02/01/16

Sermão do Quarto Sábado da Quaresma, de Padre Antônio Vieira


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As idéias de Vieira e suas ligações com a filosofia

Este ilustre jesuíta, que nasceu em 1608 e faleceu em 1697, é uma das maiores figuras do pensamento português do s. XVII. Sua obra revela um autor ao mesmo tempo moralista, político e filósofo da história, que ex-pressa suas idéias através de uma elegante retórica. Embora Vieira seja mais português do que brasileiro, ele constitui uma das mais vívidas ex-pressões da nova cultura que se formava a partir do contato do português colonizador com a realidade dos trópicos. Embora alguns estudiosos se recusem a incluir seu nome no estudo da evolução da literatura brasileira, como Sílvio Romero, José Veríssimo e Ronald de Carvalho, outros acham mais adequado assimilá-lo, como Artur Mota. Eugênio Gomes também se posiciona decididamente a favor da inclusão de Vieira na história da civilização brasileira.

É verdade que, de uma vida de 89 anos, Vieira passou 40 deles, correspondentes à sua fase mais adulta e ativa, na Europa, quando atingiu sua maior glória como orador sacro. Mas foi sua volta definitiva ao Brasil, com 73 anos de idade, que o transformou realmente em um escritor, pois então se dedicou à redação de pelo menos onze tomos dos quinze que constituem os Sermões. Além disso, como argumenta com propriedade Massaud Moisés, há certamente temas brasileiros neste autor, como a questão dos negros, dos índios e da guerra contra os holandeses invasores. Pensamos que o tema mais universal da oratória também é profundamente brasileiro, dadas as características específicas da cultura resultante do processo de colonização do país, em que a retórica sempre desempenhou um papel fundamental. Mas um ponto importante a ser destacado aqui é que, na abordagem de todos estes temas, Vieira se revela ambíguo e, algumas vezes, contraditório.

No que diz respeito ao negro, ele tenta a difícil tarefa de conciliar o apelo à escravidão como aspecto inevitável da colonização do país com a exigência cristã de que devemos tratar os nossos semelhantes de maneira respeitosa e igualitária. Por um lado, ele defende a igualdade de todos os homens, independentemente da nação e da cor. O que caracteriza o ser humano é a fé e o conhecimento de Cristo. Isto coloca os negros africanos em pé de igualdade com os brancos europeus e com os índios. Por outro lado, Vieira pensa que o negro convertido vive numa condição superior à do negro pagão. Isto lhe permite argumentar que os negros africanos, embora retirados à força de sua pátria e de seus familiares, deveriam agradecer a Deus pela oportunidade de conhecer a fé cristã e salvar suas almas pagãs.

Em outras palavras, o avanço do cristianismo justifica o apelo à escravidão. Ao resolverem uma questão prática, ligada às necessidades da lavoura colonial, os portugueses estão colaborando na propagação da fé. Isto fornece uma justificativa para capturar os negros na África, tornando-os escravos nas plantações brasileiras. Mas Vieira critica os colonos pelas crueldades praticadas contra os negros. O que parece amenizar um pouco esta situação insustentável está no fato de que, para Vieira, o senhor só domina o corpo do escravo, não a sua alma. A escravidão é apenas meia escravidão, não é total. Deste modo, Vieira aconselha os escravos a obedecerem ao senhor como quem obedece a Deus, pois assim encontrarão a liberdade no interior do próprio cativeiro, recebendo, ao final, um pagamento divino por seu trabalho.

Em resumo, a escravidão, para Vieira, embora envolva certa forma de supressão da liberdade de seres humanos, é justa quando não há maus tratos e injusta, no caso contrário. Esta doutrina envolve uma contradição difícil de superar. Na opinião de Massaud Moisés, o temperamento barroco de Vieira enfrentaria este fato oscilando entre a revolta contra as crueldades da escravidão e a calmaria diante da constatação do avanço do cristianismo. Ao final, Vieira acabaria por acomodar-se numa espécie de meio-termo, em que a razão domina a emoção. Para justificar esta interpretação, Massaud Moisés cita uma passagem de Vieira, na qual ele reconhece ser difícil conceber um Deus capaz de predestinar os escravos não a um, mas a dois infernos, um aqui e outro no além. Parece-nos, contudo, que outra interpretação poderia ser dada para esta circunstância. Em diversos aspectos de sua vida, Vieira convive com a contradição porque isto, como veremos adiante, constitui uma característica cultural do homem ibérico nos trópicos, permitindo-lhe experimentar momentos de recolhimento em que o mundo e seus problemas podem ser vistos à luz dum pessimismo existencial. Viver em contradição reforça o desprezo pelo mundo e pelas glórias da vida, levando ao desapego às coisas materiais.

No que diz respeito ao índio, Vieira o vê primordialmente como o primitivo a ser catequizado e arrebanhado para o seio da família cristã. A catequese do índio constitui o objetivo de sua vida desde os dezessete anos de idade. Ao assumir esta atitude, o jesuíta parece assumir dois pesos e duas medidas para resolver algumas das questões mais candentes da sociedade colonial: para os negros africanos, o mais adequado é a escravidão; para os indígenas, o mais adequado é a conversão. Com isso, Vieira simplesmente ignora sua defesa da igualdade dos seres humanos, independentemente de raça ou origem. Sua proposta é em tudo pragmática, se levarmos em consideração o fato de que na época os negros já conheciam e praticavam a escravidão na própria África, enquanto os indígenas se revelaram completamente avessos a tal tipo de atividade. Era o melhor que se poderia fazer para levar adiante a colonização do país.

Quanto às invasões holandesas, Vieira hesita entre duas soluções: ou comprar Pernambuco ou deixá-lo definitivamente aos flamengos. Isto pode ser depreendido de seus dois pareceres opostos sobre a questão, dos quais um foi elaborado em 1647 e o outro, em 1648. Deste ponto de vista, a compreensão do Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda, de 1640, exige alguma contextualização. Nesta prédica, Vieira não está preocupado em retomar Pernambuco definitivamente dos holandeses, como o título parece sugerir. Na época do sermão, os flamengos ameaçavam invadir a Bahia e Vieira estava interessado em resolver um problema específico numa conjuntura específica: levantar o moral dos colonos contra o perigo do ataque iminente. Os invasores foram, inclusive, contidos naquela ocasião, em parte graças ao efeito produzido pelas palavras de Vieira. Assim entendido, o sermão de 1640 não desmente a sua hesitação quanto a que fazer com respeito aos holandeses.

Segundo Hernâni Cidade, esta hesitação revela a predominância do espírito político sobre o religioso e da razão sobre a imaginação em Vieira. Segundo Massaud Moisés, porém, o espírito religioso predomina sobre o político: o que interessa ao jesuíta, no balanço final, é confirmar o texto sagrado da Bíblia. Neste caso, a circunstância histórica se torna um mero exemplo da sabedoria eterna das escrituras. Em nossa opinião, as duas análises são corretas e, assumidas em conjunto, revelam que o conflito entre o político e o religioso se acha interiorizado na própria personalidade de Vieira. Todavia, como veremos adiante, ele administra este conflito à maneira do homem ibero-tropical, acabando por dar maior peso à dimensão religiosa. Assim, embora ele resolva as questões mundanas com espírito político, as soluções neste domínio quase sempre se mostram insatisfatórias. E isto o leva a confirmar a superioridade da solução religiosa, que envolve o abandono das vaidades ligadas às coisas materiais. As soluções políticas são mundanas, passageiras e sem importância, quando comparadas com a vida autêntica em Cristo.

Quanto à oratória, as idéias de Vieira se encontram expressas no conhecido Sermão da Sexagésima, proferido na Capela Real, em Lisboa, em 1655. De um modo geral, os temas que orientam os sermões de Vieira incluem a vida de Jesus Salvador, o céu, o inferno, a morte, o tempo, os vícios, as virtudes, os mártires católicos e as heresias. Todos estes elementos permitem conectar o espírito à contemplação das causas da fé e produzir argumentos de edificação moral. ara demonstrar suas teses, Vieira efetua uma operação de correspondência simbólica, em que a circunstância histórica é ligada a algum fato no Antigo Testamento. Este, através da ligação, passa a constituir uma “figura”, ou “mistério” ou símbolo daquela circunstância. Via de regra, os sermões de Vieira encontram suas chaves em dois temas principais, a morte e o tempo. É verdade que tais temas sempre alimentaram a parenética em todos os tempos, mas eles recebem um caráter marcante e especial no Barroquismo do século XVI. Isto faz com que o sermão vieiriano se estruture argumentativamente em torno de um autêntico paradoxo, que constitui o “fruto natural de uma época em que a contemplação da morte representava uma tentativa angustiosa e impossível de conciliar a Vida e o Eterno”.

O Sermão da Sexagésima é extremamente importante no contexto da obra de Vieira como pregador, porque constitui uma das melhores ilustrações da sua problemática e da sua dialética. Wilson Martins o considera um tratado de retórica, não sacra, mas no sentido clássico original. Para Gomes, ele constitui uma chave para a compreensão da obra do jesuíta, já que revela as suas principais componentes de conteúdo e expressão. O próprio Vieira reconhece tal fato, ao iniciar com este sermão o primeiro volume de suas obras. Para melhor compreendê-lo, é importante lembrar dois sermões anteriores, o da Quinta Dominga da Quaresma e o de Santo Antônio, proferidos no Maranhão, contra os abusos dos colonos em suas tentativas de escravizar os índios. O último foi inclusive proferido às vésperas da partida de Vieira para Lisboa, onde pretendia buscar o apoio do rei contra os colonos. Depois de atacar estes últimos nos sermões mencionados, no da Sexagésima ele se volta contra os dominicanos, seus adversários na tarefa missionária. Aqui, ele critica a maneira de pregar destes religiosos, em especial de Frei Domingos de São Tomás, denunciando o seu gongorismo como uma espécie de pecaminoso artificialismo formal. Mas Vieira não deixa de fazer também uma alusão aos colonos, prometendo retornar logo ao Brasil, provido dos meios necessários para conter seus abusos.

Luiz Alberto Cerqueira, que considera Vieira o representante máximo da filosofia luso-brasileira, vê outro significado filosófico no Sermão da Sexagésima. Enquanto autor religioso, Vieira não questiona o dogmatismo escolástico do pensamento português baseado na Ratio Studiorum. Todavia, enquanto autor estético, ele pensa a conversão como função da consciência de si, despertando no indivíduo o homem moral. A importância filosófica do Sermão da Sexagésima, segundo Cerqueira, está na sua caracterização da conversão da alma como o entrar um homem dentro de si e ver-se a si mesmo. Em Vieira, são necessários três elementos para que um homem possa ver a si mesmo: os olhos, o espelho e a luz. O homem contribui com os olhos, que correspondem ao conhecimento. O pregador contribui com o espelho, que corresponde à doutrina. Deus contribui com a luz, que corresponde à graça. A fonte para essa compreensão da conversão remonta a S. Bernardo (De Conversione) e a Agostinho (Confissões) e sua fonte mais próxima é a doutrina da “luz interior” em Pedro da Fonseca. Essa doutrina se baseia na teoria do intelecto agente em Aristóteles. A partir daí, Cerqueira argumenta que as reflexões de Vieira sobre o sentido da conversão na filosofia cristã levam à necessidade da consciência de si e, em paralelo com o cogito cartesiano, abrem uma janela para a idéia de historicidade da filosofia como atividade do espírito. Nessa perspectiva, a obra de Vieira adquire, além do seu interesse literário, uma significação filosófica decisiva para o nascimento da filosofia brasileira no século XIX, com Gonçalves de Magalhães. Alguns aspectos dessa interpretação de Vieira serão discutidos na próxima seção.

Ainda do ponto de vista filosófico, um dos aspectos que chamam a atenção no Sermão da Sexagésima está no tipo de contradição performativa que ele envolve. Com efeito, Vieira não apenas combate ali as extravagâncias do cultismo praticado pelos dominicanos, mas também adota uma atitude retórica que põe em ação mecanismos argumentativos análogos aos que estão sendo condenados nos adversários. Segundo Gomes, contradições deste tipo ocorrem em muitas obras seiscentistas ou setecentistas, e o próprio Shakespeare não escapa delas. No caso de Vieira, o meio de expressão denota intensidade de visão ou de idéias e é reforçado pela metáfora hiperbólica. Isto constitui o aspecto mais apreciável do tipo de Barroquismo a que o jesuíta adere, motivado pelas estratégias conceptistas, que o fazem transigir com um artificialismo verbal bastante próximo do cultismo que ele publicamente rejeita. Tudo indica que o conceptismo tradicionalmente atribuído a Vieira é tão favorável a artifícios verbais quanto o cultismo, gerando uma espécie de contradição performativa entre o que o pregador diz e o que ele efetivamente pratica. E parecenos que esta contradição desempenha em Vieira um papel filosoficamente mais profundo do que seus críticos reconhecem.

Ao apontar para as causas do fracasso da pregação em seus dias, Vieira argumenta que faltam obras para justificar as palavras usadas no púlpito. Antigamente, as palavras eram acompanhadas de obras. Agora, as palavras vêm acompanhadas apenas de pensamentos. Não havendo exemplo a ser seguido, não há pregação eficaz:

O pregar que é falar, faz-se com a boca; o pregar que é semear, faz-se com a mão. Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração, são necessárias obras.

Isto está diretamente ligado à contradição performativa que perpassa não apenas a existência de Vieira, mas também do homem ibero-tropical e que será mais detalhada na próxima seção: a oposição entre o que ele diz e o que ele efetivamente faz. Vieira revela estar consciente deste fato, pois mais adiante acrescenta:

Se quando os ouvintes percebem os nossos conceitos, têm diante dos olhos as nossas manchas, como hão de conceber virtudes? Se a minha vida é apologia contra a minha própria doutrina, se as minhas palavras vão já refutadas nas minhas obras, se uma coisa é o semeador e outra o que semeia, como se há de fazer fruto?

Os pregadores a que Vieira se refere usam palavras, mas não as palavras de Deus. O verbo divino certamente produz frutos. Eles, porém, semeiam vento e estão fadados a colher tempestades. O pregador autêntico deve deixar de lado a vaidade. Ele deve preocupar-se não em agradar o ouvinte, mas em perturbá-lo o suficiente para que repense sua vida e seus pecados:

Semeadores do Evangelho, eis aqui o que devemos pretender nos nossos sermões: não que os homens saiam contentes de nós, senão que saiam muito descontentes de si; não que lhes pareçam bem os nossos conceitos, mas que lhes pareçam mal os seus costumes, as suas vidas, os seus passatempos, as suas ambições e, enfim, todos os seus pecados. Contanto que se descontentem de si, descontentem-se embora de nós.

Deste modo, o pregador eficaz deixa insatisfeito o seu ouvinte. Esta insatisfação produz uma verdadeira edificação moral, que leva o ouvinte a ver com ceticismo e pessimismo as vaidades do mundo. Mas a pregação produz igualmente um efeito no próprio pregador, que se vê também imperfeito, também transigindo com aquilo que condena. Faltam, por parte dele, por mais que se esforce, obras à altura da pregação. Em virtude disso, a insatisfação destinada ao ouvinte se volta contra o próprio pregador. Se o sermão é eficaz, ele também sai descontente da pregação. Ele também vê com ceticismo e pessimismo as vaidades do mundo. E este processo, que Vieira descreve no Sermão da Sexagésima, parece aplicar-se a cada um dos demais sermões proferidos pelo pregador, em virtude da sua importância no conjunto da obra. Deste modo, pode-se dizer que a função filosófica precípua do sermão vieiriano é reforçar o ceticismo e o pessimismo mencionados, tanto no ouvinte como no pregador.

Outro aspecto importante do pensamento de Vieira é a sua filosofia da história. De acordo com Calafate, é nos debates para justificar sua tese do Quinto Império que Vieira se assume como homem moderno. A esse respeito, Vieira afirma que o tempo é a chave das profecias, ou seja, que o saber não nos é dado de uma vez por todas em nenhum ramo do conhecimento humano. O texto relevante para esse assunto é a História do Futuro, obra inacabada em dois volumes, que reflete de maneira muito expressiva a filosofia da história dos portugueses à época da colonização do Brasil. No volume I, Vieira explica a natureza, os objetivos e a utilidade de uma história do futuro. Para isso, ele argumenta que o tempo tem dois hemisférios, como o mundo. Um deles é o hemisfério superior, visível, que corresponde ao passado; o outro é o inferior, invisível, que corresponde ao futuro. O presente se localiza no meio destes hemisférios. A história do futuro pretende descortinar os novos horizontes do segundo hemisfério do tempo. O objetivo dessa história é a exaltação da fé, o triunfo da Igreja, a glória de Cristo e a felicidade universal do mundo. Vieira reconhece a existência de uma oposição na própria expressão usada, já que a palavra futuro não se ajusta à palavra história. Mas ele declara ter optado por esse título porque um assunto novo e inaudito como este merece um nome novo e não ouvido. A obra poderia chamar-se também Esperanças de Portugal, pois tudo o que Vieira encontra a respeito deste país são grandezas, melhoras e felicidades.

O ambicioso plano elaborado por Vieira para a História do Futuro envolve sete partes ou livros, assim distribuídos:

[...] no primeiro se mostra que há-de haver no Mundo um novo império; no segundo, que império há-de ser; no terceiro, suas grandezas e felicidades; no quarto, os meios por que se há-de introduzir; no quinto, em que terra; no sexto, em que tempo; no sétimo, em que pessoa.

Nosso autor, infelizmente, não conseguiu realizar este plano. O primeiro volume de sua obra trata ainda dos prolegômenos, discutindo principal-mente as utilidades da história do futuro e revelando as passagens da Bíblia que se referem às conquistas de Portugal. Nesta parte, destaca-se o providencialismo de Vieira, que é assim formulado:

É este mundo um teatro; os homens as figuras que nele representam, e a história verdadeira de seus sucessos uma comédia de Deus, traçada e disposta maravilhosamente pelas idéias de sua Providência.

No segundo volume, temos dois capítulos introdutórios, seguidos pelos Livros I e II e pelo Plano da História do Futuro. Aqui também impera o inacabamento. Mesmo assim, existem indicações importantes a respeito do que deveria ser o teor da obra definitiva. Nos capítulos introdutórios, Vieira explica o que vem a ser o Quinto Império do Mundo. Embora tenha havido um número muito grande de impérios na história, a contagem efetuada por Vieira se inspira nas Sagradas Escrituras. De acordo com elas, a história da humanidade envolve quatro grandes impérios. O primeiro deles é o Império da Babilônia, que durou cerca de mil e trezentos anos. O segundo é o dos Persas, que não durou mais de duzentos e trinta anos. O terceiro é o dos Gregos, que começou e acabou com Alexandre. O quarto é o Império Romano, que durou quatrocentos anos.

O Quinto Império é o novo que se anuncia na história da humanidade e que seria inteiramente revelado pelo livro de Vieira, não fosse o seu inacabamento. Todos os outros impérios, passados e presentes, ficam fora desta sucessão, que começa no primeiro e deverá terminar no quinto, razão por que não são mencionados pelas Escrituras. A tarefa que Vieira se dispõe a realizar no Livro I, que segue os mencionados capítulos introdutórios, é mostrar que deve haver sem dúvida o novo e prometido Quinto Império. Os três capítulos do Livro I procuram fundamentar a previsão de Vieira através da discussão de duas profecias de Daniel e outra de Zacarias. Os sete capítulos do Livro II discutem as principais características do Quinto Império, que será de Cristo e dos cristãos, espiritual e temporal ao mesmo tempo.

No Plano da História do Futuro, temos maiores esclarecimentos a respeito das linhas gerais da tese defendida por Vieira. O subtítulo é Esperança de Portugal, Quinto Império do Mundo. Ali, ficamos sabendo que Vieira pretende demonstrar: a) no Livro Primeiro, que as Sagradas Escrituras prevêem um Quinto Império, que sucederá ao Romano (este último deverá ter-minar com a chegada do Anticristo); b) no Livro Segundo, que o Quinto Império é de Cristo, espiritual e temporalmente; c) no Livro Terceiro, que o Reino e Império de Cristo será universal, abrangendo todas as gentes, cristianizando-as e estabelecendo a paz universal; d) no Livro Quarto, que a consumação deste estado se dará pela conversão de todos os homens à fé cristã, extirpando-se todas as heresias e restituindo os judeus à sua pátria, sendo os instrumentos dessa conversão o sumo pontífice e um príncipe temporal, que será monarca universal do mundo; e) no Livro Quinto, que o estado consumado do Quinto Império se dará antes da chegada do Anticristo, por ocasião da extinção do império turco, e que sua duração se estenderá até o fim do mundo, possivelmente por muitos séculos; f) no Livro Sexto, que o Quinto Império acontecerá na Europa, especificamente na península ibérica, com capital em Lisboa; g) no Livro Sétimo, que o primeiro imperador, instrumento temporal do dito Império, será o Sereníssimo Rei de Portugal, possivelmente na pessoa do infante D. Pedro. Este último pode ser interpretado como um avatar de D. Sebastião, o Esperado.

Como podemos ver, História do Futuro revela a adesão de Vieira à profecia sebástica. Para Eduardo Lourenço, só numa cultura intrinsecamente mística, que coloca no futuro o tempo doador de sentido, é que uma espera messiânica como a do sebastianismo seria compreensível. E ninguém ilustra melhor essa espera do que o Padre Vieira. Nenhum desmentido da experiência o arranca do sonho do regresso de D. Sebastião. Vieira não é um louco rematado, mas um observador sagaz a serviço da causa jesuítica. Nesse sentido, ele recorre ao texto bíblico enquanto profético. E o tempo da profecia não é regulado pela temporalidade humana. Tudo nele envolve sinais e indícios. Desse modo, Portugal surge para Vieira não como uma nação entre outras, mas como eleita para anunciar e ilustrar o reino universal de Cristo. Um povo como o lusitano não pode perecer, de modo que seus fracassos, como a derrota em Alcácer Quibir ou a perda da independência com a União Ibérica, são apenas acidentes de percurso que serão um dia superados. Com base nisso, Eduardo Lourenço conclui que não há na cultura portuguesa discurso mais alucinatório e sublime que o de Vieira. Ele constitui a síntese arrebatada mas oniricamente coerente de cinco séculos de vida coletiva baseados na convicção de que a existência de Portugal é da ordem do milagre e da profecia.

Para Calafate, num “cômputo global, o interesse de Vieira para a filosofia em Portugal desdobra-se por áreas que vão desde a ética, a filosofia política, a antropologia e a filosofia da história, sem esquecer as questões da estética da linguagem, a que deu base teórica no seu Sermão da Sexagésima”. Essa observação vale também para a filosofia no Brasil, como se verá a seguir.


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Fonte:
Paulo Roberto Margutti (professor titular da FAJE/MG. Artigo submetido a avaliação no dia 12/07/2008 e aprovado para publicação no dia 21/07/2008): “O Padre Antônio Vieira e o pensamento filosófico brasileiro”. Revista Síntese, Belo Horizonte, v. 35, n. 112, 2008. Disponível em:

Nota:
A imagem inicial inserida no texto não se inclui na referida tese.
As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.

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