16/01/16

Maria Rosa Mística - Sermão IX, de Padre Antônio Vieira

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Os sermões oníricos

Se observarmos estritamente os “index das cousa mais notáveis”, presentes nos volumes da editio princeps, e excetuarmos o tríduo de Xavier Dormindo, encontraríamos somente cinco sermões que tratam das matérias do “sonho” e “sonno”: S. Roque (1652); Sta. Tereza (s/d); Esposo da Mãe de Deus S. José (1644); Quinta Dominga da Quaresma (1655); Bons Annos (1641). Realizando, porém, uma leitura mais ampla dos Sermoens, notamos que os “index” não indicavam com precisão a recorrência dos temas oníricos nos sermões. Localizamos pelos menos outros sete sermões que mesmo de modo tangencial abordaram o dormir e o sonhar: Mandato (1655); Segundo e Terceiro do Rosário (s/d); Quinta Dominga da Quaresma (1654); Primeira Dominga do Advento, (1655); Quarta-Feira de Cinzas, (1670), 3ª Quarta-Feira da Quaresma (1670).

A partir daí pudemos realizar algumas classificações semânticas de “sonno” e “sonho” nos sermões compulsados. A primeira delas diz respeito à incidência das matérias nos sermões. Observamos aqui três grupos:

  • sono - Santa Tereza (s/d), 3º do Rosário (s/d), 5ª Dominga da Quaresma (1654); 
  • sonho - Mandato (1655), 2º do Rosário (s/d), Bons Anos (1641), 5ª Dom. da Quaresma (1655), 3ª Quarta-Feira da Quaresma (1670); 
  • sono e sonho - S. Roque (1652), 1ª Dom. do Advento (s/d), 2ª Dom. Adv (s/d), 3ª Dom. Adv.(1644), 4ª Feira de Cinzas (1670), Esposo da Mãe de Deus S. José (1644).
Em grande parte, as matérias apareceram ligadas aos sonhos bíblicos, que se caracterizavam            pelo  caráter  profético,  especialmente  os  sonhos:  no  Antigo Testamento, de Jacob; José; Faraó; Nabucodonosor e Daniel; nos Evangelhos, de S. José.

Importante também é perceber as diferentes acepções das palavras sono e sonho tomadas em cada prédica. Mais do que se limitar a um só sentido, Vieira utilizou da vasta gama de significações assumidas por essas palavras. Para Vieira, sono foi a pequena morte, descanso. Além disso, o sono se estabeleceu relação inversa à vigilância, por isso:

para afirmar [algo], hei de ver com os olhos primeiro; e se para isso for necessário que os olhos não durmam quarenta noites, estando vigiando a uma esquina, hei-o de fazer sem descansar, até ver averiguada a minha suspeita. Ah! ronda do inferno! Ah! sentinela de Satanás! Este mesmo, se lhe mandar o confessor que faça exame de consciência meio quarto de hora antes de se deitar, não o há de poder fazer com o sono. Mas, para destruir honras, para abrasar casas, estará feito um Argos quarenta noites inteiras. Não cuidem, porém, estes malignos vigiadores, que por aí se livrarão de mentirosos. Fostes, vigiastes, observastes, vistes, dissestes, e tendes para vós que falastes verdade? Pois mentistes muito grande mentira. Os olhos mentem de dia, quanto mais de noite. Grande caso!

No S. da 1ª Dominga do Advento (1655), Vieira ampliou essa correlação, qualificando a passagem do tempo a partir do mote “Tudo passa, e nada passa. Tudo passa para a vida, e nada para a conta” e pelo seu estado de vigilância ou não:

Todos vamos embarcados na mesma nau, que é a vida, e todos navegamos com o mesmo vento, que é o tempo; e assim como na nau uns governam o leme, outros mareiam as velas; uns vigiam, outros dormem; uns passeiam, outros estão assentados; uns cantam, outros jogam, outros comem, outros nenhuma coisa fazem, e todos igualmente caminham ao mesmo porto; assim nós, ainda que o não pareça, insensivelmente vamos passando sempre, e avizinhando-se cada um ao seu fim; porque tu, conclui Ambrósio, dormes, e o teu tempo anda: Tu dormis, et tempus tuum ambulat. Disse pouco em dizer que o tempo anda, porque corre e voa; mas advertiu bem em notar que nós dormimos; porque tendo os olhos abertos para ver que tudo passa, só para considerar que nós também passamos, parece que os temos fechados.

A vigilância foi entendida como o emprego de “todo o vosso cuidado” e empenho nos trabalhos, porque “a perfeição não consiste nos verbos, senão nos advérbios; não em que as nossas obras sejam honestas e boas, senão em que sejam bem feitas.” Por isso, muitas vezes os sonhos são quimeras, pois desejos do mundo aparente:

Sonhastes no último quarto da noite, quando as representações da fantasia são menos confusas, que possuíeis grandes riquezas, que gozáveis grandes delícias, e que estáveis levantado a grandes dignidades; e quando depois acordastes, vistes com os olhos abertos, que tudo era nada? Pois assim passam a ser nada em um abrir de olhos todas as aparências deste mundo, diz o mesmo profeta.

Mesmo no sonho de José, anunciado divinamente e, por isso, concretizado, as coisas profetizadas se esvaíram por causa da ação inexorável do tempo:

Sucedeu-lhe José, o que sonhou as suas felicidades e as adorações de seu pai e irmãos; e posto que todas se cumpriram, todas passaram como se foram sonho.

Isso não significou, contudo, que o anúncio feito no sonho não possuiu conseqüências e dimensões materiais na esfera terrena. Usando o mesmo episódio bíblico, Vieira, em outros sermões sobre o Advento, mostrou que José, devido a sua visão foi perseguido pelos seus irmãos:

Dormindo estava José quando sonhou, e porque sonhou o condenaram á morte seus irmãos.


A José revelou Deus, que seus irmãos o haviam de adorar; mas como esta revelação foi feita em sonhos, chamavam-lhe os irmãos o Sonhador; e, primeiro com a morte, e depois com a venda, lhe quizeram impedir a proeminencia sonhada.

As conseqüências no sonho de José se deram, sobretudo, porque a profecia onírica foi narrada e interpretada. Nabucodonosor precisou do profeta Daniel para a revelação do significado oculto na figura da estátua. Jacob, no sonho da escada, “Accordou assombrado (…), não do que vira, senão do que na mesma visão Deus lhe revelara”. Jacob não conseguiu, contudo, apreender o significado como um todo, porque a revelação é realizada ao longo dos tempos contingentes: “Êste é o mistério de tôda a escada, em que Jacob não reparou inteiramente, como quem estava dormindo”. Para tanto, foi necessária a leitura posterior dos intérpretes instruídos e capazes que resignificaram o sonho, atualizando-o.

O sonho profético foi representação da Verdade manifesta, na qual se vislumbraria o que virá. Como escrito na História do Futuro, as profecias se revelariam verdadeiras com o passar dos acontecimentos vislumbrados e, com a proximidade do evento, mais clara seria a leitura das profecias e, portanto, do “hemisfério invisível” do tempo, o Futuro. Não é, portanto, somente um espelhamento mimético e estilístico, como quando o sonho foi usado enquanto metáfora de teatro ou pintura da vida. Na retórica do jesuíta, a representação constituiu o uso de signos, de modo analógico, que traduz a Presença invisível de modo substancial e visível. O sonho profético, divinamente inspirado, foi assim tradução do plano Divino, que, contudo, necessita da ação humana (“causas segundas”) para sua interpretação e posterior realização, como expresso nas matérias do “cuidar” e “agir”.

Vieira ao reinterpretar as visões oníricas, as readequou ao plano português, na esfera político-imperial da sua “visão onírica”. Os sonhos de Nabucodonosor, Daniel, José, Jacob, entre outros, se refeririam ao projeto do Quinto Império e à eleição da nação lusitana, liderada pelo seu monarca, como o novo povo escolhido. Eleição esta feita a partir das ações dos portugueses, que, só as faziam e deveriam continuar a fazer, por serem sabedores dessa mesma eleição: “Digo politicamente, que nas acções se hão de fundar as eleições; digo espiritualmente, que nas acções se devem segurar as predestinações”. A “ação”, expressa no “cuidado” e a “vigilância”, tornou-se em Vieira ponto indispensável para a realização do Futuro glorioso destinado aos lusitanos, como veremos nos Ss. de Xavier Dormindo.


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Fonte:
Luís Filipe Silvério Lima: “PADRE VIEIRA: SONHOS PROFÉTICOS, PROFECIAS ONÍRICAS. O tempo do Quinto Império nos sermões de Xavier Dormindo”. (Dissertação de Mestrado apresentada ao programa de Pós-Graduação de História Social da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Orientador:   José   Carlos   Sebe   Bom Meihy). São Paulo, 2000.


Nota:
A imagem inicial inserida no texto não se inclui na referida tese.
As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.
O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho.
Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade.

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