27/06/15

Cantos Populares do Brasil, de Sílvio Romero

Para baixar o livro, clique na imagem e selecione-o em: 
www.projetolivrolivre.com
---
Disponível também em "Minhateca", no link abaixo:


---

Sílvio Romero historiador literário

Debruçar-se sobre a farta produção intelectual de Sílvio a partir de um campo específico, como o fazem de uma maneira ou de outra muitos dos intérpretes do autor da História da Literatura Brasileira, buscando encontrar aquilo que o polígrafo nunca almejou, é tarefa embaraçosa. Para o historiador preocupado em analisar a História literária escrita por Sílvio, é preciso, antes de tudo, entender o que Sílvio entendia por Literatura, facilitando o caminho da investigação histórica, o que não significa a solução do problema. Uma vez que Sílvio concebia Literatura como toda a manifestação da inteligência humana, cabe selecionar quais seus escritos que tratam da História literária brasileira. Os problemas só avultam: ainda que o próprio Sílvio dividisse seus trabalhos, toda sua produção era tida pelo mesmo como literária.

Encontrar, dividir, selecionar se torna tarefa imprescindível para encontrarmos o Sílvio historiador literário. O problema da investigação histórica torna-se de fundamental importância quando se trata de um polígrafo que, em sua Literatura, colocava todos os problemas brasileiros em pauta. Embora tenha sido Sílvio um crítico literário, sabemos que este nunca ficou restrito a sua área: trazia por meio de sua História literária tudo que tivesse ligação com os problemas nacionais. Mesmo se tratando de um historiador literário que fundamentou seu trabalho nesse campo e, em menor grau, seus estudos folclóricos, a partir do evolucionismo e do darwinismo, Sílvio foge a toda e qualquer especialidade do saber que hoje encontramos rigidamente demarcados. E por uma razão muito óbvia, a concepção de Literatura do escritor sergipano diferia dos outros críticos de seu tempo, como José Veríssimo e Machado de Assis, que concebiam Literatura como arte literária. Esta foi a principal razão das polêmicas de Sílvio com esses adversários, fazendo com que o escritor sergipano expandisse a Literatura para além do fenômeno estritamente literário: pensava Sílvio que a Literatura tinha sempre relação direta com o que acontecia na sociedade. Concebendo Literatura como reflexo das transformações sociais, sendo estas, por sua vez, influenciadas pelo meio, pela raça, pelos antecedentes históricos e acima de tudo, pela figura diferencial do mestiço. Rigidamente preso ao determinismo, por vezes admitindo que os fatores pudessem alterar as causas, trabalhava Sílvio com tudo que existisse à vista na elaboração de sua História literária.

Seu desejo maior era a elaboração de uma História da Literatura brasileira, uma vez que esta Literatura trataria de temas concernentes às mais variadas questões do país, sobretudo, a formação do povo brasileiro. Sempre se queixou da falta de documentos não apenas para este ou aquele assunto, como também para a elaboração da História literária. Sabia Sílvio que o Brasil era retratado por escritores portugueses, franceses e não raras vezes por ingleses, homens que viram o país a partir de fora, eis o que considerava a principal causa da pobreza dos trabalhos literários sobre o Brasil. A boa ou a má Literatura, para Sílvio, só tinha sentido na medida em que o escritor retratasse a situação do país; eis que surge seu nacionalismo literário avassalador, poucos são os literatos que merecem sua aprovação, visto que jamais contribuíram para a evolução da Literatura brasileira, “as pátrias letras, entre outras muitas lacunas, mostram bem claramente a grande falha causada pela ausência de trabalhos históricos. Se não existe uma História universal escrita por um brasileiro, se a        nossa própria História política, social e econômica tem sido apenas esboçada e foi mister que estrangeiros nos ensinassem a escrever; no terreno da Literatura propriamente dita a pobreza nacional ostenta-se ainda maior”.

Os parâmetros a que devemos submeter Sílvio são aqueles que o próprio autor pensava serem imprescindíveis para a compreensão da História literária do Brasil. Nesse sentido, sua contribuição no plano da História literária, uma vez sabendo da visão elástica com relação a esta, traz consigo o cerne e o sentido de sua farta produção e de sua carreira tempestuosa. O que buscava o crítico sergipano era analisar o vasto campo cultural do Brasil para só assim identificar a situação do país, os males e dessa forma, propor os meios de superação.

História da Literatura Brasileira é um vasto quadro dos mais variados aspectos do país. No primeiro volume, investia nos fatores que condicionavam a Literatura brasileira. Estes fatores eram o meio, a raça, os antecedentes históricos e, sobretudo, a aparição do mestiço, elementos responsáveis pela formação da psicologia nacional que por sua vez, explicava a pobreza da Literatura brasileira e uma apatia geral no quadro maior da cultura. As diversas interpretações da significativa contribuição de Sílvio, por parte de setores da crítica, por vezes são injustas, uma vez que simplificam a visão de um escritor que nunca se eximiu de retratar como pensava a Literatura de seu país.

Antes de tudo, torna-se mais fácil julgar o polêmico escritor da História da Literatura Brasileira do que incorrer no sentido teórico que atribuía à Literatura brasileira. Para tal, é relevante apontar questões relevantes e indispensáveis sobre Sílvio. O momento histórico, tanto com relação à crença num dos elementos da tríade tainiana como a função social do escritor, singularidades de maior relevância de sua época, sua posição diante das teorias estrangeiras que conheceu, tendo que selecionar qual a que melhor servia para interpretar o Brasil, nos leva a considerar tais questões para compreendermos a Literatura empreendida por Sílvio. Toda e qualquer análise que busque compreender a Literatura do autor de Ensaios de Sociologia e Literatura não pode desprezar tais questões.

Embora viesse, em seus quase quarenta anos de atividade literária, a cometer injustiças e contradições (por exemplo, ter endeusado mestres racistas, ter reprovado e depois reconhecido homens como Capistrano de Abreu, Machado de Assis, José Veríssimo, Euclides da Cunha, etc, ter dirigido ásperas críticas as diversas oligarquias que cobriam o país de norte a sul, se envolvendo no famoso caso de Sergipe), cabe não perdermos de vista a História literária escrita por Sílvio. Sua Literatura, no sentido amplo que concebia o bacharel, deixa clara a maneira como via o Brasil, o que deveria ser mudado e quais os caminhos para o país superar o atraso refletido nos mais variados campos. É por isto que o político, professor do Colégio Pedro II e depois lente da renomada Faculdade de Direito do Recife causa tanta polêmica, ao mesmo tempo que admiração.

Àqueles que se debruçam sobre a contribuição de Sílvio, especificamente, no que tange a sua maneira de interpretar o Brasil, cabe relevar tais elementos, prevendo o risco de sacrificar a vasta contribuição do escritor em função de seu lado polêmico. Não propomos analisar Sílvio tendo por base alguns episódios de sua vida, mas suas ásperas críticas só ganharam força e se tornaram cada vez mais evidentes por meio de sua concepção literária. Concebendo Literatura como produto do meio e da raça, Sílvio não apenas tentava conhecer o Brasil, denunciando o que considerava ser de primeira ordem, como tratava de avaliar os polígrafos anteriores, a partir de suas produções literárias, o que gerava um duplo movimento: primeiramente, julgava uma obra literária a partir da representação social que esta embutia; em segundo lugar, não concebia a produção literária sem ligação alguma com as transformações ocorridas na sociedade, reflexo dessas transformações sociais. O anseio de Sílvio era julgar, realizar uma espécie de assepsia do atraso brasileiro a partir do conhecimento. Por meio de sua crítica sociológica, almejava Sílvio dar a mão à palmatória, ao escritor que o sergipano pensava ter o mérito ou a credibilidade, ou seja, quando Sílvio pontuava este ou aquele escritor, independentemente de seu campo de atuação, trazia para primeiro plano a História do Brasil. Acreditava na capacidade transformadora da Literatura, e porque não dizer, do conhecimento. Sabedor da realidade do país, trazia consigo a missão social do escritor que, tal qual o político, tem o poder de operar as mudanças sociais necessárias para superar o atraso de seu país. Eis o sentido das severas críticas à centralização literária, o que, para Sílvio, punha em evidência a corrupção no campo das letras.

Na Corte, pairava o favorecimento entre os pares, dentre estes, o exemplo de Machado de Assis, que não era mais capacitado que Tobias Barreto, assim como o favorecimento a José Veríssimo, que segundo Sílvio teve a notoriedade que não merecia devido a sua posição em grande jornal da Capital Federal. Ainda no campo literário, quando Sílvio criticava o indianismo tupiniquim, no início de sua trajetória intelectual, criticava a priori a Corte como centro não apenas político, como também no campo da cultura num sentido amplo. Para Sílvio, a História literária enquanto tal seria julgada pelo parâmetro de diferenciação nacional, deveria mostrar a singularidade brasileira frente a Portugal e aos países europeus, só assim poderíamos falar numa Literatura plenamente brasileira. Quanto mais um autor lutou, por meio de sua História literária, pela diferenciação desta Literatura, mais contribuiu para sua formação e, como conseqüência, se mostrou brasileiro. Por isso, um dos parâmetros de Sílvio na seleção de escritores brasileiros é a paixão pelo Brasil.

A História literária elaborada por Sílvio é a História da formação do Brasil e de seu povo. Daí é que o bacharel remonta aos cronistas e viajantes,pois foram estes os primeiros escritores que elaboraram uma representação de Brasil, visando ao conhecimento do país. Nesse sentido, são estes mesmos cronistas, principalmente, o jesuíta Anchieta, que Sílvio combate, haja visto traçar um quadro melancólico do território brasileiro. Mesmo que Sílvio critique esses primeiros cronistas, se apóia em alguns deles, como Nóbrega, Aspicuelta, Navarro, Gandavo, no combate à imagem melancólica de Anchieta. Faz isto para chamar atenção para as riquezas do país, tentando a todo instante despertar a atenção para o que diferencia o Brasil de Portugal. Sabendo que algo de diferente deve ser encontrado para erigir a História literária brasileira, Sílvio nos chama atenção para os colonos que habitam a nova terra, juntamente com seus futuros filhos nascidos no Brasil, tudo isso para que estes vejam com melhores olhos as belezas da terra. Mas o sentido teórico da Literatura brasileira não é este, ainda que os novos brasileiros tenham um melhor caráter com relação aos portugueses. O ponto nevrálgico para Sílvio é o surgimento do mestiço, influenciando a cultura e a vida espiritual do país. A seleção de elementos que Sílvio levava em consideração para a constituição de sua História literária passa irremediavelmente pelo viés etnográfico, sua visão da situação cultural do país estava ligada à formação da sociedade brasileira. Típico de seu pensamento e do personagem polêmico que foi, considerava que nunca algum escritor escreveu uma História do Brasil, existiam apenas elementos para essa História.
Reprovando o que havia sido escrito sobre o Brasil, não sabia Sílvio por onde começar pois o que existia de trabalhos escritos acerca do país eram trabalhos de cunho corográficos, biográficos, crônicas, Histórias parciais, que não ofereciam um quadro completo. Diversos são os elementos considerados por Sílvio em sua análise literária, mas o pano de fundo é a formação brasileira, daí “que os maiores ou menos gabos que nos merecem a terra e seus habitantes, já o dissemos, as maiores oumenores censuras que lhes façamos, questão afinal do temperamento de quem escreve ou da feição dotempo em que vive, não são um critério rigoroso e completo de caracterização de nossa índole, comopovo, em qualquer das esferas em que nos tenhamos excercitado”.(grifos nosso)

Somente trazendo o que diferencia o Brasil em relação aos outros países, no caso, o caráter nacional, é que Sílvio erige sua História literária. Sua forma de escrever esta História literária só faz sentido porque busca freneticamente mostrar o mestiço como elemento diferenciador da História brasileira. Era o mestiço a base da formação cultural do país, o que equivalia a afirmar que era este a base de nossa História literária. Muitas foram as Histórias literárias do país, juntamente com artigos esparsos, mas é Gregório de Matos que merece os apalusos de Sílvio porque “ a mais perfeita encarnação da do espírito brasileiro, com sua facécia fácil e pronta, seu desprendimento de fórmulas, seu desapego aos grandes, seu riso irônico, sua supercialidade maleável, seu gênio não capaz de produzir novas doutrinas, mas apto para desconfiar das pretensões do pedantismo europeu”.47(grifo nosso)

Ressentia-se Silvio da ausência por parte dos escritores que escreveram sobre o Brasil de trabalhos históricos, como também da ausência de trabalhos políticos e sociais. Sua visão elástica do fenômeno literário levava-o a afirmar que se não houve algum escritor que escreveu uma História universal, no terreno da História literária propriamente dita, a pobreza de nossas letras era evidente.

Nenhum dos escritores merece o reconhecimento de Sílvio, porque não trataram do Brasil, quando muito, chegaram a falar do país com os olhos voltados para Portugal, uma vez que pensavama a Literatura brasileira como mero apêndice da Literatura portuguesa. Portanto, escritores como Ferdinand Wolf, Bouterweck, Sismondi, Denis e Garret foram simples organizadores da História literária de Portugal, da qual, a História da Literatura brasileira seria extensão. Com tamanha pobreza de obras que retratavam o Brasil como queria Sílvio, concluía que “Denis foi o primeiro a fazer um quadro mais ou menos inteiro de nossa Literatura, quadro sólido e incorreto, é certo, mas que se impõe, por estar no singular. E já lá vão bastantes anos que o livro foi publicado, e até bem pouco eram compêndio oficial de nossos cursos!”

Nem os escritores portugueses nem os escritores brasileiros traçaram um quadro completo da História literária brasileira. Os portugueses escreveram sobre o Brasil a partir do olhar lusitano, ao passo que os escritores nacionais, segundo Sílvio, simplesmente traçaram quadros isolados. Ao olhar de Sílvio, era indispensável, na representação da Literatura brasileira, identificar o que havia de mais importante, aquilo que diferenciava o país da ex-metrópole, o mestiço brasileiro. O mestiço era o que diferenciava o Brasil e servia de símbolo para a Literatura nacional. O escritor que tivesse lutado para elevar o que diferenciava o país com relação à antiga metrópole merecia os aplausos de Sílvio, mas “quem tiver sido um mero imitador português, não teve ação, foi um tipo negativo”

As Histórias do Brasil do momento resumiam-se a relatos de viagens, chegadas de donatários e capitães mores, governadores, vice-reis, bispos e jesuítas. Faltava a História brasileira “o eterno sofredor, o eterno agitador, o eterno herói – o povo”. Arremata Sílvio que “o verdadeiro historiador do Brasil deveria ser bastante naturalista para no pórtico de seu livro distender a descrição vasta, exata, verdadeira da terra nacional, determinando-lhe as zonas, os climas, os aspectos, todos os cem modos diversos, pelos quais os meios colaboram com os homens; deveria ser bastante etnologista para compreender e amar as diversas raças, que levantaram n'este país as suas tendas e agitaram á luz do sol brasileiro seus músculos de combatentes, travando a luta da vida, a luta da civilização; para entendê-las em seus cantos, em suas aspirações; deveria ser bastante filantropo e democrata para rir e chorar com o povo, segui-lo na sua formação gradativa e suas transformações progressivas, assistir a geração do nosso terceiro estado e da nossa burguesia, acompanhá-los na vida municipal, nas agitações da vida política, nos anelos de liberdade; deveria ser bastante economista para surpreender o povo no seu trabalho, tomar nas mãos os fios determinadores da formação de nossa riqueza publica e particular, mostrando a irradiação d'esse pólipo enormissimo — a escravidão —, polipo de nova espécie, fecundo, produtor, sugado pelo parasitismo imenso e infamante, o grande crime da raça colonizadora, o grande crime que tem feito, que ainda hoje faz, a nossa historia ser uma obra de privilegio e iniqüidade; deveria ser bastante filósofo — para ter uma nítida idéia da cultura e dos destinos humanos, compreender a formação das pátrias recentes, o advento d'essas nações coloniais, mestiçadas, herdeiras de antigas glorias e antigos ideais, prestes a transformar-se, urgidas por necessidades novas, deveria ser bastante erudito para conhecer a fundo todos os fatos, todas as peripécias do passado nacional, deveria, finalmente, ser bastante poeta para construir de tudo isto uma obra artística, viva, palpitante de seiva e de entusiasmo”.

Vale lembrar que todos os escritores anteriores a Sílvio não merecem crédito por parte do crítico por ser a Literatura vigente no Brasil especulativa, fundada no mero traço biográfico, nas anotações antológicas, cuja maior preocupação visava simplesmente ao enaltecimento do escritor. Os antecessores de Sílvio, com exceção de Denis, - considerado o fundador da História literária brasileira -, escreviam seus apêndices, antologias, parnasos, poesias, etc, presos à visão de um Brasil como mero apêndice ou extensão da Literatura realizada pelos escritores portugueses.

Reprovando nomes como Rocha Pita, Taques, Jaboatão, Madre de Deus, Southey, Abreu e Lima, Macedo Soares, Francisco Lisboa, Candido Mendes, Joaquim Caetano da Silva, dentre outros, reconhecia Sílvio que, “Varnhagem ocupa uma posição especial, foi um erudito, e como tal, publicou muitas monografias meritórias, e quis também ser um historiador, e, como tal, escreveu a  História Geral do Brasil, livro notável pelas pesquisas que revela, pela erudição que desvenda; livro medíocre pela falta de crítica, pela ausência de intui es teóricas, pela aspereza e mortificação do estilo”.

Escrevendo sobre o Brasil a partir de fora, sem as bases nacionais que mais tarde iriam sedimentar o traço singular nacional, primeiramente esboçado no Resumo da      História Literária do Brasil, do escritor francês, “Com Denis, principia (no que se refere aos dois últimos temas) a longa aventura dos fatores mesológico e racial na crítica brasileira, que Sílvio Romero levou ao máximo de sistematização. Era, com efeito, o tempo das especulações sobre o espírito nacional e a influência das latitudes; da peculariedade e atuação dos climas”.

Na verdade, Sílvio busca em sua História da Literatura Brasileira encontrar o caráter nacional brasileiro, daí incorrer numa ampla análise histórica, não deixando de adentrar aspectos sociais, econômicos e políticos brasileiros. Erige esta História literária partindo de Scherer, onde pensa este que duas são as maneiras de representação da Literatura: a primeira é pender para as considerações gerais, buscando por meio dos efeitos as respectivas causas; e a segunda é basear-se na análise específica dos poetas e escritores. Sem documentação necessária para traçar a “História íntima, pinturesca, viva e anedótica dos escritores do Brasil” , Sílvio optava por uma análise literária onde os fatores que condicionavam o processo de criação textual eram da mais alta relevância. Não existindo o fenômeno literário em si mesmo, mas sim aspectos que condicionavam a Literatura de um país, afirmava que “um conhecimento, que se não generaliza, fica improfícuo e estéril, e, assim, a História pinturesca deve levar à História filosófica e naturalista”.

Não fazia sentido para Sílvio se a representação literária brasileira desse ou daquele autor não se generalizasse. Com este método, queria Sílvio buscar um ponto de partida para consolidar o elemento diferenciador da nossa História. Como em outros estudos, no campo da História literária, não podia ser diferente: munia-se do método crítico para dar status de verdade a sua análise da História literária.

Assim, tornava-se inevitável conhecer a História do Brasil, a ação do colonizador, a ação do meio, das idéias estrangeiras, juntamente com a influência de índios, negros e mestiços. Quais escritores figurariam na História literária de Sílvio?

Somente aqueles que viveram, lutaram e morreram pelo Brasil. Sem sombra de dúvida, História da Literatura Brasileira é uma apaixonante empreitada pela busca do caráter brasileiro, donde se fazer indispensável a leitura dos inúmeros problemas nacionais do país, uma vez que estes tinham íntima ligação com a psicologia nacional. Claro que muitas são as questões levantadas na obra, mas em sua obra mestra, buscava Sílvio analisar os elementos que determinavam o brasileiro. Nesse caso, esta obra é a aclamação do mestiço. Mestiço este que fez com que Sílvio, a todo o momento, enfatizasse sua importância racial, sem a qual, o quadro “literário” brasileiro ficava sempre incompleto. Foi dessa maneira que o bacharel discordou de um sem número de escritores, porque estes simplesmente escreviam galerias, preterindo, pois, aspectos singulares ao seu olhar. Afirmava que:

“Não tratar-se-á de saber qual foi o primeiro brasileiro que escreveu uma poesia ou um livro, e outras tantas questões impertinentes e ociosas. Nada se terá que ver com alguns frades despreocupados ou ociosos que mataram o tempo a escrever versos latinos, ou a publicar sensaborias em Roma. São Homens que nunca viveram na consciência da pátria, não foram forças vivas ao seu serviço. Foram indiferentes na vida e sê-lo-ão sempre na morte e no esquecimento. Não merecem uma justificativa e ressurreição histórica.”

A Literatura propugnada por Sílvio era uma Literatura que tratava dos aspectos sociais, econômicos e políticos brasileiros. O apego de Sílvio ao Naturalismo da época, a utilização da Crítica como instrumento de validação para seus argumentos, são a demonstração cabal de sua busca pelo que caracteriza o brasileiro em relação ao europeu. Antes de partirmos de pontos que consideramos imprescindíveis para a compreensão de sua História literária, cabe mais uma vez chamar atenção para a visão crítica de Sílvio, o que explica a maneira como este concebia a História literária do Brasil. Mesmo que a Crítica adotada por Sílvio já embuta uma crítica histórica, sem esta, não nós é possível meios de alcance para a compreensão de seu pensamento. Em primeiro lugar, Sílvio sempre reclamava da falta de documentos para traçar o quadro completo da Literatura brasileira. O problema das origens, para Sílvio, era uma questão de primeira ordem. Em seus escritos, sobretudo, seus estudos folclóricos, onde busca avaliar a contribuição de cada uma das raças, Sílvio exaustivamente alude ao problema das origens.

A visão de Sílvio historiador literário é constituída pelo modelo de pensamento da crítica de sua época. São questões que integram sua concepção literária como parâmetro de avaliação do imenso leque cultural de seu país. Sílvio farejava a verdade documental, por isso é que reconhecia a erudição de Varnhagen, esta é apenas uma das questões que facilitam nosso entendimento sobre sua visão de historiador literário. Não nos cabe julgar erros ou acertos de Sílvio, apenas buscar perguntas que nos levam à compreensão de sua concepção nesta ou naquela área, no caso, no campo da História literária, no tempo em que viveu. Antes de tudo, cabe-nos atinar ou elaborar perguntas pertinentes ao tempo presenciado por Sílvio, pois como bem lembra Marc Bloch, “desde que nos não resignemos a registrar pura e simplesmente o que dizem as nossas testemunhas, desde que entendemos forçá-las a falar, mesmo contra sua vontade, impõe-se mais do que nunca um questionário. E é esta, efetivamente, a primeira necessidade de qualquer investigação histórica bem conduzida”.

Homem preocupado com os mais variados ramos do conhecimento, donde a Crítica presidiria os mais variados campos do saber, qual o Sílvio que queremos elucidar e quais são as perguntas que devemos formular? Quais dos seus livros, textos ou artigos deveremos ter em mãos para apresentarmos sua contribuição diante da área escolhida por nós como análise, no caso, o Sílvio historiador da Literatura brasileira? Como não misturar aquilo que para o crítico estava sob a mira da nova intuição surgida sob o escopo naturalista daquilo que para muitos pertencia à Literatura?

Tais questões não podem passar despercebidas. Poderíamos tentar aprofundar toda uma discussão promovida pela revolução historiográfica dos Analles, que pôs em xeque a verdade do documento, uma História elaborada a partir dos grandes fatos e dos grandes acontecimentos visando a sagrar vultos considerados importantes. Mas tal forma de análise seria incorrer em questões que Sílvio nunca se propôs. Sílvio foi um homem de seu tempo, quando o Naturalismo era a palavra de ordem.

Tal assertiva nos basta para encararmos o pano de fundo de suas análises em que toda a geração de polígrafos acreditava que assim como a biologia e a mecânica, a História possuía suas leis. Sílvio buscou historiar a Literatura brasileira pensando sempre no princípio geral que fundamentava todos os ramos do conhecimento, que era o princípio da evolução. Não adianta buscar em Sílvio aquilo que ele não se propôs, muito menos elaborar perguntas fora de seu tempo e longe de suas preocupações. Salientamos mais uma vez: Literatura para Sílvio era toda e qualquer manifestação da inteligência humana.

Analisar a contribuição de Sílvio como historiador literário é adentrar as mais variadas áreas que integravam tal concepção. Não se pode falar de Sílvio sem falar de sua maneira de ver o que fundamentava toda e qualquer manifestação “literária” da sociedade brasileira da época, e sua História literária foi esse intento. É Sempre recorrendo ao método crítico que o escritor interpretava os quadros isolados seguidos de seus respectivos autores. Dificultoso é querer entender como Sílvio analisava as mais variadas formas de manifestações culturais sem este método crítico, o que leva muitos de seus intérpretes a reduzir Sílvio ao escritor polêmico que fora e se aterem a seu lado racista, desconsiderando sua enorme contribuição na síntese literária brasileira. Quando não é esta a imagem que se tem, logo aparece a afirmação de que o escritor sergipano foi um bom historiador, muito mais sociólogo do que crítico literário, mas um mau poeta. Assim, exige-se de Sílvio, conforme os padrões de análise de sua época e que ainda nos deixa marcas, que corrente se liga o ensaísta, seja no campo filosófico ou literário. Esta questão só dificulta a análise de Sílvio enquanto historiador literário, mas lembremos que o próprio Sílvio agitou como nenhum escritor de sua época as idéias científicas e lutou tenazmente para ser reconhecido como o inaugurador do Naturalismo no Brasil. O fato de ter sido um escritor que escolheu a crítica como a área mais conveniente a sua personalidade, como chega a afirmar no questionário a João do Rio, não nos autoriza a reduzir a amplitude de sua contribuição literária. Uma vez que em Sílvio a diferenciação entre História e Literatura é bastante tênue, é de vital importância compreendermos que o escritor busca encontrar o brasileiro. Trazendo em sua História da Literatura Brasileira os mais ilustres escritores, das mais variadas áreas, que de uma forma ou de outra contribuíam para o conhecimento do país, almejava Sílvio encontrar o gênio nacional. Este gênio nacional era o povo, era a vida brasileira, as manifestações das pessoas mais simples, enfim, era o Brasil que estava por vir depois do contato com o português. A questão literária em Sílvio tinha fundamentação histórica e racial, só fazia sentido se adentrasse a formação do povo brasileiro, daí é que “trata-se de saber se na História literária de um povo, devem entrar, como parte integrante desse povo, todos aqueles que dele se ocuparam”.

A paixão pelo Brasil não deixa de ser um instrumento por demais relevante na compreensão da contribuição literária dos escritores avaliados por Sílvio, pois sabemos que é dela que surgem as reprovações aos vários escritores com suas respectivas obras. Em sua História literária, jamais se separam o homem polêmico do homem erudito, mas sempre amante das coisas simples, o patriota com espírito de província do ilustrado folclorista, apaixonado pelas missas ao domingos e reisados em sua querida Lagarta, e acima de tudo, avulta o desejo de libertação da História de seu país em relação a Portugal. Historiar a Literatura brasileira era, para Sílvio, mostrar o que era o Brasil e para isso, não havia como deixar de lado os grandes acontecimentos da História pátria.

O encontro entre a História e a Literatura em Sílvio, como em tantos outros escritores que contribuíram para o conhecimento do Brasil, é inevitável, enquanto responsável por um discurso literário que sempre é histórico, e que por isso, fornece elementos que nos levam ao entendimento de sua atividade literária, enquanto portador de uma identidade. Poderíamos usar a expressão textos de fundação, de Manoel Luiz Salgado Guimarães, em que o historiador analisa a indissociabilidade entre a atividade literária e o discurso historiográfico. Sílvio trouxe problemas de ordem geral, que iam a seu ver, da melhor maneira de ver o país à melhor maneira de ensinar, fosse nas escolas ou nas faculdades. Salgado Guimarães analisa a formação dos discursos historiográficos, de modo específico, o do Brasil oitocentista, imprescindível para confecção de um discurso literário, sempre histórico e de estreita ligação com as classes dominantes. Reflexo de toda uma estrutura econômica, por sua vez, ligada às classes dominantes, a escrita literária reflete a sociedade do momento. A abordagem do historiador não deixa de ser relevante para pensarmos a importância literária de Sílvio, quando sabemos que é de sua ampla visão literária que os inúmeros temas brasileiros vêm a tona.

Romero elaborou sua História literária querendo conhecer a formação do povo brasileiro orquestrada pela lei da evolução e pela lei do mais forte. No fundo, buscou chamar atenção para a diferença do Brasil, que era o surgimento do mestiço, uma vez que “a Literatura brasleira, como todas as Literaturas do mundo, deve ser a expressão positiva do estado emocional e intelectual, das idéias e dos sentimentos de um povo. Ora, nosso povo não é o índio, não é o negro, não é o português: antes a soma de todas estas parcelas atiradas ao cadinho do Novo Mundo”

Seguindo as diretrizes do Naturalismo europeu, a História literária de Sílvio tinha a função de esboçar o quadro racial, visto que “uma Literatura tem uma base, tem elementos e tem órgãos. A base da nossa é o sentimento do brasileiro, como nação à parte, como produto étnico determinado; os elementos são as tradições das três raças sem predomínio de uma sobre as outras; os órgãos são os nossos mais notáveis talentos, todos aqueles que sentiram como brasileiros”.

O Autor preteriu toda a História literária brasileira passada porque esta apenas tratava de quadros isolados e deixava de lado o mestiço. Iniciando sua História literária desde o contato português com os povos “bárbaros”, sempre considerando a raça do escritor, concluía que “não sendo o fito deste livro a pretensão de ser uma História exaustiva da Literatura brasileira, tendo só por alvo formular uma teoria geral de nossa intuição literária, bem se compreenderá que nele não se agitem uns quantos problemas impertinentes, tais como: qual o primeiro, ou os primeiros brasileiros que escreveram uma obra qualquer, e outros semelhantes. Obrigado a tratar somente dos espíritos autonômicos e instigadores do pensamento nacional, nada tenho a falar sobre alguns enfastiados que, se diz, escreveram aqui no primeiro século alguns versos latinos, ou coisas, da laia semelhante, que se perderam. São quase todos tipos mortos, estéreis, inúteis. Sufocados pelo culteranismo jesuítico, desprendidos da consciência nacional, para cuja determinação nada contribuíram, passaram a vida a versejar sensaborias e não tem o direito de figurar na História” 62(grifos nosso)

Não sendo a Literatura brasileira a simples descrição da natureza do país, a descrição dos selvagens com seus costumes, dos cantos indígenas, a persistência do elemento português, de todos os colonos emperrados, de todos os governadores e de todos os reis da metrópole, concluía Sílvio que a Literatura “tem uma base, tem elementos e tem órgãos. A base da nossa é o sentimento do brasileiro, como nação a parte, como produto étnico determinado; os elementos são as tradições das três raças; os órgãos são os nossos mais notáveis talentos, todos aqueles que sentiram como brasileiros” (grifo nosso)

Os vários escritos sobre o Brasil eram reprovados por Sílvio por não passarem de simples monografias, quadros, sinopses, “faltavam-lhe, porém, trabalhos sistemáticos que lhe fixassem os trâmites.”64 O brasileirismo e a atenção do escritor para a novidade do país, que era o mestiço, se mostram de primeiro plano na confecção da História literária. Assim é que o crítico avalia os prosadores e poetas na formação da História literária nacional. É bem verdade que a História literária de Sílvio é indissociável dos acontecimentos históricos materializados nos diversos campos da cultura, mas é somente a partir do mestiço que ela faz sentido. A partir de então, a teoria geral para a Literatura brasileira, a Filosofia da História, só validam a insistência de Sílvio em atribuir importância ao mestiço brasileiro. Dali em diante, a confecção da História literária brasileira se transforma numa História da formação do povo brasileiro, o que leva o ensaísta a avaliar qual o escritor que pontuou a contribuição de cada uma das raças, sobretudo, a do mestiço. Discorda de Buckle, de Martius e de Varnhagen justamente porque tais escritores não trataram, a seu ver, da formação racial brasileira. Sobre Martius, falava que “o famoso botanista, no escrito citado, d apenas um conselho e faz uma enumeração meramente exterior dos elementos que entraram em nossa população. Não os estuda; não os aprecia em sua ação mútua; não os mostra fusionando-se e reagindo uns sobre outros; não tenta a determinação nem ao menos vaga, do que devemos a cada um dos três fatores principais de nossa nacionalidade em particular e a todos eles conjuntamente. Deixa, o que é fundamental na questão, em completo esquecimento o ponto saliente do problema: o mestiço, sobre quem peculiarmente deveria insistir, estudando, repetimos, o especial quinhão de cada fator e definindo o caráter do resultado”.

Não era outra a razão da discordância de Sílvio com relação ao Visconde de Porto Seguro “De certo tempo a esta parte, é de notar a insistência com que se tem andado, com evidente preocupação, a proclamar Varnhagen o criador da História da Literatura brasileira!...Criador... Como e por quê? Se a própria História geral, Varnhagen não a criou, como poderá ter criado a História da Literaturaw Varnhagen não fez mais do que, sem plano, sem sistema, sem doutrina, sem Filosofia, sem análise, sem síntese, escrever meia dúzia de biografias destacadas de poetas e escritores e a introdução da seleta a que pôs o nome de Florilégio da Poesia Brasileira: pouco mais fez do que repetir Barbosa Machado, Januário Barbosa, Noberto Silva, Pereira da Silva e outros mais. Varnhagen não tinha capacidade teórica e filosófica, e pouco além ia de pesquisas puramente eruditas. Se fazer biografias e apurar datas e fatos anedóticos fosse criar História literária, não haveria livro mais fraco em o gênero do que a História da Literatura Inglesa – de Taine, porque ali o grande mestre nem faz biografia, nem apura questiúculas bibliográficas.

Não é verdade que Varnhagen tivesse, como alguns tem afirmado, precedido Fernando Denis e Noberto Silva no tratar historicamente as coisas literárias brasileiras. Neste particular são-lhe não só anteriores os escritos de Barbosa Machado, Bouterweck, Sismondi, como os primeiros e decisivos de Fernando Denis, Noberto Silva, não falando já nos de Januário Barbosa, Almeida Garret, Nunes Ribeiro, Pereira da Silva, Gonçalves de Magalhães e outros.

Não é também verdade que tivesse, como igualmente se tem dito, sido o autor da História Geral do Brasil quem primeiro tivesse contado o gentio entre os fatores de nossa Literatura. Esteticamente, tinham-no feito antes dele algumas dúzias de poetas; criticamente, todos os autores acima citados. Cumpre advertir, finalmente, que o termo fator é mal empregado em relação a esses críticos e historiadores: estes consideram sempre o índio mais como um assunto a ser tratado pela Poesia e pelo romance do que com um fator da Literatura”.

Mesmo que saibamos da concepção literária de Sílvio, o que explica suas investidas nas mais variadas áreas do saber, sua História literária repousa sobre a formação racial do brasileiro, donde sua rica contribuição. Portanto, a História deveria buscar as riquezas folclóricas existente nas mais recônditas paragens brasileiras. Não bastava ao historiador literário falar do gênio criador em busca da musa ou da deusa da Arte, não bastava como faziam os antecessores de Sílvio arrolar simples Florilégios e     Bosquejos. O gênio nacional era, para Romero, o que havia de mais íntimo numa sociedade, era a base formadora de um país que se queria nação, ou melhor: o gênio brasileiro era formado pela singularidade brasileira constituído pelo meio que nos diferenciava e pela singularidade da raça mestiça. Como uma concepção bastante clara do que competia ao escritor quando da confecção de sua História literária, a Literatura deveria representar o nacional, deveria representar elementos intrínsecos para a gestação de um povo num Brasil ainda não constituído de maneira homogênea, mas que Sílvio sempre sonhou representar em sua análise literária.

Literatura, para Romero, deveria servir de agente transformador, completamente diferente da concepção literária do escritor preso à forma e ao estilo. Sílvio não é o tipo de intelectual de gabinete, como foram Martius, Varnhagen e os escritores viajantes a serviço de suas nações. Literatura, para ele, era o domínio amplo das mais variadas áreas do saber, mas precisava também ser um conhecimento que se estendesse ao povo, porque este povo tinha fundamental importância na formação brasileira em função de suas tradições culturais. Era necessário representar o que havia de mais íntimo num povo, aquilo que lhes dava sentido, era esta a base formadora de um país que se queria nação: o gênio brasileiro era formado pela singularidade brasileira, o meio e as raças aqui presentes. Sílvio era um herderiano, acreditava na nacionalidade literária porque era pela Literatura que se firmava uma nação. Sua visão larga, que viabilizava encontrar o “povo” brasileiro, deixava bastante clara a importância dos esquecidos da História literária. Dentre as tantas influências sofridas por Sílvio, Herder foi o escritor que mais profundas marcas deixou. Como Lembra Carpeaux:

“Johann Gottfried Herder não deixou, entre os seus muitos escritos, uma só obra definitiva; mas é o maior dos precursores. Convergem em Herder todas as correntes espirituais da segunda metade do século XVIII — a Crítica, o individualismo estético, o senso histórico, o gosto das expressões populares; aprofundam-se, entram em novas combinações, e irradiam pelos tempos futuros. Dotado de extraordinária capacidade de análise intuitiva, Herder deu os primeiros exemplos de Crítica criadora: cria imagens permanentes de poetas, cria o seu Shakespeare, por exemplo; e depois de Herder será impossível contentar-se alguém com meras indicações biobibliográficas. O registro dos livros é substituído pela História das obras e das idéias. Mas Herder não cria apenas indivíduos; também cria, por assim dizer, indivíduos coletivos. Com o mesmo poder de intuição apanha os traços característicos das Literaturas nacionais, da inglesa, da espanhola, da grega, da hebraica, cria o conceito "Literatura nacional" como a expressão mais completa da evolução espiritual de uma nação.

 Todo o nacionalismo do século XIX se inspirará em Herder, que é até avô, embora involuntário, do pan-eslavismo e do racismo alemão. Contudo, é um homem do século XVIII: o seu ideal supremo é a Humanidade, e todas aquelas literatursa nacionais lhe aparecem como vozes mal isoladas, consonando na grande sinfonia Literatura Universal: conceito que também se deve a Herder”.

Romero buscou tenazmente a índole da Literatura brasileira confiando na importância do povo, donde surgia seu interesse em avaliar a contribuição racial desse povo. Tal era a concepção romântica que engendrou toda a historiografia até meados do século XIX. Era Sílvio um tainiano, que pensava que a Literatura possuía suas causas, sofria influências, bem ao modo de Sherer e Lanson; não foi menos positivista por valorizar a importância das origens do acontecimento em suas narrações acerca da evolução dos gêneros literários. Confiou em Schlegel devido ao paralelismo histórico das civilizações, no que advogava que primeiro era preciso conhecer a Literatura ocidental para analisar a Literatura brasileira. Todos esses aspectos derivavam de sua ampla visão literária. Foi Sílvio influenciado por esta ou por aquela corrente, o intelectual que foi Goethe, que vivenciou e foi ele próprio banhado por um humanismo, pela noção de uma Literatura mundial. Auerbach fala do escritor humanista de feição goethiana, escritor que elabora sua Literatura a partir da visão de conjunto. Sílvio foi sujeito de seu tempo, quando o Romantismo lançava a visão para a construção da História literária, propiciando encontrar o povo para a formação das nações. Dali diante, como pontua Carpeaux, veríamos o alargamento dos horizontes, e Romero fora profundamente influenciado por toda esta herança: “a herança do humanismo goethiano foi breve, mas aí realizou-se ou deu início a muita coisa hoje em curso, e mesmo em expansão e ramificação crescentes. No fim de sua vida, Goethe tinha a sua disposição um material literário mundial muito mais rico em comparação ao que se conhecia a época de seu nascimento – e muito menor do que nosso patrimônio atual. Esse patrimônio, nós o devemos ao impulso do humanismo histórico daquela época; e não se trata aqui apenas da descoberta de novos materiais ou do desenvolvimento de métodos de pesquisa, mas, além disso, de sua difusão e utilização com vistas a uma História imanente da humanidade, a uma noção unitária do homem em meio a toda sua multiplicidade. Foi esse, desde Vico e Herder, o verdadeiro objetivo da filologia, e foi esse objetivo que lhe conferiu seu lugar de liderança: ela atraiu para si a História das Artes, a História religiosa, jurídica e política, associando-se a metas comuns.

Não é preciso evocar os resultados obtidos, tanto no campo da pesquisa como no da síntese”.

---
Fonte:
Cícero João da Costa Filho
: "No limiar das raças: Silvio Romero - 1870-1914". (Tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História Social da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, sob a orientação do Professor Dr. Marcos Antonio da Silva). São Paulo, 2013.

Nenhum comentário:

Postar um comentário