20/06/15

Sonetos e Rimas (Poesia), de Luís Guimarães Júnior


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Luís Guimarães por Fialho de Almeida

Os poetas propagandistas, cantando a Justiça, derruindo velhas fórmulas políticas e religiosas, fazendo a apoteose da oficina e da blusa, ou conclamando, em rutilantes alexandrinos, as invenções, descobertas e sínteses da ciência e da indústria, são prosadores castrando em rimas imprevistas ou sonoras os períodos que vão escrevendo. Como agente de propaganda, a poesia é o mais frouxo dos veículos literários; e com a sua organização feminil, os seus delicados moldes, o artifício das rimas e o mosaico das imagens, ela amesquinha a magnitude e o ímpeto dos altos problemas que tem em mira vulgarizar. Ela vive do meio sonho vago, que deixa o poeta ir idealizando o seu mundo em doces e flutuantes quimeras. Nas manifestações do belo, toma por lei uma relação precisa e justa entre as concepções individuais e o elemento tradicional. Estabelece as correlações íntimas, as misteriosas afinidades da religião com o amor, e do amor com a família e com a pátria. Todas as crenças e todas as abnegações que a mocidade irradia sem lhes indagar da lógica dirigente, ou querer justificar as explosões cavalheirescas, constituem os seus diletos subsídios e fontes de inspiração profunda.

Tais aspirações são já uma poesia instintiva, esparsa por todos os espíritos moços, mas incapaz de cristalizar por si, num cântico dotado de formas literárias. Mas eis que o poeta chega e dá corpo a estes sons errantes, a estes vortilhões da imaginação coletiva, a estas tendências sonoras da alma, sublimada por aspirações de mais generosa altura; chega e dá cor, acento, ironia e vida aos trechos anonimamente sentidos e colaborados por uma raça, ou simplesmente por uma geração.

Tal é na poesia romântica o papel de Byron, de Schiller, de Madame de Staël, Thomaz Moore, Chateaubriand e Jean Paul, interpretando a inquietação atormentada, a febre delirante, e o frenético amor da sociedade do seu tempo. O público vem então maravilhosamente disposto a compreender essa poesia que ele propulsionou sem assinar e que reflete o seu momento psicológico, ao tempo que lhe está fortalecendo as tendências e lisonjeando as necessidades e as predileções. Idade de ouro para os poetas, aquela em que o público é inteiramente o contemporâneo da poesia vigente, e onde o sentimento individual do artista tem pouco a fazer numa obra tão intimamente enraizado no coração da turba[1].

Este estado d’inteira adaptação entre a obra dum espírito e o espírito duma época dá-se quando a humanidade atravessa estados de incerteza ou de angústia, ou às horas de transição em que uma idade está morta, quando ainda outra mal vem alvorecendo. O poeta faz-se então o apóstolo da ansiedade geral, o profeta da aurora que nem boceja sequer ainda entre os escombros. É Leopardi em Recanati, aos vinte anos, pondo a sua tristeza de raquítico em versos febris e límpidos, e elevando-se por ela à expressão mais patética da dor. É Herculano em Plymouth, chorando as saudades da pátria crucificada ao miguelismo, ou inspirando as suas elegias nos conflitos liberais de 32 e 34. É Byron tentando esculpir, na selvageria das suas figuras, a revolta do gênio contra os pequenos moldes da sociedade artificial que lhe reprovava as excentricidades. Walter Scott, o clarificador da história, segundo Hazlitt, renovando o interesse histórico na literatura escocesa por um gênio de narrador sem rival. E Baudelaire, Musset, Rollinat e Richepin, exprimindo a saciedade cética e a inquietação nevrótica e doentia das nossas civilizações atuais.

Porém, a crise passa, resolveu-se a dificuldade política, o cadafalso ou o exílio levaram o tirano que motivara a revolução. Na sua labutação incansável de mineiro, a humanidade depara com novos filões vitais que lhe avigorentam a trama, sacudindo-lhe a tristeza enervante. Uma outra era sorri. Aquele estado do ser moral coletivo evaporou-se e foi curado. E eis que a musa desflorada emurchece da frescura radiosa que primeiro fizera chispar cintilas nos corações opressos! Por forma que se escreverá desta poesia o que Guy Patin já dissera de certos remédios em moda — que era i-los tomando enquanto curavam. De fato, quem compreende hoje a musa católica de Chateaubriand? Onde reboa um eco sequer da poesia jacobita de Diana de Vernon? Que heróis de Byron não fariam hoje rir François Coppée e Catulle Mendès? O que há de atualidade no amor heroico de D. Carlos, e no amor cavalheiresco de Aben-Hamet? Como sentir pulsar uma alma, mesmo, na Idade Média de Victor Hugo? Esses grandes bocados são vozes sem eco na alma moderna, alguns já tão frios que parecem só feitos de ênfase, tão longe vamos do pensamento que os ditou. Não correram muitos anos desde que Napoleão III desceu à história, e já declinam os Châtiments, como se a mediocridade política da figura que os inspirou descorar pudesse a poesia demolidora do nosso velho colosso romântico. A humanidade não quer dos pequenos interesses circunscritos aos pequenos grupos: por isso depressa passa do gosto essa poesia de episódios locais. Entanto ela tem as suas grandes paixões indomáveis, eternamente vivas, sangrentas e fecundas, as suas grandes cóleras, as suas soberbas forças heroicas; e a musa que as vibra é a única que nunca morre, pois ela presta a sua voz à alma mesma da humanidade. Sem arcabouço para suportar a formidável massa dos assuntos contemporâneos, secos, positivos, que não deixam margem a voos de imaginação, e dos quais só a monografia, o tratado de ciência, o panfleto, o romance de análise etc. podem dar conta e fazer correr mundo; a poesia, como vulgarizadora, carece de fôlego, e, tentada há pouco ainda, está agonizante, ou morreu à nascença.

Os assuntos práticos de que se convulsiona a moderna vida, esses vastos problemas que fecundam as riquezas e centuplicam as ideias, criando necessidades, gostos, aptidões e pontos de vista, sobre que logo outras indústrias e interesses vão polarizar-se, anquilosar-se, e contundir-se — determinam no mundo uma circulação tão brusca e constante, prendem o homem em tal gargalheira de atividades, que o seu coração, tornado egoísta pela fadiga, perde a impressionabilidade de sentir e traduzir aquelas emoções líricas e finas, que em outras juvenis idades eram a paixão dos espíritos nobres, e entretinham a vida sóbria, tudo explicando pelo sentimento, exprimindo tudo pelo símbolo, e pondo na palestra e na escrita, entre imagens e juízos simples, essa gotejante alegria solar, que nas zonas temperadas faz tão exuberantes as culturas da terra e as manifestações da inteligência. Em nossos dias o espírito positivo matou o sentimento poético, que o exclusivismo individualista está acabando de matar. A análise encaneceu a juventude do nosso coração, e já não vamos com túnicas de linho branco, coroados de flores, saudar a primavera entre evoés pagãos, ébrios do amor panteísta que se nos entornava da alma em golfões, como um Chipre raro, das belas ânforas de ágata, vermiculadas de oiro. O amor, quando não seja um cálculo, transfaz-se numa extravagância dos sentidos, que falsearam a impressão para que tinham sido criados. Quebrou-se o elo natural entre a turba e o poeta. Cada lira restringe a sua glória a pequenos clubs de crentes maníacos, que passam a vida imobilizados no êxtase de aberrações postas em rima, aberrações que, pela estranheza, dir-se-iam pescadas no álcool dos museus de teratologia hospitalar. Desnecessário exemplificar. É ler a mor parte dos versos célebres dos nossos dias, as Odes Funambulescas de Bainville, as Chansons des Gueux e as Blasphèmes de Richepin, as Flores do Mal de Baudelaire, as Nevroses de Rollinat, e todos os volumes que mais ou menos gravitam à volta destes. Jamais o metro foi tão rico, a rima tão hilariante, a língua tão plástica, e tão embelezada a imagem, duma cinzelura vaporosa! Mas o talento, rebuscando os efeitos de arte mais excêntricos, e querendo ferir por uma originalidade arquidoida, estrangula a voz dos sentimentos naturais, turba a grande veia límpida da inspiração, falseia a sinceridade da alma que se queixa ou que exulta, mira efeitos teatrais na emoção que explora, caindo numa sorte de monomania bizarra. Tudo neste certâmen condiz ao fim: a rima procurada entre palavras obsoletas, as imagens colhidas entre os fenômenos mais repelentes, mais extravagantes, mais recônditos, e o tema inicial quase sempre talhado em podridões, misérias, infâmias ou bufonerias. Eu não nego o gênio destes extraordinários analistas. Quantas vezes Rollinat me tem dado pesadelos! Mas tantos desses patológicos assuntos não diriam melhor numa monografia científica? Cuidam os poetas pagar com as maravilhas da fatura a frialdade ou o artifício do sentimento interior — e assim ficaram as estrofes, enfileiradas, enigmáticas, mortas, como uma avenida de esfinges que leva à necrópole deserta.

Resta a poesia puramente lírica, a poesia que o amor glorifica, nas transfigurações do idílio e paixão platônica das puras formas: bando de visões tecidas de sonho e nuvem, desejos duma serena plenitude que todos os seres compartilhem, desde a alga microscópica até ao homem de gênio — poesia perfumada dessa ternura infinita, castíssima, maternal à força de íntima, que vibra no poeta ante os mais leves aspectos sensíveis. Através das evoluções do espírito moderno, no vortilhão doentio dos que todos os dias renovam os seus ideais, há pequenas sinagogas de contempladores e eternos crentes, imutáveis como o dogma, aos quais as velhas coisas inspiram culto apaixonado, e que se comprazem em cultivar os afetos simples do espírito, ingenuamente expressos, ingenuamente sentidos, e camonianamente cantados. A poesia que eles fazem, repassada do sentir da multidão anônima, parece antiga como a estatuária grega, e como ela eterna pela graça rústica que acentua, e pela límpida e franca linguagem que emprega. Nesta situação, o poeta lírico é um ser à parte, uma espécie de divino sonâmbulo, cristalizando dor a dor, soneto a soneto, na sua alma, como numa concha, à força de concentração, contemplação, o grande ideal de amor absorvente, que se alimenta de puríssimas reminiscências de beleza, e flutuante nas asas do êxtase, tudo vai sagrando por onde quer que passe. É o caso de João de Deus, recolhido nas contemplações da sua mocidade algarvia, rimando singelos amores com raparigas do campo, e dizendo as saudades de Marina morta, e a meiguice frágil de Margarida, naquela forma primitiva do lirismo português, que no século XVI radiava em fragmentos de Gil Vicente, Sá de Miranda e Camões.

Instintivamente, indaga-se a quantos séculos de distância está a voz que se escuta rimando essa canção paradisíaca e divina, onde entanto lateja o coração do mundo, e quer-se perscrutar a maneira por que eles têm conservado, na complexa vida deste século, a limpidez de espírito da antiguidade. Conhecem o lied? É um gênero de poesia vaporosa e ingênua, que se encontra por toda a Alemanha, incorporado na vida do povo. Através da sua forma fantasiada, das suas divagações nebulosas, o lied conserva uma lado real, que se prende a todos os atos do viver alemão e vai maravilhosamente a essa língua de todos os ritmos, hábil para todas as versificações, e cujo efeito acústico Philarete Chasles compara a um ressoar de órgão com tubos de cobre, em que as notas solenes se vão perdendo através do espaço. Os velhos lied são anônimos. Os modernos, que se inspiram na tradição, tarde ou cedo, perderão a rubrica, ao entrarem no reportório da massa. O lied foi muito tempo exclusivo do povo, que traduzia por ele as tendências e emoções da sua alma, o amor, as harmonias da boda, o nascimento do primeiro filho, o entusiasmo da caça, o poder da superstição, a cólera, o ciúme, o luto... Associava no espírito emoções dispersas, insuflando vida nas lembranças arredadas da memória. É o canto familiar da Alemanha; e trazendo refrigério às existências votadas aos rudes misteres, nenhum outro guarda como ele essa floração exótica de nacionalidade, que isenta por todo o sempre das frias versões estrangeiras. Porque se não trata bem da balada escandinava, com olhos cor de violeta, alvorecida ao luar, na brancura imaculada dos fiordes; nem há nesta poesia a petulância da canção berangeriana, ou o sarcasmo do epigrama latino, à André Chenier. É um canto bonacheirão como a fábula, com o ceticismo ligeiro, a graça loira e feminina, a sensibilidade nova e virginal, pro cedendo um pouco à maneira das comédias poéticas de Shakespeare, e deixando dormir no fundo um vago bom humor de burgomestre apaixonado por tulipas, típico no país de Henri Heine, como esse outro humorismo de Yedo e Nagasaki, que até nas esculturas dos templos abre o seu riso, entre infantilmente surpreso e velhaco. Para estas inefáveis serenadas, os maiores compositores da Alemanha têm feito música, Dessauer, Schubert, Schumann: e é um prazer ouvi-las já modificadas ao dizer plebeu, nos trabalhos do campo, nas vindimas do Reno, no interior das cabanas, ao serão, à saída da escola, e pelas ruas, nos templos e nas quermesses. Henri Blaze, pensando numa renovação de moldes para a poesia lírica francesa, recomendava aclimar-se o lied para cá do Reno. Quanto a nós, João de Deus atingiu admiravelmente este gênero de composição, nas Loas à Virgem e no Era Já Noite Cerrada, gênero que Campoamor sabe vestir com uma graciosa simplicidade. Mas como generalizar hoje uma tal poesia, quando o espírito não tem mais o perfume da adolescência, e a frescura das idades primaveris?

O lirismo profundo morre pois falto de condições sociais que o impulsionem e fecundem. Pode guardar-se donde aonde, por um prodígio de cultura, no coração de algum destes sublimes eremitas, estacionados à margem do tumulto moderno, assim como, num frígido país, a planta tórrida consegue medrar, por excessivos cuidados, na calafetada estufa que lhe há de ser cárcere por toda a vida. Compreende-se de feito que um homem passeado pela vida artificial dos cafés, dos teatros, das redações, do parlamento, das salas e das capitais esteja autenticamente incapaz de se transfigurar, por exemplo, na Adoração que abre as Folhas Soltas do nosso adorável João. Quando muito, terá ele mais lapidada a estrofe, desesperando, à força de correção, os que venham para atingi-lo ou imitá-lo. No fundo, porém, o sentimento andará dinamizado ou artificialmente posto em jogo; e em vez do eterno amor dominativo e panteísta, a obra revelar-nos-á um ceticismo elegante, uma índole romanesca, incapaz de ser dominada pela paixão, um lírico da decadência, melhor: um parnasiano. Luís Guimarães é um parnasiano.

Parnasiano, disse eu, como Armand Silvestre e como Theodoro de Bainville, no esforço de renascença poética do Portugal contemporâneo. Desde que a função crítica da análise se tornou início e fundamento de toda a educação atual, o nosso tempo destronou a inspiração pela reflexão e substituiu os profetas pelos sábios. Os mesmos poetas começaram de escrever em prosa os seus poemas, primeiro que os fossem instrumentando nas cadências musicais do metro; e forraram duma utopia ou duma ideia filosófica todos os assuntos que se propuseram vestir na púrpura dos ritmos poéticos. Ides supor que uma arte assim crucificada sobre a reflexão não tenha podido ser fecunda em criações de grande fôlego — senão comece de estiolar-se em bastardias pálidas, de cujas ramificações provenham livros inexpressivos, doentios, impertinentes, histerizados num bizantismo de requinte, e de todo o ponto exangues porque lhes falte a paixão. No romance, o À Rebours e a Manette Salomon. Em poesia, as Nevroses e os Soirs Moroses. Seja. Entanto, uma tal arte fotografa a alma atual. Primeiro, é adorável como entidade: tem a sutileza hipócrita, a afetação elegante, uma esplêndida toilette: e mente bem, e é delicioso, hão de confessar, ser-se iludido por uma criaturinha daquela provocadora distinção. Depois, tudo nela vem pautado e rescendendo a mise-en-scène, o menor gesto que ela esboce, a mais ligeira palavra que ela diga, o amor, o ódio, a nostalgia, o ciúme... Não procurem todavia forçar-lhe o limite de sinceridade para que foi feita. Um passo além, desmanchar-lhe-ia a caracterização de musa olímpica: e veríamos por baixo a grizette fazendo pied-de-nez à galeria.

Se eu quisesse agora inferir do homem físico uma constituição psicológica que viesse explicar-me a obra do artista, tracejaria de Guimarães a longa biografia de esforços, viagens e empreendimentos que o trouxeram coroado príncipe, volvidos anos, ao doce país polar da mais aristocrática das artes, a poesia. A lei de Taine, tão nitidamente científica, pela qual se estabelece a mútua dependência entre uma dada literatura e uma dada sociedade, dissecar-me-ia esta entidade de escritor que irrigaram as influências fatais da raça, do meio e do momento.

É um americano, móvel de fisionomia e de caráter, precipitado, pressentido, ardente, e incapaz de concentrar-se num assunto por mais de algumas horas. Daí talvez a sua predileção pelo soneto. A viveza estranha da sua máscara estereotipa e reflete a impressionativa feminilidade do seu talento. Tem, na beleza física dum tribuno, os olhos terríveis dum domador de feras: e como as vidraças duma galeria de palácio, deixando transudar iluminadas, a magnificência orgíaca das salas, músicas de orquestra, e centenares de pares remoinhando em cotillons, assim direis que as pupilas dele, cintilando entre as íris de fibrilhas frenéticas, nos fazem assistir ao carnaval furioso da sua imaginação de sobre-excitado.

Os adocicados de origem que na pronúncia tem sabido guardar este homem, por um orgulho talvez de patriota, e malgrado o afastamento da pátria, longos anos, dão-lhe à conversa essa ternura melíflua e põem no ouvido essa bizarra sensualidade, que fizeram do brasileiro falado um dialeto do português, e contra cuja fixação definitiva na língua a literatura escrita todos os dias protesta, na sua teimosia de ainda insinuar a velha preponderância portuguesa, na constituição da jovem nacionalidade[3].

Guimarães sabe a pitoresca impressão que produz falando assim. Aquela soutache poética que a boca emite articulando os beiços em buraco de flauta, e nos plurais sifla os ss como uma chuva de orvalho caída de néctares de fúcsias, sobre as divinas mãos de uma mulher: aquelas construções gramaticais, onde o pronome precede o verbo, como em Me disse, Me adora... e em que os finais das palavras se retraem pela omissão dos sufixos característicos, como em sinhá, cantá (cantar)... — alvo da troça, aquela soutache, na pronúncia dum grosseiro colono repatriado — na língua dum fino artista e na palestra duma rapariga de salão, ela quer dizer uma condensação de graça fonética — introduz modulações, veludosidades, carícias, que exornam de um requinte novo, duma incrustação, duma rocaille, a nossa velha língua mãe, e por muito tempo deixam na orelha a difusão da mais voluptuosa sinfonia.

Uma tal linguagem parece feita para ser falada em cortes de amor: há nela preguiças, começos de ais, frou-frous de roupas, titilações... Cada mestiçagem lhe insinua uma sutil volúpia, uma angústia nova e divina: e sentem-se balbuciar na sua trama as virgindades duma raça que desperta ainda, sem passado, como as crianças, monossilabando reminiscências de sonhos heroicos e translúcidos. Agora junte-se a esta feição da língua a excelsa glória da paisagem, que a luz alaga, e a caprichosa natureza sabe vestir em formas fantasiosas, árvores, montes, baías, catadupas... Lá, onde a calma aperta, e cantam as aves mais extraordinárias da terra, e se ouvem as núpcias da seiva, caule a caule, na misteriosa alcova das florestas, o espírito, naturalmente exaltado à contemplação, deriva por seu turno na cheia sensual desses titânicos e cósmicos amores. Filho de colono, o brasileiro guarda na alma a indefinida nostalgia que vira bruxulear nos olhos dos pais. A mesma criação opulenta que o cerca, o humilha e acabrunha: entanto, as paixões dela propagam-se-lhe ao sangue em efervescências insofridas, e um gulf-stream de magnéticos amplexos o arrasta no vortilhão das monstruosas e sagradas gestações da natureza. Assim, o poeta é lá um produto do clima e do solo, como os frutos, como as flores. Nem quase cultivá-lo é necessário.

Em Luís Guimarães, está de ver, todas estas determinantes convergiam a impulsionar-lhe o talento. Em 1869, ao formar-se em Direito, na escola de Pernambuco, contava já na bagagem literária dois volumes de versos: Corimbos, composições soltas, e o poemeto Mont’Alverne. Estou a pensar que Mont’Alverne não arrojará o poeta para excessivas culminâncias artísticas. Entanto os Corimbos elucidam-nos à farta sobre as nativas qualidades da sua inspiração.

Ali pululam blandícias e ardores duma natureza essencialmente amorosa, a que a melancolia presta o seu colorido romântico. Ali bate pulso uma insofrida febre de ideais, e ânsias de paixão donde se vê golfando uma seiva inesgotável. Neste livro de lírico, em cujos ditirambos rebrilham, numa espécie de petulância, as indecisas graças da mocidade, edita-se a alma virgem de contatos, duma selvageria sincera e duma insaciável virulência amantética — alma sonora de americano, cheia de ímpetos, onde ao mesmo tempo tivessem deixado ressonância o gemer da araponga e o rugir do leão, o cântico e o grito: e entre ambos, toda a vastíssima gama das emoções intercalares.

Vejamos agora os seus livros de prosa, dessa época. Eles confirmam as características que nos Corimbos apontei. De quase todos eu conheço páginas. A forma é fluida, abundante, irisada de ornatos, pouco refletida, evocativa porém, e fazendo lembrar pela contextura fácil Júlio Machado e Manoel Roussado, seus contemporâneos e amigos. As suas crônicas e fantasias literárias afiguram-se-me pequeninas obras de acaso, feitas numa aberta de mais sérios trabalhos, e brilhando apenas pela ironia benigna, e saltitante esmalte da adjetivação. Nos contos, a intriga decorre para assim dizer do humor ocasional do contista, no momento da concepção; tipos simples, situações de pura idealidade poética, diálogos onde o recorte literário predomina: e toda a paisagem de roda, não conseguindo fazer atmosfera intelectual à tensão dramática do assunto, que não existe, fica para assim dizer um motivo repetido em surdina, na orquestra do descritivo, e avulta no quadro como um pormenor decorativo simplesmente, poetizado, alindado, lembrando os tons lilases dum sanguíneo visto por trás dumas lunetas cor de azul. Entanto a nota amorosa, dominadora do caráter do artista, atinge aqui por vezes o arroubamento lírico, emprestando então à narrativa um tom de sinceridade que provoca o interesse. A minha conclusão é pois esta:

O isolamento na pátria, entre as ubérrimas maravilhas do solo e as visões interiores do seu espírito, tão finamente idealista, cedo ou tarde teriam arvorado Luís Guimarães num dos mais profundos poetas líricos do nosso tempo. Tudo leva a profetizar que assim fosse — aquela sua compleição idílica, o seu poder de evocação a distância, uma sensibilidade dolorosa e feminil, e a fantasia cálida extravasando de invenções. O homem do mundo veio atenuar porém estas primitivas tendências do doce arrulhador de doloras maviosas. Flutuações de viagens despolarizaram-lhe o espírito da singeleza nativa: convívios de cortes e museus, mil acasos enfim do dandismo diplomático lhe foram desviando a sinceridade para uma espécie de risonho ceticismo.

Em 1880 vamos encontrar Luís Guimarães na Embaixada de Roma. Roma era a última estação duma série de residências que o poeta realizara, junto de todos os centros de inteligência europeia, através de cujas maravilhas, pudera exercitar as suas faculdades de artista vibrante e progressivo.

Entre os Corimbos e os Sonetos e Rimas, de que a primeira edição viu luz em Roma (1880), aquelas viagens põem um interregno no furor de publicidade de que Luís Guimarães parecia acometido. Mas ao fim delas o americano está transfigurado num prodigioso cinzelador de melodias, destro, flexuoso, elegantíssimo; sabendo casar as mais raras graças nas mais fidalgas fantasias, e graduando a impressão com um tato de ator e gentil-homem a quem não convém desmanchar a linha impecável de artista. Especialmente Roma, com a sua grande área de monumentos, onde caem no chão, truncadas sob uma luz de atelier, as memórias de muitas civilizações triunfadoras: Roma antolhar-se-ia ao poeta como a última e recapituladora lição duma série de preleções sobre o belo ideal nas suas profusas revelações através da arte. Ela lhe deu ao verso, talvez, uma academia de melhor gosto, nada rígida, nada comum, e salvando-se pela nobreza desse chic de ocasião, que, passado de moda, invalida e torna efêmera obra dum grande número de escritores.

Vênus sem braços! Divinal grandeza!
Abençoada seja a mão calosa,
Que te arrancou à entranha criminosa
Da terra...

Ou como na “Borralheira”:

Meigos pés pequeninos, delicados
Como um duplo lilás, — se os beija-flores
Vos descobrissem entre as outras flores,
Que seria de vós, pés adorados!

 Luís Guimarães ficará pois na poesia portuguesa como o Massenet do soneto, exasperado de perfeição plástica, e acusando no mordido da forma a paciência dum buril seguro do que pretende. O mistério de sedução da sua poesia está antes de tudo no modernismo que dela ressumbra, e na sua atualidade perante o público que a compulsa e lhe dá voga: público cético e blasé, que, tendo visto, baquear todas as sortes de cultos e ideais, lentamente foi perdendo a aptidão de isolar-se em transcendências de sentimento. Nem sempre, nos versos dele, a emoção resultará do sentimento afetivo acordado na alma pela ideia dramática do assunto, senão por uma convergência de melodias exóticas que a linguagem lhe empresta, já pela rima, já pela imagem, já pela estridorosa eufonia do adjetivo e do metro. É uma emoção que vai ao cérebro antes pelo ouvido do que pelo coração, e que eu de melhor grado agradeceria à música do que à literatura. Poucos livros deixam, como os Sonetos e Rimas, recompor com mais escrupulosa fidelidade a fisiologia artística do escritor, estudar sob que aspectos as coisas o ferem, depois ver como ele faceta e lapida a mais leve das suas impressões de aquarelista — águia ou albatroz por cima da vaga ululante, um fim de valsa fugindo pela janela entreaberta, silhouettes de cúpulas, escorços de paisagens, perfis de mulher, qualquer efeito ou qualquer tom — para as cristalizar depois no engaste dum soneto ou de meia dúzia de estrofes. Deliciosa maneira artística, onde eu descubro o que de mais puro tem a língua e a poesia de mais plástico; e onde, como num ciclorama vertiginoso, cintilam transparências de água entre maciços de folhagem, rumores de abelhas e trilos de aves, ziguezagues de caprichos, acaroados de ocaso, nudezes ebúrneas estátuas... todas as músicas enfim do universo que respira e canta, na plenitude do seu disforme ser. A perfeição calma do verso trai o homem que percorreu os receptáculos da grande arte mãe, beijou os nus sublimes de Sanzio e Vinci, e conhece de perto o diletantismo canalha das modernas capitais. E o verso, assimilando inconscientemente as pomas das deusas, as musculaturas dos efebos e dos heróis, transparências de marinhas cortadas de steamers, sorrisos de mulheres e reminiscências de efêmeros amores; o verso sai-lhe numa correção esvazada, numa largueza de estilo, lavrando em cada uma dessas pequeninas obras-primas um baixo relevo de Acrópole, fulgurante e divino. Na escultura de muitos dos sonetos do livro também sentirá o leitor a cada instante, inquieta, proeminente, a influência do bibelô na arte de escrever, que já surpreendera Paris nos primeiros romances dos Goncourts.


Depuradora do gosto, e dando ao espírito uma percepção mais luminosa, mais dolorosamente incisiva, da vida das coisas, aquela frequentação pelo bric-à-brac, das formas de arte, rebuscadas ou exóticas, desperta alfim na personalidade do escritor uma rara elegância sugestiva, e uma singular finura de concordância estética. Estas qualidades são inimigas da violência e proíbem no poeta a explosão dos sentimentos extremos: — aquelas grandes cóleras dramáticas de que o romantismo tirava efeitos para escravizar as plateias ávidas de calafrio. Mesmo, uma preocupação de serenidade aristocrática transluz em todos os pormenores da Lírica de Luís Guimarães. Na sua ironia, por exemplo, que ele atenuou até uma espécie de humor benévolo, serpenteando duma existência sem contratempos nem torturas. Na sua voluptuosidade, que é uma espécie de arrulho amoroso, mesmo apesar do seu temperamento escandecido. E aqui e além, notas críticas, intenções de malícia casta, finuras de desenho encantadoras — como nas manchas das porcelanas japonesas, família rose ou vert-celadon, que, sem nervuras salientes, abstraindo a linha quase, dão a ideia por massas, num efeito sutil de abstração acessível somente às retinas educadas. Este lírico, gasto pela poesia do coração, educou os olhos para a compensação de descrever, no dia em que já não pudesse amar. E neste ponto o parnasiano fica, com extraordinárias qualidades de paleta e cinzel — um refinado. Que talvez pudesse dizer, como o Charles Demailly dos Goncourt — je suis un homme pour qui le monde visible existe.


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Fonte:Luís Guimarães Júnior: Sonetos e Rimas. Poeteiro Editor Digital. São Paulo, 2015.

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