08/07/14

Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes

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Leitura do Quixote ao longo do tempo

¿Con qué palabras contaré esta tan espantosa hazaña, o con
qué razones la hare creíble a los siglos venideros, o qué alabanzas
habrá que no te convengan y cuadren, aunque sean hipérboles sobre
todos los hipérboles?
Quijote II, cap. XVII, Cervantes

Miguel de Cervantes Saavedra publicou a primeira parte das aventuras e desventuras de Dom Quixote em 1605 e, a segunda, em 1615. Ambas as publicações se deram no reinado de Felipe III, que se inicia nos dois últimos anos do século XVI e atravessa as primeiras décadas do XVII. Desde então, esses dois Quixotes se converteram em obra de deleite, admiração, comentário, crítica, versões, adaptações, traduções, discussões e, sobretudo, muita reflexão. Assim sendo, não é por acaso que “el Quijote es el libro más traducido a otros idiomas después de la Biblia” (MONTERO REGUERA, 1997, p.11). Fato este que possibilitou com que o Quixote se tornasse uma das obras mais importantes e mais conhecidas da literatura ocidental, contribuindo para a disseminação em outras fontes literárias de diferentes culturas e contextos históricos.

Além de o Quixote servir de fonte inspiradora para muitos artistas e escritores, também surgiram, no decorrer dos anos, diversos estudos críticos, sob diferentes perspectivas, a fim de revelar os mais variados tipos de interpretação relativos à obra de Cervantes. É justamente por meio desses estudos que se pode tomar conhecimento da visão que cada período histórico, literário e cultural cultivou a respeito do Quixote.

Para compreender de que forma se apresentam essas diferentes maneiras de ler e, ao mesmo tempo, entender o Quixote, pode-se recorrer ao artigo do pesquisador Anthony Close intitulado “La crítica del Quijote desde 1925 hasta ahora”, no que diz respeito às diferentes linhas interpretativas que circundam os tipos de leituras realizadas sobre a obra cervantina. No referido texto, o crítico britânico procurar organizar essas tendências críticas basicamente em duas grandes linhas estruturais, a saber:

[...] el acomodaticio, que busca acomodar el sentido de la novela a la mentalidad del lector contemporáneo, y el anti-acomodaticio, preocupado sobre todo por el rigor metodológico y la intencionalidad histórica del texto (CLOSE, 1995, p.311).

Na linha do acomodaticio, encontram-se alguns leitores e/ou estudiosos que tendem a alojar o Quixote em seu contexto histórico e social. Nesse segmento, a leitura da obra encaminha-se mais à livre interpretação do leitor, tendo como base de apoio as características de seu próprio universo, distanciando-se muito das referências históricas da obra, como por exemplo os pressupostos de composição que fazem parte de seu contexto literário. Conforme bem enfatizado por Close, essa forma de se aproximar de uma obra clássica é bastante recorrente no leitor contemporâneo que, por uma tradição originada em pleno florescimento do Romantismo Alemão, segue os mesmos parâmetros de leitura utilizados para as obras modernas, bloqueando-o, de algum modo, a forma de apreciar, como diz o pesquisador em letras seiscentistas João Adolfo Hansen (2001, pp.16-17), “as agudezas retóricas do conceito engenhoso do século XVII”. Nesse sentido, cabe mencionar que a leitura de um clássico pode se tornar anacrônica, tendo em vista que a “poesia é sempre histórica, mas o discurso da poesia não é o discurso da história”. Dessa forma, uma obra clássica, lida com os olhares dos românticos, poderá resultar em interpretações distantes dos sentidos produzidos no momento em que foi concebida, considerando, a partir das observações de José Montero Reguera, que o:

Quijote empieza a leerse no exclusivamente como un libro divertido que causaba la risa y la carcajada de los lectores, sino como un libro serio, en el que se podia encontrar sábios consejos para conducirse en la vida; más aún, en las acciones de don Quijote y Sancho podía encontrarse un modelo de comportamiento humano: se inauguraba así la interpretación simbólica y filosófica de la obra cervantina que presentaba, por ejemplo, a un don Quijote convertido en héroe romántico que desea resucitar un mundo ideal en el que se ha sumergido y que quiere vivirlo dentro de sí. (MONTERO REGUERA, 2001, p.196)  

De fato, o Quixote é alvo, ao longo dos anos, de interpretações diversas que têm como origem o contexto no qual cada leitor está inserido. Na época de Cervantes, a leitura que sobressaía era a do tipo anedótico, assim como a valorização da sutileza da narrativa. Com o passar do tempo, o caráter cômico e as técnicas de composição “cederam” lugar ao sentido trágico, passando este a ser o fator dominante de muitas leituras e interpretações, difundindo-se pelas várias culturas do mundo. Para melhor compreensão desse fato, é importante ter em conta que essas mudanças estão diretamente vinculadas com as inquietações humanas de uma determinada época, em especial do século XIX até meados do XX. Inquietações estas que fizeram com que a obra de Cervantes ganhasse novos horizontes, como por exemplo o predomínio de uma leitura mais filosófica e simbólica do Quixote. Isso acabou favorecendo a criação de um mito em torno do Cavaleiro da Triste Figura, representando, em alguns casos, um modelo exemplar. Nesse sentido, José Montero Reguera (2001, p.196) corrobora com a ideia de que é justamente a partir do século XIX que se vê uma mudança na maneira de ler a obra de Cervantes, distanciando-se muito da forma como foi lida na ocasião da publicação, isto é, entre os anos de 1605 e 1615. Por conseguinte, essa transformação propiciou que outras interpretações se sobressaíssem em relação aos efeitos provocados nos leitores contemporâneos a Cervantes, dando margem para a construção de várias outras significações.

Significações estas que dariam margem para muitos voos, no imaginário de vários povos, relativos a Dom Quixote e Sancho Pança. Diferentemente dos estudos que tendem a amoldar o Quixote dentro de seu contexto histórico, há outros que se encaminham, segundo Anthony Close, à linha do     anti-acomodaticio, procurando na obra de Cervantes elementos da época na qual a obra foi escrita, a fim de compreender melhor os aspectos literários que compõem o romance. Dessa forma, por meio desses estudos, é possível (re)conhecer o diálogo de Cervantes com a literatura de seu tempo, tendo em conta as preceptivas retórica e poética vigentes e, como não poderia ser de outra maneira, o ambiente cultural seiscentista. Seguindo os princípios metodológicos da tendência do anti-acomodaticio, é possível reconstruir a perspectiva desempenhada pelo Quixote dentro de seu âmbito cultural, de modo a projetar os efeitos de sentido que essa obra terá produzido nos leitores contemporâneos ao manco de Lepanto. Um deles está subentendido no prólogo do Quixote de 1605, no momento em que Cervantes revela ao seu leitor uma das proposições de sua obra, por meio da seguinte reflexão:

Procurad también que, leyendo vuestra historia, el melancólico se mueva a risa, el risueño la acreciente, el simple no se enfade, el discreto se admire de la invención, el grave no la desprecie, ni el prudente deje de alabarla. (DQ I, Prólogo, p.14).

Por intermédio desse fragmento, é possível depreender que um dos objetivos de Cervantes era o de que seu leitor pudesse ser contagiado pelo aspecto cômico e burlesco da narrativa, tendo como norte as peripécias de Dom Quixote e Sancho Pança. Outro propósito era o de mostrar ao seu público, principalmente aos mais letrados, os artifícios de composição vigentes nos séculos XVI e XVII.

Tendo em conta as reflexões de Anthony Close, percebe-se que os estudos críticos ora tendem para um caminho, ora para outro. Dessa forma, dependendo da perspectiva adotada, a dificuldade em compreender o Quixote pode ser maior ou menor. Em outras palavras, a leitura poderá ser mais complexa, quanto mais próxima estiver do contexto literário de Cervantes.

Sobre tal complexidade, pode-se recorrer ao comentário do crítico hispânico Jean Canavaggio, quando o mesmo conclui que:

Nosso olhar não é o dos leitores cultos do século XVII, que riam das extravagâncias de D. Quixote [...] e se hoje continuamos a admirar esses relatos, dificilmente nossa predileção recairá sobre os mais apreciados naquela época (CANAVAGGIO, 2005, p.17).

Com efeito, nosso olhar não é o mesmo dos leitores do século XVII, pois a leitura que é realizada a partir do Romantismo distancia-se muito da de um leitor do famoso “século de ouro” espanhol, que tinha outra percepção literária, cultural, social e histórica. Isso levando em consideração que o homem do século XVII possuía outras referências para interpretar o Quixote. Referências estas que, na maioria das vezes, não fazem parte do repertório do homem do século XX, como, a título de exemplo, as próprias novelas de cavalaria e, por sua vez, a paródia desses livros. É por meio da referência a esse universo literário que se pode realizar uma leitura de caráter histórico da obra de Cervantes. Seguindo essa perspectiva, observa-se que uma das dificuldades em entender o Quixote encontra-se justamente no reconhecimento de aspectos específicos da obra e, por esse e por outros motivos, o leitor pós-romântico acaba adaptando, na maioria das vezes inconscientemente, a leitura do Quixote a seu tempo, a partir de suas experiências de leitura e, como não poderia ser diferente, de seus conhecimentos literários. Essa “adaptação”, realizada pelo leitor só é possível quando se tem em conta que o Quixote é uma daquelas obras que possuem vários sentidos, muitos deles baseados em interpretações feitas ao longo dos anos, permitindo assim novas criações de sentido, sobretudo, como dito anteriormente, a partir do século XIX.

Esses novos sentidos do Quixote podem ser vistos, por exemplo, em fins do século XIX e início do século XX, especialmente em torno ao ano de 1905, que foi dedicado às comemorações do terceiro centenário da publicação da primeira parte das andanças do Cavaleiro da Triste Figura. Por conta do burburinho provocado pelos trezentos anos da divulgação da primeira parte, observa-se que muitos romancistas e pensadores espanhóis – grande parte deles pertencente ao grupo de escritores da época da Generación de 98 – se dedicaram a escrever textos interpretativos – de caráter filosófico, político e literário – em homenagem ao cavaleiro manchego e, alguns, ao próprio Manco de Lepanto.

De acordo com Anthony Close (2005, p.172), esses mesmos intelectuais da Generación de 98 compartilham, nessa época, de certas afinidades artísticas, intelectuais e, inclusive, de alguns anseios emocionais, os quais são frutos de um desejo de caráter patriótico, que surgem com o propósito de apresentar possíveis soluções para o problema da Espanha. Problema este que se relaciona com as questões inerentes à decadência espanhola, fruto de uma derrota contra os Estados Unidos e da perda de Cuba, que era a última colônia espanhola em terras americanas. Devido às dificuldades enfrentadas pela Espanha, os noventayochistas se dedicaram a desenvolver diversos projetos de viés político e social, muitos deles encontrando no Quixote uma espécie de guia que definia esse conjunto de intelectuais, considerando que, para a Generación de 98, a personagem Dom Quixote “era el ejemplo más claro de la personalidad española en su historia” (CLOSE, 2005, p.173), servindo de fonte de inspiração para muitos escritores em suas composições artísticas.

Dentre os escritores que (re)visitaram o Quixote, no final do século XIX e início do XX, destaca-se Miguel de Unamuno (1864-1936), através de seu trabalho intitulado Vida de Don Quijote y Sancho (1905). Por meio dessa obra, Unamuno apresenta ao leitor uma leitura do Quixote de Cervantes, totalmente estruturada a partir de parâmetros estabelecidos pelos românticos. Por essa razão, observa-se que predomina uma interpretação, diga-se de passagem, muito particular e, ao mesmo tempo, filosófica da obra de Cervantes. Interpretação esta que tem como pressuposto a ideia de que “hoy ya es el Quijote de todos y de cada uno de sus lectores, y que puede y debe cada cual darle una interpretación, [...] como las que la Biblia suele darse” (UNAMUNO, 1992, pp.133-134). É por meio dessa prática que Unamuno reescreve à sua maneira as andanças do Cavaleiro da Triste Figura e de seu fiel escudeiro pelas terras espanholas, a fim de adaptá-la ao seu contexto histórico e, ao mesmo tempo, com o intuito de tornar a obra de Miguel de Cervantes mais “acessível” aos leitores de sua época.

Para isso, o pensador espanhol exclui diversas passagens da obra original – principalmente as histórias interpoladas, pois, para o filósofo, elas “desviam” o olhar dos feitos de Dom Quixote – e, ao mesmo tempo, acrescenta novos elementos à narrativa cervantina.

Devido a esse tipo de manipulação, pode-se dizer que, tendo como base o argumento de José Montero Reguera (2001, p.200) – por intermédio do seu artigo “La crítica sobre el Quijote en la primera mitad del siglo XX” –, Miguel de Unamuno insere-se na linha dos críticos que são “más quijotistas que cervantistas”, em virtude da apropriação que fazem da personagem Dom Quijote, sem levar em consideração os méritos de Cervantes, como escritor de ficção das belas letras hispânicas dos séculos XVII e XVII. O próprio Unamuno (1992, p.134) tinha consciência dessa tendência, uma vez que sua ideia era a de “libertar al Quijotedel mismo Cervantes”. A mesma opinião apresentada no prólogo da obra Vida de Don Quijote e Sancho é confirmada no artigo intitulado “Sobre la lectura e interpretación del ‘Quijote’” (1905), no qual o escritor diz que:

Desde que el Quijote apareció impreso y a la disposición de quien lo tomara en mano y lo leyese, el Quijote no es de Cervantes, sino de todos los que lo lean y lo sientan. Cervantes sacó a Don Quijote del alma de su pueblo y del alma de la humanidad toda, y en su inmortal libro se lo devolvió a su pueblo y a toda la humanidad. Y desde entonces Don Quijote y Sancho han seguido viviendo en las almas de los lectores del libro de Cervantes y aun en la de aquellos que nunca lo han leído (UNAMUNO, 1958, p.1228).

Tal apropriação leva o pensador espanhol a tratar o cavaleiro manchego como se este tivesse vida própria, pois para ele “Don Quijote existió real y verdaderamente e hizo todo lo que de él nos cuenta Cervantes [...]” (UNAMUNO, 1958, p.1228). Isso fica claro no momento em que Unamuno lança um sinal de desaprovação aos críticos que estavam somente preocupados em realizar um estudo histórico, ou seja, um estudo dirigido apenas para o desvendamento das intenções de Cervantes, deixando à margem o papel que desempenharia o cavaleiro de La Mancha para o povo espanhol. Para imputar tal crítica, Unamuno faz a seguinte indagação: “¿qué tiene que ver los que Cervantes quisiera decir en su Quijote, si es que quiso decir algo, con lo que a los demás se nos ocurra ver en él?” (UNAMUNO, 1958, p.1228). Nesse sentido, fica evidente que, para o filósofo, não é nada enriquecedor pensar no criador, apenas na criatura e no valor que esta pode proporcionar à cultura de seu povo, ou melhor, à cultura universal. Tanto é verdade que ele deixa transparecer que a obra de Cervantes “es un libro traductible; perfectamente tractible, y de que su fuerza y poesia toda queda en él, viértase al idioma que se le vierta” (UNAMUNO, 1958, p.1232).

Além da releitura do Quixote de Cervantes, Unamuno, em sua Vida de Don Quijote y Sancho, apresenta a seu público um pensamento de cunho político, pois, inspirado em Dom Quixote, utiliza a personagem como “arma intelectual” para a solução dos problemas de sua pátria. Aqui se faz necessário esclarecer que, nesse momento histórico, a Espanha encontrava-se em profunda crise política, econômica e social, devido aos reflexos causados pelas guerras coloniais. Com o fim desses combates, nota-se que muitos intelectuais ficam desiludidos com a crise vivida no país. Sendo assim, é dentro desse contexto que se busca criar novos sentidos de caráter nacionalista, de modo a formar uma nova identidade para a Espanha.

Dessa forma, para Miguel de Unamuno (1992, p.142), recuperar a personagem cervantina, ou melhor, “rescatar el sepulcro del Caballero de la Locura del poder de los hidalgos de la Razón”, seria como recobrar as glórias e as conquistas do povo espanhol nos séculos XVI e XVII. Fato este que possibilitou a criação e a difusão do mito quixotesco, servindo de base para leituras posteriores. Seguindo esse caminho, Unamuno, por meio de seu romance Vida de Don Quijote y Sancho (1905), ajudou a replicar a visão romântica acerca da obra de Cervantes, favorecendo a difusão desse viés interpretativo para muito além das fronteiras espanholas.

Outro escritor que contribuiu para a “fabricação” de novos significados para o Quixote foi o jornalista e romancista Azorín (1873-1967), cujo nome verdadeiro era José Augusto Trinidad Martínez Ruiz. Sua importância, para o grupo de intelectuais da Generación de 98, se deve aos vários trabalhos dedicados a Cervantes e à sua personagem Dom Quixote, contribuindo dessa maneira para a propagação do pensamento militante daquele período. Dentre as diversas produções de Azorín – seja no nível literário, cultural e/ou intelectual –, sobressai a obra La ruta de Don Quijote (1905). Por meio desse trabalho literário, o romancista se aventura a refazer ficticiamente os caminhos percorridos pelo cavaleiro manchego, na região de La Mancha. É através desse percurso que o autor cria uma ficção carregada de imagens depreendidas do Quixote de Cervantes. Imagens que, de acordo com Anthony Close (2005, p.198) em seu estudo La concepción romántica del Quijote, “tienden a desdibujar la frontera entre la ficción y la realidad, entre el entonces y el ahora”, tendo em vista que elas são reinventadas à sua maneira em sua narrativa. Não se trata exatamente de uma reescritura – como fizera Miguel de Unamuno em sua Vida de Don Quijote e Sancho (1905) –, mas sim de uma recriação imagética de muitos cenários presentes no Quixote de Cervantes. Em outras palavras, trata-se de muitas descrições de caráter impressionista da paisagem manchega, tendo como referência os caminhos trilhados por Dom Quixote e Sancho Pança. Grande parte dessas descrições é feita por meio de uma linguagem poética, como por exemplo na descrição feita na seguinte passagem:

En el fondo, allá en la línea remota del horizonte, aparecia una pincelada larga, azul, de un azul claro, tenue, suave; aquí y allá, refulgiendo al sol, destacaban las paredes blancas, nítidas, de las casas diseminadas en la campiña; el camino, estrecho, amarillento, se perdía ante nosotros, y de una banda y de otra, a derecha e izquierda, partían centenares y centenares de surcos, rectos, interminables, simétricos. (AZORÍN, 1995, pp.63-64)

Nota-se que Azorín descreve La Mancha a partir de uma visão lírica e, ao mesmo tempo, sob um ar melancólico. Esse tipo de narração é próprio do universo romântico, que tinha, como um forte ideal, a recuperação da natureza em sua forma mais plena. É nesse ambiente que as terras manchegas são recriadas. É justamente aqui que Azorín faz uma longa reflexão sobre a importância de Dom Quixote em sua caminhada intelectual, pois, para o escritor, a personagem de Cervantes funciona como fonte de inspiração, capaz de superar os diferentes obstáculos encontrados no decorrer desse percurso. Isso fica evidente na seguinte indagação:

¿Nuestra vida no es como la del buen caballero errante que nació en uno de estos pueblos manchegos? Tal vez, sí, nuestro vivir, como el de don Alonso Quijano el Bueno, es un combate inacabable, sin premio, por ideales que no veremos realizados... Yo amo esa gran figura dolorosa que es nuestro símbolo y nuestro espejo. Yo voy – con mi maleta de cartón y mi capa – a recorrer brevemente los lugares que él recorriera. (AZORÍN, 2004)

Por meio desse texto é possível afirmar que Azorín converte Dom Quixote em exemplo a ser seguido pelos seus, colaborando desse modo para a criação do mito quixotesco, devido ao valor simbólico e filosófico atribuído à personagem de Cervantes.

Da mesma geração que Miguel de Unamuno e Azorín, destaca-se também Santiago Ramón y Cajal (1852-1934), por meio de seu discurso intitulado “Psicología de Don Quijote y el Quijotismo”. O referido elóquio foi apresentado em uma sessão comemorativa do terceiro centenário da publicação do Quixote de Cervantes, em 1905, mais precisamente no Colegio Médico de San Carlos, na cidade de Madrid. Esse texto é de fundamental importância para que se possa ter em conta o tipo de interpretação que se fazia do Quixote no início do século XX, quando se tem em mente que se trata de um texto histórico e datado.

Ramón y Cajal – da mesma forma como fizeram seus contemporâneos – ressalta a ideia de uma universalidade para a personagem Dom Quixote, sobretudo no que diz respeito a seu caráter moral, servindo de exemplo à formação do indivíduo. Por essa razão, ele considera o fidalgo manchego como o representante do mais “perfecto símbolo del honor y del altruísmo” (RAMÓN Y CAJAL, 1947, p.1279), contribuindo para que o Cavaleiro da Triste Figura se convertesse em figura exemplar. A partir dessas observações, nota-se que o entendimento de Ramón y Cajal pela obra de Cervantes se dá por meio da subjetividade e da espontaneidade. Isso fica evidente quando o mesmo se propõe a realizar uma análise psicológica da personagem de Dom Quixote. Essa análise tem como orientação as concepções médicas do século XIX e XX, distanciando-se muito dos princípios de composição utilizados nos séculos XVI e XVII. Princípios estes que eram difundidos por meio de tratados de poética e de retóricas e também por meio das próprias obras literárias.

É por meio de critérios próprios da psicologia moderna que Ramón y Cajal põe em evidência a representação de um Dom Quixote com características inerentes do pensamento contemporâneo. Dentre elas, destaca-se a imagem de um Dom Quixote ansioso, considerando que, para o estudioso, a personagem acaba se entregando “ansiosamente” à leitura das novelas de cavalaria. Essas leituras são vistas pelo médico como uma perturbação do juízo, pois para ele o Cavaleiro da Triste Figura apresenta certa exaltação intelectual e afetiva. Por conta dessa “exaltação” é que o velho manchego se atira em suas aventuras, a fim de resgatar as honras humanas. Esse ato de entregar-se aos ideais cavaleiresco está intimamente relacionado, segundo Ramón y Cajal (1947, p.1279), com a fé de Dom Quixote. Uma fé que emana “de los grandes conquistadores de almas y de tierras”.

Além do estudo interpretativo da personagem de Dom Quixote, Ramón y Cajal também se dedica a analisar, pelo viés da psicologia, o perfil do escritor Miguel de Cervantes, traçando, a seu modo, um breve panorama biográfico, a saber:

Nació y se crió Cervantes con altas y nobilísimas ambiciones. Héroe en Lepanto, soñó con la gloria de los grandes caudillos; escritor sentimental y amatorio, ansió ceñir la corona del poeta; íntegro y diligente funcionário, aspiró acaso a la prosperidad económica [...] !ay!, el Destino implacable trocó sus ilusiones en desengaños, y al doblar de la cumbre de la vida se vió olvidado, solitario, pobre, cautivo y deshonrado... (RAMÓN Y CAJAL, p.1947, p.1279)

Por meio dessas poucas linhas, observa-se que Ramón y Cajal faz uma espécie de (re)criação de alguns traços da biografia de Miguel de Cervantes. Uma biografia de certa forma fantasiosa e fictícia, pois, de acordo com os estudos cervantinos, não se sabe ao certo como fora a vida de Cervantes, tendo em conta que não são abundantes os documentos de que se dispõe. Mesmo assim, para o médico espanhol, Cervantes não deixa de representar – assim como Dom Quixote – um grande herói. Um herói que enfrentou bravamente a guerra de Lepanto, além de muitos outros obstáculos, como por exemplo a ocasião em que Cervantes foi encarcerado na Cárcel Real de Sevilla, no ano de 1597, por conta de dívidas financeiras. Nesse sentido, Ramón y Cajal justifica que todas essas “possíveis” dificuldades encaradas por Cervantes são nada mais que as forças do destino. Não de um destino qualquer, mas sim de um “Destino”, com letra maiúscula, que não deixa as ilusões voarem, já que apenas traz seus desenganos.

É justamente devido a essa “dificuldade” atribuída à vida de Cervantes que o pensador espanhol demonstra grande admiração pelo Manco de Lepanto, chegando à conclusão de que há um “parentesco espiritual” entre criador e criatura, isto é, entre Cervantes e Dom Quixote.

Essa afirmação tem como pressuposto a visão pessoal de Ramón y Cajal (1928, p.1285), de que não “salen de la pluma tan perfectos y vivos los retratos humanos, si el pintor no se miró muchas veces al espejo y enfocó los escondrijos de la propia conciencia”. Tal percepção está intimamente relacionada com a ideia de gênio, oriunda da filosofia de Immanuel Kant, que parte do princípio de que a obra nasce da inspiração sublime do poeta. Esse tipo de pensamento se evidencia quando Ramón y Cajal diz que:

Cuando un genio literário acierta a forjar una personificación vigorasa, universal, rebosante de vida y de grandeza; y generadora, en la esfera social, de grandes corrientes de pensamiento, la figura del personaje fantástico se agiganta, transciende de los limites de la fábula, invade la vida real y marca con sello especial e indeleble a todas las gentes de la raza o nacionalidad a que la estupenda criatura espiritual pertenece. (RAMÓN Y CAJAL, 1947, p.1287)

De fato, para Ramón y Cajal, Cervantes pode ser considerado um gênio, já que, por meio de sua originalidade, seria possível afirmar, nos termos kantianos, que constrói uma personagem que acabou servindo como modelo “claro” dos valores humano, tornando-a uma figura exemplar. Nesse ponto é importante elucidar que essa ideia de gênio não fazia parte, ou melhor, não existia no século XVII, portanto, trata-se de um atributo moderno.

De acordo com Anthony Close (2005, p.173) – em seu estudo La concepción romántica del Quijote –, Ramón y Cajal, da mesma forma como fizeram seus contemporâneos, propõe um tipo de discurso baseado em algumas “reflexiones sobre el sentido profundo de la historia cultural de España e intentos de establecer una comunicación poética con este”. Reflexões estas que, apoiadas na ideia do quijotismo, se direcionam aos vários campos da sua sociedade, a saber:

El quijotismo de buena ley [...] tiene, pues, en España ancho campo en que ejercitarse. Rescatar las almas encantadas en la tenebrosa cueva del error; explorar y explotar, con altas miras racionales, las inagotables riquezas del suelo y del subsuelo; descuajar y convertir en ameno y productivo jardín la impenetrable selva de la Naturaleza, donde se ocultan amenazadores los agentes vivos de la enfermedad y de la muerte; modelar y corregir, con el burril de intensa cultura, nuestro propio cérebro, para que en todas las esferas de la humana actividad rinda copiosa mies de ideas nuevas y de invenciones provechosas al aumento y prosperidad de la vida... he aqui las estupendas y gloriosas aventuras reservadas a nuestros quijotes del porverir (RAMÓN Y CAJAL, 1947, p.1295).

É por meio desse quijotismo que a Espanha teria condições, segundo a visão de Ramón y Cajal, de libertar-se de um tempo obscuro, que tem afetado muito o desenvolvimento social, econômico e intelectual. Por essa razão, para o estudioso, seguir os ideais quixotescos seria uma possível solução para alcançar as “gloriosas aventuras” de sua pátria. Sendo assim, pode-se dizer que é bem certo que esse quijotismo tenha servido de inspiração para muitos outros pensadores espanhóis e de outros lugares do mundo na abordagem da obra de Cervantes.

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Fonte:
Ana Aparecida Teixeira da Cruz: “Dimensões da loucura nas obras de Miguel de Cervantes e Lima Barreto:  Don Quijote de la Mancha e Triste fim de Policarpo Quaresma”. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-Americana do Departamento de Letras Modernas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para a obtenção do título de Mestre em Letras. Orientadora: Prof. Dra. Maria Augusta da Costa Vieira). São Paulo, 2009.

Notas

A imagem inserida no texto não se inclui na referida obra. As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da obra em sua totalidade. Disponível em: www.teses.usp.br

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