19/12/15

"Amar, verbo intransitivo", de Mário de Andrade

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FRÄULEIN E A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

Nosso trabalho tem se esforçado para tornar claro que o romance tematiza a necessidade de se ter uma consciência crítica diante da realidade vivida objetivamente. Nesse momento, vamos discutir como Mário de Andrade demonstra, nessa obra, uma constante reflexão histórica, em geral, e com a Primeira Guerra Mundial, em particular. Ele consegue perceber, como poucos, que a Primeira Guerra marca o início de uma nova era. Ela “começa com a Primeira Guerra Mundial, que assinalou o colapso da civilização (ocidental) do século XIX” (Hobsbawm, 1998, p.16). Nossa pesquisa tem como objetivo evidenciar que Mário, em Amar, verbo intransitivo, está discutindo exatamente isso. Mostrando que o mundo eurocêntrico, representado por Fräulein, levou o planeta a uma Era de Catástrofe.

Desde o início, Amar, verbo intransitivo é vazado pela discussão sobre as origens da Primeira Guerra Mundial. Seja mostrando a consciência repleta de teorias racistas e favorável ao totalitarismo da governanta, que para virar nazista será o próximo passo, seja evidenciando o frenesi irracional de uma geração que cultiva a atrocidade com os maiores valores transcendentais humanistas, como vários poetas expressionistas.

No começo da guerra muitos jovens lançaram-se com heroísmo, convictos de sua missão. Não só na Alemanha, mas entre outros países, pelo menos na Europa Ocidental, havia o orgulho de participar da guerra. Desse modo, os britânicos, notadamente entre suas classes altas, cujos rapazes, destinados como gentlemen a ser os oficiais que davam o exemplo, marchavam para a batalha à frente de seus homens e em conseqüência eram ceifados primeiro. (Hobsbawm, 1998) 

Muitos, após conhecerem os horrores da guerra mudavam de opinião, outros, porém, só se tornavam mais confiantes nela. Assim, aqueles que passaram pela experiência da guerra saiam convictos inimigos dela ou ,às vezes, extraíam da experiência partilhada de viver com a morte e a coragem um sentimento de incomunicável e bárbara superioridade – inclusive em relação a mulher e não combatentes – que viria a formar as primeiras fileiras da ultra-direita do pós-guerra. (..) O fato de ter sido frontsoldat era a experiência formativa da vida. A guerra parece ter sido a experiência mais forte já vivenciada por aquela geração de jovens que protestava contra os valores morais da família, lutava para manter-se à margem de uma sociedade que repudiava, escrevia como forma de expiação e muitas vezes se drogava para escrever. Alguns deles partiram entusiasmados para o front; tombaram em batalha, como Stramm, Stadler, Lichtenstein (...) Mas, se a principio a guerra funcionava como metáfora para o surgimento do novo, como para Georg Heym (“Se pelo menos alguém iniciasse uma guerra, nem precisaria ser justa. Essa paz é tão estagnante”, em 1910). (Hobsbawm, 1998, p. 33-34)

Outros tornam-se, politicamente, defensores de opiniões profundamente reacionárias, especialmente na literatura, às vezes traduzidas em práticas fascistas. No romance, o autor consegue indicar a predisposição de um dos principais poetas de língua alemã do século XX, Gottfried Benn, que aparece como personagem em algumas cenas, com o fascismo. Personagem importante, pois é ele quem apresenta o modernismo para Fräulein, evidenciando o tipo de Expressionismo que a influencia. O médico e poeta expressionista, amigo da governanta, que participava, ficticiamente, é claro, do seu seleto grupo de pares   “em 1933, alinhou-se com o nacional-socialismo, mas logo em seguida se afastou” (Cavalcanti, 2000, p. 49). Portanto, ele não divulga apenas os movimentos literários, mas, também, fecunda na consciência de nossa governanta, idéias políticas que conheceremos mais tarde pelo nacional-socialismo.

O texto andradiano possui toda essa discussão histórica, não só da situação política e social da Alemanha, antes e durante a República de Weimar, mas, também, de todo o processo histórico que culminou na Primeira Guerra Mundial. Essa discussão, novamente, gira em torno da consciência bi-partida da governanta: o homem-do-sonho e o homem-da-vida. Porém, agora ganha uma dimensão coletiva, não é apenas ela e sim “o alemão propriamente dito”, ou seja, é uma discussão sobre a sociedade alemã em determinado momento histórico. Vejamos como esse processo ocorre no romance:

Qual! Fräulein não podia se sentir a gosto com aquela gente! Podia porque era bem alemã. Tinha esse poder de adaptação exterior dos alemães, que é a maior razão do progresso deles.

No filho da Alemanha tem dois seres: o alemão propriamente dito, homem-do-sonho; e o homem-da-vida, espécie prática do homem-do-mundo que Sócrates se dizia.

O alemão propriamente dito é o cujo que sonha, trapalhão, obscuro, nostalgicamente filósofo, religioso, idealista incorrigível, muito sério, agarrado com a pátria, com a família, sincero e 120 quilos. Vestindo o tal, aparece outro sujeito, homem-da-vida, fortemente visível, esperto, hábil e europeiamente bonitão. Em princípio se pode dizer que é matéria sem forma, útil H 2 O se amoldando a todas as quartinhas. Não tem nenhuma hipocrisia nisso, nem máscara. Se adapta o homem-da-vida, faz muito bem.

Eu se pudesse fazia o mesmo, e você, leitor. Porém o homem-do-sonho permanece intacto. Nas horas silenciosas da contemplação, se escuta o suspiro dele, gemido espiritual um pouco doce por demais, que escapa dentre as molas flexíveis do homem-da-vida, que nem o queixume de um deus paciente encarcerado.

O homem-da-vida é que a gente vê. Ele criou no negócio dele artigo tão bom como o do inglês. Cobra caro. M as não vê que um comprador saiu com as mãos abanando por caus a do preço. Adapta-se o homem-da-vida. No dia seguinte o freguês encontra artigo quase igual ao outro, com o mesmo aspecto faceiro e preço alcançável. Sai com os bolsos vazios e as mãos cheias. O anglo da fábrica vizinha, ali mesmo, só atravessar um estirão de água zangada, não vendeu o artigo dele. Não vendeu nem venderá. E continuará sempre fazendo-o muito bom.

Eu admirava mais o inglês se só este conseguisse manipular a mercadoria excelente, porém alemão homem-da-vida também melhora as coisas até a excelência. Apenas carece que alguém vá na frente primeiro. Isso o próprio Walter de Rathenau observou, grande homem!... homem-do-sonho. Os outros que inventem. O alemão pega na descoberta da gente e a desenvolve e melhora. E a piora também, estabelecendo uma tabela de preços a que podem abordar bolsas de todos os calados. Daí, aos poucos, todo o mundo ir preferindo o comerciante alemão.

Os países de exportação industrial viam o fenômeno, de cara feia. O homem-da-vida observava a raiva da vizinhança... E se lá nas trevas interiores, onde se reúnem as assombrações familiares, o homem-do-sonho também cantava o seu “Home, sweet home” que a nenhuma raça pertence e é desejo universal, o homem-da-vida se adaptava ainda. Construía canhões pelas mãos brandas duma viúva. Armazenava gases asfixiantes afiava lamparinas pra cortar futuramente os imaginários bracinhos de quanto Haensel e quanta Gretel imaginários e franceses produz o susto razoável de Chantecler. Bárbaro tedesco, infraterno germano infraterno!.

Aceitemos mesmo que engordasse a idéia multissecular, universal e secreta, da posse do mundo... Não culp e-se por ela o homem-do-sonho. O da-vida é que se observando vitorioso no mundo concluía que era muito justo lhe caber a posse do tal. Quem que errou forte e incorrigivelmente? Só Bismarck. Alguém chamou esse homem de “último Nibelungo”... Nibelungo, não tem dúvida. Conseguiu Alsácia, ouro do Reno, pela renúncia do amor.

Enquanto isso todos os países da terra, abraçados, se amavam numa promíscua rede comum, não é? Estávamos no primeiro decênio deste século que deu no vinte. Tod os os abraçados perdiam terreno. O homem-da-vida ganhava-o. Por adaptação? É. Será? Vejo Serajevo apenas como uma bandeira.

Nas pregas dela brisam invisíveis as ambições comerciais. Pum!

Taratá! Clarins gritando, baionetas cintilando, desvairado matar, hecatombes, trincheiras, pestes, cemitérios... Soldados desconhecidos. A culpa era do homem-da-vida, não é? Porém a guerra foi inventada pelos proprietários das fábricas vizinhas, isso não tem güerê nem pipoca! Não foi.

Culpa de um, culpa de outro, tornaram a vida insuportável na Alemanha. Mesmo antes de 14 a existência arrastava difícil lá, Fräulein se adaptou. Veio pro Brasil, Rio de Janeiro. Depois Curitiba onde não teve o que fazer. Rio de JaneiroSão Paulo.

Agora tinha de viver com os Sousa Costa. Se adaptou. -... der Vater... die Mutter... Wie geht esihnen?… A pátria em alemão é neutro: das Vaterland. Será! Vejo Sarajevo apenas uma bandeira. Nas pregas dela brisam… etc.

 (Aqui o leitor recomeça a ler este fim de capítulo do lugar em que a frase do etc. principia. E assim continuará repetindo o cânone infinito até que se convença do que afirmo. Se não se convencer, ao menos convenha comigo que todos esses europeus foram uns grandessíssimos canalhões.) (Andrade, 1995, p. 59-61) 

O romance nos mostra, de modo muito claro, os acontecimentos que levaram à Primeira Guerra Mundial e, traz consigo, opiniões diferentes para explicá-la. Primeiramente, encontramos, através da sonoridade, a guerra acontecendo: “Pum! Taratá! Clarins gritando, baionetas cintilando, desvairado matar, hecatombes, trincheiras, pestes, cemitérios...”

Essa descrição da guerra aparece, nesses termos, nos versos do primeiro poema do seu primeiro livro, EXALTAÇÃO DA PAZ :

“clarins gritando, baionetas scintilando
 (...)
desvairado matar, hecatombes monstruosas.” (Andrade,
1960, p. 16-17)

O que leva Mário a reaproveitar os seus primeiros versos em um romance complexo e amadurecido é, sem dúvida, um forte indício de um mesmo questionamento que está presente em toda a su a obra, é uma preocupação perene nele refletir sobre as causas da guerra, porém sob outra perspectiva. No seu primeiro livro, Mário apela par a os sentimentos humanistas, como amor, amizade e fraternidade para cessar o absurdo daquela matança. Nesse, ele entende que há um discurso de superfície que escamoteia os reais interesses do conflito. Agora esse processo é claro: “Vejo Serajevo apenas como uma bandeira. Nas pregas dela brisam invisíveis as ambições comerciais.” Ou seja, o assassinato do Arquiduque Ferdinando, em Serajevo, foi apenas uma “bandeira”, uma forma de justificar o conflito. As verdadeiras motivações estão “invisíveis”, foram “a s ambições comerciais”. O narrador convida o leitor a refletir sobre a realidade profunda que se esconde sob a superfície daquilo que a história oficial nos apresenta. 

Comparando o primeiro livro de Mário e o romance que trabalhamos, vemos que o tema era o mesmo, mas a abordagem é bem diferente. No primeiro há o esforço descritivo, na tentativa de captar a realidade imediata, que se oferece aos sentidos. Assim, o poeta buscou trazer, diante dos olhos do leitor, a destruição da guerra para que ele percebesse o seu absurdo. Neste romance o enfoque é outro, agora o narrador insiste que o leitor perceba que há um discurso para justificar a ação militar, porém os reais interesses permanecem “invisíveis”, que são os interesses comerciais. Assim, o romance exige do leitor não só um conhecimento da realidade sensorial, mas, principalmente, de um processo que levou a uma realidade histórica determinada.

Nesse momento, o narrador convida o leitor a repensar o enfoque para o conflito e assim perceberá que, ao longo da História, continua repetindo o “cânone infinito” de que é o interesse econômico qu e motiva a ação militar. A linguagem musical é uma das chaves fundamentais para decifrar esse romance, assim, cânone é uma forma musical que se caracteriza pela sua circularidade. O cânone é, basicamente, uma melodia que se repete várias vezes, indefinidamente, se o regente quiser, e é, geralmente, comum como canto coral. De acordo com o que nos interessa, se o leitor não tiver consciência dos reais interesses envolvidos nos conflitos, esse cânone infinito reiniciará, que é essa música macabra das baionetas e dos canhões. Ou seja, o leitor só poderá agir para superar essa circularidade se tiver uma consciência da sua realidade histórica, essa sim, mais profunda e que determina a realidade aparente.

Nesses conflitos quem morre: “Soldados desconhecidos.” Estes não são apenas o indício de que outros morrem para defender o interesse de alguns, mas, também, são aqueles que estão imersos na despersonalização, provavelmente, morreram para defender idéias e valores alheios aos seus verdadeiros interesses. Como são levados no turbilhão das circunstâncias, sem tematizá-las, não reconhecem os interesses em jogo e são tidos como seres sem rosto.

Nesse sentido, na trama textual, o romance expõe a perspectiva histórica de Fräulein, pois foram essas circunstâncias que fizeram dela professora de amor, como já analisamos anteriormente, porém, agora é importante notar como ela, intransigentemente, nega a responsabilidade dos alemães, bem como, do seu tradicional modo de vida.

Na perspectiva de Fräulein, no alemão existe dois seres: “o alemão propriamente dito”, que seria um ser idealizado, “filósofo, religioso, idealista”, enfim, um ser a-histórico e a sua outra parte, voltada para a vida prática, que é o “comerciante alemão”. Ela afirma que são seres que não se misturam, pois pretende proteger o primeiro da realidade vivida historicamente, porém, tentaremos mostrar que eles se determinam mutuamente.

O alemão propriamente dito é o homem-do-sonho que defende, basicamente, a forma patriarcal de família e a pátria, entendida como uma extensão da família. Dessa forma, o alemão é devota do em defender a sua pátria e em prover a família, vivendo em um mundo que está acima da realidade histórica, incluindo nesse contexto, a negação da política. Dessa forma, é possível historicizar esse alemão homem-do -sonho, que a governanta envolve em uma aura divina.

O texto traça todos os elementos que fez surgir a Primeira Guerra e a atuação de seus principais atores, que formavam a Frente Ocidental: Alemanha,Inglaterra e França. Além disso, narra esse processo sob a ótica de Fräulein. Ela defende que a guerra é o resultado da luta dos homens-da-vida desses três Impérios, estes atuam na fábrica e no comércio, enfim, é o capitalista. O conflito, inicialmente, se dá entre a Alemanha, que se moderniza, e a Inglaterra. Pela primeira vez esta fica para trás na produção de mercadorias, por isso, “os países de exportação industrial viam o fenômeno, de cara feia. O homem-da-vida observava a raiva da vizinhança...” ou seja, o permanente crescimento da produção industrial e das transações comerciais exigia a fundação de um império com a conquista de novas terras e de uma política calcada no uso da força, quer dizer, a economia suplanta a política.

E para as duas grandes potências capitalistas, Alemanha e Grã-bretanha, “o céu tinha de ser o limite. (...) Era uma questão ou de uma ou de outra.” (Hobsbawm,1998, p. 37) O enorme incremento do capital na Alemanha, como evidencia o romance, do fim do século e a rivalidade com a Inglaterra levou ao choque dos Impérios:

Na era dos Impérios a política e a economia se haviam fundido. A rivalidade política internacional se modelava no crescimento e competição econômicos, mas o traço característico disso era precisamente não ter limites. As “fronte iras naturais” da Standard Oil, do Deustche Bank ou da De Beers Diamond Corporation estavam no fim do universo, ou melhor, nos limites de sua capacidade de expansão. (Hobsbawm, 1998, p. 37)
  
É preciso notar que Fräulein isenta o homem-do-sonho de qualquer responsabilidade, este “permanece intacto”. Ele é o lado abstrato, conceitual do alemão. Ou seja, diante da realidade vivida objetivamente, ele não muda suas convicções e idéias, enfim sua consciência não sofre influência das transformações históricas.

Este alemão tradicional defende a família patriarca, que se expressa no seu ”home, sweet home”, quer dizer, em qualquer língua, entenda-se qualquer sociedade, o homem sempre tem o “desejo universal” de prover a sua família.

Essa intenção é de todos e a “nenhuma raça pertence”. Pela ótica de Fräulein, o desejo de consumo está acima do tempo e do espaço, nesse sentido essa idéia aparece-lhe como natural e não histórica.

Para realizar este ideal de felicidade , o alemão adapta-se à realidade, ou seja, suspende temporariamente os valores éticos e morais, que pertencem ao mundo abstrato, e atua, pragmático e violentamen te, para que ocorra esse sonho inflexível e acabado.

O resultado desse processo adaptativo e que pessoas comuns construíam “canhões pelas mãos brandas duma viúva”, ou seja, para defender seus sonhos, foram capazes das maiores atrocidades. De um discurso humanitário, apelativo e comovente aparece os “gases asfixiantes”, sabemos que os alemães levaram o gás venenoso ao campo de batalha já na Primeira Guerra. Para o leitor atento, é fácil notar que por trás do discurso de conto de fada, “quanto Haensel e quanta Gretel”, esconde-se o interesse econômico, mas, para Fräulein, o alemão apenas defendia o seu ideal de vida. Haensel e Gretel são personagens de um dos contos dos Irmãos Grimm. Neste é narrado a história de uma família pobre, onde o pai, lenhador, não tendo o pão de cada dia suficiente para todos, é convencido pela esposa, madrasta das crianças, à abandoná-las na floresta para serem devoradas pelos animais. Este é o nome, também, da ópera mais famosa no início da século XX na Alemanha.

O enredo da ópera Haensel e Gretel baseia-se no conto dos Grimm de mesmo nome. Composta pelo músico Humperdinck e sua irmã Frau Adelheid Wette, teve a sua estréia na cidade Weimar em 23 de dezembro de 1893 e, em pouco tempo, ficou popularíssima em toda a Alemanha e, também, internacionalmente. Diferentemente do que poderíamos esperar, esta ópera é destinada a adultos e não ao público infantil, a partir daí podemos entender esse espírito alemão, que o narrador qualifica de “ um pouco doce por demais”.

Para a sua narrativa, Frau Wette promove algumas alterações no conto.

Primeiramente, o lenhador dos Grimm é convertido em um construtor de vassouras, um vassoureiro. A sua esposa não é madrasta e sim a mãe dos meninos, além disso, ela não é verdadeiramente má, mas apenas pobre e inquieta com a situação em que vivem.

A família é apresentada como pobre, porém, “é gente honesta e trabalhadora que não desleixa nem a casa nem os filhos” (Newman, 1946, p. 220). Quando vão dormir com fome, na mais absoluta carência, os seus membros repetem como um refrão: “Quando não podemos suportar a nossa dor, então é o Céu que nos manda alívio!” (Newman, 1946, p. 221). O episódio da floresta se dá porque a mãe, enfurecida por Haensel derrubar o último leite da casa, manda as crianças à mata para colher medronhos para substituir o leite. Dessa forma, a ópera mostra como a situação de miséria do povo alemão era exibida através de um texto de conto de fadas e quão distante estavam de uma reflexão sobre a realidade vivida, pois como mostra a ópera, a solução vinha do céu e do sonho.

Haensel e Gretel são crianças abandonadas à própria sorte, tendo de se virar para escapar da bruxa que tenta devorá-las. Metaforicamente, esse é o destino dos jovens na guerra, abandonados pela própria família, pela pátria para serem devorados e tudo isso, por causa de pão, de interesses econômicos. O uso dessa ópera, nesse contexto, mostra que na Alemanha, nessa época, estava em curso uma poderosa linguagem que, por um lado mobilizava sentimentalmente os alemães, pois as pessoas se identificavam com essa família, e, por outro, esse apelo ao sonho e ao transcendental os impediam de pensar a sua realidade histórica.

O homem-do-sonho, como vimos, é abstrato e formado por conceitos e, pela nossa análise, estes conceitos são aqueles que caracterizam e defendem a família patriarcal e a velha Alemanha. A segunda é tida como a extensão da primeira: “der Vater (o Pai)... Die Mutter (A Mãe)” e “das Vaterland (a Pátria)” estão em contigüidade, lingüisticamente semelhantes , este expressaria as mesmas características daquele, ou seja, as mesmas idéias familiares expressam-se na esfera coletiva. A política, neste momento, atendia aos interesses de grupos econômicos poderosos que se apresentam como defensores de um modo de vida tradicional. A guerra foi a luta entre Impérios para a expansão do capital, escondido entre discursos nacionalistas e patrióticos, principal característica desse alemão ideal, que aparece como acima de qualquer interesse na versão da governanta :” A pátria em alemão é neutro: das Vaterland. Será!”. A última palavra, seguida da exclamativa, distancia o narrador da incapacidade, notória da governanta, de se abster da ideologia nacionalista que promove sentimentos patrióticos, aliado à mentalidade imperialista.

O discurso do homem-do-sonho defende conceitos nacionalistas, na política, e uma postura patriarcal no âmbito familiar. Não podemos esquecer que, aparentando defender o amor sagrado, Fräulein é contrária a emancipação das mulheres, para ela, as mulheres deviam ficar em casa e ter muitos filhos; defende o preconceito absurdo de uma raça pura e branca; sobretudo ela ataca a corrosiva influência da arte e da filosofia modernas, especialmente das artes modernistas, os traços gerais que compõem a personagem a aproximam da extrema direita, que as considerava, também, degeneradas. A combinação de valores conservadores familiares, com avanços da tecnologia, em constante aceleração, e essa ideologia de mitologia irracionalista, centrada em essência no nacionalismo, delineiam o modo de vida que Fräulein tenta exprimir.

Ela defende, na verdade, um mundo anterior ao implantado pela Revolução Francesa, articulado com a modernização tecnológica. Para que o alemão mantivesse o seu “desejo universal” de avanço industrial constante e progressivo, ele precisava de mercado consumidor e de matéria-prima para alimentar suas fábricas e, para tanto, torna inevitável a luta pelo mercado global: “Aceitemos mesmo que engordasse a idéia multissecular, universal e secreta, da posse do mundo... Não culpe-se por ela o homem-do-sonho. O da-vida é que se observando vitorioso no mundo concluía que era muito justo lhe caber a posse do tal. Quem que errou forte e incorrigivelmente?” É preciso ficar atento para a maneira utilizada por ela para tentar desvincular a idéia da prática que, porém, atuam juntas. A idéia da “posse do mundo” se realiza pela ação imperialista, é o anseio pela formação de um novo Reich. Podemos notar que o homem-do-sonho justifica a atuação imperialista do povo alemão, já que ele representa os conceitos e as idéias, resta ao homem-da-vida a tarefa de efetivação daquilo que é apenas o ideal, enfim, o projeto. Dessa forma, fica claro que estamos diante da representação da conhecida máxima da política realista de que os fins justificam os meios. Daí a referência a figura de Bismarck, como aquele que agiu para defender fins nobres e elevados. Pela perspectiva de Fräulein, os alemães não devem ser responsabilizados pelo conflito: “A culpa era do homem-da-vida, não é? Porém a guerra foi inventada pelos proprietários das fábricas vizinhas, isso não tem güerê nem pipoca! Não foi.” Nesse trecho, não devemos esquecer que os “proprietários das fábricas vizinhas”, esse característica fabril como sendo um atributo dos ingleses e é a estes que Fräulein atribui, principalmente, responsabilidade pela guerra.

Porém, podemos encontrar outro participante importante do combate que é aludido no texto.

Pela ótica da governanta, a posse do mundo é uma idéia a-histórica, portanto, não era desejo só dos Impérios e sim, também, de todos os povos e de todas as sociedades, porém, só os mais fortes poderiam realizá-la. Se o homem-do-sonho é o universo dos conceitos, então, essa idéia, no espírito alemão, foi manipulada para levá-los à necessidade do conflito. “A guerra tinha de ser travada mediante a mobilização da opinião pública” (Hobsbawm, 1998, p.37). O discurso transcendental do homem-do-sonho, enfim, era o da propaganda: “o espírito alemão regenerará o mundo” ( Hobsbawm, 1998, p.38), diziam; o domínio de povos coloniais era “para assegurar o progresso de povos atrasados, entregues humanitariamente às potências imperiais” (Hobsbawm, 1998, p. 41). É importante notar que Fräulein, ao esmo tempo em que reconhece a existência de tais idéias, isenta o ale mão, propriamente dito, de qualquer responsabilidade, dessa forma, seu universo conceitual não se altera, ao contrário, deve permanecer idêntico, mesmo diante de qualquer transformação histórica.

Diante da narrativa dessa intrincada tensão entre a s potências européias, Fräulein nos apresenta um momento de aparente alegria: “Enquanto isso todos os países da terra, abraçados, se amavam numa promíscua rede comum, não é? Estávamos no primeiro decênio deste s éculo que deu no vinte.

Todos os abraçados perdiam terreno. O homem-da-vida ganhava-o. Por adaptação? É. Será?”Esse momento de euforia do “primeiro decênio”, onde todos os “países da terra, abraçados, se amavam” é o momento histórico conhecido como Belle Époque, a referência à França é indireta e representa o país onde se deu mais intensamente este fenômeno. A Belle Époque caracteriza-se pela euforia que a classe média de vários países se deleitavam com o consumo de mercadorias, mas essa alegria efêmera e superficial, conseguida pela modernização industrial, pressionava, é claro, ainda mais aquela tensão entre os Impérios.

A condenação moralista, por parte de Fräulein, da Belle Époque, esse modo de vida “promíscuo” revela a posição conservadora e contrária ao estilo de vida que esse momento proporciona na vizinhança, especialmente, a França. Enquanto estes países se deleitavam com a fruição do consumo desenfreado, por causa dessa devassidão, eles “perdiam terreno” e o tipo Imperialista, “o homem-da-vida ganhava-o”.

São essas as disputas comerciais que o narrador enxerga no assassinato do Arquiduque Ferdinando, em Seravejo. Dessa forma, ele entende que “todos esses europeus foram uns grandessíssimos canalhões”, pois, a responsabilidade não foi apenas de um país e sim de todos os que se envolviam nesse processo histórico.

Na perspectiva de Fräulein, os alemães não têm responsabilidade histórica, pois apenas defendiam os seus conceitos e idéias, dessa forma, a culpa era das fábricas inglesas e do modo de vida p romíscuo dos países vizinhos. Na verdade, ela defende o tipo imperialista representado por Bismarck e cita, também, a figura de Walter de Ratheneau. Esses dois representantes da política alemã indicam que os conceitos tradicionais do alemão não mudaram após a guerra e que a busca por culpados pela derrota e humilhação continuam, como discutiremos a seguir, durante a República de Weimar.

Não esqueçamos que o texto classifica de homem-do-sonho o ministro Walther de Rathenau, indicativo da turbulenta e frágil República de Weimar.

“Ninguém realmente deseja Weimar em 1918” (Hobsbawm, 2002, p. 65), palco de golpes militares fracassados, de desemprego, de vergonha imposta pelo Tratado de Versalhes e “assassinos terroristas na extrema direita” (Hobsbawm, 2002, p. 65), uma de suas vítimas foi Walther de Ratheneau, Ministro do Exterior da Alemanha e vítima de assassinos direitistas em 1922. O episódio do assassinato de Ratheneau é emblemático e mostra a extrema complexidade do romance ao retratar os anos 20, nesse período, ele já era hostilizado pelo fato de ser judeu e sua situação ficou perigosa quando assinou o Tratado de Rapallo com a Rússia comunista. Por esse Tratado, Alemanha e Rússia comprometeram-se a renunciar a reivindicações financeiras mútuas, bem diferente do Tratado de Versalhes onde Americanos e europeus exigiam reparações, e ao estabelecer imediatamente relações diplomáticas com a Rússia, reconhece o primeiro governo comunista. Agora, além de judeu é comunista, ou melhor, como a ultra-direita alemã pensava na época, todo judeu é bolchevique. A ultra-direita definitivamente não quer esse destino para a sua velha Alemanha. À partir daí, a ameaça a vida de Rathenau é pública e notória. Cantava-se pelas ruas e entre os estudantes:

“Atirem nesse Walter Rathenenau
Esse maldito porco judeu”. (Gay, 1978, p. 172) 

A República Alemã, do entre guerras, é um período de forte turbulência política e não havia republicanos autênticos ou estavam passivos e acomodados a todas as formas de violência. O legislativo e o judiciário estão nas mãos de pessoas que não acreditam em democracia e o executivo usa, ele próprio, de forças paramilitares de extrema direita. Nesse sentido, a morte de Rathenau nos leva a questão do anti-semitismo, já q ue ele recebera apoio dos judeus em todo o mundo, além daquele advindo do mundo internacional das finanças.

Aparentemente, o espírito cosmopolita, conciliador e progressista de Rathenau é a marca de Weimar, mas, realmente, admira-se o tipo prussiano-patriarcal representado por Bismarck, ou seja, aquele que realiza suas idéias políticas através da força e estas são as que formam o homem-do-sonho da governanta. É por causa das idéias desse alemão “propriamente dito”, ou seja, o alemão tradicional, permanecerem intactas que é possível perceber o reinício daquele “cânone infinito”.

A versão dos fatos que culmina na Primeira Guerra n os é apresentada por Fräulein que, primeiramente, isenta os alemães de qualquer responsabilidade, pois, estes apenas defendiam, à força, as suas idéias, e, como estas são universais e a-históricas, o conflito seria inevitável, por isso ela defende uma política realista, onde os fins justificam os meios. Porém, na concepção do narrador “todos esses europeus foram uns grandessíssimos canalhões”, pois o Imperialismo foi um fenômeno de vários países, só que foi mais intenso, por razões históricas, na Alemanha.

Somente aquele que transformar suas idéias, diante dos acontecimentos vividos, pode superar a tendência ao conflito, que permanece após a Primeira Guerra.

O romance trabalha com três concepções de História: a de Fräulein, a do narrador e a do leitor. Este é chamado a avaliar e a se posicionar.

No começo do capítulo, quando busca uma definição dos alemães, o narrador afirma que em cada um deles existe dois seres que se contrapõem. Neles o universo dos conceitos e idéias, portanto, abstrato é excludente em relação ao mundo prático. A permanência deles, no alemão, se dá pela adaptação, ou seja, um mecanismo que permite a alternância de cada um deles em determinado momento. Assim, ou ele se abstém da realidade e se entrega aos seus conceitos tradicionais de família e pátria, este é o lado que a governanta denomina de onírico e transcendental, ou se volta para o mundo real e abafa os valores éticos e morais, dessa forma, esses dois seres nunca estão presentes ao mesmo tempo. A esta suspensão desse universo conceitual é que Fräulein denomina de adaptação. Porém, essa atividade capitalista e imperialista do alemão é para realizar esses mesmos conceitos, tidos como eternos e universais. “Em princípio se pode dizer que é matéria sem forma, útil H2O se amoldando a todas as quartinhas. Não t em nenhuma hipocrisia nisso, nem máscara. Se adapta o homem-da-vida, faz muito bem. Eu se pudesse fazia o mesmo, e você, leitor”. Dessa forma , toda ação do homem-da-vida, no alemão, justifica-se pelas suas abstrações conceituais. Ele se amolda para manter intacto o seu sonho. Esta é a defesa empreendida por Fräulein, a perspectiva do narrador é outra, ele não “pode fazer o mesmo”, como vimos, ele mudou a sua interpretação dos fatos históricos.

Se compararmos o primeiro livro de Mário, Há uma gota de sangue em cada poema, e o romance que estamos trabalhando, podemos afirmar que o tema é o mesmo: a Primeira Guerra Mundial. Porém, a interpretação dos fatos é outra. Naquele momento, o jovem poeta, que apelava para os sentimentos nobres e elevados nos combatentes, mudou a sua abordagem. Nesse romance,a compreensão do conflito passa pela descoberta dos reais interesses comerciais envolvidos, enfim, Mário adquiriu uma nova consciência.

Diante dessas duas perspectivas, o leitor, também, deve se posicionar. Fräulein se adapta, Mário adquiriu uma consciência histórica, “e você, leitor”.

Nesse romance, o leitor precisa investigar para descobrir os possíveis significados que ele guarda. Nele, o seu sentido não é dado, precisa ser pesquisado.

No final do capítulo, o narrador sugere o posicionamento que espera do leitor, bem como a maneira como deseja que o romance seja lido: “Aqui o leitor recomeça a ler este fim de capítulo do lugar em que a frase do etc. principia”. O fim do capítulo é a repetição da interpretação histórica do narrador: “Vejo Sarajevo apenas uma bandeira. Nas pregas dela brisam… etc.” O narrador insiste para que o leitor busque, também, essa interpretação materialista da História. E nessa nova leitura desse capítulo, que em uma primeira leitura, narra os caminhos percorridos por Fräulein até chegar ao Brasil, podemos encontrar, também, na mesma trama, a narrativa das sociedades que vivenciaram o mesmo conflito, ou seja, por trás de uma narrativa particular existe todo um fundo histórico que compete ao leitor trazer à luz. Nessa sugestão, o leitor recomeça a ler o romance de trás para frente, ao contrário de como tem sido lido até hoje. Nessa reviravolta, mais importante que a vida privada de Fräulein é o momento histórico em que ela está inserida, ou seja, o leitor deve buscar, também, descobrir os reais interesses envolvidos na trama do romance, pois são estes que determinam cada personagem.



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Fonte:
Luciano Ribeiro de Carvalho: “Entre a vida e o sonho: contribuições para uma análise crítica do romance Amar, Verbo Intransitivo”. (Tese desenvolvida sob orientação do Prof. Dr. Luiz Dagobert de Aguirra Roncari, como Exigência parcial para obtenção do grau de Doutor em Letras, com área de concentração em Literatura Brasileira – Universidade de São Paulo – USP). São Paulo, 2009.

Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.

As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.

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