02/01/16

Sermão de Santa Catarina Virgem e Mártir, de Padre Antônio Vieira


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António Vieira, o político e diplomata

Nascido no Portugal de seiscentos, Vieira conheceu um país desgastado por anos do domínio filipino, marcado pelas desilusões dos nobres que não viram cumpridas as promessas feitas em 1580, pela desilusão dos burgueses ligados ao comércio marítimo e pela repressão exercida pelo Tribunal do Santo Ofício. Estes dois últimos factores assumem relevo considerável, já que os burgueses, aqueles que mais tinham beneficiado com os lucros do movimento expansionista dos Descobrimentos, detentores de consideráveis somas de capitais, se viam acusados e perseguidos, (in)justamente, de práticas de judaísmo ou heresias. Não é, de todo, agradável o panorama nacional que Vieira já conhece aquando da sua chegada a Lisboa após a Restauração de Dezembro de 1640.

A consideração de D. João IV para com este jesuíta leva-o a incumbir o Padre António Vieira de uma tarefa inesperada – viajar pelas principais cortes europeias para conseguir a confiança daqueles e a aceitação da nova situação política de Portugal; de igual modo, era necessário conseguir fundos financeiros para a recuperação da economia portuguesa. Esta era a oportunidade para o pregador, o orador, encontrar um púlpito para as suas palavras.

Apesar de ser um homem mais ligado à realidade da fé, António Vieira tinha plena consciência da importância daqueles que, depreciativamente eram chamados de «cristãos novos» e perseguidos, os burgueses.

A situação em que se encontra o país43 é referida nos textos do pregador que aponta os burgueses como as únicas forças capazes de contribuir para a recuperação da economia do país. Mas para isso era necessário alterar também a situação desses «cristãos-novos» e Vieira enceta uma luta em defesa destes. Este defensor dos «quase proscritos» apresenta ao Rei propostas de melhoria da forma como são tratados, que vão desde a substituição de testemunhos secretos, em casos de acusação de judaísmo ou heresia, por testemunhos públicos, à abolição da pena de confiscação de bens que revertiam em benefício da Inquisição. Pouco tempo após a chegada a Lisboa, em 1641, o Padre António Vieira escreveu um documento com o complexo título «Razões apontadas a favor dos cristãos novos, para se lhes haver de perdoar a confiscação de seus bens, que entrasse no comércio deste reino»44. Mais tarde, em 1646, em novo documento com o Título «Proposta que se fez a Sereníssimo rei d. João IV, a favor da gente da nação, sobre a mudança de estilos do santo Ofício e do Fisco»45, António Vieira faz uma séria e justificada análise sobre a actuação da Santa Inquisição, a forma e métodos utilizados por esta para alcançar a mais pura forma da religião católica em Portugal. Este jesuíta, homem da fé, não concordava com essa forma e métodos e considerava mesmo haver excessos no modo como aquela instituição agia no sentido de afastar toda e qualquer heresia. Considerava que aquela forma de actuar apenas aumentava o clima de medo e desconfiança e contribuía para a fuga de muitos daqueles que detinham o poder económico para resolver a situação económica do país, os cristãos-novos ou os que de o serem fossem acusados.

O Padre António Vieira era, sem dúvida, um crítico da Igreja dentro da própria Igreja. Ele não se identificava com aqueles pregadores que refere no capítulo I do Sermão de Santo António aos Peixes, os que «não pregam a verdadeira doutrina», aqueles que «dizem uma coisa e fazem outra», aqueles que «se pregam a si a não a Cristo», aqueles que faltam «à doutrina e ao exemplo», aqueles que «com a palavra ou com a vida prega o contrário»

 Esta atitude de Vieira, as propostas sobre a abolição da prática de confiscar os bens dos perseguidos burgueses e cristãos-novos, assumia aos olhos do Tribunal do Santo Ofício contornos de “heresia”, era uma ousadia enorme, já que o resultado dessas preensões revertia a favor da Inquisição. António Vieira granjeava, desta forma, alguns inimigos entre os inquisidores. Adivinhava-se desde já uma mudança na vida do Padre António Vieira quando deixasse de ter a protecção de D. João IV .

Durante grande parte da década de 40 do século XVII, o Padre António Vieira foi um diplomata que, a mando de D. João IV, percorreu a Europa a fim de conseguir proventos para a recuperação da nação. Em 1646 vai até à Holanda encontrar-se com os judeus portugueses que para aquele país tinham partido, levando consigo os fundos tão necessários ao nosso país. Após a cisão com Espanha, Portugal aspirava a ser reconhecido diplomaticamente pelos outros países europeus, incluindo a Santa Sé, e a participar na Cimeira de Vestefália.

Apesar de ser mestre na oratória, a vida de diplomata de António Vieira não foi assinalada pela mestria. Porém, se os fracassos caracterizaram as missões diplomáticas levadas a cabo por aquele orador, as viagens pela Europa possibilitaram-lhe os contactos com a realidade europeia, com uma burguesia moderna, com judeus e com expoentes da cultura da época.


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Fonte:
Regina Maria Martins da Costa
: “As finezas do Amor – De António Vieira A Sor Juana Inês de la Cruz”. (Faculdade de Artes e Letras Departamento de Letras Dissertação de Mestrado em Estudos Ibéricos). Covilhã 2009. Disponível em: ubibliorum.ubi.pt

Nota:
A imagem inicial inserida no texto não se inclui na referida tese.
As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.
O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho.
Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade.

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