04/08/14

A Neta do Arcediago, de Camilo Castelo Barnco

 A Neta do Arcediago, de Camilo Castelo Branco pdf gratis

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Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós sob o signo do folhetim

No que diz respeito à importância do estudo do romance-folhetim em Portugal, talvez seja válido lembrar algumas citações compiladas na obra de Ernesto Rodrigues, intitulada Mágico Folhetim: literatura e jornalismo em Portugal. A esse propósito, referindo-se ao folhetim, afirma o autor que, como “se já não bastasse o espaço conquistado nos periódicos”, cedo se convencera de que estavam “perante algo de incontornável em Oitocentos, significativo da cultura de um século, com suas benfeitorias ou desaires” (1998, p.15, grifos meus). Mais adiante, lê-se uma citação de Vitorino Nemésio, que segundo Ernesto, fora o primeiro a atribuir grandeza literária ao tão depreciado e “fútil” folhetim: Talvez mais da metade da produção literária portuguesa do século passadoficou nas colecções de jornais sob essa forma. E, se a superficialidade fatal a este modo de tratamento de temas tende a condenar essas toneladas de papel sepulto nas caves das bibliotecas e dos bibliófilos, o seu caráter documental resgata-o (1950 apud RODRIGUES, 1998, p.21, grifos meus).  

Em seguida, lê-se uma afirmação de José V. de Pina Martins, que confirma a importância do jornalismo para a produção literária oitocentista: “Todos os grandes nomes da literatura portuguesa do século XIX estão mais ou menos ligados à história do jornalismo e à influência que este exerceu sobre a vida política e cultural da Nação” (1974 apud RODRIGUES, 1998, p.21).

Por fim, mas sem a pretensão de encerrar a discussão a respeito da importância do estudo do folhetim para a literatura oitocentista portuguesa, destacamos a seguinte passagem do autor de Mágico Folhetim:

Foi sobre este período de 42 anos [1833-1875] que mais pendeu ainvestigação: por um lado, com a vitória liberal já clara em 1833, impunha-se moderna fórmula de Imprensa literária na deriva romântica; por outro, a transição, ou educação, realista d’O Crime do Padre Amaro esboça-se na serialidade da luxuosamente colaborada Revista Ocidental (1875), [...]. Eça, por mais que o denigra, nasce e cresce literariamente com o incontornável folhetim (RODRIGUES, 1998, p.131, grifos meus).

Vale ressaltar das anteriores citações algumas ideias já destacadas em itálico: o fato de o folhetim representar elemento significativo para a cultura oitocentista; a importância de seu caráter documental, devido ao expressivo conjunto da produção literária presente nos jornais; a influência e a importância do jornalismo para a vida literária portuguesa; a posição central do folhetim nos jornais e sua consequente primazia; e, por fim, o importante período de investigação em que se situam as obras sobre as quais nos deteremos.

Verificada a relevância do estudo desta fase da produção portuguesa, em que o diálogo com o romance francês e, em menor medida, com o romance inglês, apresenta-se como elemento essencial para a criação e consolidação de um gênero ainda tateante em Portugal, também lançaremos, à guisa de breve introdução, um olhar ao que se disse a respeito da dita “produção folhetinesca” dos autores compreendidos neste estudo, sem a pretensão de abarcar toda os estudos críticos feitos a respeito dos romances. Dessa forma, analisaremos as contribuições de alguns importantes críticos e historiadores, em razão de suas obras conterem uma visada panorâmica da literatura portuguesa oitocentista ou especificamente das obras de Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós, a despeito de nosso objetivo primordial – o de realizar uma análise menos panorâmica e uma comparação mais detida sobre a obra inicial dos autores.

No que respeita aos primeiros romances de Camilo – o Anátema, os Mistérios de Lisboa, e sua continuação, O Livro Negro do Padre Dinis – parte da crítica consente de modo geral que esta seria parte da produção inferior do escritor, onde ainda não tivera tempo e maturidade para revelar seus dotes de romancista. Assim sendo, atesta-se que a dita produção folhetinesca de Camilo Castelo Branco baseia-se, essencialmente, em tópicas da produção romanesca francesa, da qual o escritor revelar-se-ia apenas um mero “copiador”, além de voraz leitor. Como sintetiza Alves Lima a partir da leitura da crítica de Camilo de modo geral, “pode-se verificar alguns pontos comuns, dentre os quais se destacam: a) cópia de modelos franceses (e modelos de baixa qualidade, pelo que se depreende); b) ausência de valor literário; c) preocupação em escrever para agradar ao público” (1990, p.15).

Da História da Literatura Portuguesa, de Antonio José Saraiva e Oscar  Lopes, depreende-se, de modo geral, que a produção camiliana teria se apresentado em uma curva evolutiva, cujas primeiras obras, objeto de nosso estudo, teriam a função de “satisfazer o gosto do romance negro de aventuras, lançado pelo pré-romantismo inglês (H.Walpole, Ana Radcliffe) e afim do melodrama [...] de que Soulié, Nodier, Féval, Sue e o próprio Vítor Hugo foram os principais transmissores” (1969, p.820).

Condizente com o intuito de apresentar um extenso, e, portanto, limitado panorama da literatura portuguesa, é natural que não se encontrem comentários abrangentes ou mais detidos a respeito dessa obra inicial de Camilo. Notam já os autores, no entanto, uma diferença central em relação aos romances de Sue e Hugo: “É, no entanto, significativo o facto de o nosso novelista esbater, se não eliminar, a crítica das misérias e das degradações morais, das perversões que estas provocam, tal como a encontramos nos livros de Eugène Sue e Vítor Hugo que imita” (Ibid., p.820). Em seguida, os críticos atribuem o fato à sua “antipatia em relação à literatura de crítica social” (Ibid., 821).

Apontando, portanto, uma diferença central com relação aos romances que supostamente “imita”, sem, contudo, elaborar esse aspecto, os autores já nos fazem notar de antemão diferenças constitutivas que se sobressaem quando da leitura dos romances,diferenças essas que pretendemos elaborar e problematizar no desenvolvimento do presente estudo.

Passando de um extenso panorama da literatura portuguesa em sua evolução histórica, deter-nos-emos em um novo panorama, desta vez a respeito do romance português, que nos apresenta, portanto, análises mais detidas a respeito de determinados romances e romancistas portugueses. João Gaspar Simões, na História do Romance Português, se não apresenta uma visão panorâmica completa da obra de Camilo Castelo Branco, como faz Jacinto do Prado Coelho, realiza, por outro lado, um extenso panorama do romance português, pontuando a importância do escritor para a evolução e ascensão do gênero, como comentamos anteriormente (a respeito do fato de que Camilo, Eça e Júlio Dinis tenham sido importantes representantes da ascensão de um novo gênero – o romance moderno português). Assim, seria importante observar o que diz a respeito desta fase experimental da obra de Camilo, em comparação com as fases mais amadurecidas em que se apresenta o escritor de A queda dum anjo, Amor de Perdição e Eusébio Macário.

Apesar de situar o aparecimento do Anátema – romance do qual apresenta mais informações, por ser a estreia de Camilo, mas que apresenta muitos pontos de contato com os Mistérios de Lisboa, publicado apenas três anos depois – como importante fato para a ascensão do romance moderno português, como demonstrado anteriormente, Simões considera a fase inicial de Camilo como absolutamente inferior às demais, mencionando, novamente, a suposta importação e imitação dos modelos estrangeiros, reafirmando o domínio do influxo externo sobre a literatura portuguesa. Afirma, dessa forma, que a produção de Camilo se elevará “logo que se desiluda dos cosmopolitismos à Dumas e Eugène Sue” (1969, p.123).

Buscando realizar uma distinção entre novela e romance, com vistas a classificar a produção camiliana entre um ou outro gênero, o crítico afirma que o romance “exige “enredo”, personagens pormenorizadamente estudadas e um acontecer moroso – um tempo capaz de se corporizar em factos e episódios objectivos” (Ibid., p.130). Na novela, por sua vez, o “estilo é primacial. Tudo depende da “voz” do narrador” (Ibid., p.130). Em seguida, analisando e enaltecendo a produção novelística de Camilo, afirma:

As suas histórias valem sobretudo pelo tom em que são contadas. A voz que melhor se ouve nos seus romances é a do romancista. [...]. Através dele, através de sua “voz”, que é a sua prosa, o seu estilo inconfundível, tomam corpo,  existência,       vida, coisas,    pessoas, acontecimentos, paisagens, situações, tudo quando comparece nas suas histórias (Ibid., p.130).

É, pois, por esta razão que a fase inicial do escritor é considerada de má qualidade e cópia dos modelos franceses: de acordo com Simões, o enredo e as aventuras folhetinescas se sobrepõem à voz camiliana, que configura seu estilo e faz de sua novela elemento significativo para a ascensão do romance em Portugal. Antes de comentarmos a análise do crítico, que não deixa de apresentar elementos importantes, vejamos como analisa a fase experimental da produção camiliana:

No Anátema, nos Mistérios de Lisboa, no Livro Negro do Padre Dinis, obras intrinsecamente folhetinescas, à maneira dos Sue & Companhia, temos algumas de suas histórias de mais nítida traça “romancesca”. À medida que se afasta do folhetim é que se aproxima da novela. [...]. Na novela se lhe apura o estilo, se lhe aguça a veia satírica, se lhe afirma o tônus passional.

Na novela se emancipa do “terror grosso” que ensancha os seus folhetins. [...].

Por aí começaria Camilo. O Anátema é puro “terror grosso”. Estava na moda. Era a grande atracção do público. [...]. E o certo é que para desembaraçar-se do “terror grosso” teve de recorrer à jocosidade, ao sarcasmo, ao grotesco, à sátira grosseira. [...]. Depurando as suas histórias da ganga folhetinesca da primeira fase, atinge então uma sobriedade por vezes magistral. É certo que o “terror grosso”, ou seja, o folhetinesco nunca desaparece por completo de sua obra. Mas é onde ele menos se evidencia que Camilo atinge a nota mais alta da sua genialidade (Ibid., p.132).

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Fonte:
Andréa Trench de Castro
: “O romance-folhetim de Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós”. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo para obtenção do título de Mestre em Letras.Orientador: Prof. Dr. Paulo Fernando da Motta de Oliveira). São Paulo, 2012.
Notas
A imagem inserida no texto não se inclui na referida obra. As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da obra em sua totalidade. Disponível em:  twww.teses.usp.br

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