02/01/16

Sermão de São Roque, de Padre Antônio Vieira

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A formação humanista do Padre Antônio Vieira

Antônio Vieira nasceu em 6 de fevereiro de 1608 em Lisboa, mas aos seis anos de vida foi trazido para o Brasil por sua família, pois seu pai assumiria o cargo de escrivão da Relação na Baía. Em 1623 ingressaria no Colégio dos Jesuítas e permaneceria vinculado a essa Ordem até 1663. É nesse ambiente espiritual que desenvolveria sua vocação religiosa e iniciaria sua formação humanista à luz das obras de Santo Agostinho, Tomás de Aquino, Francisco Suarez e outros pensadores cujas obras possuíam um primado ético-jurídico. Daí adviria também o seu jusnaturalismo cristão, presente em seus Sermões e que fundamentaria suas teses jurídico-políticas na defesa dos índios, escravos e cristãos novos, como veremos mais adiante.

Em 1643, apresenta sua "Proposta a El-Rei D. João IV" pela qual revela sua tolerância para com os cristãos novos, a importância de se reconhecer no gentio a condição de pessoa e os males da escravidão, apresentando sugestões para a recuperação econômica de Portugal.

A partir desse documento, seria nomeado pregador régio, ao mesmo tempo em que iniciaria suas atividades diplomáticas. Em 1654 profere o Sermão de Santo Antônio aos peixes, pelo qual apresenta argumentos contrários às grandes propriedades senhoriais, comparando-as aos grandes peixes, que necessitam de muitos peixinhos para se alimentarem, ao passo que um peixe grande poderia servir de alimento para muitos peixes pequenos. No ano de 1655, prega na capital, entre outros, o Sermão da Epifania; onde demonstra a necessidade da Coroa em reconhecer a condição humana do índio e do escravo. Nesse Sermão, observa que os três Reis Magos representavam a união dos três continentes e as três etnias conhecidas: o homem africano, o asiático e o europeu. Mas onde estaria então o aborígene americano? Ao responder esta questão, d estaca a importância da missão destinada o povo português: o aborígene americano viria ao Pai pelas mãos do homem lusitano que, por seu trabalho de catequese, desempenharia sua mais elevada missão, a de integrar o índio aos ensinamentos e aos ideais cristãos. Para tanto, fazia-se necessário seu pleno reconhecimento enquanto homem e filho de Deus.

Em 1665, por suas posições políticas firmes em defesa dos cristãos novos, dos índios e por entender que o homem verdadeiramente cristão não poderia aceitar o instituto da escravidão, é preso pela Inquisição, depois mantido em custódia. Entrega a sua defesa ao Tribunal. É interrogado inúmeras vezes e acaba por ser condenado em sua liberdade de pregar. Alguns anos depois, mesmo anistiado, é impedido de falar ou escrever sobre certos assuntos. Ainda assim, escreve vários Sermões com os quais combate os métodos da Inquisição em Portugal e Espanha. Convencido de que seus préstimos seriam mais valiosos no Brasil, retorna à Baía em 1681, onde prossegue em sua luta em favor dos índios, contra a escravidão e em seu trabalho de evangelização. Morre em 1697, na Baía, a 18 de Julho, com 89 anos de idade.

Sua obra possui nítida inspiração augustiniana. Talvez por isso Vieira revela um considerável conhecimento do pensamento dos clássicos da Antigüidade, como Platão, Aristóteles e autores estóicos como Séneca e Marco Aurélio. Sob o aspecto jurídico, seus Sermões transmitem a convicção de que conhecia os principais autores do jusnaturalismo de sua época, corrente jurídica da qual se utilizaria para buscar argumentos para sua ação política, ainda que suas teses fossem temperadas pela influência de autores escolásticos como Suarez e Molina, enriquecidas por sua vivência no Brasil.

Aliás, a vivência no Brasil parece ter-lhe conferido uma formação humanista fundada numa concepção filosófica e teológica muito à frente de seu tempo. Seu posicionamento sobre o reconhecimento do índio enquanto pessoa, seu inconformismo para com o vergonhoso instituto da escravidão, sua tolerância religiosa em relação à questão do judaísmo nas sociedades luso-brasileiras, ficaram consignadas em seus Sermões e revelam posições políticas de uma dimensão humana pouco comum para sua época. Por manifestar em sua obra convicções e entendimentos progressistas, muitos de seus argumentos seriam utilizados pela Inquisição contra a sua própria pessoa e Vieira seria perseguido e condenado pelos donos do poder político e religioso. Contudo, jamais renunciaria às suas idéias e convicções políticas e humanistas.


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Fonte:

Everaldo T. Quilici Gonzalez (Professor do Curso de Mestrado em Direito da Unimep, doutor em Filosofia e Teoria Geral do Direito. E-mail: equilici@unimep.br): “Pensamiento Jurídico-Político de Padre Antonio Vieira”. Disponível em: www.metodista.br/revistas/revistas-unimep/

Nota:
A imagem inicial inserida no texto não se inclui na referida tese.
As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.

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