09/08/14

Vulcões de Lama, de Camilo Castelo Branco

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A ficção camiliana no âmbito dos estudos literários: uma dívida por saldar

Valendo-se de um instrumental avaliativo pouco comum no seio dos estudos camilianos, Abel Barros Baptista (1993) afirma que Camilo Castelo Branco “[...] protagoniza [...] o movimento de transformação da ordem do discurso através do qual o romance moderno se torna o gênero dominante na hierarquia dos gêneros literários” (1993, p. 152). Essa transformação implica a afirmação de um novo tipo de discurso, baseado numa competência de escrita, conforme explica Baptista (1993, p. 154):

ao afirmar sobretudo uma competência da escrita, movendo-se em diferentes lugares, libertando-se de determinações políticas, ideológicas ou religiosas, [Camilo] impõe um novo lugar de enunciação e uma nova figura do escritor, aquele que tem legitimidade e capacidade para viver desse estranho ofício que consiste em oferecer aos outros romances que deixam o mundo tolo e mal tal qual quando cá entramos, para usar as palavras finais de A Brasileira de Prazins [...].

Essa abordagem crítica, esteada na consideração dos elementos macroestruturais do texto ficcional, distingue-se da maioria dos estudos dedicados à produção literária do autor de Amor de Perdição,  cuja ênfase recai sobre “[...] julgamentos [...] calcados nos lugares-comuns românticos da vinculação da obra com a vida individual do escritor” (FRANCHETTI, 2003, p. 33). Com efeito, o conjunto desses estudos focaliza a biografia, a fim de justificar o processo de escrita, a feitura dos livros e as suas decorrentes características de construção. Não raro, é possível encontrar artigos e ensaios em que prepondera a simbiose entre vida e obra, isto é, os eventos narrados na ficção são diretamente associados aos acontecimentos biográficos. Conseqüentemente, aqueles são lidos em função destes.

Acerca desse procedimento, observa Abel Barros Baptista (1988, p. 29): A obra é convocada em apoio da vida, os textos são levados a testemunhar em favor do homem num processo em que não se chega a existir qualquer distinção entre a vida de Camilo e a ficção de Camilo. Indistinção, aliás, dupla: por um lado, não existe distinção entre a vida efetiva de Camilo e a efabulação biográfica; por outro lado, não se distingue igualmente a vida de Camilo dos seus textos, da ficção escrita por Camilo sempre [...] solicitada a esclarecer passos da biografia ou a comprovar efabulações dos biógrafos.

Costuma-se priorizar também a reflexão acerca das implicações estético-doutrinárias subjacentes ao período no qual Camilo exerceu sua atividade. Como se sabe, esse autor ficou guardado no imaginário literário luso-brasileiro como o expoente máximo do Ultra-Romantismo português. Saraiva e Lopes (1996) o apontam como a personalidade que domina a segunda geração romântica, podendo ser considerado o seu representante típico e superior3. Essa imagem exerceu influência considerável sobre a fortuna crítica camiliana, a qual se constituiu, em grande parte, aproximando ou afastando a obra de Camilo dos pressupostos românticos.

Sumarizando, a recepção à ficção camiliana se subsume fundamentalmente a dois operadores hermenêuticos consagrados por uma parcela significativa da crítica literária luso-brasileira: a conjunção vida/obra e o enquadramento da produção literária assinada por Camilo no Romantismo português. Recorrendo a essa subsunção, Feliciano Ramos assevera: Camilo formou o espírito dentro do clima do romantismo. A doentia sentimentalidade dos românticos, com a emocionante megalomania da dor, o gosto da melancolia e do ceticismo, transmitiu-se a Camilo, através de leituras, jornais, livros e revistas, e por intermédio do convívio social. O romantismo vivia-se e respirava-se à sua volta. Camilo era particularmente sensível a esta atmosfera de doença moral, porquanto pesava-lhe no espírito uma ancestralidade mórbida./ No avô paterno, nos tios e no próprio pai há indícios, mais ou menos intensos, de alienação mental. Esta herança psicológica imprimiu então caráter ao homem, e predispô-lo para desvairamentos e atos indisciplinados. O seu temperamento literário foi permeável a tais práticas. O movimento romântico e a ancestralidade mórbida ajudam a explicar tragédias, as perversões, os crimes, os escândalos e imoralidades que povoam seus romances (1950, p. 496-497).

Levando em consideração que o Romantismo enquanto movimento literário tenha tocado o seu fim no terceiro quartel do século XIX e que a trajetória biográfica de Camilo tenha se completado no final na última década oitocentista, a abordagem de Ramos abre margem para questionamento. Admitindo que a ficção camiliana fosse tão servilmente permeável às práticas do sentimentalismo e à incidência dos eventos concernentes à vida do seu autor, certamente o seu interesse teria desaparecido quando a estética romântica se encerrou ou no momento em que Camilo findou seus dias. No entanto, ela tem burlado o esquecimento e atraído atenção para si durante mais de um século após morte do seu autor, segundo aponta Paulo Motta Oliveira (2007). Assim, cabe determinar os elementos dessa obra que ultrapassam o determinismo dos movimentos literários, e estender a sua interpretação geral para além da tendência biografista.

Franchetti (2003) revela que um dos pontos centrais da atual tradição dos estudos camilianos, na qual Ramos se filia, é a concentração nos aspectos narrativos (enredo, ação e diegese), em detrimento daqueles ligados à enunciação, à constituição da figura autoral e à reflexão sobre a materialidade do texto ficcional, fatores potencialmente capazes de redimensionar a recepção da obra de Camilo, subsidiando uma leitura que goze de maior comunhão com os valores contemporâneos destinados à apreciação estética do texto literário.



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Fonte:
Moizeis Sobreira de Sousa: “A ficção camiliana: a escrita em cena”. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Literatura Portuguesa do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para a obtenção do título de Mestre em Letras. Orientador: Prof. Dr. Paulo Fernando da Motta de Oliveira). São Paulo, 2009.

Notas
A imagem inserida no texto não se inclui na referida obra. As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da obra em sua totalidade. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br

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