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Do menino Arthur
Azevedo ao comediógrafo
Do menino Arthur Azevedo às
origens do Arthur Azevedo homem: eis a linha da a “Autobiografia de Arthur
Azevedo” publicada no Almanaque do Theatro em 1907. Esta é a única crônica do
autor em que ele fala somente de si e constrói sua “ilusão biográfica”. Apesar
de todas as crônicas de Arthur Azevedo serem opinativas e enfatizarem o ponto
de vista de quem a escreve, algumas rememoram episódios da infância e juventude
do autor, “Autobiografia de Arthur Azevedo” é aqui tomada como síntese
analítica por se propor a ser uma autoapresentação.
Antes de iniciar a
discussão sobre a crônica, é importante problematizar os dados sobre si
apresentados pelo autor porque, como alerta Pierre Bourdieu, qualquer texto ou
narrativa apresenta dados, tomados por concretos, mas que não passam de
construções e abstrações (2000:25). Em um texto específico sobre narrativas e
trajetórias, “A Ilusão Biográfica”, Pierre Bourdieu (2002) alerta para o risco
da “ilusão biográfica” tanto por parte de quem faz sua autobiografia, como por
parte dos entrevistadores e biógrafos. Afinal, ao falarem sobre si, os sujeitos
tendem a reconstituir sua trajetória como uma sucessão de acontecimentos
lineares, ordenados de forma lógica, cronológica e teleológica, que eclipsam as
contradições, as fragmentações e as incoerências subjetivas na vivência dos
múltiplos papéis sociais. Para Bourdieu, a autonarrativa é sempre uma “ilusão”
por tentar dar um sentido coerente e unívoco a uma vida. O
sociólogo chama a atenção para o fato de que a descontinuidade faz parte da
trajetória, embora haja sempre um esforço do narrador para omiti-la, pelo fato
de o mundo social identificar a normalidade nos sujeitos que se expressam de
forma coerente. Bourdieu também adverte sobre a impossibilidade de se
reconstituir uma trajetória sem a análise e a compreensão das “relações
objetivas”, ou seja, sem entender o contexto em que a trajetória se desenrolou
e os espaços que ligam um “agente” a outros, interagindo em um mesmo “campo”.
Na crônica tomada como
objeto de análise, Arthur Azevedo também principia seu depoimento pessoal
retrocedendo à mais tenra infância, como o mito de origem da manifestação de
sua vocação teatral. Apesar de sua aparente despretensão narrativa, que, ao
final da crônica, leva-o a descrever a si mesmo como “um comediógrafo sem
teatro, sem artistas, sem público, sem estímulo de espécie alguma que chegou
infelizmente aos 47 anos sem realizar o seu sonho de literatura e de arte”, a
imagem inicial põe em evidência um menino prodígio, que organizava espetáculos,
escrevia, lia todos os livros da biblioteca paterna e aprendeu com facilidade o
francês para ler os exemplares da Seleta Francesa. E, ao seguirmos a trilha de
Arthur Azevedo, ficamos com a impressão de que ele está longe de ser um
“comediógrafo sem teatro” e “sem público”. Como podemos conferir:
“Desde os mais verdes
anos manifestei certa vocação para o teatro e, se não fossem os meus pais,
teria, com certeza, abraçado a arte dramática. Aos oitos anos organizava
espetáculos de súcia com os meninos da minha idade e ficava radiante todas as
vezes que apanhava um drama ou uma comédia para ler. Na biblioteca de meu pai,
que possuía bons livros, preferia as peças teatrais e, como havia muitas em
francês, aprendi com facilidade a traduzir esse idioma para poder lê-las. Foi
justamente na seleção francesa que encontrei assuntos da minha primeira peça –
uma tragédia, a única que perpetrei. O episódio de Mucio Sevola queimando a
mão, em presença de Porsena, me impressionou tanto que resolvi transportá-lo
para o palco. Imagine o que sairia na pena de um fedelho de 10 anos (...). Entretanto,
Mucio Sevola não foi a minha primeira peça. Um ano antes (não riam) tinha
escrito um drama em um prólogo e cinco atos (...) A peça foi representada com
enorme sucesso num salão que havia no fundo do quintal de nossa casa(...) que
meu pai reservava exclusivamente para nossas travessuras, minhas, dos meus
irmãos e de alguns amiguinhos da vizinhança (...).
Em 1879, alguns moços,
empregados como eu, no comércio, construíram no largo do Carmo (hoje Praça João
Lisboa) por baixo do Gabinete Português de Leitura, um teatrinho (...). Aí fiz
representar (...) um melodrama (...). Intitulava-se “Fernando, o enjeitado”, e
era extraído de uma novela de Lopes Mendonça. O meu irmão Aluísio de Azevedo, o
nosso ilustre romancista, desempenhou o papel de Maria, que se apaixonara por
Fernando, o enjeitado. Desgostando então o Sr. Duarte, seu marido. O Sr. Duarte
era eu. (...)
Em 1870, tinha eu então 15
anos, escrevi o Amor por Anexins. Foi o meu primeiro trabalho exibido em
teatro público e, até hoje, o que tem sido talvez ouvido mais vezes, pois conta
centenas de representações tanto no Brasil como em Portugal, devido não ao
merecimento da obra, mas ao fato de ter apenas dois personagens.
Aí tem a história das
primeiras peças de um comediógrafo sem teatro, sem artistas, sem público, sem
estímulo de espécie alguma, que chegou aos 47 anos sem realizar o seu sonho de
literatura e de arte”. (Grifos meus)
Vamos à sociedade do
Maranhão quando do nascimento do primogênito dos portugueses David Gonçalves de
Azevedo e Emília Amália de Magalhães, ele viera já rapaz orçando pelos 20 anos
e ela ainda criança, com apenas 5 anos. Arthur Azevedo nascera em 7 de julho de
1855. Segundo Antônio Martins Araújo (2009:10-11), naquela época o Maranhão
possuía quatro livrarias, três tipografias que serviam a uma pequena elite,
visto que dos 360.000 habitantes, um quarto era composto de escravos, e apenas
35 mil pessoas moravam em São Luis. Conforme Mérian “por volta de 1850 não havia
nada que revelasse ao viajante que chegava a São Luis, que a província do
Maranhão entrara em decadência” (1988:13), devido à queda no preço do algodão. Ao
menos tal situação não transparecia nos modos e vestuários da reduzida elite
branca, em sua maioria de origem portuguesa, que morava em sobrados e
enriquecera no comércio e que com frequência educava seus filhos homens na
Europa. Elite que o irmão de Arthur Azevedo, Aluísio Azevedo, descreve, no
romance O Mulato (1881), como preconceituosa e avessa à miscigenação. O contato
com Portugal era mais frequente do que com a corte, em razão de uma linha
direta de vapor entre Lisboa e São Luís. E os costumes e tradições lusitanas se
faziam bem presentes no estado.
A província de São Luís se via como uma “cidade
letrada”, a “Atenas Brasileira”, e tinha orgulho de alguns de seus filhos
ilustres no mundo das Letras, entre eles Antônio Gonçalves Dias, um dos grandes
nomes da poesia romântica, além de Manoel Odorico Mendes, intelectual que
fizera as primeiras traduções de Virgílio e Homero para a língua portuguesa;
Francisco Sotero dos Reis, professor de língua portuguesa, escritor e filólogo,
e diretor do prestigioso colégio de elite “Liceu Maranhense”, destinado aos
meninos, e João Francisco de Trajano Lisboa, um dos jornalistas mais ativos da
época. O crítico literário José Veríssimo, em sua História da Literatura
Brasileira (1916), os definia como o “grupo maranhense”, bastante prestigiado
no mundo intelectual e com características bastante lusófonas (Cf. Martins,
2008). A cidade também contava com teatro e desde a inauguração.
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Fonte:
Fonte:
Tatiana Oliveira Siciliano: “O Rio que passa” por
Arthur Azevedo: Cotidiano e vida urbana na Capital Federal da alvorada do
século XX”. (Tese de doutorado submetida ao Programa de Pós-Graduação em
Antropologia Social, Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Orientador: Prof. Dr. Gilberto Cardoso Alves Velho). Rio de Janeiro, 2011.
Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese. As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade
Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese. As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade
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