09/01/15

Poesia Completa de Gregório de Matos


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Poesia Completa de Gregório de Matos



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O riso do poeta

As sátiras do poeta (2º e 4º poemas do corpus) apresentam-se como respostas àquelas produzidas pelo vigário e desenvolvem-se em torno de duas questões: a primeira delas diz respeito ao fato de o vigário, sendo mulato, querer corrigir um homem branco:

 Que um Cão revestido em Padre
 por culpa da Santa Sé
 seja tão ousado, que
 contra um Branco ousado ladre:
 e que esta ousadia quadre
 ao Bispo, ao Governador,
 ao Cortesão, ao Senhor,
 tendo naus no Maranhão:
 milagres do Brasil são.

e a outra refere-se ao fato de o vigário em versos querer dar penada. Analisaremos cada uma das questões em particular e o que elas nos revelam acerca do riso do poeta.

A primeira questão a ser destacada diz respeito, conforme já mencionamos acima, à raça do vigário. O sujeito enunciador questiona a ousadia daquele ao repreendê-lo. Não reconhece no vigário poderes para tanto, haja vista se tratar de um mulato. Esse dado é para nós digno de atenção. E para bem analisá-lo retomaremos aquele princípio segundo o qual o sujeito, ao mostrar-se, inscreve-se em um espaço socioideológico e não em outros, enuncia a partir de sua inscrição ideológica; e ainda, que a voz desse sujeito revela o lugar social (FERNANDES, 2005, p.25 ). Em vista disso questionamos: qual a inscrição socioideológica do poeta? De que lugar ele enuncia? A seqüência abaixo extraída do quarto poema da seqüência tomada para análise nos dirá:

 Não sabeis, Reverendo Mariola,
 Remendado de frade em salvajola,
 Que cada gota, que o meu sangue pesa
 Vos poderá a quintais vender nobreza?

Era o Nobre, o Branco, o Senhor, que investia contra a possibilidade de reconfiguração dos saberes da FD que o constituiu sujeito, saberes que se constituem como exterior ao sujeito que enuncia.

A análise da conjuntura em que os poemas foram produzidos nos revelou a condição dos membros do clero em relação aos senhores: aqueles lhes eram, sob certos aspectos, subalternos. Ao tomar o ato do vigário/mulato como motivo de riso, o poeta permite que identifiquemos a sua inscrição sócio-histórico-ideológica: para a manutenção da hierarquia, era preciso refrear investidas que pudessem abalar a autoridade e o poder do patriarca, do nobre. Vê-se, assim, que é a manutenção da hegemonia, e em termos discursivos, dos saberes que configuram a forma-sujeito daquela FD, que está em jogo. Nesse sentido, se era vetado ao vigário o direito de corrigir dessa posição, como mulato isso era inadmissível. O mulato era um sujeito que, por consangüinidade, transitava entre o mundo dos nobres e a senzala:

 Se a este podengo asneiro
 o Pai o alvanece já,
 a Mãe lhe lembre, que está
 roendo em um tamoeiro:

Ao abrir possibilidade para um mulato corrigir um Branco, provoca-se um enfraquecimento desse último em favor do primeiro; logo, a intervenção do mulato poderia promover uma agitação nas filiações sócio-históricas de identificação. É a unidade ilusória do UM que se encontra ameaçada pela possibilidade de reconfiguração dos saberes que o constitui sujeito. Ou, conforme Pêcheux ( 1997b, p. 117)

o que está em jogo é a identificação pela qual todo sujeito “se reconhece” como homem, ou também como operário, empregado, funcionário, chefe, etc. , ou ainda como turco, francês, alemão, etc., e como é organizada sua relação com aquilo que o representa.

Ao dotar esse sujeito daquele poder, poderia se colaborar na legitimação de relações que não estivessem dentro dos padrões morais vigentes e, por sinal, muito comuns no seio dessa formação social-ideológica: O mulato era já, na verdade, um perigo iminente:

 Que vos direi do Mulato,
 que vos não tenha já dito,
 se será amanhã delito
 falar dele sem recato:

E não apenas no sentido de poder repreender um branco, mas, ainda, pela possibilidade de ocupar posições até então legitimamente ocupadas só por brancos. Daí também a crítica ao fato de o vigário querer produzir versos: Já em versos quer dar penada. Há, neste ato do poeta, uma tentativa de manutenção de um dado espaço social, o qual era assegurado por um conjunto de formulações que circulavam enquanto memória dizendo quem estava habilitado a desenvolver tal prática. Formulações do tipo

A poesia satírica não pode ser produzida por um simples ato de vontade ou mimetismo literário, exigindo predicados especiais de temperamento [...], mundividência e linguagem, não franqueadas a todos os poetas, mesmo em época de coletivização literária. (GOMES, 1985, p.20)

que fornecerão matéria-prima para a constituição das representações24 nas quais o  sujeito se instalará, sentindo-se “aprisionado”, identificado com a completa estranheza  de uma evidência familiar; ( PÊCHEUX, 1997b, p.260) ou não! Já sabemos que o processo de identificação pode não ocorrer de forma plena, abrindo espaço para diferentes modalidades de subjetivação. Isto porque

a relação estabelecida com o sujeito do saber, ainda que marque o assujeitamento, não apaga a alteridade. Na FD, há espaço para diferentes sujeitos do discurso conviverem. Há uma forma sujeito/de ser sujeito, da qual não há como escapar, mas o modo como cada um se relaciona com ela determina a existência de diferentes representações. (DORNELES, 2000, p.169).

São essas representações que alimentam a produção do poeta, como se pode ver nos versos abaixo:

 Ilustre, e reverendo Frei Lourenço,
 Quem vos disse, que um burro tão imenso,
 Siso em agraz, miolos de pateta
 Pode meter-se em réstia de poeta?
 Quem vos disse, magano,
 Que fará verso bom um Franciscano?
 Cuidais, que um tonto revestido em saco
 O mesmo é ser poeta, que velhaco?
 Seres mestre vós na velhacaria
 Vos vem por reta via
 De trajar de burel essa libréia,
 E o ser poeta nasce de outra veia;
  
As características destacadas na seqüência discursiva acima – burro, siso em agraz, miolos de pateta, tonto – colocam-se como empecilho ao exercício da prática de produzir versos. E a razão disso pode ser detectada na seqüência que reproduzimos abaixo:

 Falais em qualidade,
 Tendo nessas artérias quantidade
 De sangue vil, humor meretricano,
 Pois nascestes de sêmen franciscano,
 E sobre vossa Mãe em tempos francos
 Caíram mil tamancos,
 De Sorte que não soube a sua pele,
 Se vos fundiu mais este, do que aquele:

Tais questões estariam em conformidade com o que Courtine (1981) denominou de  aspectos da existência material de uma formação discursiva como memória. São da ordem do domínio do saber de uma FD. E, nesse sentido, poderíamos pensar no fechamento fundamentalmente instável de uma FD. Vemos que os limites traçados acima pelo poeta dão a ver, ainda que de forma não definitiva, as condições de possibilidades de exercício daquela prática discursiva. E essas condições são dadas pelo  interdiscurso da FD que domina a seqüência, como podemos atestar pelo depoimento abaixo transcrito:

Naquela época, havia uma triagem através de um processo chamado habilitação de gênere. O sujeito que fosse mestiço — tivesse sangue de mouro, de judeu, de africano, ou como eles chamavam, “sangue de infecta nação” — ou que descendesse de oficial mecânico não poderia freqüentar a Universidade de Coimbra nem ser nomeado pelo rei para exercer uma função de juiz. (PERES, 1996) Disponível em http://www.revista.agulha.nom.br/peres01.html.

... tampouco produzir versos. Essa era uma prática reservada aos sábios, aos que falassem elegante, e invariavelmente, aos filhos dos Senhores que iam para a capital estudar nas Faculdades de Direito e lá adquiriam o dom da oratória, bem como o título de Doutor. Era, pois, uma prática discursiva regulada por um aparelho ideológico, condição que aponta para a repetibilidade, ainda que transitória. Ao aventar-se a possibilidade de o vigário-mulato instituir-se nesse lugar social, faculta-se a reconfiguração dos saberes próprios àquela FD pela incorporação de novos elementos e/ou apagamento de outros já consolidados. Se o ato de produzir for considerado legítimo, ainda que praticado por um mulato, promove-se uma agitação nos processos identitários, bem como na natureza das circunscrições dos sujeitos na ordem dos discursos. E isso não era algo impossível de acontecer naquela conjuntura: a reconstituição das CPs possibilitou-nos a observação de que a atividade intelectual apresentava-se aos elementos da camada intermediária - na qual se enquadra o vigário-mulato - como via de acesso social, permitindo, inclusive, o ingresso na nobreza de títulos, o acesso às funções não maculadas pelo trabalho físico.

Vemos, com isso, que o riso do poeta coloca-se como instrumento de imobilismo, como força capaz de impedir o avanço de forças opostas, como princípio de exclusão, como princípio de resistência.

Destacamos até este ponto aspectos referentes ao riso dos sujeitos enunciadores. Daqui em diante passaremos à reflexão do papel do autor literário como uma forma sujeito capaz de, através de sua produção, intervir tanto no que se refere à manutenção quanto à reconfiguração dos grupos que compõem a formação social da qual faz parte. E o faremos guiados pela questão que deu origem a esse estudo: de que forma o riso, em suas manifestações discursivizadas - em especial neste estudo, sob a forma de sátira - pode contribuir para a manutenção ou reconfiguração de grupos de poder já instituídos e socialmente bem aceitos, como também para o estabelecimento de grupos de poder emergentes?


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Fonte:

Rosely Costa Silva Gomes: “O riso, seus poderes e perigos: Um estudo da discursivização do riso e da materialização do poder na sátira gregoriana”. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Lingüística da Universidade Federal de Uberlândia, como requisito para obtenção do título de mestre em Lingüística. Área de concentração: Estudos em Lingüística e Lingüística Aplicada; Linha de pesquisa: estudos sobre texto e discurso; Tema: Análise do Discurso: formação e funcionamentos de discursos político-institucional, literário e pedagógico. Orientador: Prof. Dr. Cleudemar Alves Fernandes). Uberlândia, 2007.

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