28/12/14

Trovas de Bandarra

Livro provisoriamente disponível no site Minhateca (link baixo):
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Trovas de Bandarra: leituras, releituras e interpretações
  
Neste trabalho, conforme apresentado na introdução, propomos-nos a realizar uma análise do contexto histórico vivido por Gonçalo Eanes Bandarra, a partir de seus escritos - as Trovas de Bandarra -, tarefa que exige o conhecimento do homem e sua obra. Bandarra foi um sapateiro que viveu em Trancoso, pequena cidade comercial da região da Beira, no início do século XVI, e que, posteriormente, foi identificado como o fundador do sebastianismo e profeta da Restauração Portuguesa . De acordo com seus autos inquisitoriais, Bandarra era uma alcunha dada ao sapateiro, que podia adquirir tanto aspecto pejorativo como fortalecer seu papel em Trancoso . Se buscarmos seu significado atual, veremos que Bandarra, para a Enciclopédia Larousse Cultural, seria o mesmo que “homem vadio, mandrião”, significado semelhante ao encontrado no dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Jaqueline Hermann, ao tratar do sapateiro em seu livro “No Reino do Desejado”, identifica Bandarra como sendo sinônimo de “homem vadio e ocioso, ou de palhaço que diverte os populares recitando trovas engraçadas”. Tais definições nos traz a dúvida se essa era a denominação dada por seus interlocutores ou se não fora um apelido dado pela inquisição, para desvalorizar seu papel frente a comunidade cristã nova.

Bandarra nasceu por volta de 1500 e, a partir de 1541, data da realização do auto inquisitorial pelo qual foi condenado, não se tem mais informações sobre ele. Alguns, como António Machado Pires, acreditam que tenha morrido por volta de 1556, enquanto D. João de Castro estabelece 1560 como o ano de sua morte. Estas datas são identificadas tendo por base a dedicatória encontrada nas Trovas, em nome do Bispo da Guarda, D. João de Portugal, confirmado no cargo em 23 de março de 1556. Se esta indicação estiver correta, Bandarra não cumpriu à risca a punição que recebeu da Inquisição de Lisboa, que determinava a entrega de todas as cópias das Trovas ao tribunal.

Ainda em relação à dedicatória, é curiosa a controvérsia apresentada por Antônio da Silva Neves, apontando a possibilidade dela ter sido inclusa a posteriori, por D. João de Castro, como forma de adequar as Trovas ao sebastianismo, considerando que o Bispo da Guarda pertencia a uma das famílias mais perseguidas por Filipe II, tendo sido inclusive clausurado após a batalha de Alcácer Quibir. Já o padre Antônio Vieira afirmava que a dedicatória fora feita para o Bispo de Viseu, D. Miguel da Silva, já que Trancoso pertencia a essa diocese. Também neste caso, podemos encontrar uma construção ideológica por parte dos leitores das Trovas, pois o Bispo de Viseu tinha discórdias com D. João III, chegando a fugir para Roma, de onde passou a defender os judeus junto ao Papa, adequando-se assim às expectativas do jesuíta em relação à questão judaica.

Por meio da leitura das Escrituras Sagradas e de sua prodigiosa memória, Bandarra adquiriu fama em sua cidade, sendo considerado uma espécie de Rabi local, interpretando a Bíblia e suas profecias para os cristãos-novos da região. Escreveu suas Trovas nas primeiras décadas dos quinhentos e, de acordo com seus autos, aquelas já em 1531 eram lidas em Lisboa, tendo grande inserção junto aos cristãos-novos, principalmente pelo seu apelo profético e messiânico, já que muitos conversos esperavam para o século XVI a vinda do messias. Bandarra foi perseguido e detido pela Inquisição, em 1541, mas recebeu penas leves, por não se ter conseguido provar nenhuma ascendência judaica, apesar de sua intensa relação com os conversos:

Acordam os deputados da Santa Inquisição e / que vistos estes autos e como por eles se mostra Gonçallo / Annes réu: ser amigo de novidades e com elas causar / alvoroço em cristãos novos, escrevendo Trovas que por falta / de declarações se entendiam em outra maneira e não / segundo sua tenção dando outro si declarações e muitas / autoridades da Sagrada Escritura e respostas de / semelhantes coisas sem letras, o que não carece de / suspeita com o mais que pelos autos se mostra havendo-se porém respeito / a qualidade de sua pessoas vida e costumes mandam / que publicamente declare sua tenção acerca das Trovas / que tem feito segundo se lhe dera por apontamento e que / daqui por diante se não intrometa mais a responder / nem escrever em nenhuma coisa da sagrada escritura / nem tenha nenhum livro dessa maneira salvo sendo / o flos santorum ou evangelium somente e fazendo / o contrário será castigado como caso merecer / e se publicara que qualquer pessoas que tiver as ditas / Trovas as apresente a Santa Inquisição dentro / de três dias que vier a notícia e o puder fazer. / O Bispo de Angra Frei Georgius de Santio Jacob// / Antonius Joam de Mello / Didacus Frei/Mendus. 

Apesar da condenação inquisitorial, que proibiu a posse e divulgação das Trovas, os escritos de Bandarra tiveram boa aceitação em Portugal, essencialmente pela convivência entre cristãos-novos e velhos, pois afirmavam que todos os povos caminhariam em direção a uma única fé, liderados por um rei português. Nas palavras de Eduardo Hoornaert:

(... ) sapateiro de Trancoso que lia muito a Bíblia e foi consultado por cristãos-novos acerca do significado da história de Portugal. As ‘Trovas’ de Bandarra profetizaram acerca de um rei que dominaria o mundo inteiro e sob cujo império e único Deus verdadeiro seria adorado .

Um dos grandes difusores de sua obra foram os jesuítas que, segundo João Lucio de Azevedo, utilizaram-nas para exaltar o ânimo popular contra Castela, após a união das coroas ibéricas, sendo Bandarra considerado profeta mandado por Deus para alertar os portugueses a respeito de seu futuro glorioso:

Nenhuma ciência, nem humana, nem diabólica, nem angélica, podia conjeturar Bandarra a minha parte do que disse, quanto mais afirmá- lo com tanta certeza, escrevê- lo com tanta verdade e individuá-lo com tanta miudeza, que é o que se ele preza no prólogo de sua obra, quando diz – Coso miúdo sem conto. Foi logo lume sobrenatural, profético e divino, o que alumiou o entendimento deste homem idiota e humilde, para que as maravilhas de Deus, que nestes últimos tempos havia de ver o mundo em Portugal, tivessem também aquela preeminência de todos os grandes mistérios divinos, que é serem muito de antes profetizados .

Segundo indicações de seus autos, as Trovas só foram compiladas em 1537 ou 1538, por Heitor Lopes, tosedor converso de Trancoso, sendo um dos manuscritos adquirido por Afonso de Medina, Desembargador da Mesa de Consciência do Santo Ofício, o que causou início ao processo inquisitorial. Estes dados são apresentados pelo próprio Bandarra, o que indica que tinha conhecimento destes eventos e que considerava a cópia adquirida pelo Santo Ofício como sendo de sua autoria, e assim, verdadeira.

Apesar de as Trovas terem sido copiadas em boa letra e adquiridas pelo Santo Ofício, é difícil saber se o texto preservado é o original, tendo em vista que suas publicações estiveram marcadas por aspectos ideológicos, em especial pelo sebastianismo de João de Castro e pela Restauração Portuguesa. É possível identificarmos dois momentos de construção da obra: o primeiro vai até a cópia adquirida pela Inquisição, e que Bandarra considera como sendo sua. A partir daí, consideramos não haver mais alterações nas Trovas, feitas pelo autor, apesar da indicação de que este continuou a manipulá-las até a década de cinqüenta, se levarmos em conta a dedicatória. O segundo momento são as publicações, alteradas de acordo com os interesses políticos e ideológicos de seus editores. Por isso as Trovas são consideradas como fundamentais para o estudo do sebastianismo e da Restauração Portuguesa, fato que vem minimizando as tentativas de entender a obra em seu contexto original, ou seja, a primeira metade do século XVI.
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Fonte:
Leandro Henrique Magalhães: “Poder e sociedade no reino de Portugal no século XVI: as Trovas de Bandarra”. (Tese Apresentada ao Curso de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná – UFPR, Linha de Pesquisa Cultua e Poder, sob Orientação do Professor Dr. Renan Frighetto, como Requisito Parcial para Obtenção do Título de Doutor em História). Curitiba – PR, 2004.

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