam e o grupo afonsista se alvoroçava. E, Vieira foi acusado de encabeçar os planos.

Foram proclamados vários autos-de-fé (cerimônia em que se proclamavam e executavam as sentenças da Inquisição, onde os penitenciados abjuravam ou eram condenados ao suplício da fogueira), em Évora e Lisboa, incluindo freiras professas de Santa Clara, e outras da Congregação de Santa iria, foram penitenciadas, por suspeita de heresia.

De volta a Lisboa por ordem de D. Pedro, insuflado pelo povo e pelos seus inimigos que o viam como uma ameaça em Roma, Vieira ingenuamente ligou essa decisão ao fato de estar pregando a uma estrangeira, a Rainha Cristina da Suécia; também não aceitou pregar a convite do arcebispo de Lisboa, alegando a idade avançada e a falta de dentes, decisão difícil de ser interpretada, se atentarmos para o fato de ter pregado várias vezes na Bahia, posteriormente, inclusive na Catedral; se foram problemas relacionados à sua saúde; não estar preparado para se expor publicamente ou por excesso de orgulho ferido ou ainda pela vaidade.

Somente em 1675 é que recebeu o Breve do papa que o livrava da jurisdição do Tribunal do Santo Ofício português e vinculava-o apenas à Congregação do mesmo tribunal em Roma.

Entre as considerações desse capítulo podemos observar que o fato de ser oriundo de uma família até distante da pequena nobreza, recebeu formação religiosa num colégio da colônia, possivelmente com o diferencial do método de ensino ser baseado no Ratio Studiorum56; se identificou com os ideais da Companhia de Jesus e com membros que fizeram grande história, a exemplo de Inácio Xavier. O posto mais alto que ocupou foi de Visitador Geral na Colônia do Brasil, em detrimento de muitos de seus pares que cursaram brilhantemente universidades européias e de outros tantos que aprenderam apenas ofícios mais humildes.

Os primeiros, além de ocuparem postos de comando, foram responsáveis por emitir uma série de decretos e medidas, a fim de aperfeiçoar a Instituição, de torná-la mais eficaz, desde obedecer as regras elaboradas por seu fundador, até gerar recursos das origens mais diversas e consideradas ou identificadas como suspeitas, para administrar com eficiência os bens divinos.

Usou de todos os recursos do poder da oratória, do conhecimento de assuntos coloniais, de forma a se sintonizar com a política-econômica direcionada pela metrópole ao próprio reino e ultramar.

O desempenho de tantos papéis, a começar pela influência junto a D. João IV, de Bragança antes de fazer os votos definitivos, revelam qualidades aprimoradas pela formação e com as quais lidava com uma certa naturalidade e como quem se sente com uma certa liberdade de ações, numa época em que o púlpito era um veículo considerado infalível e talvez o único meio para a divulgação da ideologia do poder laico e do poder religioso e onde a moral cumpriria sua presença.

E, curiosamente, ao fazer uso dos recursos dessa dialética, discriminou segmentos diversos da sociedade, como freiras, nobres burgueses, cristãos novos refratários, estrangeiros, protestantes, negros, mulheres, entre outros, assunto a ser tratado no capítulo seguinte.


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Fonte:
Maria José Bueno Casseb Vieira
: “E os excluídos do Reino de Deus: Protestantes, Negros e Mulheres”. (Tese apresentada ao programa de Pós-Graduação em Sociologia da Faculdade de ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista-Unesp, Campus de Araraquara, para obtenção do título de Doutora em Sociologia. Orientadora: Profª. Drª Sílvia Maria S. Carvalho).  Araraquara, 2006.


Nota:
A imagem inicial inserida no texto não se inclui na referida tese.
As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.
O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho.
Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade.

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