05/09/14

Harpas Selvagens (Poemas), de Sousândrade

 Harpas Selvagens (Poemas), de Sousândrade
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O pioneiro Sousândrade e suas contribuições no domínio das inovações do léxico: audácias que o projetaram para fora do seu tempo

Para a construção do glossário a partir de neologismos extraídos das obras Harpas Selvagens (1857) e Harpa de ouro (1889/1899), de Sousândrade, torna-se necessária a busca por informações sobre o autor e sobre e seu estilo, já que o contexto sócio-histórico-cultural reflete e influencia o léxico do falante. Nesse caso, tais informações podem contribuir para uma análise mais acurada e para a montagem das definições dos neologismos encontrados nessas obras.

Assim, neste capítulo, buscaremos apresentar informações biográficas do autor, contudo, pautar-nos-emos apenas nas informações elucidativas de seu estilo e que esclareçam a alta incidência dos efeitos obtidos por meio de suas criações lexicais inusitadas. Isso pelo fato de o interesse de nosso trabalho estar pautado exclusivamente no campo da criação lexical que envolve todo o trabalho de Sousândrade. Nessa parte do trabalho, apresentaremos, também, breves considerações sobre cada uma das obras analisadas a fim de ressaltar a temática de cada uma e suas principais características levando informações relevantes ao conhecimento o leitor. Começaremos pelo contexto que abrangeu a criação das obras.

Apesar de Joaquim de Sousa Andrade Sousândrade (1832-1902), esteticamente, não ter se enquadrado no período literário em que viveu e ser um autor de estilo divergente e à frente de sua época, se partirmos da data de produção das obras analisadas, percebemos que ele viveu em plena era do Romantismo.

Sabe-se que o período romântico representou um tempo de grandes transformações para o Brasil, e que foi uma época de carência de evolução industrial. Dessa forma, o Romantismo representou a tendência de um povo que vinha de um colonialismo puro e que ainda mantinha colunas do poder agrário e uma monarquia conservadora apesar dos surtos republicanos. Essa situação gerou temas representativos que circundaram aquele período, caracterizado como segunda geração romântica.

Temas como: amor, pátria, a natureza, religião, o povo, e o passado, afloraram por diversas vezes na poesia romântica e foram tematizados também na obra de Sousândrade, principalmente, temas relativos à pátria. Outros temas, bastante recorrentes desde a primeira obra publicada Harpas Selvagens de 1857, os quais, segundo Williams (1976), podem ser considerados como prediletos são: as saudades da terra natal, as aventuras amorosas desastrosas e as belezas da natureza sempre comparadas a alguma mulher amada. Trata-se de temas basicamente românticos que sempre se relacionam com as vivências do poeta, traduzindo-se, assim, num certo subjetivismo biográfico, característica bem marcante da obra de Sousândrade.

Adicionalmente, tal biografia abre a possibilidade de um olhar mais detido para um americanismo sousandradino um dos aspectos mais marcantes e menos estudados da obra desse autor. O amor desse poeta pela América, como um todo, é bastante aparente em sua obra Harpa de Ouro , publicada postumamente. Enquanto a maioria dos autores brasileiros de sua época não conseguia estabelecer relação com o exterior senão como extensão e prolongamento das tendências européias, Sousândrade, que manifesta um acentuado amor ao Brasil e ao Maranhão, observou a situação e elegeu como pátria toda a América, unida por seu ideário de liberdade.

Nesse contexto, a originalidade do trabalho desse autor está na extraordinária visão das Américas, desde os tempos pré-colombianos, pois tinha amplo conhecimento da cultura que regia aqueles povos. Ele detinha um vasto conhecimento de vários idiomas adquiridos por meio das inúmeras e variadas viagens realizadas em diversos lugares do planeta, além do amplo conhecimento de história, mitologia, filosofia, literatura e várias outras áreas de conhecimento consideradas como ciência daquela época.

Sousândrade foi novidade em uma época em que os poetas brasileiros seguiam o caminho dos moldes acadêmicos num contexto fechado e provinciano. Este poeta fez inúmeras viagens à Europa e viveu bastante tempo nos Estados Unidos e, por isso, pôde conhecer de perto o mundo diferenciado da ascensão industrial e capitalista, das concentrações urbanas de cidades como Nova Iorque, além de conviver com a democracia da competição e do dinheiro. Dessa experiência, surgiu-lhe o desejo e a utopia da República livre e comunitária que conservasse certa inocência, diferente das competições por dinheiro que testemunhou em suas viagens. Ele foi, então, testemunha das mudanças que ocorreram após a Guerra da Secessão (1861-65), sendo contemporâneo da expansão industrial norte-americana e dos escândalos financeiros que marcaram aquele país. Sua presença in loco foi fundamental para a matéria prima que recolheu em sua obra. Seu retorno ao Brasil, contudo, coincidiu com sua ruína financeira.

Sousândrade viveu em uma época conturbada em que a burguesia marginalizou e neutralizou alguns grandes escritores que se diziam contra a ideologia capitalista que se especulava naquele tempo. De origem da elite latifundiária, este poeta desde cedo se rebelava contra a condição desumana em que o escravo era tratado e já preconizava a República que segundo ele República é menina bonita/ diamante incorruptível HO. Segundo Willians e Moraes (2003) a obra Harpa de Ouro é tida como a canção republicana de Sousândrade que saúda o novo sistema de governo, com o qual o poeta já sonhava há muitos anos. Contudo, apesar de ser uma louvação, também nessa obra, ele faz graves acusações criticando os problemas que se acirravam na aplicação desse regime no Brasil. A princípio, a obra Harpa de Ouro seria uma declaração de amor à princesa Isabel: Acordar! Não entr isteças/ Ao esplendor de tanta luz!/ Sou o ideal em que pensas/ - Oiço Isabel ou Jesus . Entretanto, os temas do sonho republicano e da abolição da escravatura prevaleceram na maior parte da obra.

Já a obra Harpas Selvagens (1857), o livro de estréia de Sousândrade, é considerada a mais bem realizada sob um ponto de vista técnico. Revelador de fortes características românticas, esta obra traduz grande beleza plástica e apresenta uma variedade temática abordando filosofia, religião, viagens, escravidão, além de descrever cenas lúgubres e até macabras. Tem-se também o mar, a morte, a sombra, a noite, a saudade e desespero, amor erótico, como outros temas que são marcantes nessa obra cuja temática se apresenta sempre num tom bucólico contextualizado num ambiente de solidão, desespero e sofrimento: E dum lado o demônio e o anjo doutro/ E eu no meio, minhalma despedaçam/ (...) Cândidas salva-me: o demônio embora/ Me persiga mostrando-me os meus dias/ Como são desgraçados... porém, antes/ Falaz espe rança, que a descrença eterna . Diacronicamente, o brasileiro, ante a recente independência, proclamada em 1822, ansiava por uma resposta à pergunta sobre sua origem. Diante de uma sociedade desestruturada, carente e necessitada de uma identidade própria surge, então, Sousândrade, numa época em que uma pequena e privilegiada elite do Maranhão vivia um bem-estar material buscando sempre nos modelos europeus as bases de criação dos filhos. Era comum entre a elite formar seus filhos em universidades estrangeiras, como ocorreu com Sousândrade.

Todavia, este cenário engendrou, por outro lado, o surgimento de um escritor crítico, lúcido, ativo, antecipador das formas da poesia moderna, mas marginalizado. E toda essa experiência o colocou a frente dos outros poetas daquela época, pois lhe abriu vastíssimos horizontes possibilitando criação de obras inovadoras e irreverentes, distintas de toda a poesia brasileira do século XIX. Assim, criou obras recheadas com palavras formadas de diferentes processos de composição, arranjos sonoros incomuns, palavras plurilingüísticas, além de agressivos conjuntos verbais e até inusitadas montagens sintáticas. Por tudo isso, segundo Bosi (2001, p. 126) o poeta não podia ser assimilado no seu tempo e, de fato, não o foi... .

Sousândrade preferiu não seguir os moldes acadêmicos que a tradição romântica legara. Sousândrade criou obras representativas de sua ideologia frente àquela sociedade especuladora e capitalista que era representada pela burguesia triunfante e, por isso, traz arraigado e manifestado em todo seu trabalho muito de sua história, de seu tempo e de seu ponto de vista. Sendo assim, é indiscutível a riqueza literária, histórica e cultural dessas obras e o que elas representam para a arte brasileira, todavia trabalharemos no campo lexical, sobretudo no que tange à criação neológica.

Ao analisar a estilística sousandradina, na área pertinente ao léxico percebe-se que há uma inusitada forma de conceber a sonoridade em seus poemas, e ainda utilização de ousadas invenções vocabulares, principalmente na criação de palavras compostas. Trata-se de uma obra em que a criação de neologismos e associação de palavras é freqüente, em uma constante busca de novas formas de expressão. Segundo os irmãos Campos (2002)

O léxico de Sousândrade chama logo a atenção, pela alta incidência e pelo inusitado dos efeitos obtidos, um procedimento morfológico: a composição de palavras. (...) Trata-se, pois, na microestética, de uma constante sousandradina (CAMPOS, 2002, p. 107).

Na maioria das vezes, o fato de implementar em suas obras valores típicos de seu estilo e conhecimentos de língua, idiomas e culturas diversas levou o autor a criar novos vocábulos ou dar novos significados à palavras já existentes no léxico português. Mas, foi no campo da criação lexical, e especificamente, usando o processo de composição de palavras que surge o diferencial deste poeta. Assim, Sousândrade além de montar anagramas com palavras estrangeiras e portuguesas ainda misturou o léxico de outros idiomas com o nosso, fazendo jogos sonoros e também dando formas e sentidos diferenciados ao juntar partes de palavras estrangeiras entre si ou com outra parte de palavra portuguesa. Ou seja, ele antecipou, com sua riqueza lingüística e imagética, a poesia 'participante' que se faria no século 20. O poeta recorreu a várias línguas, entre vivas e mortas, para captar os efeitos de sentido inusitados de suas criações neológicas. Sua poética não só perpetua o espírito libertário e revolucionário do movimento romântico, como também pode ser incluída num Romantismo forte e contestador. A partir desse romantismo racional, a poética de Sousândrade pode ser compreendida como precursora da modernidade. Assim, podemos perceber que muito da criatividade de Sousândrade, inclusive os compostos criados por ele surgem como projeção da linha imagista do poeta e brotam a partir do seu vasto conhecimento da estrutura da língua em vários idiomas. Ou seja, há um encontro de vários planos semânticos que, ao invés de se desdobrarem um de cada vez, fundem-se em um único signo. Contudo, ele parte de construções lexicalizadas ou semilexicalizadas.

Diríamos com os irmãos Campos (2002) que apenas a inversão de termos determinantes em relação aos determinados já é um fator de perturbação da norma lingüística como na palavra doce-elétrica , por exemplo: (Todos) olhando os céus de ti/ Luz doce-elétrica irradiando... (HO p.434). Outras vezes, são os anagramas produzidos pelo poeta em sua estilística que causa perturbação e refletem a microestrutura léxica desse autor. Em Harpas de Ouro ele fala do Brasil como se fosse um navio, segundo Jomar Moraes (2003, p. 424), navio era uma alegoria comum nos Estados Unidos. Então ele cria o anagrama (navio/noiva): E do navio no anagrama/ Co a noiva estou... vendo navios . (HO, p.436).

Sousândrade criou compostos e inúmeras palavras neológicas em toda sua obra, contudo, tais criações teve um aumento bastante significativo nas últimas obras produzidas por ele. Diante disso, não podemos, contudo, perceber o aumento de tais criações como se fosse apenas excentricidade do poeta haja vista as criações de Sousândrade ter sempre função expressiva. Por isso, os irmãos Campos (2003) advertem que

Deve-se assinalar que esses compostos não atuam como meras extravagâncias, mas têm função expressiva no contexto respectivo, correspondendo geralmente a momentos de especial intensidade criativa na poética sousandradina (CAMPOS, 2002, p. 110).

Assim, em relação à estilística de Sousândrade, verificamos, em consonância com a teoria citada pela obra acima, que o poeta aciona a linguagem utilizando inúmeras potencialidades da língua. Por isso, é fácil encontrar em sua obra características de diversas tendências estéticas como: Barroco, Neoclassicismo, Romantismo, Simbolismo, Realismo, Parnasianismo e, inclusive, tendências modernas. Nesse caso, a obra sousandradina é recheada de palavras arcaicas, atuais, estrangeiras, palavras novas originadas de línguas vivas e/ou mortas, inclusive palavras que fundem dois idiomas como na palavra wifezita. Nesta palavra, o poeta funde um substantivo da língua inglesa Wife com um sufixo indicador de diminutivo do Português zita apresentando a idéia de esposinha termo criado para caracterizar carinhosamente a República, então, recentemente proclamada.
  
Na jacarândea árvor da vida
Trepa; eu desenho o resplendor
D Wifezita Syke-Hamadryada
Que atira flores no pintor
- Vem ver o fiel quadro, querida -
Nonsenses fruit I give you for (SOUSÂNDRADE, 1888, p. 436)  
  
Os irmãos Campos (2002) esclarecem que Sousândrade substitui as partes fracas ou gastas da língua fazendo nominalizações de adjetivos, introjetando substantivos no centro de ações verbais. Tal procedimento rompe o fluxo das convenções da norma criando as denominadas palavas-ilhas ou palavras-coisas, como se fosse blocos autônomos. Tudo isso carregado de sentido e possibilidades de interpretação, pois a informação, trazida por esses blocos, transcende a semântica, além de ser imprevisível causando inúmeras surpresas nas ordenações dos signos. Segundo os irmãos Campos (2002), a linguagem sousandradina apresenta níveis estilísticos vários, uma linguagem sincrética por excelência, abrindo-se num verdadeiro feixe de dicções, que tanto vai se alimentar nos clássicos da língua, quanto se projeta em invenções premonitórias do futuro dapoesia (CAMPOS, 2002, p. 32).

Nesse caso, os irmãos Campos, estudiosos da obra sousandradina, ainda esclarecem que o barroquismo é uma das grandes linhas que se pode discernir na obra desse poeta. Contudo, não se trata do estilo barroco histórico, mas num estilo abstrato que se manifesta nos cultismos léxicos e sintáticos (palavras raras e arcaizantes, neologismos, hibridismos, hipérbatos, elipses violentas, elusões e alusões etc.) num arrojado processo metafórico, na recarga de figuras retóricas, na tessitura sonora que incorpora as onomatopéias e a dissonância, na importação constante de recursos sintáticos e morfológicos de extração estrangeira, além de interpolações idiomáticas que vão beber em outras fontes como o tupi, o quíchua, o espanhol, o italiano, o holandês. Assim, corroborando com nosso pressuposto de que Sousândrade apresenta em sua obra um subjetivismo biográfico, os irmãos Campos (2002, p. 33) acrescentam que o poeta maranhense possuía arrojos formais que tinham um lastro emocional em sua vida acidentada e peregrinante, e um lastro intelectual na sua experiência de civilizações variadas e na sua vasta e multilingüe área de leitura, o que se configura bastante perceptível em toda extensão da obra sousandradina, inclusive nas primeiras publicações.  

Augusto e Haroldo de Campos (2002), ainda, assinalam nessa referida obra, que sob uma análise mais detida dos compostos e dos contextos onde opera, Sousândrade recorreu a processos formais extraídos de línguas estrangeiras, principalmente do Inglês. Nesse caso, ele se aproxima de línguas isolantes como o chinês que tende à criação de palavras compostas, já que constituem em unidades mais complexas, e cria em parte, um novo e único organismo verbal ou nominal. Esses autores enfatizam que essas observações derivam do fato de que o chinês é uma linguagem relacional, não flexionada e possui a estrutura baseada na ordem das palavras. Assim, o Inglês também tem sido comparado nesse aspecto como o Chinês. Os irmãos Campos (2002) afirmam que no Chinês a posição do vocábulo na frase pode determinar a classe gramatical dos vocábulos, isso sem necessidade de morfemas especiais, ou seja, nessa língua, a ordem das palavras se traduz em morfemas: sol + lua = brilho, copo sol + lua = o copo brilha; sol + lua copo = copo brilhante. Já no Inglês, com certa semelhança, temos: Mountain wheat = trigo da montanha, literalmente: montanha trigo. Nesse caso, os substantivos funcionam como adjetivos, mediante a simples anteposição na frase. Estas são construções que facilmente, segundo os Campos, se convertem em compostos e se lexicalizam. Nessa perspectiva, os irmãos Campos concluem que

Sousândrade, além de se inspirar, em muitas de suas criações, em processos morfológicos desta índole: terra-amor (amor terreno ou telúrico); lança mão de uma sintaxe típica de línguas isolantes ao manipular seus compostos dentro dos contextos respectivos copos cristal-diamantes (com dois substantivos justapostos em função adjetiva) é a sua construção para copos cristalinos-adamantinos (CAMPOS, 2002, p. 111).  

Essas colocações de Haroldo e Augusto de Campos, considerados grandes estudiosos da obra desse poeta, levam-nos a crer que Sousândrade, conhecedor e estudioso de vários idiomas que era, pôde realmente ter utilizado em suas criações neológicas esse conhecimento das estruturas de formação de palavras de outros idiomas e também do Português. Ele frequentemente usa anteposições, traz compostos verbais com substantivos ou adjetivos antepostos ao verbo agindo como um prefixo radical completando a ação verbal e/ou adjetivando, forjando assim, neologismos verbais com bases de substantivos ou adjetivos verbificados, como no verso: Sinto o coração livre-abrindo (HO p. 430). Também cria neologismos forjados de nomes próprios: Izabelzinha, Zeus-trovador.  

É notório, entretanto, que a obra Harpa de Ouro apresenta muitos versos recheados de palavras, expressões e até compostos em outros idiomas. O Inglês é o que prevalece, contudo, é perceptível uma grande utilização do Grego Clássico. Segundo os irmãos Campos (2002, p. 113) Sousândrade era helenista e latinista exímio, na grande tradição humanista maranhense de um Odorico Mendes, do qual certamente conhecia as traduções de Virgílio e Homero.

Importante ressaltar, todavia, que várias fabricações de palavras e/ou compostos neológicos de Sousândrade não decorrem de nenhuma importação ou aclimatação de processos morfológicos de outras línguas, surgem do sintetismo, redução ou ampliação semântica, e cadeias metafóricas resumidas em um, dois, três ou mais palavras ou expressões justapostas e até aglutinadas em uma única palavra-ilha. Essas criações apresentam novas combinações de palavras existentes, em algumas vezes contrações de novas combinações de metáforas demonstrando uma imagética resultante da expressividade desse autor. Ele junta, aglutina, justapõe as classes de palavras simultaneamente num mesmo impulso como se quisesse dizê-las de uma única vez. Nesse caso, blocos de sintagmas são reduzidos a uma só unidade, o que permite a Sousândrade fundir numa imagem complexa toda uma série de ações ou estados.

Diante disso, percebemos que Sousândrade consegue elevar a tensão estrutural e semântica de sua poesia a níveis raramente atingidos entre os poetas. Possuidor de sensibilidade moderna, esse poeta apresenta, de um ponto de vista estético e estilístico, um alto teor de criatividade que até a atualidade é tido como sem paralelo entre seus contemporâneos brasileiros. Assim, a obra de Sousândrade marca a independência da literatura brasileira em plena era romântica, o que ocorreria apenas no século seguinte com os modernistas. Por isso, como já mencionamos, ele é considerado um dos precursores do modernismo brasileiro.

Sendo a criação lexical sousandradina base de nossa pesquisa, no próximo capítulo desse trabalho, traremos estudos sobre o neologismo, apresentando-o como fator representativo da expansão do léxico e, ainda, autores que fundamentaram teoricamente as reflexões sobre esse tema, demonstrando os pontos de vista, conceituações e divergências entre esses estudiosos da língua.

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Fonte:
Eliamar Godói: “Para a construção de um glossário na obra Sousandradina: uma contribuição”. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Lingüística - Curso de Mestrado em Lingüística da Universidade Federal de Uberlândia, como requisito parcial à obtenção do título de  Mestre em Lingüística. Área de Concentração: Estudos em Lingüística e Lingüística Aplicada. Orientador: Professor Dr. Evandro Silva Martins). Uberlândia – MG, 2007.

Notas
A imagem inserida no texto não se inclui na referida obra. As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da obra em sua totalidade.

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