16/01/16

Sermão da Glória de Maria, Mãe de Deus

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Pe. Vieira e o sonho paradisíaco

O romance Boca do Inferno reelabora e acrescenta aspectos da vida e da obra de Pe. Antônio Vieira, aproximando-o do poeta Gregório de Matos numa relação de respeito e estima que pode ser comprovada na biografia dos dois autores contemporâneos. Após apresentarmos o poeta satírico e verdadeiro cronista da Bahia infernal, se faz necessário, agora, apresentar alguns aspectos do sermonista-personagem que mesclam aspectos históricos e literários em sua composição como personagem. O conhecimento empírico do personagem-sermonista é mais abrangente do que o de Gregório no que diz respeito às experiências como conselheiro de reis, diplomata em cortes europeias e na defesa dos judeus. Enquanto o poeta direciona seu olhar para sua cidade, o sermonista contempla um cosmos amplo que extravasa as fronteiras do Brasil colonial.

Assim, enquanto o “Boca do Inferno” é saudoso de um “Antigo Estado”, da vida feliz, do passado da cidade da Bahia, antes da instauração da máquina mercante, demoníaca; o jesuíta português, por seu turno, procura tirar proveito do sistema colonial para o engrandecimento da fé católica e do império português, cujo fim único é a criação de reino próspero, uma espécie de Éden na terra.

Em Boca do Inferno, Pe. Antônio Vieira é uma figura ambígua, cujas aç ões são, algumas vezes, reprovadas pela Igreja. Há suspeitas de que a família do jesuíta esteja diretamente envolvida na morte do alcarde-mor, pois a querela entre os Meneses (família do alcaide-mor) e os Ravascos (família de Vieira) acaba colocando o padre em situação delicada perante a Igreja, pois como um sacerdote respeitado pode se envolver, mesmo que indiretamente, em um assassinato? Através da fala de Gregório de Matos, outras faces e facetas do sermonista se evidenciam, ora se complementando, ora se contradizendo: “Vieira era ao mesmo tempo o que todos esperavam que ele fosse e o que todos odiavam que fosse. Tudo o que dizia ou escrevia tomava logo uma dimensão maio r. Era um homem de argumentos, filósofo, mestre em teologia” (MIRANDA, 1990 [1989] , p. 83).

Temos, portanto, o Pe. Vieira orador eloquente, o pregador persuasivo, adjetivos que faziam com que alguns homens poderosos o invejassem e outros o admirassem. O sermonista era admirado ainda por Gregório de Matos, talvez o maior admirador de sua obra. Trata-se, no romance, de uma verdadeira paixão do poeta baiano p elos sermões de Vieira e também por sua figura como uma espécie de mestre a ser seguido e imitado. Na infância do poeta o encontro admirado

“Mas quando foi que tu e ele se conheceram”, perguntou Anica de Melo. “A primeira vez que nos encontramos foi quando eu estava em Lisboa, de férias da Universidade de Coimbra. Eu tinha dezoito anos e Vieira acabava de chegar da missão do Maranhão. Ele andava pela Corte e pelo Desembargo a fim de obter a lei de liberdade dos índios. Eu já o vira algumas vezes no Desembargo, mas não ousava aproximar-me (MIRANDA, 1990 [1989], p. 176).

Se nosso pensamento estiver correto, esta paixão e admiração de Gregório de Matos por Antônio Vieira se devem à vertente religiosa da lírica de Gregório de Matos, que, como homem barroco, também viveu as contradições das ide ias surgidas no antropocentrismo renascentista em contradição à forte presença dos v alores cristãos medievais propagados pela Contra-Reforma católica frente às investidas do pro testantismo. É importante não perder de vista que o poeta é um homem barroco e, como tal, é um indivíduo dividido entre o céu e a terra, o Bem e o Mal, etc. Este aspecto do barroco está presente no bojo do romance que não reescreve apenas os fatos históricos, mas também os valores culturais e artísticos do século XVII.

Pe. Vieira não é representado em termos demonológicos como Gregório de Matos. O jesuíta, porém, é despido da austeridade que cercam indivíduo histórico-literário, e surge como personagem mais humanizado pela autora, se apresenta como homem que possui fraquezas e impotências como os demais homens.

As imagens de Antônio Vieira que surgem no romance apresentam várias de suas faces: a do escriba, caracterizada metonimicamente pela pena: “Trazia na mão direita uma pena como se tivesse parado de escrever naquele momento” (MIRANDA, 1990 [1989], p. 46); e, ainda, a faceta do apóstolo missionário vestido com um pano grosseiro fabricado na região, descrito como “preto desbotado, que comia farinha d e pau, dormia pouco, léguas e léguas vencidas a pé” (MIRANDA, 1990 [1989], p. 47). Na representação menos pomposa do sermonista, o vemos fora do púlpito, elemento quase indissociável do jesuíta, a vestir roupas simples e até grosseiras para sua posição na sociedade, andando a pé como um capelão comum.

Vieira é um inconformado com a degradação da Colônia, cujo destino era de ser o reino de Deus e não o reino do Diabo como se mostra o comportamento viciado de homens, mulheres, políticos e os seus próprios pares de sacerdócio. Tal inconformismo pode ser percebido em um trecho do romance em que surgem passagens, assimiladas, do “Sermão para o bom sucesso das Armas de Portugal”

Para isto foi que abrimos os mares nunca dantes na vegados?”, disse Vieira cravando seus olhos no rosto do irmão. “Para isso descobrimo s as regiões e os climas não conhecidos? Para isto contrastamos os ventos e as tempestades com tanto arrojo, que apenas há baixio no oceano que não esteja infamado com miserabilíssimos naufrágios de portugueses? E depois de tantos perigos, depois de tantas desgraças, depois de tantas e tantas lastimosas mortes, ou nas praias desertas sem sepultura, ou sepultados nas entranhas dos alarves, das festas, dos peixes, que as terras que assim ganhamos as hajamos de ver assim?” (MIRANDA, 1990 [1989], p. 54 ).

O tom do sermão é de decepção com o “teatro de vícios” que se revela no Novo Mundo, um sonho paradisíaco que não se cumpriu na percepção do sermonista. Percebemos, também, um inconformismo com a conduta dos desembargadores comprometidos com políticos poderosos, o comportamento luxurioso das escravas, a prostituição envolvendo o clero, mestiços discriminados, mulheres em cárcere privado, mulheres disponíveis, blasfemadores e a gente comum que vivia em uma cidade dividida entre o Bem e o Mal: orações e intrigas, o prazer e o pecado, o Céu e o Inferno.

Ao contrário da linguagem mordaz e grotesca de Gregório de Matos, o sermonista revela a esperança na palavra polida e elaborada para convencer e transformar a sociedade em decomposição, na esperança de construir uma comunidade próspera e menos pecadora. Contudo, no tocante aos rivais políticos de Vieira, suas palavras cultas são vistas como repugnantes, exatamente por alcançarem uma beleza d e retórica inimaginável na boca de seus adversários menos letrados.

Como foi dito, os fatos relatados no romance podem ser verificados nos compêndios de história e/ou nas biografias dos personagens, o que não significa que seja necessário buscar tal comprovação, pois o pacto entre leitor e autor dispensa laços estreitos com a realidade empírica. Ao lado do discurso histórico, no entanto , foram utilizados os textos literários de Antônio Vieira e Gregório de Matos. É justamente neste ponto que o jogo intertextual da narrativa se torna mais complexo e fecundo, ampliando-se em dialogismo, pois Boca do Inferno é um texto da década de 80 do século XX, mas, também, uma releitura do texto e do contexto do século XVII – tudo isso fundido sob o gênero romance.

Em algumas passagens, percebemos aspectos biográficos do sermonista jesuíta, uma maneira de conhecermos o personagem e, ao mesmo tempo, a vida do sujeito empírico Antônio Vieira

Padre Vieira sempre fora conhecido em Portugal como homem rendido ao poder econômico, por isto protegia os judeus, que representavam riqueza. Lutava contra a escravidão dos indígenas, mas não esconderia isto algum interesse dos famélicos jesuítas? Talvez fosse um problema de consciência ou um impulso tirânico de catequese, uma vez que as normas inacianas eram fundadas no ensino da doutrina. (MIRANDA, 1990 [1989], p. 80).

De fato, Vieira era conhecido como homem religioso interessado no enriquecimento e na grandeza do império português conforme aponta Alfredo Bosi (1992, p.120). A máxima maquiavélica  de  que  “os  fins  justificam  os  meios”  p ode  ajudar  a  entender  aspectos contraditórios do comportamento e das alianças feitas pelo jesuíta tal como a defesa dos judeus que são inimigos da Igreja. Para tornar a Colônia portuguesa um lugar próspero, um lugar de vida feliz para os homens e para a Coroa, esta aparente contradição, ou mesmo contravenção, se justifica no projeto que surge com o aconselhamento ao rei D. João IV na fundação da Companhia das Índias Ocidentais financiada com o recurso dos judeus. É nesse projeto que a relação de proteção dos judeus se torna mais clara, mesmo contrariando e incitando contra si os olhares da Inquisição.

Como um homem empreendedor, Antônio Vieira consegue enxergar indícios de que é possível transformar o lugar de miséria, que se tornou o Novo Mundo, em lugar de bonança e oportunidade. Este fato é descrito logo nas primeiras páginas do romance em que o narrador apresenta os tipos humanos que desembarcavam no Novo Mundo. Eles eram colonos em busca de riquezas, criminosos degredados, aventureiros pobres que não tinham mais o que perder em seu país de origem. Grande parte dessa gente chegava ao Novo Mundo esperançosa pelo enriquecimento fácil, pois as notícias que tinham eram de que o Brasil era uma espécie de terra prometida.

Como visionário, o jesuíta percebia que o projeto colonizador podia render bons frutos e melhorar ou mesmo enriquecer tanto a metrópole quanto a Colônia. Nota-se, portanto, que ainda havia algo de paradisíaco em Boca do Inferno, mesmo que fosse apenas na esperança de Vieira. Apesar de tanta miséria, as pessoas ainda conseguiam se beneficiar da riqueza e abundância do Brasil. Os portugueses passavam da mi séria à riqueza num lugar que era ao mesmo tempo o Inferno e o Paraíso.

A catequese jesuítica e o Santo Ofício uniam forças para “humanizar” o índio, o colono e afastá-los das práticas que os “demonizavam”, papel este que estava na mão do sermonista e dos demais jesuítas. Cabia aos sacerdotes da Companhia de Jesus afugentar as populações do Demônio e levá-las a Cristo, doutrinando-as. Assim, era esta a função da Igreja que Vieira assumiu como sua, ou seja, conter as investidas do Inimigo e converter o Inferno em Paraíso, ainda que este Paraíso fosse na Terra.

Conhecer o personagem Vieira é conhecer aspectos da vida do sermonista, pois a biografia se soma à criação da romancista. O personagem Vieira, que sonha com um futuro de abundância para Portugal e, também, para o Brasil colonial ressoa o jesuíta empírico que pregava em clima hostil. O orador pode parecer contraditório por incentivar o financiamento dos banqueiros e mercadores judeus na empresa colonial, mas há nisto um projeto maior e mais grandioso de engrandecimento da Coroa, da Colônia e , sobretudo, de Deus. Mas este projeto maior do jesuíta não foi percebido pela maioria de seus pares e superiores da Coroa.

É este olhar de desconfiança que vemos no romance quando o narrador onisciente suspeita de algum interesse jesuítico, da catequese a qualquer custo, mesmo que o dinheiro venha de mãos inimigas e profanas dos judeus. Mas o argumento de Antônio Vieira, mestre de oratória, é no sentido de mostrar que o dinheiro é um mediador neutro que não tem raça, nem pátria e nem religião e é com ele que se alcança o bem maior: a salvação para todos os portugueses e para a própria Colônia. É assim, com argumentos convincentes, que Vieira consegue legitimar essa relação polêmica entre o padre e os cristãos-novos tão criticada pela voz narrativa.

Na maioria das vezes, as falas de Antônio Vieira sã o repletas de parábolas, assim como em seus sermões. Numa linguagem eloquente de sermonista, ele fala sobre a política e religião com o irmão

Não fiques com lágrimas e suspiros, desanimado. Como piedoso homem choras teus males mas, se não houvessem feito o que foi feito, o inimigo desenfreado já não se contentaria apenas com a cidade e seus cabedais, porém com grande ousadia haveria de se apossar das almas da gente sem haver quem lhe pusesse freio a tanto desaforo. Estás acudindo a nossa santa fé católica e por lealdade à Coroa real te arriscas. Quanto a mim, querem obrigar-me a fazer como dom Marcos Teixeira, que trocou o bago com a lança, o roquete com a saia de malha e de prelado eclesiástico fez-se capitão de soldados. Mas não conseguirão, nunca mais sairei de meu retiro (MIRANDA, 1990 [1989], p. 47).

Em Boca do Inferno, temos o Pe. Vieira político, repressor dos vícios humanos, defensor dos índios e, ainda, aquele que pouco ou nada advogou em favor dos escravos africanos. Devido a essas contradições, o sermonista recebe diversas críticas e duros questionamentos de seus inimigos

“E estavam ali no Brasil defendendo a liberdade dos indígenas para os terem, eles mesmos, como cativos – de suas idéias. Como se podia explicar que sendo contra a escravidão calavam-se diante do que acontecia com o s negros africanos? Simples! O braço negro era imprescindível ao enriquecimento da colônia. Assim, eram os jesuítas e padre Vieira mais do que todos, pois – era necessário reconhecer – tinha brilhante espírito (MIRANDA, 1990 [1989], p. 80).

Pe. Vieira tinha grande influência na corte portuguesa, intervindo em defesa da Colônia com o propósito de amenizar o clima inferna l da política e da economia coloniais regidas por prevaricadores. A lei não funcionava, n ão foi a devassa que destituiu o governador Antonio de Sousa de Menezes, mas sim as denúncias de Antônio Vieira, que ainda tinha certo prestígio em Portugal

Foi o chanceler”, o meirinho leu, “servir e ordenar uma devassa na capitania da Bahia que, por ser conveniente ao real serviço, sobre o c rime de morte de Francisco de Teles de Menezes se informasse com toda a exação e particularidades das denúncias que se fizeram (MIRANDA, 1990 [1989], p. 241).

Tais denúncias são feitas por Pe. Vieira que denunciou, em Portugal, o mundo sem lei e sem ordem em que se transformara a Colônia. Foi confiando em sua seriedade que a Coroa portuguesa destituiu o governador e colocou fim à perseguição contra a família Ravasco por parte dos Menezes.

Antonio de Souza e o novo alcaide-mor Teles apresentavam Vieira como um poderoso inimigo a ser destruído. Através de Gregório de Matos, outras faces do sermonista se evidenciam. O poeta, no romance, fala em tom de revolta sobre a perseguição que Vieira sofrera em função de suas profecias e suas crenças do milenarismo sebastianista. De fato, o projeto do Quinto Império provocou a ira dos inquisidores contra o jesuíta. Surgem na narrativa de Ana Miranda, na fala do narrador, do próprio padre ou de Gregório de Matos, os sermões, cartas, documentos, pareceres, propostas, livros e reflexões, que revelam, entre outras coisas, sua profunda obstinação pela ação-prática, ou melhor, por um modo de atuar e intervir na realidade social de sua época.

Dividido entre a matéria e o espírito, o pecado e o perdão, em constante dualismo paradoxal, o jesuíta não abandona nunca sua pregação e suas convicções, a não ser quando a Inquisição lhe proibia a palavra. Isto fica claro n a imagem onírica descrita no romance por Gregório de Matos: “Lembro-me muito bem de um deles . Vieira aparecia joelhado defronte dos inquisidores. O inquisidor-mor tinha o aspecto de um demônio, patas, rabo, chifres, orelhas de macaco, uma figura aterradora” (MIRANDA, 1990 [1989 ], p. 174).

No sonho de Gregório, o inquisidor que tanto condenava as práticas demoníacas, surge como a encarnação do próprio Demônio, numa inversão de papéis bem construída pela escritora que transforma o juiz em réu. A imagem do sonho do poeta mostra uma querela que realmente existiu neste período entre os sacerdotes dominicanos (ordem do inquisidor-mor) que detinham o poder eclesiástico central na época do julgamento decisão da pena que Antônio Vieira iria pagar.

As acusações que pesavam sobre o sermonista eram, principalmente, o seu envolvimento com os judeus, e também suspeitas contra as ideias contidas em alguns de seus manuscritos sobre o futuro de Portugal. Algumas produções específicas fizeram de Vieira um herege aos olhos do Santo Oficio, dentre elas estão os textos intitulados “Esperanças de Portugal, Quinto Império do Mundo”, “História do Fu turo” e um manuscrito inacabado chamado Clavis Prophetarum. Esses três textos encerram as frustradas profecias de Vieira quanto à consolidação de Portugal como o Império do mundo católico, centrado no rei Dom Sebastião. Essas críticas, que de fato existiram, a parecem no romance na seguinte fala do narrador

Sim, existiam motivos para que odiassem a ele, Antô nio Vieira. [...] Não existia gratidão nem lealdade, não mais. Ele mesmo, que arr iscara sua vida tantas vezes em fidelidade à Coroa, via-se agora como um exilado. E nem ao menos podia, em paz, prosseguir seus escritos de sermões e a interpretação das Escrituras, Clavis prophetarum (MIRANDA, 1990 [1989], p. 181

Vieira surge no romance como vítima de um cristianismo ortodoxo que não entendeu seu projeto visionário para a Coroa portuguesa e para a própria Igreja. Tudo o que fez fora para o benefício do reino português, mesmo quando das contradições sobre os judeus e sobre a escravidão do negro. Para a construção de uma Colônia próspera e deleitosa, ele julgou necessário o sacrifício da mão de obra africana. As profecias sobre o Quinto Império podem ser percebidas como uma espécie de transposição, para o Novo Mundo, do sonho milenarista, dos mil anos de felicidade na terra, mesmo que não seja em terreno português, mas ao menos em uma de suas possessões: o Brasil.

No último capítulo do romance, intitulado “O destino”, vemos o fim de todos os personagens do romance, inclusive da Bahia personificada. Através de seus sermões, Pe. Vieira luta por justiça social e por uma Colônia livre de pecados e vícios. Seu irmão, Bernardo Vieira Ravasco, recebe sentença favorável ao crime contra o alcaide-mor e é substituído pelo filho Gonçalo Ravasco.

Antônio Vieira morre cego e surdo em 1697, acreditando no futuro próspero e mais feliz para portugueses e brasileiros, ele nunca perdeu as esperanças na grandiosidade do destino português. Seja por meio dos diálogos ou pensamento dos personagens, seja por meio do discurso indireto ou do indireto livre, o narrador oscila entre o jesuíta poderoso, o político astucioso, o diplomata, o sebastianista sonhador e o homem decadente – desdentado, cego e surdo.

O poeta Gregório de Matos retomado por Ana Miranda foi o da poesia satírica, que pintou em seus poemas tanto retratos de personalidades políticas e religiosas como de prostitutas e populares da época. Como bufão, ele circulava pelos diversos espaços sociais e era, relativamente, aceito por todos e reverenciado por alguns, isto lhe permitia retratar uma sociedade diferente daquela encontrada nos livros de história. E, enquanto pintava a sociedade, o poeta esboçava para si mesmo um retrato com faces diferentes: o religioso, o mulherengo, o político, o mediador, o difamador.

Assim, o que Ana Miranda faz é misturar, mesclar discursos, arrancando molduras dos retratos pintados pelos biógrafos, historiadores e literatos, compondo um novo painel. Boca do Inferno é, pois, uma releitura: a ficção relê a história por meio da literatura. Dessa forma, lacunas são preenchidas e certezas são colocadas em dúvida, num processo de desvelamento de sentidos.


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Fonte:
Eduardo Vieira Gervásio: "PARAÍSO E INFERNO: IMAGENS DO NOVO MUNDO NA TRADIÇÃO COLONIAL E NOS ROMANCES DE ANA MIRANDA".(Tese apresentada ao Curso de Doutorado em Letras e Linguística da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás, para obtenção do título de Doutor em Letras e Linguística na área de concentração Estudos Literários. Orientadora: Profª. Drª. Maria Zaira Turchi). Goiânia, 2013.

Nota:
A imagem inicial inserida no texto não se inclui na referida tese.
As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.
O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho.
Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade.

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