28/06/15

O Barão de Lavos, de Abel Botelho

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A recepção da obra botelhiana: Abel Botelho visto por seus contemporâneos.

Quando despontou para o público português, a obra botelhiana teve grande impacto em decorrência de sua linguagem, sua abordagem e principalmente de seus temas. O público o considerou imoral e obsceno (cf. CORREIA, 2008 p.47 ), mas o aprovou. A primeira edição d’ O Barão de Lavos rapidamente se esgotou (em apenas quinze dias), fazendo-se necessária uma nova edição. Entre seus amigos e seus pares, a recepção de sua obra podemos dizer que foi positiva; entretanto, para alguns sua obra não passou de enfadonha leitura.

Além da erudição, da retidão, da disciplina peculiar aos militares, Abel Botelho foi um amigo agradável, um profissional comprometido e competente, um escritor preciso e um republicano determinado. Suas características agradaram mais que desagradaram. Comecemos por dizer da repercussão alcançada por sua obra, recontando um fato que Albino Forjaz Sampaio relata no livro dedicado ao escritor, da “coleção Patrícia”, e Justino Mendes de Almeida reproduz em seus textos do Escorço bibliográfico e estudo linguísticos, anexo ao primeiro volume das obras completas de Abel Botelho. O autor dedicou o quarto volume da Patologia Social, intitulado Fatal Dilema (1907), a D. Theodolinda Elisa Vieira.

Em abril de 1904, falecia em Lisboa uma senhora, D. Theodolinda Elisa Vieira, a qual, sem o conhecer, sem nunca lhe ter falado ou escrito, nomeava-o contudo herdeiro único dos seus bens, no valor de doze contos de réis. Esta senhora tinha na sua biblioteca, anotadas carinhosamente, todas as obras do escritor. (SAMPAIO, 1931)

Episódios como esse fazem-nos refletir sobre as razões que levaram ao esquecimento do escritor, ao ostracismo em que jaz a sua obra, haja vista este e outros comentários que os leitores dos seus romances teciam. Felizmente, o século XX assumiu a tarefa de reverter o processo e pôr novamente o nome de Botelho no cenário literário, e com isso, despertar o interesse crítico sobre sua obra.

A obra de Abel Botelho não cultivou apenas um público leitor entusiasmado como D. Theodolinda, mas também despertou a admiração de escritores em início de carreira. Abel Botelho escreveu com entusiasmo o prefácio de um livro de contos intitulado Esfolhadas, dos dois jovens escritores: Orlando Marçal e Fernão CôrteReal. Nesse prefácio encontramos uma das possíveis causas de seu esquecimento, justamente o fato de posicionar-se como um escritor rebelde, de opinião forte e áspera. Abel Botelho disserta, com propriedade, que o artista não deve se curvar às exigências das “grossas predilecções do publico”. O que isso nos diz é que ele não escreve para, mas simplesmente escreve; ele não produz, cria; e continua “[...] na resvaladia cultura espiritual das lettras, não há senão dois caminhos basilares a seguir: a arte ou o industrialismo, o arroteio árduo do talento ou a mera habilidade profissional [...].”

Condena o fazer literário como mero mecanismo para conseguir dinheiro. Acredita que o ato de escrever deva estar comprometido com a criação, com a arte, com a inspiração e não com o nível precário em que a educação e a cultura daquele momento se encontravam. Constatamos, portanto, que, de acordo com a sua observação, o público para o qual escrevia era, digamos, mais selecionado, formado por aqueles que não se contentassem com o habitual. Comunga com a ideia de que o escritor não deve escrever sobre temas medíocres, com linguagem ruim, apenas para agradar um público desprovido de cultura e educação. Pelo contrário, o artista deve manter a aura de sua obra, sua essência, pois antes de tudo um texto literário é uma obra (de arte) e não uma mercadoria, pura e simplesmente. Para ele, caso o escritor se submeta a esse processo, ele se aviltará, perderá a autenticidade, e uma obra inautêntica é uma obra vazia.

Sua figura e talento fizeram amigos e admiradores dentro e fora das letras. Alguns de seus contemporâneos expressaram-se de maneira respeitosa e com admiração, ao falarem de sua figura no cenário social e literário da época. Infelizmente, há pouca documentação reveladora das opiniões e impressões sobre o autor da Patologia Social, por seus pares, mas as que conseguimos recolher reproduzimos aqui.

Para tal propósito decidimos por algumas ilustres figuras dos oitocentos que mencionaram o seu trabalho e a opinião que formaram acerca da figura do escritor de Tabuaço. Destacaremos os depoimentos de João Grave, Gomes Leal, Bulhão de Pato, Afonso Lopes Vieira, Trindade Coelho e Artur Brandão .

João Grave, jornalista e escritor nascido em Aveiro, conhecido carinhosamente por “João Reboca” por companheiros de infância e pelos amigos e vizinhos, embora não tivesse um estilo próximo ao de Abel Botelho, nutria grande admiração pelo autor naturalista e consolidaram uma amizade. Quando da edição do romance Amor Crioulo (edição póstuma, 1919) mereceu de seus editores (Lello & Irmão) uma homenagem escrita por João Grave:

Abel Botelho, o artista ilustre que às letras do seu país legou tantas páginas de inspiração e de beleza, não teve tempo de concluir o romance Amor Crioulo, escrito bem longe da sua terra e da sua gente, mas sempre com a imaginação e os olhos postos na Pátria distante. A morte colheu-o de súbito, paralisando para sempre a mão augusta que tão activamente lidou e a lúcida inteligência que nunca se fatigou de combater, durante meio século de esforço permanente e fecundo, para atingir um ideal de perfeição suprema.

Analista subtil do coração humano, psicólogo, moralista pelo castigo áspero do sarcasmo, Abel Botelho desceu a profundidades poucas vezes exploradas antes deles, tentando imprimir uma utilidade social à sua arte. A vasta obra que nos deixou e em que a sua alta personalidade se perpetuará, tem de ser tomada como uma lição, mesmo nos seus aspectos de mais cru realismo e na mais cruel expressão – que fazem dela um flagrante documento da época e do meio em que foi elaborada. Vista em conjunto – que é como deve ser julgada pelo espíritos imparciais -, há-de necessariamente reconhecer-se-lhe um mérito estético e moral.

Os derradeiros capítulos que compôs, com tanta ternura e tanto relevo artístico, foram estes do Amor Crioulo, que os seus Editores hoje lançam aos alaridos da publicidade para que nada se perca de tudo quanto o romancista excelso produziu. O livro ficou incompleto. Todas as pacientes buscas encetadas, para se encontrar a parte final, em Lisboa, onde Abel Botelho tinha a sua casa, e em Buenos Aires, onde ele era o representante diplomático do Governo da República Portuguesa, foram infrutíferas. A doença inesperada interrompera, certamente, o trabalho do escritor insigne, que a morte não tardaria a eliminar da comédia da existência. A acção do romance estava em pleno desenvolvimento quando o braço do seu autor caiu desfalecido. Adivinha-se, no entanto, o desfecho do Amor Crioulo pela leitura dos coloridos, nervosos e movimentados episódios em que a sua tessitura se desenha vigorosamente e o conflito sentimental se estabelece.

Publicando-o tal como foi lhe entregue, os Editores contribuem com novos e valiosos subsídios para o estudo e para a crítica da individualidade de Abel Botelho que, na moderna literatura nacional, se afirmou com nobre superioridade. A Escola Realista entre nós por vastas massas, dispondo duma paleta muito rica, um minucioso observador da vida que à sua volta desenrolava maravilhosos cenários e que ele reproduzia com surpreendente fidelidade e um justo conhecimento dos tons e dos valores.

Foi, em todo caso, lamentável que não terminasse este volume póstumo – porventura aquele em que pôs mais devotado carinho, mais emoção, mais orgulho de raça, e que, mesmo fragmentado, o denuncia como uma entidade representativa, Nem ao menos pôde corrigir as provas em que os escritores da sua rara estirpe dão sempre os últimos retoques de graça, de harmonia, de equilíbrio e de luz. A elevada honra dessa tarefa foi-me confiada a mim, procurando eu desempenhá-la o melhor que me foi possível e suprindo pela vontade de acertar o que me falta em competência. Qualquer erro em que no texto apareça terá, portanto, de me ser imputado, e não ao escritor que tanto dignificou a sua nacionalidade nos luminosos domínios do pensamento e da arte (ALMEIDA, 1979, p.12)

O jornalista e boêmio Gomes Leal fez parte do círculo de amizade de Abel Botelho. Defendia o realismo, embora como poeta ainda fosse ultrarromântico. Neste recorte que se encontra do Escorço Bibliográfico presente nas obras completas de Botelho, destaca o escritor, o homem e o amigo.

Abel Botelho tem três qualidades eminentes para ser um bom romancista, como é, as quais são: observação bem pronunciada e treinada; fidelidade na minúcia e na conglobação; bela orientação na síntese. Como amigo, é estimabilíssimo, como romancista, de primeira grandeza, como caráter, diamante de primeira água. (ALMEIDA, 1979, p.5)

Assim como Abel Botelho, o romântico Bulhões de Pato foi aluno da Escola Politécnica, contudo não chegou ao término do curso. Acreditava ter sido inspiração para o personagem Tomás de Alencar, d’ Os Maias de Eça de Queirós. A visão desse Bon Vivant, apreciador de gastronomia (o prato tradicional português à base de frutos do mar que recebeu seu nome – Amêijoas a Bulhões Pato), que gostava de viagens e saraus literários, é talvez a mais simples, mas o define bem, pois realça seu conhecimento e sua subjetividade: “Abel Botelho, para mim, é escritor de saber, de vigoroso talento e de notável individualidade.”

O neorromântico Afonso Lopes Vieira, integrante do grupo da Renascença Portuguesa, criada em 1911, após a instauração da República, no intuito de corroborar as propostas da revolução republicana, também se pronunciou acerca da imagem do escritor duriense, demonstrando a amizade que mantinha com Abel Botelho. Destaca um aspecto importante, presente na narrativa botelhiana – a deterioração do regime monárquico, chamado aqui por Vieira de regímen moribundo, e a urgência de um novo, a República.

Tenho por este grande e excelente camarada uma admiração sincera. O realismo integral, o gravador intenso e cru dos infernos com que liquida um regímen moribundo, este filósofo e este artista é um dos raríssimos escritores portugueses destinados a serem sempre novos e amados pelas gerações que sobrevêm. A sua glória não lha decretou o Estado, com ignomínia das suas condecorações e das suas academias. Por isso é autêntica e resplandece. (ALMEIDA, 1979, p. 5)

O escritor Trindade Coelho igualmente discursou favoravelmente a seu contemporâneo em ocasião do aparecimento do romance O Barão de Lavos.

E ei-lo, volvidos tempos, atirando à cara do mundo, olímpico de desprezo, quase cínico, a brochura colossal do Barão de Lavos, que é tudo quanto em literatura portuguesa tem surgido de mais audaz – como ideia, como forma, como fórmula – e onde, simultaneamente, numa sarabanda macabra de endemoninhado e num êxtase religioso de artista, Abel “queima os navios”, metendo-lhes no porão, a ferros, nus e corridos de vilipêndio, preconceitos 62 de toda a casta – de moral, de arte literária, de justiça, de humanidade e de vergonha! (COELHO, 1987: 140)

Artur Brandão, num artigo de 1898, publicado no periódico Mala da Europa, faz uma crítica mais atenta e detida à obra de Abel Botelho e toma sua defesa, destacando a seriedade da obra de um escritor que “deixou-se de fazer meras obrinhas de distracção – o que seria extremamente fácil ao seu prodigioso talento – e pretendeu cavar um pouco mais longe e mais fundo na alma humana.”, apontando com coerência aspectos do seu temperamento. Vejamos:

Damos hoje o retrato de Abel Botelho, (…) para registar a grande evidenciação que ao seu nome trouxe a aparição do seu último romance, O livro de Alda.

Temos ouvido a muita gente apreciar com relativo desfavor este último trabalho do audacioso e original escritor.

Acusam-no de demasiado cru, de se comprazer mais do que o lícito na análise da podridão e do vício. Ora nós temos o maior respeito pela opinião dos outros, e não negaremos mesmo que o talento de Abel Botelho apresente talvez anormalidades, desequilíbrios que dão bastante flanco à crítica. (…)

Ora Abel Botelho – bem ou mal, isso é outra questão – propôs-se particularmente estudar destes casos de teratologia moral e social, tão predominantes e característicos do nosso tempo.

Com uma coragem e uma isenção pouco vulgar, deixou-se de fazer meras obrinhas de distracção – o que seria extremamente fácil ao seu prodigioso talento – e pretendeu cavar um pouco mais longe e mais fundo na alma humana.

Avança por vezes um pouco longe demais nos seus processos? O seu temperamento arrasta-o a excessos dispensáveis? Não nos parece em todo o caso que mereça por isso incondicional censura. (…) As coisas são o que são. Nua é a verdade, nua é a inocência. A literatura falsa, piegas, de convenção leva-nos às inofensivas estopadas das Arcádias e Academias dos séculos XVII e XVIII, que hoje ninguém lê, ninguém conhece, porque eram meros produtos artificiais, uma espécie de missanga intelectual sem ligação nenhuma com o modo de pensar e sentir do seu tempo. (Brandão, 1898, p.2, Apud CORREIA, 2008, p.48)

Eça de Queirós, também manifestou a ideia que tinha sobre o autor tabuacense. Contudo, seu discurso não foi positivo e tampouco enaltecedor; muito ao contrário, faz duras críticas a ele e a sua obra, chegando mesmo a mencionar, ironicamente, o fato de Abel Botelho ser um indivíduo da região de Trás-os-Montes, de maneira cáustica. Esse episódio está documentado em carta enviada de Bristol a Mariano Pina, em 7 de junho de 1885, e integra a Correspondência (Porto, p.95-96).


[...] Enquanto a artigo para a Illustração, às ordens. Diga-me se quer um curto contozinho – ou então o tal estudo sobre Hugo – agora que já passou a primeira impressão – se é que Você ainda nos números seguintes, como é natural, insere artigos sobre o Mestre. Esse artigo poderia ser em forma de carta a Você – supondo que Você me pedia para eu lhe dar uma ideia, para a Illustração, de qual foi a influência de Hugo na minha geração, isto é, há 20 anos... – Ou então, não querendo Hugo, um contozinho.

Estão engraçados os seus comentários de Abel Acácio. Eu não conheço esse rapaz, mas inquestionavelmente o patriotismo dele é simpático e o seu grito em pró da língua portuguesa muito justo. Somente, o que é curioso, é que esse patriota que pede com violência que se não escrevam estrangeirices – escreve ele próprio, a julgar pela carta, não em bom português, mas em mau francês! É das coisas mais cômicas que eu tenho visto. E quanto às ideias que ele tem do lugar da França na civilização, são de um cavalheiro de Trás-os-Montes ou do fundo do Alentejo, que, da França, só sabe que de lá chegam todos os meses os figurinos, pelos quais a sua senhora corta os casabeques. As ideias dele sobre a Inglaterra não são menos singulares. E a este respeito, deixe-me dizer-lhe que Você também, a propósito da Inglaterra, tem às vezes a opinião chauviniste de Boulevard [...] (ALMEIDA, 1979, p. 24.)

O tom irônico e sarcástico de Eça é evidenciado nessa conversa com o amigo Mariano Pina, especialmente quando se refere a Abel Botelho como um cavalheiro de Trás-os-Montes ou do fundo do Alentejo, denotando certo desprezo não só pelas ideias de Botelho, como por sua própria figura enquanto homem do interior.


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Fonte:
Simone Cristina Manso Escobar
: “Abel Botelho – escritor “de entre tempos”: Literatura e Artes Plásticas em diálogo”. (Tese de Doutorado apresentada ao Programa de PósGraduação em Letras Vernáculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro como quesito para a obtenção do Título de Doutora em Letras Vernáculas (Literaturas Portuguesa e Africanas). Orientadora: Profª Doutora Luci Ruas Pereira). Rio de Janeiro, 2014. Disponível em: www.letras.ufrj.br

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