25/01/16

Comentários sobre a Guerra Gálica, de Júlio Cesár


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O problema dos Commentarii: o ornatus

Em vários aspectos podemos medir a aproximação dos Commentarii de Bello Gallico, com os preceitos da historia ornata. Vale antes de tudo lembrar que o gênero commentarii não se confundia com o gênero historiográfico. Via de regra, os comentários não eram considerados literatura, mas notas para futura redação de histórias literárias. Em Roma, temos o dado de que os comandantes em campo remetiam periodicamente ao Senado relatórios das batalhas. É desses relatórios, mais do que de uma obra histórica, que os Commentarii se aproximavam.

Era costumeiro na república romana, e manteve-se assim até o tempo do imperador Augusto, que os comandantes de exército e governadores enviassem ao Senado um relatório escrito de suas atividades. Tais relatórios poderiam ser usados para apresentar seus feitos ao público geral caso necessitasse. Os relatórios de César ao Senado foram, por sua vez, a base de seus “Comentários” sobre a Guerra Gálica.

A obra de César, no entanto, ganhou status histórico por seu valor literário, e pela importância de seu ilustre autor. Recorreremos à antológica citação de Cícero, à qual voltaremos ainda outras vezes:

(...) orationes quidem eius mihi uehementer probantur. compluris autem legi; atque etiam commentarios quosdam scripsit rerum suarum.

Valde quidem, inquam, probandos; nudi enim sunt, recti et uenusti, omni ornatu orationis tamquam ueste detracta. Sed dum uoluit alios habere parata, unde sumerent qui uellent scribere historiam, ineptis gratum fortasse fecit, qui uolent illa calamistris inurere: sanos quidem homines a scribendo deterruit; nihil est enim in historia pura et inlustri breuitate dulcius.

As suas orações são realmente aprovadas por mim. Muitas de fato eu li; e também aqueles comentários que escreveu dos seus feitos, muito devem ser aprovados; são, realmente, nus, diretos e belos, desprovidos de qualquer ornamento oratório, como um corpo sem sua roupa. Mas, enquanto quis deixar pronto material para outros escreverem a história, fez talvez obra grata aos ineptos que vão querer dotá-la de excessivos ornamentos, mas desencorajou os sensatos de escrever; nada é realmente mais doce, em história, do que a pura e clara brevidade.

Aqui atentaremos à expressão “desprovidos de qualquer ornamento oratório”, literalmente desprovida do ornatus, é esse o ponto que descaracteriza a obra enquanto história. E é por esse ponto, que marca a ausência daqueles três elementos presentes nos outros historiadores, que muitos não consideram os Commentarii como obra de história:

A estrutura por acontecimentos em vez da tradicional analística romana:

César se mantém apegado à descrição ano a ano, uma justificativa para tanto é que as operações militares cessavam durante o inverno, de modo que realmente as campanhas eram anuais. Além disso, o relato não tematiza o todo da relação entre os romanos e os gauleses, mas se limita aos incidentes político-militares do período do proconsulado de César; incidentalmente, no livro sétimo, temos a pacificação definitiva da Gália. O livro oitavo, descartados os problemas de autoria, serve como uma junção com o Bellum Ciuile.

A pesquisa das causas e circunstâncias de cada ato:

César visa, de certo modo, explicar as causas para os atos dos povos e das pessoas, essa explicação, no entanto, carece de profundidade quanto ao problema das relações galo-romanas. Eis um exemplo:

Apud Heluetios longe nobilissimus fuit et ditissimus Orgetorix. is M. Messala (et P.) M. Pisone consulibus regni cupiditate inductus coniurationem nobilitatis fecit et ciuitati persuasit, ut de finibus suis cum omnibus copiis exirent: perfacile esse, cum uirtute omnibus praestarent, totius Galliae imperio potiri. Iid hoc facilius iis persuasit, quod undique loci natura Heluetii continentur: una ex parte flumine Rheno latissimo atque altissimo, qui agrum Heluetium a Germanis diuidit, altera ex parte monte Iura altissimo, qui est inter Sequanos et Heluetios, tertia lacu Lemanno et flumine Rhodano, qui prouinciam nostram ab Heluetiis diuidit. His rebus fiebat ut et minus late uagarentur et minus facile finitimis bellum inferre possent; qua ex parte homines bellandi cupidi magno dolore adficiebantur. Pro multitudine autem hominum et pro gloria belli atque fortitudinis angustos se fines habere arbitrabantur, qui in longitudinem milia passuum CCXL, in latitudinem CLXXX patebant.

Entre os helvécios, foi Orgetórix, de longe, o mais nobre e o mais rico. Ele, durante o consulado de Marco Messala e Marco Pisão, movido pelo desejo de reinar, fez uma conjuração da nobreza, e persuadiu à sua cidade que saísse do seu território com todos os seus recursos, dizendo ser facílimo, uma vez que em valor excediam a todos os demais, apossarem-se do império de toda a Gália. Isto os persuadiu mais facilmente, porque de todos os lados os helvécios estão apertados pela natureza do lugar; de uma parte, pelo rio Reno, muito largo e profundo, que divide seus campos helvécios dos germanos; de outra, pelo altíssimo monte Jura, que está entre os séquanos e eles; da terceira, pelo lago Lemano e rio Ródano, que divide a nossa província deles. Por estas razões, acontecia que podiam se estender menos, e menos facilmente levar guerra aos vizinhos; razão pela qual, homens tão desejosos de guerrear grande mágoa sofriam. Pela sua multidão de homens e pela glória na guerra e na resistência, julgavam estreito o seu território, o qual se estendia duzentos e sessenta mil passos em comprimento e cento e oitenta mil em largura.

Temos aqui a enumeração das razões do personagem Orgetórix: a ambição pessoal de reinar diante da condição de preponderância; e a enumeração dos motivos de guerra para o povo: certeza da superioridade, por força e por número, situação inicial inferior àquela que eles consideravam digna para si.


A ausência da justificativa e da moral

Este é um ponto controvertido que se encontra no cerne do problema da propaganda nos Commentarii, basicamente, o autor se esforça justamente por mascarar seu julgamento e sua proposta, insinuando-os em meio à quase inevitabilidade dos acontecimentos. Esta característica está intimamente relacionada ao fato de ser ele mesmo o personagem principal de seu relato e às suas motivações políticas no momento da publicação da obra.


Autobiográfica

Por narrarem um evento do qual o autor tomou parte, os Commentarii são também material autobiográfico. Esse tipo de discurso teve larga difusão e aceitação na antiguidade e, em Roma, desenvolveu uma importante tradição.


Tradição da autobiografia em Roma

Em Roma, principalmente em seu princípio, o Estado era visto como uma projeção da família, uma arqui-família; pois era composto pelas tribos, que se dividiam em cúrias e as cúrias em gentes. Se, por um lado a fonte de celebridade era sempre a política, por outro a política romana era justamente conduzida pelos grandes aristocratas. Assim, a história das gentes, as grandes famílias, e a história do Estado eram pensadas sobre a mesma estrutura.

É considerado geralmente que crônicas das grandes famílias Romanas existem desde os primeiros anos da república; esta visão é defendida na força de uma observação de Lívio, que fala, com referências a fontes dos primórdios históricos de Roma, de príuatis publicisque monumentis, que foram perdidos no incêndio de Roma. Mas a interpretação tradicional dessa passagem é dificilmente defensível. O próprio Lívio, escrevendo na época de Augusto, assuma uma distinção entre “público” e “privado” (literalmente “à parte”, por exemplo, do Estado) que pode, dificilmente, ter existido nos primeiros dias. A literatura histórica dos romanos, embora baseada na tradição das famílias patrícias, não consistia nas histórias dessas famílias, mas nas do Estado Romano.

A grandeza da aristocracia romana, que caracteriza toda a política interna e externa da república, deixou sua peculiar impressão nos anais nacionais. Enquanto a historia de países com governos déspotas é de uma extensa narrativa pessoal dos feitos dos sucessivos governantes, a história de Roma é uma soma total de crônicas conectadas que registram as explorações das grandes famílias.


Exempla
, mos maiorum e laudatio.

A grande relevância da biografia em Roma se deve ao caráter romano basear-se nos exempla dos antepassados ilustres; a imitação destes antepassados era o cerne do mos maiorum, literalmente o costume dos antepassados. Esta tradição parte do culto familiar, no qual os antepassados eram divinizados, isto gerou a laudatio, discurso fúnebre que recordava os feitos do falecido. Estes discursos celebrizavam pro que meios um homem era considerado digno de servir de exemplo, isto é, ser citado como referência dos valores da cidade, passando, assim, a fazer parte da tradição.

O apelo à autobiografia tornou-se particularmente importante para projetar ou justificar um político na época de César. Desde o fim das Guerras Púnicas, o poder pessoal só fez crescer em Roma até o ponto da primeira guerra civil e da ditadura de Sila (82 a 79). Este ditador logo tratou de escrever uma autobiografia, assim como fizeram os cônsules Escauro e Rufo, contemporâneos de Sila. A turbulência política propiciava a proliferação de obras de autojustificação.

Na vida política, onde o desejo por poder encontra sua mais intensa expressão e a manutenção da posição de um homem aos olhos do público é uma das maiores preocupações, a autobiografia, que aparecia apenas raramente entre os antigos em outras esferas, foi largamente utilizada, e a vida em Roma, que visava a liderança individual e a atividade responsável, no mínimo, com o desenvolvimento de um senso comum prático e que, por sua vez, como uma atividade consistente com um propósito definido, supria a massa dos auto-retratos dos tempos antigos.

Aqui, a autobiografia era considerada como um tipo de trabalho literário reconhecido.


Cícero e a retórica

Cícero também considera esse fenômeno em suas obras, demonstrando a importância de conhecer e se referir aos antepassados:

Cícero, no diálogo sobre a teoria da ética, um dos diálogos imaginários no qual ele aparece como principal falante, traz como trunfo contra a filosofia epicurista um argumento político-histórico: A teoria epicurista, diz ele, de que o prazer é o único bem não pode apelar aos grandes nomes da história, e é incompatível com a atitude requerida de um servo do Estado. Desta maneira ele coloca perante seu interlocutor, um aristocrata Romano o qual ele apresenta como um defensor do Epicurismo, a situação do aristocrata que tivesse que responder por suas visões e atividades quando subisse à Rostra e tivesse que declarar diante de uma audiência pública o objeto de suas ações, objetivos e esforços: “Você proclamará as regras que você se propôs a observar ao administrar justiça, e também, se você achar por bem, você seguirá o costume antigo de fazer alguma referencia a seus ancestrais e a você mesmo.”

Assim compreendemos que a biografia e a autobiografia encontram em Roma ambiente fértil para se desenvolver de maneira sistemática. Tinha sua base cultural nas laudatio, sua função determinada pelo ambiente político, e sua forma desenvolvida pelos padrões do estilo epidítico de retórica.


O problema dos Commentarii
 

Os Commentarii fornecem material autobiográfico, referindo-se às campanhas de César na Gália, e foram publicadas no contexto de autojustificação, logo antes do início da Guerra Civil, com clara intenção de garantir a dignitas do autor. Há, no entanto, diversos desvios na obra em relação ao estilo clássico de biografia, pois não se dedicam à descrição de uma pessoa e não há descrições minuciosas dos caracteres da personalidade do general. De fato, há uma intencional ausência de qualificações, exceto aquelas estritamente ligadas aos acontecimentos, ainda assim com uma forte simplificação. A obra não acompanha toda a vida de César, mas apenas o período da guerra.


O tempo

A primeira limitação no aspecto autobiográfico dos Commentarii é em relação ao tempo. A obra cobre apenas os anos de proconsulado na Gália, era nesta campanha que César esperava realizar a sua gloria e demonstrar sua dignitas. Isto limita a imagem que o autor deseja passar de si: o general vitorioso. Sabemos que em Roma o valor pessoal e a capacidade administrativa eram medidas pelo sucesso nas armas. Prova disso é a campanha de Cícero pela cedant arma togae, que se esforçou por mudar este costume.

Os Comentários de César não são uma autobiografia. Eles lidam apenas com cerca de nove anos de sua vida, sete deles sendo cobertos pela Guerra Gálica e o restante pela guerra civil, ou, mais precisamente, seu primeiro período (49-48 a.C.), até a batalha de Farsália e a morte de Pompeu. O intervalo entre as duas guerras foi depois preenchido por Hírcio, que adicionou um “livro” aos sete da Guerra Gálica. Ele estende a obra sobre a guerra civil “tão longe” ele diz “quanto à conclusão, não da luta civil, da qual nós não vemos o fim, mas da vida de César”. Este ponto de vista biográfico é um elemento adicional introduzido na obra que, como um relatório militar factual, começa: “A Gália é toda dividida em três partes.” Mas César forneceu mais em seus Comentários do que uma obra autobiográfica qualquer. Eles oferecem um exemplo de auto-revelação que pôde servir como amostra para as autobiografias dos historiadores e políticos das épocas seguintes, que em seu auto-retrato buscaram adotar um estilo elevado na clássica tradição antiga.
  
A ausência da laudatio

Outro ponto em que os Commentarii destoam das autobiografias tradicionais é em relação ao estilo retórico. Por serem obras políticas, as autobiografias traziam, assim como os panegíricos, características do estilo epidítico: a descrição com o elogio ou a censura. Nesta obra César dispensa o processo de laudatio para falar de si, e descreve sempre na perspectiva da ação, chegando a narrar feitos de outros em concordância com a coerência dos acontecimentos da guerra. Isso não quer dizer que não haja um elogio, mas que este parte das ações para sugerir, sem expli-citar, as qualidades do general.

A característica desta atitude é a objetividade no tratamento de si mesmo. César fala de si de um modo não-envolvido, na terceira pessoa, mas usando seu próprio nome, que ele gosta de usar repetidamente — por exemplo, “César, tendo antecipado que isto podia ser o curso natural dos eventos, esperou por dois dias para...” Ele não evitou absolutamente o uso da primeira pessoa, mas como romano, fala de soldados como “nossos homens”, nostri, e como autor usa o pluralis maiestatis, o “nós real”, em frases subsidiárias como “nós mostramos que...” Assim a pessoa focada e a pessoa que foca são separadas, enquanto que para nós a identidade dos dois é a marca essencial da autobiografia.


O excesso de narratio

César, em sua obra, traz, como vimos, características tanto da historia ornata quanto da tradição analística romana. Como descreve Misch:

Mas o dispositivo que César usa não é, de modo algum, artificial, parece, na verdade, a maneira natural de se expressar, pois é baseado num sério propósito, aplicável tanto para o historiador quanto para o homem de estado fixar-se aos fatos e deixá-los falar. São os fatos e não ele mesmo que proclamam sua fama. Ele não usará da retórica, e chama uma espada de espada, sem adornos de nenhum tipo; e da mesma maneira ele abstém-se de qualquer expressão de sentimento.

A objetividade no texto da descrição dos fatos busca somar a simplicitas da pureza estilística à grauitas da ação. César, na verdade, faz um avanço em relação à tradição autobiográfica: ele busca transmitir, pelo estilo, as mesmas qualidades que atribui a si enquanto general. Como tinha a dignitas como objetivo, ele tratou de emular os antigos heróis romanos, não só nos feitos, mas trazendo uma qualidade considerada rara em sua época. Justo ele, que se incluía no grupo dos oradores “áticos”, mesclou a influência helênica com a tradição latina, utilizando um estilo sucinto e a estrutura analística, tidos como arcaizantes e opostos à proposta retórica da historia ornata.

Outro ponto destoante é a atenção dispensada aos feitos de outros personagens. O autor se preocupa em descrever todos os fatos relevantes para a condução das campanhas, isso inclui a ação de seus ajudantes e de seus adversários. Agindo assim, ele se aproximava de um historiador mais preocupado com a coerência e inteligibilidade do relato do que com a descrição de um personagem específico. Como se os acontecimentos na Gália fossem por si mais importantes do que a pessoa do general. Isto denuncia uma intenção de demonstrar modéstia.

Esta objetividade inclui precisão dos detalhes militares, mas isto também inclui qualidades humanas e morais: em vez de atribuir cada sucesso a si mesmo, no estilo das memórias políticas, César deu proeminência aos serviços prestados pelos seus ajudantes, e suas memórias são livres do abuso de seus inimigos, o que é uma notável característica da autobiografia de Sila, seu predecessor no poder ditatorial, e com a qual encontramos também na autobiografia de seu sucessor César Augusto.


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Fonte:
Paulo Roberto Souza da Silva: "A figura de César, autor e personagem, nos Commentarii de Bello Gallico". (Dissertação de Mestrado em Letras Clássicas apresentada ao Programa de Pós-graduação em Letras Clássicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Orientadora: Dra. Ana Thereza Basílio Vieira). Rio de Janeiro, 2006.


Nota:
A imagem inicial inserida no texto não se inclui na referida tese.
As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.
O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho.
Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade.

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