14/09/14

O Rio de Janeiro em 1877 (Teatro), de Artur Azevedo

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O Rio de Janeiro de sua época

De acordo com Nicolau Sevcenko (1995, p. 28 - 30), o Rio de Janeiro, no entre-séculos XIX e XX, era o maior centro cosmopolita da nação, em íntimo contato com a produção e o comércio europeu e americano, absorvendo-os e irradiando-os para todo o país, que ainda era agrário e conservador. E acompanhar o progresso significava somente uma coisa: alinhar-se com os padrões e o ritmo de desdobramento da economia européia, onde “nas indústrias e no comércio o progresso do século foi assombroso, e a rapidez desse progresso miraculosa” (SEVCENKO, 1995, p. 29). Desse modo, os detentores do poder do novo Regime político (a República) almejavam a remodelação da cidade e a consagração do progresso como o objetivo coletivo fundamental. Desejavam que a cidade retrógrada, baseada nas velhas tradições coloniais, acabasse para se transformar na capital federal com requintes europeus.

Era a “regeneração” da cidade, e por extensão, do país, na linguagem dos cronistas da época. Nela são demolidos os imensos casarões coloniais e imperiais do centro da cidade, transformados que estavam em pardieiros em que se abarrotava grande parte da população pobre, a fim de que as ruelas acanhadas se transformassem em amplas avenidas, praças e jardins, decorados com palácios de mármore e cristal e pontilhados de estátuas importadas da Europa. A nova classe conservadora ergue um decor urbano à altura da sua empáfia. (SEVCENKO, 1995, p. 30).

Essas reformas urbanas é o que Jeffrey Needell (1993, p. 54) chama de marca registrada da belle époque carioca. A República trouxe grandes expectativas à população de 33 transformar o Rio em uma civilização européia, especialmente parisiense. Algumas tecnologias, vindas do Velho Mundo, como o fonógrafo, o cinematógrafo, o automóvel, os bondes elétricos, intensificaram essas expectativas.

Uma verdadeira febre de consumo tomou conta da cidade, toda ela voltada para a “novidade”, a “última moda”. O importante, na área central da cidade, era estar em dia com o cotidiano europeu – roupas, mobiliário, livros, escolas filosóficas, enfim, tudo o que representasse marcas de prestígio. A rua do Ouvidor era o centro do comércio internacional sofisticado do Rio, símbolo das tendências européias, principalmente a francesa.

À sombra desse jogo de aparências, ergue-se uma realidade tumultuária. Com o
progresso e as mudanças políticas, houve um grande aumento demográfico na capital federal.

Os escravos recém-libertados da abolição, inúmeros imigrantes e aventureiros de toda parte mudavam-se para o Rio, com esperança de uma vida melhor. “Esse enorme influxo populacional fazia com que, em 1890, 28,7% da população fosse nascida no exterior e 26 % dela proviesse de outras regiões do Brasil. Assim, apenas 45% da população era nascida na cidade” (CARVALHO, 1987, p. 17). Assim, Sevcenko (1995, p. 51) escreve que “a maior cidade brasileira veria a sua população no período de 1890 a 1900 passar de 522 651 habitantes para 691 565, numa escala impressionante de 33 % de crescimento”.

Todavia, a cidade não acompanhou esse crescimento avultado, o que fez gerar vários problemas para seus habitantes mais humildes. Havia carência de moradias, carestia, fome, baixos salários e desemprego – devido ao excesso de mão-de-obra –, e falta de condições sanitárias, o que fez constituírem focos de várias doenças, como: varíola, tuberculose, febre tifóide, lepra e febre amarela (SEVCENKO, 1995, p. 52). A elite aspirava apenas ao embelezamento do centro da cidade, não se importando com a população pobre, que na mais absoluta miséria subia para os morros, formando, assim, as primeiras favelas e disponibilizando o aumento da criminalidade.

Não terminam aí as atribulações por que passava a capital. Pelo lado econômico e financeiro, os tempos foram também de grandes agitações. Segundo José Murilo de Carvalho (1987), a origem de tudo remonta à escravidão. Devido à necessidade de aplacar os cafeicultores, especialmente do estado do Rio, e de atender a uma demanda real de moeda para o pagamento de salários, o governo imperial começou a emitir dinheiro, no que foi seguido com entusiasmo pelo governo provisório, este preocupado também em conquistar simpatias para o novo regime. Concedido o direito de emitir a vários bancos, a praça do Rio de Janeiro foi inundada de dinheiro sem nenhum lastro, seguindo-se a febre especulativa, principalmente nos anos de 1890 a 1892. Este episódio é conhecido como “Encilhamento”.

As conseqüências vieram rapidamente, houve enorme encarecimento dos produtos importados, que na época abrangiam quase tudo, e a inflação generalizou-se; já em 1892, os preços das mercadorias eram muito altos. “No primeiro qüinqüênio republicano houve aumento de 100% nos salários para um aumento de 300% nos preços.” (CARVALHO, 1987, p. 21).

Arthur Azevedo (1892, p. 60), em sua revista de ano O Tribofe, satiriza a situação:
 Das algibeiras some-se o cobre,
 Como levado por um tufão:
 Carne de vaca não come o pobre,
 Qualquer dia não come pão.
 Fósforos, velas, couve, quiabos,
 Vinho, aguardente, milho, feijão,
 Frutas, conservas, cenouras, nabos...
 Tudo se vende pr'um dinheirão!

A quebra de valores antigos foi também acelerada no campo da moral e dos costumes.

“Os altos índices de população marginal e de imigração, o desequilíbrio entre os sexos, a baixa nupcialidade, a alta taxa de nascimentos ilegítimos são testemunhos seguros de costumes mais soltos” (CARVALHO, 1987, p. 27). Em O tribofe, de Arthur Azevedo (1892) – transformada por ele posteriormente na comédia A Capital federal ( de 1897) – o engano, a sedução, a exploração, a “mutreta”, aparecem entre cocotes, proprietários exploradores, janotas, enfim, nos moradores cariocas que fazem com que a família interiorana perdesse a virtude e adquirisse o “micróbio da pândega”, que só existe no Rio de Janeiro.

Contudo, com o avanço advindo das tecnologias européias, houve um significativo incremento da imprensa no fim do século XIX através do aumento tecnológico das oficinas gráficas e da intensificação do crescimento urbano do país, desse modo, o jornal se modernizou, ficando mais barato e acessível, espelhando a população da época, suas aspirações e opiniões.

Segundo Brito Broca (1960, p. 4), o prefeito Pereira Passos, embebido pelo clima
cosmopolita, procurou incentivar espetáculos mundanos. Essa febre de mundanismo que o Rio começava a viver, refletia-se nas relações literárias. As seções dos jornais ocupavam-se, ao mesmo tempo, de literatura e de vida social fugaz. Figueiredo Pimentel, autor do célebre slogan “O Rio civiliza-se”, na coluna do “Binóculo” na Gazeta de Notícias, fazia comentários sobre o último baile, a última recepção, entrelaçando-os com a notícia de uma conferência ou de um livro de versos.

Todavia, muitos intelectuais ocupavam-se de questões políticas e utilizavam-se dosjornais para satirizá-las. Como podemos ver nesta caricatura retirada do livro História da caricatura no Brasil, de Herman Lima (1963, p. XVII), e que satiriza a República:

É a mesma linguagem caricatural e satírica de que se utilizava Arthur Azevedo nos seus escritos jornalísticos.

O fim do Império e início da Primeira República (período em que foram escritos os contos de que fazem parte o corpus da presente pesquisa) mostrou-se extremamente fértil em termos de vida cultural. Os contos de Arthur Azevedo, refletindo essa efervescência, compunham um vasto quadro da sociedade brasileira.

Por muitos anos, na imprensa do Rio de Janeiro, Arthur Azevedo pôs em ação, a
serviço do comentário burlesco da vida que passava, do seu próprio mundo, a extraordinária capacidade de tudo dizer em poucas palavras. Nesses instantâneos, alegremente traçados nas mesas de redação, Arthur fixou aspectos e imagens de seu tempo com mestria. As personagens, a mais das vezes, são tipicamente cariocas – caixeiros, poetas, funcionários públicos, maridos tolerantes, mulheres fáceis, moleques, artistas, pobres diabos abnegados.

Antonio Martins (2001, p. 21) chegou a dizer que “no Rio oitocentista de Arthur, cabe o mundo inteiro!”.

Desse modo, Azevedo utilizou-se das classes baixas e médias, dos pequenos burgueses como personagens dos contos. As camadas médias da população, nesse início de República, são representantes de uma nova realidade brasileira nos planos social, político, econômico, cultural e artístico. Antes dele, o escritor Manuel Antônio de Almeida (em Memórias de um sargento de milícias) tematizou as “classes baixas” e contemporâneo a Azevedo, o escritor Lima Barreto, também retratou as classes dos subúrbios.

Observemos a interessante observação que Flora Süssekind (1986, p. 15) coloca sobre o Rio de Janeiro da época:

A Capital que inventa um Brasil com fisionomia européia é, ela mesma, uma invenção. E invenção cuidadosamente trabalhada e submetida a diversos “aperfeiçoamentos”: ora Corte imperial, ora Capital federal, cria-se a miragem de um Rio de Janeiro, pólo de atração para migrantes diversos e imago a ser imitada pelo resto do país. Utopia que impulsiona transformações políticas e urbanas tanto no Império quanto na República, este Rio-Capital foi um dos mais importantes objetos de discussão, personagens e cenários teatrais e literários neste período de aceleradas mudanças.

A cidade inspirou as personagens e os enredos dos contos que Arthur ia deixando nos jornais e revistas, e que depois reunia em volume, para destino menos efêmero. Na singeleza de um estilo, não procurou os grandes dramas, limitou-se às pequenas cenas da comédia humana que estavam ao alcance dos olhos, construindo tipos perfeitos. Portanto, o conturbado Rio de Janeiro do final do século XIX e início do XX é o principal cenário dos contos de Arthur Azevedo, eternizando seu tempo e espaço.

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Fonte:
Cibele Cristina Morasco
: “Fora do palco, dentro da vida: contista Arthur Azevedo e o Rio de Janeiro de sua época”. (Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de pós-graduação em Estudos Literários da Faculdade de Ciências e Letras – Unesp/Araraquara, como requisito para obtenção do título de Mestre em Estudos Literários. Linha de pesquisa: Teorias e crítica da narrativa / História literária e crítica Orientador: Prof. Dr. Antônio Donizeti Pires Co-orientador: Prof. Dr. Luiz Gonzaga Marchezan). Araraquara, 2008.

Nota:
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