13/02/15

Despedidas (Poesia), de Antônio Nobre


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António Nobre e a memória como reconstrução poética

Quando iniciamos a leitura do Só, de António Nobre, deparamo-nos, na 1ª edição, com o poema “Memória à minha mãe, ao meu pai” e, na 2ª edição, substancialmente modificada pelo poeta, com o poema “Memória”; são dois poemas diferentes, mas ambos apresentam a história do sujeito poético e dos seus antepassados. Desse modo, assim que abrimos o Só, tanto na 1ª quanto na 2ª edição, verificamos a importância que a memória, ou melhor, as operações da memória têm na obra do poeta. Por meio do poema “Memória”, iniciado em tom oral“Ora isto, Senhores, deu-se em Trás-os-Montes,/ Em terras de Borba, com torres e pontes”, podemos claramente observar a contínua retomada do passado individual e familiar e uma quase incompreensão do fado mofino do sujeito poético. Essa incompreensão se dá a partir da filiação privilegiada do sujeito poético que tem um pai caracterizado como bom, “egrégio”, e uma mãe com características de santa, como as representações femininas presentes no Só.

Porém, apesar das qualidades dessas duas figuras apontadas no poema percebemos a infelicidade do sujeito poético, também porque, do pai, advém o sentimento de exilado: “Português antigo, do tempo da guerra. / Levou-o o Destino p’ra longe da terra”, e, da mãe, o do abandono: “Vou ali à cova, em berlinda, / António e já volto. . E não voltou ainda!”.

Como o pai também desaparece à procura da mãe, o resultado dessas ações não pode ser outro senão a solidão e a saudade que acompanham por toda a obra o sujeito poético a partir de “Memória” até o reencontro com a mãe em “Males de Anto II (Meses depois, num cemitério)”.

Segundo Paula Morão em O Só de António Nobre: Uma leitura do nome, o poema em tela

.. é simultaneamente programa a realizar e resumo do já vivido; ‘Memória’ pode ler-se como advertência, prevenindo contra ‘o livro mais triste’, ou como palavra lapidar, instituindo o ‘livro’ como o lugar de perpetuação do ‘Poeta’ – ‘Príncipe’ – ‘Menino’ feito paladino de um ‘fado’ seu, mas que se transcende para ser também a saga de um Portugal antigo que no tempo se desfaz, e, paradoxalmente se procura.

No Só essa busca ou, melhor dizendo, a apresentação de um país outrora glorioso dá-se pela memória do sujeito poético que, ao longo da obra, procura recuperar o passado e reconstruir poeticamente fragmentos de Portugal, a partir de poemas como “Memória”, “António”, “Lusitânia no Bairro Latino”, entre outros. O processo de rememoração é constante, o sujeito recupera imagens, sons, sensações e evidencia a sua saudade pela pátria, como podemos observar nesse fragmento do poema “Poentes de França”.

Sol às Trindades, atrás dos pinheiros,
À hora em que passam branquinhos moleiros,
Levando farinha pra cozer o pão!
— Ó forca do Sol-pôr! ó Inferno de Dante!
Açougue d’astros! ó sabat de feiticeiras!
Ó Sol ensangüentado! ó cabeça-falante,
Que o funâmbulo Poente anda a mostrar nas feiras..
[.. ]
— Que paz pelo Mundo, nessa hora ditosa!
Quando fecha a lojinha a Srª Rosa,
Quando vem das sachas o Sr.João..
[.. ]

— Ó hora em que as águas rebentam das minas..
Ó poentes de França! não vos amo, não!
[. .]

Ó hora em que passam moças e meninas
Que, em tardes de Maio, vão às Ursulinas,
Com rosas nos seios e um livro na mão!

Nele o elemento motivador do poema é o sol. Não aquele do meio-dia em todo o seu esplendor, mas outro, em queda, o do final do dia. Sob esse aspecto ambos os poentes evocados são iguais; a diferença está na contraposição entre o pôr-do-sol português e o francês. Há uma nítida diferença na forma de narrar: quando se trata dos poentes da França, a lembrança é evocada solenemente, com uma linguagem simbólica e ultra-civilizada, o que não ocorre nas estrofes em contraponto, nas quais a simplicidade ganha contornos domésticos e de conforto.

É no contraponto que se ressalta a caracterização de um Portugal rural e provinciano. A valorização dos aspectos rotineiros de um povo que trabalha no comércio e no campo confirmam o desejo do “exilado” de retorno a casa, à hora do descanso e à paz familiar. Nesse território composto por pessoas e imagens suaves temos a representação de um ideal de vida que só se atinge por meio da saudade e das evocações da memória, que fielmente reconstituem a vida desejada. Contudo, mesmo quando se trata desse tempo da memória, existe uma consciência do fim, pois sutilmente por meio do nome da dona da lojinha (Rosa) ou da flor carregada pelas “moças e meninas” que leva o mesmo nome, recupera-se o sentimento de efemeridade da vida que apesar de bela passa. Por isso, a dupla negação do “não vos amo, não!” que rejeita o pôr-do-sol estrangeiro no seu descontrole de “Inferno de Dante!”, assim como todos os “-ãos” que finalizam as estrofes da segunda voz reforçam a preferência por Portugal e tudo o que lhe é característico.

Por várias passagens do Só, o sujeito poético procura compor um quadro completo daquilo que viu e conservou na memória, embora essa completude seja questionável, porque Henri Bergson ao explicar o funcionamento da memória, afirma que nenhuma rememoração é completa; ao contrário, é fragmentada e não mais a mesma. Maurice Halbwachs, estudioso das relações entre memória e história pública, também faz considerações semelhantes quando diz que:

Na maior parte das vezes, lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar, com imagens e idéias de hoje, as experiências do passado.[...] Se assim é, deve-se duvidar da sobrevivência do passado, ‘tal como foi’, e do que se daria no inconsciente de cada sujeito. A lembrança é uma imagem construída pelos materiais que estão, agora, à nossa disposição, no conjunto de representações que povoam nossa consciência atual.

Por isso, devemos pensar na memória da pessoa como um pequeno fragmento da memória do grupo, já que o indivíduo pertence a uma organização social sujeita à tradição, à linguagem, aos costumes, à cultura em geral. É por meio da memória que o sujeito poético mistura elementos da natureza com os infortúnios humanos, recupera tradições, descreve os lugares por que tem apreço, transfere seu mundo interior, triste e desalentado, para o exterior e retrata a dor agônica de um país a desmantelar-se, assim como sua vida, assim como sua infância perdida.

No Só, a memória funciona como depósito de imagens paisagísticas, religiosas e histórico-sociais e ao longo da obra, através das operações de memória, o sujeito poético tenta recuperar momentos subtraídos pelo passar do tempo e que, se sabe, não retornarão jamais. Sendo assim, o passado vivido pelo indivíduo ou pelo coletivo é somente resgatado por algumas frações de tempo, em que constará momentânea e fragmentariamente o já vivido, que, de forma muito especial, encontra-se extra temporalmente armazenado na memória e aguardando um estímulo externo para ressurgir durante a evocação.

Através da evocação, o momento presente parece desaparecer, não apenas do tempo, mas do nosso próprio ser. Somos lançados, nesse instante, a uma condição de “objeto de zombaria do destino” e ficamos à “disposição” do processo de rememoração, pois quando isso ocorre nos deparamos com a memória pura, não reencontrada pelo esforço de uma repetição mecânica de palavras ou momentos vividos, mas, sim, pelo afloramento de uma reserva de imagens-lembranças, ações passadas, de experiências, que no inconsciente do ser conservaram-se e que vêm à superfície, através de estímulos externos. Isso ocorre no poema “António”, no qual a rememoração é antecedida pelo ambiente, caracterizado pela noite e pelo fogo, que propicia o recolhimento íntimo:

Que noite de Inverno! Que frio, que frio!
Gelou meu carvão:
Mas boto-o à lareira, tal qual pelo Estio,
Faz sol de verão!
Nasci, num Reino d’Oiro e amores,
À beira-mar.

Por vezes, quando o sujeito poético se desloca para outros meios ou entra em contato com novos grupos evoca lembranças significativas condizentes àquele momento atual. Isso ocorre, por exemplo, no soneto de nº “14” quando em alto mar “António” é enlevado pelo luar e passa a rememorar o destino dos marinheiros de Quinhentos. Principalmente no ponto em que envolvidos pela aventura e pelo dever patriótico atravessavam o mar em busca do estrangeiro e da glória, como ele agora o faz nessa passagem:


Vou sobre o Oceano (o luar de doce enleva!)
Por este mar de Glória, em plena paz.
Terras da Pátria somem-se na treva,
Águas de Portugal ficam, atrás.
[...]
Onde vou? Meu fado onde me leva?
António, onde vais tu, doido rapaz?
Não sei. [.. ]
Paquete, meu paquete, anda ligeiro,
Sobre depressa à gávea, Marinheiro,
E grita França! pelo amor de Deus!
  
O estrangeiro complementou a capacidade do sujeito poético de evocar elementos constituintes da sua pátria. De Paris recupera pela memória a sua terra matricial, o mesmo já havia feito de Coimbra e de Leça, sua pátria sentimental. Contudo, em Paris a rememoração ganha força e manifesta toda a angústia de exilado temporal e espacial em evocações que reconstituem Portugal.

No Só, cada imagem formada pela lembrança traz como elemento principal o próprio sujeito poético, pois não seria lembrança se aquele não fosse elemento essencial na captação da imagem selecionada. Sendo assim, é este sujeito poético o responsável pela manutenção desse mundo rememorado, que     toma corpo  pela reconstrução poética de lugares por onde passou, pela experiência de pertencer àqueles arredores, como em “Carta a Manoel” quando diz:


Manoel, vamos por aí fora
Lavar a alma, furtar beijos, colher flores,
Por esses doces, religiosos arredores,
Que vistos uma vez, ah! não se esquecem mais:
Torres, Condeixa, Santo António de Olivais,
Lorvão, Sernache, Nazaré, Tentúgal, Celas!
Sítios sem par! Onde há paisagens como aquelas?
Santos Lugares, onde jaz meu coração,
Cada um é para mim uma recordação...


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Fonte:
Ivani Ferreira Dias Meneses Costa: “Antônio Nobre e a memória como reconstrução poética”. (Dissertação apresentada ao programa de Pós-Graduação   em       Literatura Portuguesa, do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para obtenção do título de mestre em letras. Orientador: Profª Drª Annie Gisele Fernandes). São Paulo, 2006.

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