08/08/14

Vingança, de Camilo Castelo Branco

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Crítico Camilo Castelo Branco

Camilo Castelo Branco desenvolveu uma crítica de cunho impressionista, desprovida de metodologia e a externava por meio de crônicas, cartas, prefácios de seus romances, entre outras formas. Camilo, profundamente preocupado com o apuro da linguagem, emitiu diversas e contraditórias opiniões acerca da produção literária portuguesa e o fazia em um estilo agressivo, colecionando com isso um grande número de desafetos. O próprio autor de Amor de Salvação assumia as dificuldades de se fazer uma crítica isenta em Portugal, pelos seguintes motivos:

A crítica, em Portugal, é quase impraticável por duas causas: a primeira, é que somos poucos a escrever, e nos apertamos cordialmente a mão todos os dias; a segunda é que, por este teor de vida, nenhum escritor se faria um nome que o compensasse dos dissabores e da pouquidade dos lucros.

Mesmo reconhecendo as dificuldades do trabalho de análise literária, Camilo não deixou de emitir suas opiniões, muitas delas caracterizadas pela ambigüidade. Jacinto do Prado Coelho destacava as controvertidas posições do escritor:

Nos prefácios exprime, nem sempre com perfeita coerência, as suas idéias estéticas. Julga-se no meio termo da verdade. O seu feitio de orgulhosa independência leva-o a marcar uma posição inteiramente pessoal, acima (julga ele) das tendências de escola. Desde o começo, criticou os modelos aceites: já no prefácio do Anátema, acusava os males de que enfermava a literatura romântica então na moda [...] No seu entender, a literatura palpitante de atualidade (Camilo, como já fizera Herculano, usa a expressão num registro irônico) cedia ao gosto popular, rebaixava-se, contava num estilo vazio e retorcido, enfático, com muitos  ahs! E muitos  ohs!,    uma história <<de amores trágicos, urgentes e lamentosos>>, para agradar a burguesa e ao operário. [...] A tudo isso opunha ele o culto das tradições, o espírito de independência, portuguesismo e classicismo.

As diferenças entre o que Camilo dizia aos amigos através de cartas e o que ele escrevia para ser publicado são até certo ponto compreensíveis, levando-se em conta o caráter mais íntimo e com menos preocupações em relação ao “politicamente correto”, mas em algumas oportunidades elas são tão discrepantes que resolvemos apresentá-las. Prado Coelho nos dá um bom exemplo dessa alternância de opiniões do escritor português que, analisando O Crime do Padre Amaro, fez, em uma carta a um amigo, Visconde de Ouguela, as seguintes observações: “Li alguns capítulos na Revista Ocidental, e achei excelente. Vi anunciando agora o romance em livro. Esse rapaz vem tomar a vanguarda a todos os romancistas". Em uma outra correspondência direcionada ao mesmo amigo, Camilo modifica sua análise:

Tem admirável paciência de observação plástica; mas dentro dos tecidos musculares, figura-se que vê mal. Quanto à linguagem, às impropriedades, reflexo de Flaubert, não as estranho nem as abomino; o que me escandaliza são os velhos erros de gramática e os barbarismos, que não usam os satânicos franceses na sua língua.

Júlio Dias da Costa, no livro Novas Palestras Camilianas, destaca outro momento emblemático do espírito ambíguo da crítica camiliana. Trata-se de duas opiniões controversas a respeito de um mesmo livro, A Hermitage, de Júlio de Castilho. A primeira opinião estava presente em seu opúsculo Othello, em que criticava a tradução de Shakespeare feita por D. Luís de Bragança: “Em um livro do Sr. Visconde de Castilho – livro talvez desconhecido, como tesouro encantado de princesas mouras – li quatro das mais nervosas e inspirativas poesias portuguesas que conheço." A contradição estaria presente na correspondência entre Camilo e o Visconde de Ouguela:

Vim de ler um livro de versos recentíssimo de Julio, visconde de Castilho, A Hermitage. Este homem ainda vive? Parece-me que estou em 1840 quando o leio. Eu não cuidei que se pudessem escrever versos a uma cruz no ermo ou a um rouxinol na latada. Este Castilho tem vínculo do talento piegas. Como o avô era pedreiro de arquitetura mosárabe, eles ficaram sempre góticos.

Camilo devotou grande parte do seu trabalho de crítico aos autores de menor expressão da cidade do Porto. Em algumas dessas análises, ele tentava amainar o estilo corrosivo principalmente em relação aos artistas com os quais provavelmente possuía boas relações, mas não perdoava aqueles que faziam oposição às suas idéias ou escritos. Na crônica “Escritores Portuenses”, ele elencou alguns escritores do Porto, rendendo homenagens a uns, como a Evaristo Basto, que andava esquecido pelos leitores:

[...] Evaristo Basto é o principal prosador do Porto. Vivacidade, graça, atrevimento, lucidez, variedade, ritmo quase poético, agudeza, são os dotes do seu estilo. As provas, embora esquecidas, são escritos de curto fôlego, mandados para a estampa sem lima nem revisão; mas, por isso mesmo amostras tanto mais qualificativas quanto desenfeitadas.

A outros, atacou, como a José Gomes Monteiro, tido como gênio por leitores e críticos:

O sábio, visto à luz da poesia, ficou sendo para mim um mocho, inferior ao último poetastro da    Lira, jornal de versos que, por esse tempo, no Porto, anunciava que Apolo se calara para deixar versejar o Pégaso. [...] A locução, sempre de muletas, cai quando devia andar, e atira-se em remetidas descompostas quando devia estar quieta. [...] Em resumo: o Sr. José Gomes Monteiro é um escritor que não pode ser comparado aos menos de medíocres.

Camilo Castelo Branco conhecia também a produção literária brasileira e emitiu opiniões elogiosas a respeito de nossos principais autores, destacando-lhes o estilo e uma certa independência em relação à linguagem dos grandes escritores portugueses, como no seguinte excerto, publicado na crônica “Literatura Brasileira”:

O mercado dos livros brasileiros abriu-se, há poucos meses, em Portugal. [...] Aí se nos deparam, entre os poetas, Gonçalves de Magalhães, o correto e sublime autor da Confederação dos Tamoios; o lírico e arrojado Álvares de Azevedo; o primaz dos escritores brasileiros, e chorado Gonçalves Dias; o esperançoso devaneador, falecido no viço da idade, Casimiro de Abreu; Junqueira Freire, que primou nos segredos da melodia e já não é deste mundo; e o severo e cadencioso poeta de Colombo, tão estimado dos nossos. Entre os romancistas o fecundíssimo Joaquim Manuel de Macedo, que disputa a supremacia a J. de Alencar, que tanta nomeada granjeou com o seu Guarani. Não lustram menos as novelas mimosíssimas de Luís de Guimarães, e as arrobadas mesclas de prosa e verso de Machado de Assis.

Apesar de demonstrar conhecimento e respeito em relação aos escritores brasileiros, Camilo não perdeu a oportunidade de ironizá-los, pelo menos em uma ocasião. Isso ocorreu num trecho de O cego de Landim, quando o narrador, ao tratar o caso amoroso entre a irmã do cego D. Ana das Neves com um chefe de polícia brasileiro, afirma, sarcasticamente, que poderia descrever tal relação ao modo de José de Alencar:

Este episódio poderia ser o esmalte do meu livrinho, se em um chefe de polícia coubessem cenas de amor brasileiro, mórbidas e sonolentas, como tão langüidamente as derrete o sr. J. d’Alencar. Em país de tanto passarinho, tantíssimas flores a recenderem cheiros vários, cascatas e lagos, um céu estrelado de bananas, uma linguagem a suspirar mimices de sotaque, com isto e com uma rede – ou duas por causa da moral – a bamboarem-se entre dois coqueiros, eu metia nelas o chefe de polícia e a irmã do cego, um sabiá por cima, um papagaio de um lado, um sagüi do outro, e veriam que meigas moquenquices, que arrulhar de rolas eu não estilava desta pena de ferro!

Em relação à poesia, Camilo possuía interessante opinião sobre como se deveria analisá-la. Devido ao caráter pessoal, ao sentimento íntimo que o poeta busca expressar, ele sentia dificuldades em criticar tais trabalhos. Ele vai fazê-lo, mas deixando claro que sua intenção não é julgar o sentimento do escritor, como afirma em seu livro Esboços de Apreciações Críticas, numa crítica ao trabalho do poeta Francisco Martins de Gouveia Morais Sarmento:

Estou quase em pensar que a poesia não dá campo à crítica. É grosseira audácia avaliar um poeta quando vos ele fala de si, e não vos dá margem a discutir-lhe a idéia no tribunal da razão, que é coisa que poetas nunca tiveram, ou, se tivessem, não seriam poetas à feição do molde em que hoje se fundem. Poeta que raciocina é um cáustico da paciência humana. [...] O que posso de toda a altura da minha gravata decidir é que a poesia do nosso tempo traz o carimbo do século. 

Ainda no livro Esboços, encontramos uma crítica que acreditamos ter causado certa polêmica por tratar-se de um elogio a uma mulher escritora, a Marquesa de Alorna, devido ao preconceito machista que parecia imperar no meio cultural português. Dada a importância daquela autora, tida por muitos críticos como uma das mais notáveis vozes do Pré-Romantismo português, outros estudiosos já haviam escrito sobre ela, como é o caso de Herculano, que em uma homenagem póstuma à Alorna escreveu que: “aquela mulher extraordinária, a quem só faltou outra pátria, que não fosse esta pobre e esquecida terra de Portugal, para ser uma das mais brilhantes provas contra as vãs pretensões de superioridade excessiva do nosso sexo” . Vejamos o pensamento de Camilo:

Em Portugal olham-se de revés as senhoras que escrevem. Cuida muita gente, aliás boa para amanhar a vida, que uma mulher instruída e escritora é um aleijão moral. Outras pessoas, em tom de sisuda gravidade, dizem que a senhora letrada desluz o afetuoso mimo do sexo, a cândida singeleza de maneiras, a adorável ignorância das coisas especulativas, e até uma certa timidez pudibunda que mais lhe realça os feitiços. Quer dizer que a mais amável das senhoras será a mais néscia, e que a estupidez é um dom complementar da amabilidade do sexo formoso.

Como apontamos anteriormente, Camilo Castelo Branco tinha certa admiração pela escola realista. Essa admiração não impedia que ele a criticasse como em aspectos ligados à linguagem. Na parte final de sua obra, ele se propôs a escrever algumas peças realistas, como em algumas das Novelas do Minho, em A Corja e em Eusébio Macário. Na dedicatória e no prefácio da segunda edição desse último romance, encontramos algumas afirmações que podem ilustrar seu pensamento em relação à nova escola e também uma crítica velada às produções realistas:

Perguntaste-me se um velho escritor de antigas novelas poderia escrever, segundo os processos novos, um romance com todos os ‘tics’ do estilo realista. Respondi temerariamente que sim e tu apostaste que não. Venho depositar no teu regaço o romance, e na tua mão o beijo da aposta que perdi. [...] O tímido autor esperava que os artistas não refugassem a obra tracejada, e afirmassem que eu, n’esta decrepidez em que faço ao estilo o que os meus coevos de juventude fazem bigode, não podia penetrar com olho moderno os processos do naturalismo no romance. Ora a cousa em si era tão fácil que até eu a fiz, e tão vaidoso fiquei do Eusébio Macário que o reputo o mais banal, mais oco e mais insignificante romance que ainda alinhavei para as fancarias da literatura de pacotilha.

Analisando os textos apresentados acima, podemos abstrair alguns pontos que, apesar da amostragem muito reduzida, parecem caracterizar o posicionamento crítico de Camilo. Tentamos mostrar que suas análises eram impressionistas e em alguns momentos variavam sensivelmente de acordo com o meio que ele as emitia, para o público uma visão, para amigos íntimos outra bem menos benevolente. Criticava alguns exageros românticos, mas também apontava defeitos na estética realista. Conhecia a produção literária brasileira e exaltava qualidades de nossos escritores, mas, como vimos, não perdeu a oportunidade de ironizá-los, através de crítica a José de Alencar. Defendia que era muito difícil a missão de se analisar a poesia, devido ao caráter íntimo, pessoal daquelas composições. Acreditamos que Camilo - apesar dessa postura um tanto ambígua, talvez fruto das indefinições que aquele momento cultural do final do século XIX apresentava – tenha dado sua contribuição para o desenvolvimento da crítica e da produção literária em Portugal.


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Fonte:
Geraldo da Aparecida Ferreira
: “Memórias Póstumas de Brás Cubas e Coração, Cabeça e Estômago – Machado de Assis e Camilo Castelo Branco: leitores e críticos do Romantismo”. (Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para obtenção do título de Mestre em Letras. Orientador: Prof. Dr. Paulo Motta Oliveira). São Paulo, 2007.
Notas
A imagem inserida no texto não se inclui na referida obra. As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da obra em sua totalidade. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br

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