09/11/14

As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift

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O cientificismo iluminista em Gulliver’s Travels
  
Embasado no que anteriormente delineamos, a ironia acerca do cientificismo iluminista em Gulliver’s Travels se constitui a partir da incongruência entre o dito e não-dito. A conjunção do dito com o não-dito molda os efeitos de sentido irônico, caracterizando, dessa maneira, a ironia como um procedimento literário que visa desvelar determinadas realidades (RAMOS-DE-OLIVEIRA, 2004). Assim sendo, o intérprete é levado a observar que o dito implicitamente o conduz a uma pluralidade de significados que busca desmistificar uma determinada prática. O dito, em Gulliver’s Travels, está relacionado a uma prática cientificista amalucada e de acordo, por conseguinte, com a cosmovisão carnavalesca bakhtiniana. Na ironia acerca do cientificismo iluminista em Gulliver’s Travels, essas categorias constituem explicitamente o dito. Ou seja, os cientistas bufões são seres excêntricos que profanam todo o caráter de seriedade do qual a ciência na Europa é revestida.

Já o não-dito se apresenta implicitamente como um conteúdo latente relativo ao cientificismo iluminista reinante na época de Swift. O cientificismo iluminista se dá pela crença à ciência enquanto salvadora de todos os problemas da humanidade, valorizando exclusivamente a racionalidade científica que é desenvolvida a partir do uso da razão. Esta última é definida como algo universal e atemporalmente correto e verdadeiro.

Nesse sentido, o cientificismo iluminista presente em Gulliver’s Travels pode ser definido como “[...] crença infundada de que a ciência pode e deve conhecer tudo e é a explicação causal das leis da realidade tal como esta é em si mesma” (CHAUÍ, 2003, p. 235). Dessa forma, os pseudocientistas põem total confiança na ciência, valorizando unicamente uma racionalidade cientificista carnavalizada como única forma de solucionar os problemas que são apresentados nessa obra.

Além disso, devemos salientar que a racionalidade científica que teve seu auge no século XVIII com o Iluminismo, marcando o desenvolvimento científico e técnico dos tempos modernos (ARANHA; MARTINS, 1992), é apresentada em Gulliver’s Travels a partir da perspectiva de uma razão louca que vai contra as convenções do mundo oficial por constituir um mundo às avessas, extravagante e, por conseguinte, cômico. Essa razão, de acordo com Rouanet (2004), conduz em nome da razão científica um irracionalismo que usurpa as prerrogativas da razão sábia que é em si a verdadeira razão que liberta o homem das trevas. Em outras palavras, a razão instrumental jamais assegurará a felicidade geral das massas através de um progresso social realizado pela ciência, pois esta razão mascara suas verdadeiras pretensões.

Sendo assim, podemos afirmar que a ironia acerca do cientificismo iluminista em Gulliver’s Travels se apresenta como um elemento satírico a serviço da razão sábia, tendo por objetivo desvelar a razão instrumental que fundamenta o pensamento ocidental clássico e moderno, também compreendida como “[...] logos [a razão, a palavra de Deus, a fala, o discurso], em especial a significação de verdade [...]”. (FELISBINO, 2001).

 Dessa maneira, os pseudocientistas nesta obra são meros bufões usados por Swift para ridicularizar os cientistas de sua época, pois ele achava a atividade deles cômica em si, uma vez que não trazia nenhum benefício para a humanidade, ou seja, eles não estavam preocupados em solucionar os problemas humanos (TURNER, 2005a).

Indo a países fantásticos e carnavalizados, Gulliver se defronta com práticas sociais que lhe são estranhas e as compara com aquelas de seu mundo extracarnavalesco. Isso faz com que o leitor possa fazer uma experimentação das “últimas questões” concernentes à natureza humana e desnudar a realidade que se encontrava camuflada. Isto é possível graças à criação de um mundo às avessas que coloca elementos antagônicos em perfeita harmonia, o que é próprio da sátira menipéia ou luciânica.

Dessa maneira, a ironia acerca do cientificismo iluminista é construída em Gulliver’s Travels através da apresentação de idéias e invenções que recebem um tratamento sério-cômico, pois a ida de Gulliver a outros países é um meio utilizado por Swift para colocá-lo em um mundo fantástico e carnavalizado. Esse mundo carnavalizado, onde tudo pode acontecer, é confrontado com o mundo extracarnavalesco e, dessa forma, a ironia, que é um veículo de constituição da sátira swiftiana, é criada. Em outras palavras, podemos dizer que a ironia acerca do cientificismo iluminista se dá, principalmente, pela confrontação entre a prática cientificista dos pseudocientistas presentes em Gulliver’s Travels, sobretudo aqueles da ilha voadora de Laputa e da academia de Lagado, e os indivíduos que se dizem cientistas no mundo extracarnavalesco.


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Fonte:
Evaldo Gondim dos Santos
: “Tradução e ironia: o cientificismo iluminista em Gulliver’s Travels vs. (As) Viagens de Gulliver”. (Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado Acadêmico em Lingüística Aplicada – CMLA, Centro de Humanidades – CH, Universidade Estadual do Ceará – UECE – como requisito parcial para obtenção do grau de mestre em Lingüística Aplicada. Área de Concentração: Estudos da Linguagem. Linha de Pesquisa: Tradução, Lexicologia e Processamento da Linguagem. Orientadora: Profa. Dra. Soraya Ferreira Alves). Fortaleza, 2008.

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