09/08/14

Vinte Horas de Liteira, de Camilo Castelo Branco

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Críticos de Camilo Castelo Branco

A obra camiliana despertava grande interesse no público e na crítica portuguesa, mais especificamente na cidade do Porto. Apesar da grande aceitação de suas obras pelo povo e pelos críticos, esses últimos demonstravam alguma dificuldade para encaixar os romances de Camilo dentro dos padrões românticos vigentes à época. Não temos a pretensão de efetuar um estudo da fortuna crítica envolvendo Camilo, mas consideramos importante fazer uma leve abordagem das posições críticas da segunda metade do século XIX. 

Encontramos no livro Camilo Romântico, de Alberto Xavier, importantes informações relativas às análises feitas sobre as publicações de Camilo. Xavier concentra seus esforços para apontar qualidades e defeitos apresentados em análises literárias de importantes estudiosos no segundo quartel do século XIX. Utilizaremos esse livro como ponto de partida para um rápido estudo da crítica feita a Camilo.

Num capítulo intitulado “As opiniões de Teófilo Braga – A propósito de Camilo”, Alberto Xavier fará duras críticas ao trabalho de Braga desenvolvido no livro As Modernas Idéias na Literatura Portuguesa, de 1880. Nessa obra, Braga considera que Garrett, Herculano e Castilho representaram a primeira geração romântica e que Rabelo da Silva, Mendes Leal, Soares Passos e Camilo Castelo Branco constituíam a segunda, que ele chamava de ultra-romântica. Ao citar uma definição dada por Braga para o Ultra-Romantismo, Xavier destaca a conotação pejorativa:

A falta de Ideal em política tornou-se ainda mais deplorável na Literatura; perdido o sentimento nacional, o espírito do Romantismo volveu-se para a idealização da parte exterior da época da Idade Média, e para a ênfase forçada de emoções sem estímulo. A geração dos novos talentos que seguiam Garrett e Herculano, ficara automaticamente fazendo romances históricos, dramalhões sanguinários e arrebicados soláos cavalheirescos sem a mínima compreensão da poesia popular. Era a degenerescência do romantismo, que se manifestou onde a prática do regimen constitucional-representativo corrompeu os princípios da Revolução; em época nenhuma se viu com mais clareza a mentira política em relação direta com a mentira literária. O Ultra-Romantismo foi uma conseqüência do Parlamentarismo.

Xavier continua a leitura do texto de Braga e passa a analisar as opiniões do crítico em relação à obra camiliana:

Quarenta e cinco páginas são consagradas a Camilo. Pode compreender-se a minha ávida curiosidade em conhecer as razões da opinião do mestre, incluindo esse escritor, tão apreciado e querido dos portugueses, entre os ultra-românticos. Teófilo Braga não esclarece este ponto. Tudo quanto diz, porém, do romancista, salvo algumas leves restrições, é, contraditoriamente, uma apologia do talento do autor do Amor de Perdição!

Xavier considerava incompatível a idéia de um “artista genial”, uma “poderosa organização estética”, um autor que possuía o “dom da objetividade”7 – esses eram alguns dos elogios que Braga tecia a respeito de Camilo – ser enquadrado dentro de um movimento literário tão menosprezado pelo mesmo crítico, como citado anteriormente.  Efetuamos uma leitura do livro de Teófilo Braga, estudado por Xavier, em especial o capítulo IV daquele livro - intitulado “Camilo Castelo Branco” – constatamos que Braga realmente coloca Camilo entre os ultra-românticos, mas acreditamos poder destacar alguns argumentos em favor do crítico. Logo no início, o autor credita a Camilo “a gloria de ter criado um novo gênero literário – o romance burguês, fundado no conflito dos interesses domésticos e nos tipos subalternos da personalidade humana”8. Braga, ao longo desse capítulo, relaciona os méritos da obra camiliana e aponta como principal defeito a falta de uma idéia geral:

É aqui, como expressão do meio português, que assenta o principal valor da sua obra; natureza, tipos, situações reais e linguagem constituem a originalidade daquele conjunto de Romances, a que faltou o nexo de uma idéia geral. Esta falta amesquinha a atividade estética de Camilo Castelo Branco [...].

Braga defende ainda que a pressão exercida pelos editores contribui para que, em alguns romances, houvesse a queda na qualidade da produção camiliana e que por isso, podia-se separar aquilo que Camilo produziu como arte daquilo feito exclusivamente com fins comerciais:

[...] faltava-lhe tranqüilidade para criar verdadeiras obras de arte, tendo de acudir em períodos irrevogáveis aos compromissos dos livreiros. Nesta urgência da produção, muitos livros são simples explorações do seu nome glorioso, que embaraçaram o julgamento da sua capacidade. O conhecimento da vida do escritor esclarece amplamente o valor da sua obra, pelas condições em que ela foi escrita; uma parte é meramente exploração de livraria, outra é individual, característica e digna de ser classificada segundo essas três fases por que passou seu talento.

Em um outro trecho, Braga, apesar de agrupar Camilo entre os ultra-românticos, nota diferenças entre este autor e um outro companheiro que estava totalmente preso a essa escola :
  
Camilo, atraído para o romance da vida burguesa, vinha criar uma nova forma literária, na qual imprimia o seu caráter de revoltado. Quando, em 1848, freqüentava a biblioteca publica de Vila Real enquanto um seu companheiro ultra-romântico fantasiava pontes levadiças, juras de cavaleiros, menestréis e catedrais, Camilo, já observava situações para o romance contemporâneo...

Podemos concluir desse fragmento que Braga, apesar de rotular Camilo como ultra-romântico, via claras diferenças entre este autor e outros que seguiam a cartilha dessa escola e, com isso, acreditamos que o crítico cometeu uma incoerência em sua análise. Parece-nos que o estudioso também tinha suas dificuldades diante da obra camiliana, já que ele encontrava nela aspectos que considerava ultra-românticos e em outros momentos verificava uma clara distinção entre o que Camilo escrevia e os demais autores considerados por Braga como pertencentes daquela escola.

O segundo estudioso que destacamos da obra de Alberto Xavier é Pinheiro Chagas. Partindo de uma espécie de prefácio feito a uma edição especial do livro Amor de Perdição,  Xavier analisa as impressões do crítico a respeito de Camilo. Segundo Xavier, Pinheiro Chagas destacara o subjetivismo, a visão de mundo que Camilo possuía e passava para seus leitores. Xavier critica o trabalho de Pinheiro Chagas pela falta de método, além de alguns “deslizes, contradições, juízos inexatos. Pinheiro Chagas explicitava a dificuldade de analisar os romances de Camilo, por encontrar alguns estritamente românticos e outros realistas. Xavier não concordava com isso e muito menos com as obras que o estudioso destacava para justificar suas posições, enfim, ele não considerava as posições do crítico dignas de reconhecimento.

Encontramos, nesse mesmo texto argumentos que imaginamos serem importantes para nossa análise. Preferimos acreditar que a “dificuldade” que Pinheiro Chagas tinha para enquadrar o romance camiliano, na verdade, foi um momento de grande lucidez do estudioso. Ao não querer enquadrar Camilo em nenhuma das escolas literárias existentes, Chagas apontava para a grandiosidade do autor de Anátema, que, para ele, estava acima de qualquer padrão que pudesse cerceá-la da criatividade:

Mas o seu gênio potente, individual, dominador, superior a todas as mudanças de escola e a todas as variações da moda, é o que arranca eternamente às gerações que se vão sucedendo as lágrimas e o riso e o que vai do romance do Amor de Perdição à Queda de um anjo, no teatro do Ultimo ato ao Morgado de Fafe.

Mesmo em romances que considera “imperfeitamente arquitetados”15, Pinheiro Chagas verifica o incrível dom que Camilo tem de emocionar seus leitores, além de elogiar a capacidade que ele possui ao manejar a linguagem e adaptá-la para descrever situações de forma magistral:

Com que discrição, com que fino tato ele sabe procurar e encontrar o que deveras convém à nossa língua moderna, de forma que o seu estilo não tome um caráter antiquado, incompatível com as condições do nosso meio! Que inexcedível propriedade de termos! Que riqueza de locuções! Como ele maneja desembaraçadamente o idioma! E como ele sabe dispensar as locuções francesas a que tantas vezes se recorre, entre nós, quando falta a expressão nacional!

Ramalho Ortigão marca presença no mesmo prefácio em que escreveu Pinheiro Chagas, desenvolvendo uma espécie de análise sociológica dos romances de Camilo, trabalho que Alberto Xavier também analisará. Ele reconhece o valor de Ortigão como crítico de costumes, mas não o considera em condições de desenvolver uma crítica literária e começa a apontar algumas incongruências no pensamento do crítico. Ortigão considerava Camilo um escritor romântico, mas afirmava que sua obra seria um retrato fiel da sociedade portuense na época de 1850, o que, para Xavier, era uma idéia absurda. Baseado em conceitos que definiam o Romantismo como a expressão da subjetividade, do lirismo e sensibilidade individual, ele não concebia que alguém daquele movimento pudesse compor um retrato fiel da sociedade. Efetuando nossa leitura do texto de Ortigão, detectamos alguns argumentos interessantes. O crítico realmente afirma que “a obra artística de Camilo Castelo Branco é, sobre o espírito de um sensitivo, o puro e fiel reflexo da sociedade”17. Mas ao desenvolver suas idéias, Ortigão passa a trabalhar com a teoria de que Camilo não tenta expressar a realidade de forma perfeita, mas sim aquela que ele enxergava, às vezes distorcida pelas opiniões do contraditório escritor: “Essa crítica apresenta as anomalias lineares de todo o escorço a que a falta de ponto de vista falseou a perspectiva e comprometeu o claro escuro” . Ele aponta deficiências na obra camiliana, mas reconhece seu valor como dos mais importantes representantes da Literatura Portuguesa:

[...] o nome de Camilo Castelo Branco representará para sempre na história da literatura pátria o mais vivo, o mais característico, o mais glorioso documento da atividade artística peculiar da nossa raça, porque ele é, sem dúvida alguma, entre todos os escritores do nosso século, o mais genuinamente peninsular, o mais tipicamente português.

Durante nossas pesquisas, encontramos um Boletim Cultural (1991) – intitulado “Camilo: o homem e o artista” – que trazia algumas opiniões de escritores – Teixeira de Pascoaes, Aquilino Ribeiro e José Régio – a respeito da obra camiliana, que consideramos interessantes por se tratar de autores respeitados em Portugal desenvolvendo algumas idéias que tinham em relação ao autor de Eusébio Macário.  Teixeira de Pascoaes destaca o caráter fúnebre da obra, como podemos verificar:

Na imaginação camiliana, tudo se torna lutuoso. Tudo lhe aparece como revelação da morte ou pretextos para a ação maléfica da morte [...] Camilo desvendou, como ninguém, o aspecto fúnebre das coisas, aquele véu lutuoso em que elas se desdobram na escuridão, e o das almas que se apagam ao sopro do Averno.

Aquilino Ribeiro reitera o mesmo aspecto lutuoso, afirmando que o dístico “gênio da desgraça, assenta-lhe (a Camilo) como uma luva”21. O autor, apesar da objeção a algumas novelas, reconhece o valor da obra camiliana e aponta para um amadurecimento do escritor: “Por isso (pela dificuldade para estudar), a sua prosa de começo é torpe; o seu espírito, pouco atilado; está preso aos torrões negros da gleba. Dealbou-se em sofrimento e no rio do tempo. Todavia não entardeceu a blasonar primores". Essa tese, de evolução constante apresentada por Aquilino Ribeiro, não é válida para Prado Coelho, que verifica uma carreira com “altos e baixos sensíveis a não ser na linguagem, cada vez mais opulenta, mais própria”.

No excerto de um texto de José Régio – dentre os três autores citados, é o único que desenvolveu trabalho crítico com reconhecido valor – presente no citado Boletim Cultural, encontramos uma crítica mais sensível ao talento camiliano, creditando-lhe a utilização de recursos que o aproximam do romance moderno: “Visivelmente, a personalidade e os humores de Camilo dominam o seu romance: impõem-lhe uma técnica desigual, volúvel, diversa, caprichosa, livre (ou licenciosa) como essa mesma personalidade, esses mesmos humores”.

Acreditamos que o trabalho de Alberto Xavier, no referido Camilo Romântico, dá-nos uma interessante visão, não tão isenta, sobre a crítica literária da metade final do século XIX, por se tratar de um estudo das análises literárias que eram desenvolvidas naquele momento. Apontamos alguns aspectos que consideramos inexatos em sua análise diante da leitura de textos que ele estudou, provavelmente motivados pela profunda admiração que nutria por Camilo, pois considerava-o um notável talento do Romantismo e não admitia nenhuma opinião que contrariasse tal posição. Ao longo do seu livro, Chagas evidencia sua visão crítica e admiração pelo autor de Coração, Cabeça e Estômago, como neste segmento que acreditamos ilustrar, de forma definitiva, tais posicionamentos:

O romantismo de Camilo, como escritor, manifesta-se por diversas formas: no lirismo das efusões compostas em verso; nas fugitivas memórias autobiográficas registradas aqui e acolá; nas confissões esparsas em prefácios e outros escritos em prosa e desabafadas na abundante correspondência epistolar; nas transposições artísticas de todo o seu individualismo exacerbado, de que certas das obras de teatro, e, os romances sentimentais e de paixão, estes principalmente, são os documentos literários preponderantes, vivos, expressivos. Desta sorte, Camilo é verdadeiramente o introdutor, em Portugal, da literatura íntima, de confidência, de apelo ao coração, e do romance pessoal e sentimental, formas por que em todos os demais países europeus se concretizam nas letras as disposições psicológicas, românticas, dos poetas e dos prosadores.

Para finalizar essa etapa, achamos necessária uma breve abordagem das opiniões críticas ao livro Coração, Cabeça e Estômago, que será uma das obras utilizadas como suporte para algumas discussões que faremos nos capítulos seguintes desta dissertação. Já, a partir da segunda edição daquela obra, foi incluído um texto de A. A. Teixeira de Vasconcelos que, apesar de ser escritor, não deixa de ser um estudo feito “no calor da publicação”. Nessa análise, o autor discorreu sobre as três fases da vida de Silvestre da Silva, emitindo opiniões sobre cada uma delas. Ele destacou as críticas feitas por Camilo à sociedade portuense que valorizava mais o dinheiro que o caráter e a respeitabilidade que algumas pessoas alcançavam apesar de terem um comportamento condenável. Teixeira de Vasconcelos elegeu a fase estômago como sua predileta: “Encantou-me a terceira parte do romance, não pelo desenlace filosófico, mas pela admirável fidelidade com que o Sr. Camilo Castelo Branco copiou da natureza as cenas e linguagem da casa do sargento-mor de Soutelo". Ele apontara como defeitos algumas liberdades que Camilo tomou em relação à imagem das mulheres representadas na fase do coração e a utilização de algumas poucas palavras que estavam fora de uso na língua portuguesa. Mas ao final da análise, reconhecia o valor do autor de Amor de Salvação: “O Sr. Camilo Castelo Branco é o nosso primeiro romancista, e há de ser por certo, um dos mais discretos  prosadores portugueses. O voto não admite suspeição porque é de homem do mesmo ofício". O tempo foi passando e o romance Coração, Cabeça e Estômago continuou a despertar nos críticos, mesmo de épocas diferentes, um sentimento parecido, eles o viam como uma forma irônica, uma visão depreciativa do Romantismo. J. do Prado Coelho considera que:

Coração, Cabeça e Estômago é, sim, uma obra desigual, desarticulada, onde não se operou a necessária fusão de materiais heterogêneos; obra apimentada, na primeira parte, com brejeirices ou graçolas de gosto discutível; mas reserva ao leitor atento a surpresa duma ‘substantifique moelle’, além de páginas magistrais de ‘realismo’ rústico e dum estilo, em muitos passos, admirável, dúctil, chistoso, outras vezes concreto e rico de seiva.

João Camilo dos Santos, por sua vez, escreve que “o amor entre adultos, em contrapartida, é freqüentemente tratado pelo romancista de maneira irônica e até sarcástica” e que essa obra “faz parte do grupo de romances que ilustram” essa  maneira de encarar o amor. João Camilo conclui que Camilo “através de Silvestre (personagem central do romance), porém, apresenta-nos uma das críticas mais sutis e mais severas alguma vez escritas sobre os ridículos em que pode cair a linguagem poética". Paulo de Castro encontra nesse livro “uma ironia fina com um misto de desencanto que faz lembrar Machado de Assis". Na História da Literatura Portuguesa, Saraiva e Lopes escrevem sobre um “gênero da novela satírica de costumes”:

Paralelamente, e numa constante oscilação pendular, que chega a abranger o todo de uma série de novelas (A Filha do Arcediago, 56, e  A Neta do Arcediago, 57; Cenas da Foz, 61) ou a estrutura global de uma novela (como Coração, Cabeça e Estômago, 62), Camilo desenrola o gênero da novela satírica de costumes, voltando do avesso o idealismo passional e dando-nos o quadro de uma vida inteiramente dirigida pela sordidez argentaria, pelos prazeres da digestão planturosa, pela ânsia hipócrita, refalsada e brutal da supremacia social, e por outros gozos vulgares.

Algumas dessas definições dadas ao “diferente” Coração, Cabeça e Estômago como “forma irônica”, “caricatura do Romantismo”, “maneira sarcástica de encarar o amor” e, principalmente, o “fazer lembrar Machado de Assis” – motivam-nos ainda mais a desenvolver nosso estudo comparativo com, o não menos instigante, Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado.

Felizmente, parte da crítica contemporânea parece querer romper com aquela conhecida divisão que estudiosos vêm cristalizando ao longo dos tempos em relação à obra camiliana: novela passional (como    Amor de Perdição) e novela satírica e de costumes (exemplo:  A queda dum anjo). Uma das vozes que representa essa mudança é a Paulo Franchetti, que, na apresentação de Coração, Cabeça e Estômago, da Marins Fontes, aponta os trabalhos de Abel Barros Baptista como inovadores nesse processo de renovação crítica:

[...] alguns trabalhos, assinados por Baptista e por outros críticos mais jovens, finalmente vêm deslocando a inflexão romântico/realista da crítica camiliana e destacando outras obras, anteriormente relegadas a um segundo plano de interesse e importância. De modo que é possível imaginar que o velho romancista de S. Miguel de Seide adquirirá, nos próximos anos, um novo rosto, será objeto de renovado interesse e certamente terá o seu lugar redefinido no cânone da literatura portuguesa. 

Encontramos, ao longo dessa modesta abordagem da crítica à obra camiliana, uma amostra que acreditamos possibilitar o delineamento de uma idéia geral desenvolvida em torno do espólio literário do escritor português. Apesar de se tratar de uma crítica impressionista e sem uma metodologia definida, os estudiosos do final do século XIX e princípio do XX apontavam muitas qualidades em sua obra e o consideravam um artista genial, fundador de um novo tipo de romance (o burguês), um autor que retratava a sociedade portuguesa como poucos e numa linguagem impecável. Entretanto, verificavam alguns defeitos, como a falta de uma idéia geral e a oscilação de qualidade entre seus livros. Era um  pensamento quase que unânime que, aquela carreira de altos e baixos, devia ser creditada às pressões que os editores exerciam sobre o escritor aliadas ao seu temperamento explosivo. Começava naquele momento a formação de uma imagem que se cristalizaria ao longo dos tempos e que muito prejudicaram a recepção da obra camiliana: a divisão de seus textos entre satíricos e passionais e sua inclusão entre os ultra-românticos. Essa última idéia parece estar superada nos dias atuais, mas a primeira tem persistido e contra ela, trabalhos de importantes estudiosos – desde Jacinto do Prado Coelho, passando por Abel Barros Baptista – têm sido desenvolvidos, buscando novos caminhos de leitura para uma obra tão complexa e grandiosa. 


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Fonte:
Geraldo da Aparecida Ferreira: “Memórias Póstumas de Brás Cubas e Coração, Cabeça e Estômago – Machado de Assis e Camilo Castelo Branco: leitores e críticos do Romantismo”. (Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para obtenção do título de Mestre em Letras. Orientador: Prof. Dr. Paulo Motta Oliveira). São Paulo, 2007.
Notas
A imagem inserida no texto não se inclui na referida obra. As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da obra em sua totalidade. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br

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