17/01/16

Sermão da Primeira Sexta-Feira da Quaresma - Sermão II (1651), de Padre Antônio Vieira

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O Barroco

O Barroco surgiu em conseqüência de uma série de acontecimentos do Renascimento, como o antropocentrismo, o materialismo, o sensualismo. A Reforma Protestante tinha por objetivo trazer a Igreja de volta à simplicidade da fé e da prática cristã, o que provocou um grande cisma na cristandade. A Contra-Reforma foi a reação católica, no sentido de impedir o avanço da Reforma Protestante, e ao mesmo tempo, propôs o retorno à espiritualidade medieval, em oposição ao paganismo do Renascimento.

Essa postura teocêntrica, porém, criou um conflito no homem barroco, pois ele não queria perder as conquistas renascentistas, mas por outro lado, ansiava recuperar a religiosidade medieval. A tensão entre o antigo (tese) e o novo (antítese) forçou a procura de uma conciliação (síntese), muitas vezes difícil de conseguir. Por isso houve essa dualidade, a tentativa de conciliar fé e razão, espiritualismo e materialismo. A própria arte barroca refletiu esse dualismo; primeiro se manifestou nas artes plásticas, passando depois a outras formas de expressão e influenciando toda a vida social.

O conhecimento da realidade, no Barroco, operava-se através dos sentidos, mediadores das impressões sensoriais transmitidas pelas palavras que designam sensações ligadas aos olhos, aos ouvidos, ao tato, ao olfato e ao gosto. A efemeridade, a transitoriedade da vida, foi um tema constante; tendo consciência da sua fragilidade, o homem barroco cedia ao apelo do carpe diem (aproveite o dia presente), ou tornava-se pessimista, vendo apenas o lado trágico da vida, ou ele também podia voltar-se à religião; tudo isso podia ser motivo de angústia e incertezas.

A procura da síntese determinava uma série de características decorrentes desse fato: largo uso de antíteses e paradoxos; oposição entre realidade material e espiritual; conflito entre fé e razão; gosto pelo uso de frases interrogativas; culto ao contraste e jogo de cores do claro-escuro; dualidade estética expressa pelo conceptismo e o cultismo. A inversão e a repetição violenta da ordem das palavras, a ordem indireta, a exuberância de formas, o detalhismo, o gosto pelos raciocínios complexos desenvolvidos a partir de alegorias e narrativas bíblicas, o emprego de grande número de palavras semelhantes quanto à grafia e à sonoridade, a descrição de cenas trágicas e grandiosas, tudo isso fazia parte do ideário e dos recursos amplamente usados para dar expressividade à arte e ao empírico do Barroco.

Pelo que se observa no acima exposto, a arte barroca apresentava algumas características, no caso da literatura, ligadas ao conteúdo e outras fortemente marcadas pelo aspecto formal; a ênfase de um ou outro desses aspectos pode ser constatado no conceptismo e no cultismo, as duas grandes correntes estético-estilísticas do Barroco.

O cultismo e o conceptismo eram dois estilos literários opostos que se desenvolveram nessa época na Espanha, passando depois para Portugal. A realidade abordava-se de duas maneiras diferentes; uma era sensorial e descritiva; a outra conceptual; a atitude diante do ser era: como é?; a outra, indagava: o que é?

Díaz Plaja (1960, p. 227) declara que o cultismo preocupava-se com a forma, a riqueza e a ordem das palavras e seu principal fundamento estava voltado aos sentidos; o conceptismo, por sua vez, tinha como base o fundo, as idéias, deixando as palavras reduzidas ao indispensável, e os escritos visavam atingir a inteligência.

A linguagem do cultismo foi preciosa e rebuscada, abusava das hipérboles, hipérbatos, metáforas, antíteses e paradoxos; consistia em um jogo de palavras dirigido aos sentidos, criando, por vezes, uma falsa realidade. O espanhol Luís de Gôngora foi um dos grandes poetas cultistas, motivo pelo qual o cultismo também é conhecido com o nome de gongorismo, embora este termo tenha até sido usado como sinônimo de Barroco na Espanha. Ferreira (1971, p. 521) assinala que os gongóricos não estavam interessados em esclarecer a inteligência do auditório, mas em deslumbrá-lo com antíteses, ambigüidades e fraseologia pomposa dos conceitos.

O conceptismo era um jogo de idéias e sutilezas, um rebuscamento do raciocínio, o uso de técnicas de argumentação. Era comum o emprego de antíteses, paradoxos ou analogias para criar realidades que, mesmo quando contrárias ao senso comum, o raciocínio tinha aparência de verossimilhança pela arte. Um grande nome do conceptismo na Espanha foi Quevedo. Ele combateu o cultismo por achá-lo excessivamente carregado de palavras e vazio de idéias.

Outro conceptista espanhol de renome, jesuíta como o P. Vieira em Portugal, foi Baltazar Gracián. Díaz-Plaja (1960, p. 240) opina que, se Quevedo foi o primeiro conceptista, Gracián foi o mais extremado, pois converteu esse estilo em doutrina literária no seu livro Agudeza y arte de ingenio. Por meio de uma alegoria, ele apresenta o discurso como uma árvore; as vozes seriam as folhas; o conceito, o fruto. Contra o abuso das vozes do cultismo, o conceptista propunha que o verso seja extensivamente profundo; significa dizer as coisas mais elevadas e filosóficas com o mínimo de linguagem. Para Gracián, mais pesam as quinta-essências (o éter, as coisas mais essenciais) do que farragens (miscelâneas de coisas).


Contudo, ainda que vigorassem esses dois estilos, o cultismo e o conceptismo podiam coexistir e interpenetrar-se; isto criava um efeito ambíguo e contraditório, característico da visão barroca de mundo em constante conflito.


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Fonte:
Roberto Teodoro Jung: “Retórica e pregação religiosa no Sermão da Sexagésima do Padre Antonio Vieira”. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras – Mestrado, Área de Concentração em Leitura e Cognição, Universidade de Santa Cruz do Sul – UNISC, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Letras. Orientador: Prof. Dr. Jorge Molina). Santa Cruzdo Sul, 2008.
Nota:
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As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.
O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho.
Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade.

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