03/08/15

A Ilusão Americana, de Eduardo Prado


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O escritor de “A Ilusão Americana”
 
“... Sinto a dupla felicidade de louvar, através do homem que tanto prezo; terra que tanto amo.”

Eça de Queiroz, o primoroso estilista da Casa de Ramires, assim disse do fino espírito do dr. Eduardo Prado, num artigo da Revista Moderna de Julho de 1898.

Ninguém melhor do que o romancista português apreciou e literariamente analisou as qualidades, o talento e as preferências do vigoroso escritor brasileiro, nesta célebre publicação na cidade de Paris.

O dr. Eduardo Prado foi publicista que se distinguiu com brilhantismo em nossa literatura. Ele era nacionalista, muito amava as causas da pátria brasileira, não obstante os tempos que passou em viagens mundiais, instruindo o seu espírito, distraindo-se e observando civilizações diferentes.

Nascido nesta capital de S. Paulo, em 1860, era filho do consórcio da ilustre Sra. d. Veridiana da Silva Prado com o dr. Martinho Prado.

O dr. Eduardo Prado escutou as portas do saber desde muito moço e tendo concluído o bacharelato, na Faculdade de Direito, que nos países latinos se tornou um complemento do batismo, pouco depois defendeu teses, e doutorou-se, foi quando empreendeu suas peregrinações.

Escritor e jornalista, ele revelou-se desde estudante na imprensa acadêmica e depois no Correio Paulistano. Escreveu as monografias e brochuras: Viagem ao Rio da PrataViagensViagem ao OrienteO problema da ImigraçãoA Arte no BrasilFastos da Ditadura Militar no BrasilA Ilusão AmericanaConferência sobre a vida e a ação do Padre AnchietaDiscursos proferidos no Instituto Histórico de S. PauloA Bandeira NacionalVida do Padre Manoel de MoraisTerra Roxa, este manuscrito perdeu-se; numerosos artigos da redação d’O Commercio de São Paulo e que foram publicados nas Coletâneas.

“Em tudo isto, — acertadamente disse o inolvidável literato dr. Afonso Arinos, no seu discurso de 18 de Setembro de 1903, na Academia Brasileira: — encontramos Eduardo Prado com os seus contrastes, o seu sarcasmo, a sua vivacidade, a singular harmonia entre as coisas sérias e as coisas alegres, as coisas leves e as coisas profundas.”

Brasileiro e americanista, o fluente e brilhante escritor paulista empregou as energias da sua inteligência, os recursos da observação e a coragem das idéias, na ocasião em que se operou neste país a transformação do regime governamental.

Eduardo Prado veio para a fileira do combate aos políticos que fizeram a República.

Achava-se então na Europa, e pertencendo a comissão representativa do Brasil na Exposição Universal de Paris, tinha colaborado no excelente livro Le Brésil en 1889 com a publicação dos dois artigos L’Art e Immigration; fez uma viagem ao país de Portugal, que ele tanto estimava afetuosamente e apreciava espiritualmente e logo na "Revista de Portugal", o escritor com o pseudônimo de Frederico de S., principiou a tratar dos “Acontecimentos do Brasil” em artigos que antecederam os Fastos da Ditadura Brasileira.

Estas publicações ecoaram com vibração intensa por todas as cidades deste país. Ignorava-se quem era Frederico de S., que analisava e criticava com o rigor da sua lógica aos desmandos e aos erros do novo regime proclamado pelo exército e armada em nome do povo.

Soube-se mais tarde que esse vigoroso escritor era o dr. Eduardo Prado que com a sua costumada independência declarava:

“O Brasil está neste momento sob o regime militar. Quanto tempo durará esse regime? No tempo do Imperador, quando o soberano resistia aos ministros, se estes insistiam — a coroa cedia.

Hoje quando o marechal Deodoro pensar de um modo e os seus ministros de outro quem cederá?

A espada que não tremeu ao ser desembainhada contra as instituições que o general jurara defender, não precisará mesmo reluzir de novo para fazer emudecer e sumir-se debaixo do pó da terra os novos ministros, talentosos patriotas, mas patriotas desarmados!”

Patriota na acepção legítima da expressão o dr. Eduardo Prado “agarrou-se às tradições do passado sem temor de ser esmagado no caminho; segurou-se ao rochedo da nossa História, viveu nela, viveu por ela e morreu fiel a ela...” Então respondeu de uma vez aos seus adversários e detratores:

“Anti-patriotas, nós? É uma injustiça! Nós que exaltamos a coragem do nosso povo, a sua energia, a sua constância; que temos um imenso amor pela sua História, pelo drama da conquista desta terra; que, com reverência, amamos a nossa raça e tudo que a ela se refere: as lendas da sua vida primitiva, as tradições do seu passado; que amamos a língua que falamos, a arte de nossos pais d’além mar; que temos imensa ternura pelo homem do campo, que com ele convivemos, ouvindo-lhes as longas narrativas e o pitoresco falar: nós, que temos votado a vida ao estudo de tudo quanto é brasileiro — nós não temos patriotismo!...”

Ainda é o dr. Afonso Arinos, no formoso discurso acadêmico de 1903 quem nos conta: — Moniz Barreto, “aquele moço de gênio que morreu em Paris aos trinta anos, depois de ter-se nos revelado um pensador, disse verbalmente a mim que Eduardo Prado era uma das mais completas organizações de escritor que ele jamais vira.”

E das suas qualidades de escritor de combate que as condições do Brasil obrigaram-no a adotar, disse o fulgurante estilista Eça de Queiroz:

“...Todos os seus livros são guerras e ele intelectualmente um guerrilheiro.

Desde a primeira página ao primeiro frêmito, as idéias alçam o pendão, as ironias despedem a sua flecha, os argumentos brandem a sua clava, as citações clamam, as cifras silvam e, na pressa e excitação da lide, tudo rompe, um pouco tumultuariamente, num arranque para avante, contra a causa detestada que urge demolir!...

E mesmo quando em dias de paz, recolhido e quase ajoelhado, glorifica, como na Apologia do padre Anchieta, ainda alguma confusão se estabelece no seu estilo — mas docemente alvoroçada e enternecida, como a de turba piedosa que se empurra para um altar amado.

É que os seus livros são sempre atos intensamente vivos, ora uma hoste em marcha ora um povo em prece... Ele concebeu e trabalhou todos os seus livros num momento de urgência, por impulsivo patriotismo para atacar idéias ou homens de quem receava a desorganização do Estado ou para animar aqueles que reagiam contra essa desorganização pela força latente de alguma virtude social.”
Eça de Queiroz confirma esta apreciação da índole do publicista Eduardo Prado e da situação que coube ao Brasil transformado em República pelo pronunciamento militar e pela ação dos propagandistas democráticos, dizendo:

“Assim a vitória do Jacobinismo político e do fanatismo positivista determinou essas veementes crônicas de Frederico de S., Os Fastos da Ditadura, que acompanharão, na História, a ditadura com um silvar, de certo amortecido, mas perenemente desagradável de látego.

Assim as tendências norte americanistas da República provocaram esse esplêndido libelo, A Ilusão Americana, o mais forte que se tem construído contra a raça neo-anglo-saxônia, tal como a moldaram na América um solo novo, o uso muito duro da escravatura, o contato violento com as raças bárbaras, o excesso de democracia utilitária e a carência de uma tradição.”

Valente beluário foi o dr. Eduardo Prado, e como tal mestre na redação de panfleto, gênero de literatura que costuma aparecer nos períodos de agitação partidária e de veemência de paixões políticas.

Ainda é o romancista Eça de Queiroz quem nos vai dizer acerca da arte de panfletário em que o talento do dr. Eduardo Prado teve relevo:

“Todos os seus livros políticos desde os Destinos do Brasil, perfeito estudo de psicologia social são, pois panfletos... Certamente realizam e com singular rigor, a definição de panfleto formulada por Paulo Louis Courier, mestre panfletário deste século.

— Que é um panfleto? — "Uma idéia muito clara saída de uma convicção muito forte, rigorosamente deduzida em termos curtos e límpidos com muitas provas, muitos documentos, muitos exemplos..."

— E também:

“A mais corajosa, mais útil, mais pura ação, que um homem pode praticar no seu tempo, porque se a idéia é boa, derrama a verdade e, se é má, logo aparecerá quem a corrija, e a correção produzirá exame, comparação, prova e, portanto aproximação da verdade!...”

— A visão que este vibrante escritor tinha das coisas era: Como um fino dardo que vara horizontes.

A esta clara visão ele junta um raro poder de deduzir, de desfiar, de sutilmente desfiar, e de ligar depois os fios sutis numa trama miúda e resistente que, quando combate, se torna aquela rede de ferro com que os gladiadores no circo imobilizavam para a morte os contendores e quando solicita ou propaga, aquela doce rede de seda aconselhada pelos santos padres para docemente pescar as almas...

A todas estas superiores potências junta a potente paciência de esquadrinhar os textos, desenterrar os documentos, amontoar os exemplos, percorrer toda a História e toda a Natureza, para recolher um fato, um precedente, uma analogia, de sorte que a sua lógica, bem armada e destra, sempre combate sobre uma maciça, formidável muralha de prova.

E em todo este esforço, ajudado por uma memória de prodigiosa diligência e segurança. Ora, a memória é a décima Musa, ou talvez, a mãe das Musas.

A sua maneira de utilizar esses dons, o seu Estilo — é o melhor, o mais adequado a um publicista e, participa superiormente da natureza desses dons. É limpo, transparente, seco, quase nu, sem roupagens roçagantes e bordadas que lhe embaracem a carreira destra, ou deformem as linhas puras do raciocínio.

Não há nele molezas, repousos, tendências a vaguear e a cismar, mas sempre o mesmo ímpeto elástico o anima e arremessa.

Ainda menos tenta essas fugas vistosas de foguetes que estala nos ares, cuidadoso em nunca perder o solo maciço da Realidade, que a todos, como a Anteu, comunica força invencível; quando, por vezes, atinge a essa plenitude e abundância sonora que se chama Eloquência, é porque, inesperadamente o exaltou a grandeza da verdade entrevista, um arranque generoso de indignação, alguma brusca emoção de piedade, ou aquela segura proximidade do triunfo, que solta todo som aos clarins...”
Desta forma completa e clara o apreciado escritor d’Os Maiastratou a individualidade literária e política do dr. Eduardo Prado, cavalheiro cuja amizade cultivou com extremosa afeição; espírito cujo brilhantismo, ele, perfeitamente admirou.

***

O feitio da sua intelectualidade de pugilista apareceu nitidamente no valente panfleto que é o livro A Ilusão Americana.

Embora, como escreveu o Poeta Olavo Bilac no seu discurso-resposta ao do dr. Afonso Arinos, na Academia Brasileira: “O escritor d’A Ilusão Americana exagerou bastante os perigos do que ele chamava e do que vós mesmo chamais a nossa: Desnacionalização.

...Tive e tenho para mim que Eduardo Prado foi sempre um firme, um puro e excelente brasileiro, no Brasil e na Europa, no Sertão e no boulevard.”

Outro panfleto ardente que a pena de Eduardo Prado escreveu é A Espanha e no qual trata do auxílio poderoso que os Estados Unidos deram aos cubanos insurgidos para conseguirem, afinal, a sua independência como nação, sem contudo deixar de fazer comentários à situação dos “povos da América do Sul que são fracos, são mal governados e, não pagando os juros da sua dívida ao estrangeiro estão prejudicando ou projetam prejudicar os interesses de cidadãos de países fortes...”
Mais adiante declara acerca do mesmo fato:

“A luta dos Estados Unidos e da Espanha é, talvez, o prólogo de um drama universal, representado em formas novas, com desprezo pela arte antiga e pelas convenções fora da moda, tais como o Direito, em geral, e o único Direito Internacional, muito especialmente.

Nos países fracos, devia ser proibido o estudo desse pretendido Direito, origem de perigosas ilusões entre os povos e de uma falsa confiança entre os governos de boa fé.

A guerra atual justifica essa opinião...” Coletâneas — vol. I, pág. 371.

O publicista Eduardo Prado com “a sua lógica bem armada e destra” expõe e confronta as fases do conflito hispano-norte americano e possuído de simpatia pela cavalheiresca nação de Cervantes, exaltou a sua atitude em face da política do Tio Sam.

E este “drama universal representado em formas novas” parece que era a visão dos tempos previstos pelo malogrado escritor.

Tempos que agora são de luto, sangue, horror, miséria e calamidade causada pela Guerra Atroz, no mundo inteiro.

Vem a propósito traduzir aqui o conceito do crítico dinamarquês Georges Brandés quando discutiu com o jornalista Clemenceau sobre o paradoxo de Fred. Nietzsche: “A moral da segurança necessária”, — Revue Suisse, Bib. Universelle.

Disse o autor das “Novos Rumos da Literatura”:

“Embora considere a guerra presente uma demência coletiva, recuso admitir que os agravos estejam de um lado só, les torts soient d’un seul côté...

Esta guerra como quase todas as grandes guerras é uma guerra econômica.

Naturalmente nenhum beligerante concordará nisto, pois, é mais conveniente dar aparências aos fatos. Pois cada povo não luta pela liberdade? Conforme declaram os seus intelectuais. — Desde a Rússia, a clássica terra do Absolutismo; a Alemanha, o país dos burgueses afidalgados e do caporalismo; a Grã Bretanha, que nunca deixou de se esforçar pela conservação da sua superioridade industrial no mundo; a França que nestes últimos anos aumentou consideravelmente o seu império colonial...

A verdade é que cada uma destas potências luta pela supremacia econômica.

Veja-se porém o que acontece: Cada nação se julga campeão de uma civilização superior e serve-se dos mesmos argumentos... Quanto às atrocidades digo que:

O homem é um animal feroz, capaz de tudo, uma vez que estiver armado e livre: só pensa em destruir, incendiar e matar. Ah! e, como os civilizados suportam a guerra?...

Sim, depois de cada carnificina humana, nos consolamos em exclamar: Esta foi a última. É o que se dizia depois da de 1870: — Será a última guerra da Europa; puro engano! Nenhuma guerra é a última: a guerra é eterna como a maldade dos homens é perpétua.”

Pela sua vez o dr. Rudolf Kjellen, prof, na Universidade de Upsal, na sua monografia sobre os Problemas políticos da Guerra mundial, escreveu que:

“A guerra é um cataclisma geológico, uma catástrofe horrível! Que o seu problema é extenso e complexo, tem muitos problemas entreligados: o problema geográfico-histórico; o problema nacional frequentemente ligado ao da raça; o problema sociológico e político que consiste em determinar até que ponto a política interior de um país pode influenciar a sua política exterior; finalmente, o problema Econômico, sem dúvida o mais imperioso e que parece dominar todos...”

Talvez fosse atendendo aos fatores destes problemas de sociologia, de política e de economia que o publicista Eduardo Prado na ocasião em que a guerra civil dividia extremamente as opiniões no Brasil escreveu A Ilusão Americana, denunciando com a sua argumentação as práticas dos Estados Unidos com as outras nações continentais e latinas.

Seja como for, esse livro teve uma imensa popularidade; no momento em que o governo federal do Brasil negociava com o dos Estados Unidos amparo para a sua legalidade; pela sua vez a autoridade policial de S. Paulo confiscava a primeira edição que aqui aparecia e, o seu ilustrado autor foragia-se no sertão para garantir a sua liberdade, como também a vida contra a exaltação dos jacobinos.

A Ilusão Americana nos recorda um episódio de nossas lutas jornalísticas pelo princípio da liberdade neste país.

Éramos, então, prisioneiros d’Estado quando, cuidadosamente, um moço oficial, de nossa amizade, entregou um exemplar dizendo-nos: Veja este livro. Veio de S. Paulo e o governo proíbe que circule! ...

Mais de vinte anos decorreram desta poça de calamidade nacional. A intervenção da esquadrilha dos Estados Unidos nas águas do Rio de Janeiro cooperou bastante para o desastre da Revolução, celebraram-se diversas conferências pan-americanistas e agora pouca importância é ligada aos vôos expansionistas da grande Águia de Washington, cujas garras suplantam raios...

E do dr. Eduardo Prado, do seu luminoso espírito e da bondade do seu coração, restam reminiscências sinceras, pois ele faleceu prematuramente em 1901.

Foi o seu amor pela literatura e a tradição brasileira que o tomaram contrário “à imposição das instituições anglo-saxônicas da América do norte ao nosso país...”

LEOPOLDO DE FREITAS
Março — 1917 — S. Paulo

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