04/08/15

Símbolos, de Augusto de Lima

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FIM DOS SÉCULOS
A Moniz Freire

O século declina: é tarde no Planeta.
Todos tremem fitando a cíclica ampulheta,
quando, banhada já na aurora do seguinte,
da areia o último grão rolar:
– Século XX!

Grande foi a jornada. É chegado o momento
do repouso final, hora de testamento.
O espírito analisa, em rápido inventário,
o que pôde formar no espólio centenário:
o telégrafo uniu os velhos continentes;
a civilização uniu todas as gentes.
Ao verbo criador do Gênio, num só dia,
o sol da Indústria, a luz elétrica surgia.

Mergulharam, sutis, sondas do engenho humano,
o aerostato no espaço e o escafandro no oceano.
O infusório cresceu à luz do microscópio;
o infinito jorrou mundos ao telescópio.
O átomo foi medido, o céu teve igual sorte;
analisou-se a vida e analisou-se a morte.
Mas depois que, da ciência, as zonas perlustrara,
ao entrar o homem na alma, a alma lhe disse: “Pára!”

Então, desanimado, em torno lança a vista
e, descrendo de sua universal conquista,
na febre do saber, que o atrai e que o repele,
vê: – Mistério a seus pés, mistério acima dele
e dentro em si, na luz e na treva – mistério.
A ciência que traçou no labirinto etéreo,
da estrada sideral a indefinida linha,
no espírito, entretanto, um palmo não caminha!
Demais, a perfeição fora tocar-lhe a meta,
pois que, sem isto, a ciência é uma ilusão completa.


E viu o homem, perdida a crença de seus sonhos,
dentro de cada abismo abismos mais medonhos.
O destino é um problema, outro problema a origem:
que poder nos criou, que forças nos dirigem?
A eternidade é um traço, e nós e o verme e a estrela
menos somos que um ponto imperceptível dela.

***

Eis a herança que lega o século cadente
à pobre humanidade ávida e impaciente,
sem cessar batalhando em todos os terrenos:
– Alguns mundos de mais, muitas crenças de menos.
E, quando a última crença, estrela transitória,
de todo se extinguir na larga trajetória
que a ambição lhe traçou, através da Matéria,
buscando o último sol na última raia etérea?!
Ai de nós! que será se, novo Édipo, a ciência
confunde a antiga Esfinge invencível e vence-a,
entrando dentro da alma, ao nosso olhar velada,
para dizer: “O enigma é simplesmente... nada”?!

Sol, que tombas no ocaso, os teus futuros dias,
vindos na sucessão das épocas sombrias,
que, de assombros, trarão de trágica surpresa
ao homem, rei de posto em frente à Natureza!
É possível que, então, depois de longo eclipse,
como quem percorreu a curva de uma elipse
volta ao ponto inicial donde partiu, a crença
há de talvez voltar de novo mais intensa;
que é lei da Evolução marchar eternamente,
sem nunca exorbitar da esfera contingente,
de novo percorrendo os pontos percorridos
e, sem cessar, seguindo os trâmites seguidos.

Se este século, ó sol, também no seu ocaso,
vai marcar ao progresso humano o último prazo;
extinta a crença, extinto o ingênuo fetichismo,
ó sol, sublime Helioth, do teu sagrado abismo,
manda um raio incendido em cólera divina!
Fulmina a humanidade e com ela fulmina

o esfalfado planeta! A História está bem cheia;
porque recomeçar a trágica Odisséia?!


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