15/07/14

A Caveira da Mártir, de Camilo Castelo Branco

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Sujeitos nada românticos: os heróis camilianos para além dos “amores contrariados”.

“As heroínas que se admiram e aplaudem no romance
e no drama, seriam assobiadas se tal gênero de
pensar e viver se encarnasse em sinceras heroínas na
vida real”
CASTELO BRANCO, Os brilhantes do brasileiro.

O núcleo passional da narrativa é formado, como já apontado, pela história de amor entre Ângela e Francisco. Para que possamos esclarecer o porquê das “muitas aspas” que atribuí a este núcleo ao classificá-lo como passional no início da análise, faz-se necessário esclarecer o que exatamente a crítica atribui aos protagonistas que integram as chamadas novelas passionais.

Ao definir o romance Os brilhantes do brasileiro como uma “novela passional” e considerando os pressupostos que, como vimos, esta classificação implica, grande parte da tradição crítica estende aos chamados heróis camilianos uma simplificada e previsível caracterização. Para Saraiva e Lopes, por exemplo, Camilo abusa da “fórmula ‘mártires do amor’” (1984, p.784), criando um contexto no qual “os amantes patéticos são mártires, senão mesmo cristos” e onde há “rituais expiatórios de um pecado original, que se diria ter provocado a absoluta incomensurabilidade entre o amor [...] e as circunstâncias de realização da vida individual” (1984, p.790, grifo do autor).

Já para Massaud Moisés, os personagens da produção camiliana considerada passional podem ser resumidos como “criaturas impulsionadas por uma espécie de fatalismo do sentimento, se entregam ao amor que é paixão e não desejo de elevar-se pela contemplação do outro – guiadas por instintos, por imperiosas necessidades físicas” (1967, p.89).

Mais uma vez nos seria possível citar um número incansável de críticos e estudos que recaem sobre esse conceito. Entretanto, esta amostragem me parece já suficiente para refletirmos sobre a construção dos protagonistas.

Construída paralelamente ao núcleo humorístico da narrativa, encontramos a história de Francisco e Ângela. Quando essa história chega aos olhos do leitor, este já foi devidamente apresentado à sociedade que cerca o romance, uma sociedade materialista e hipócrita regida, principalmente, pelo dinheiro. Não isento deste contexto social está o desenrolar dessa história de amor.

Ângela, filha não publicamente reconhecida do general Simão de Noronha com sua prima Maria d’Antas, segundo o narrador, “já suposta herdeira do general Noronha, era amada em dobro: formosa e rica” (BB, p.922). A despeito de sua posição social, entretanto, a fidalga apaixona-se por Francisco José da Costa, irmão da costureira Joana. Este, por sua vez, aspirante a estudante de medicina, muito embora também apaixonado por Ângela, mostra um conhecimento social suficiente para saber da impossibilidade deste amor.

Ao descobrir que suas cartas haviam sido confiscadas por D. Beatriz, tia de sua amada, Francisco aceita sair da cidade para evitar transtornos maiores. Já Ângela, encarnando uma espécie de heroína idealizada, “asseverava que tudo estava perdido para ela, e que só lhe restava reduzir-se à extrema pobreza e desvalimento do pai, a ver se assim o homem pobre e plebeu a queria para esposa” (BB, p.932).

Essa idealização – que nos lembra em muito a tal “fórmula mártires do amor” e que nos remete também ao jogo operado pelo narrador com relação às expectativas de leitura – é, todavia, destruída pelo narrador que afirma: “as heroínas que se admiram e aplaudem no romance e no drama, seriam assobiadas se tal gênero de pensar e viver se encarnasse em sinceras heroínas na vida real” (BB, p.932).

Aqui há, assim como apontei na análise do núcleo humorístico da narrativa, uma divergência entre aquilo que o narrador considera como ficção – e o que, conseqüentemente seu leitor esperaria de sua narrativa – e aquilo que, de fato, ocorre na vida real, agravada pelo retrato de uma sociedade na qual não há espaço para sentimentos nobres. Sendo assim, ao contrário do que tipicamente aconteceria na chamada novela passional, Francisco parte para outra cidade e Ângela, após uma tentativa de fuga frustrada, entra em um convento.

A partir do momento em que recebe a notícia da morte de José Maria, cunhado de Francisco, Ângela sente-se culpada ao acreditar que a vingança de sua tia Beatriz foi o que o matou. Nesse momento, em conversa com sua ama, Ângela afirma: “Isto já não é amor, Vitorina; é dever”. (BB, p.949). E será este dever, apenas passível de ser pago através do dinheiro, o propulsor de todo o desenrolar da história que, neste momento, parece não mais ser de amor.

A centralização no dinheiro em detrimento do sentimento amoroso dos protagonistas já aparece sugerida no décimo quarto capítulo do romance, intitulado “Via dolorosa”. Ao contrário do que se deveria esperar de uma história passional, esta dor apontada no título do capítulo não está ligada ao amor dos dois protagonistas, mas sim à situação financeira de cada um deles. Passados dois anos do desencontro entre Francisco e Ângela, segundo o narrador, “alteração notável no viver de Francisco José da Costa não há nenhuma. É ainda amanuense de tabelião” (BB, p.950). Já “o viver de Ângela é mais angustiado. Vitorina já vendeu tudo que valia dinheiro” (BB, p.950). Ora, a dor anunciada no início do capítulo está esclarecida: a falta de dinheiro. Ângela inicia então uma tentativa incessante de reconciliação com o pai, tentativa esta que se mostra longe de ser arrependimento ou amor filial. Mais uma vez, o narrador joga com as expectativas de leitura quando afirma:


Em verdade, o desapego era recíproco. A ficção poderia espremer lágrimas dos olhos de Ângela aos pés do pai, que lhas desprezaria; se, todavia, ele pudesse sobreposse acariciá-la, os júbilos do perdão escassamente agitariam o coração da filha. Seriam, bem ensaiados, filha e pai de comédia, quando os artistas se compenetrem dos seus papéis. Um pensamento, nem esquisito, nem repreensível, avassalava o animo de Ângela: cogitava em ser rica para enriquecer Francisco da Costa e irmã. O amor já entrava quase esvaído neste cálculo. (BB, p.952, grifo nosso).

Aqui, a voz narrativa claramente ironiza as expectativas de leitura dos romances em voga naquela época. Distanciando sua narrativa do que chama de ficção, o narrador constrói um contexto no qual não é o amor que rege as relações interpessoais, mas sim o interesse pelo dinheiro. Não é por amor, mas sim por interesse que Ângela buscará se reconciliar com seu pai.

Notem a utilização do tempo verbal: o uso da condicional permite claramente definir as diferenças entre aquilo que o narrador chama de ficção e a história que nos conta. Mais uma vez, a voz narrativa camiliana se serve dos já tão conhecidos expedientes românticos como forma de distanciar sua produção da ficção comum. É interessante aqui ainda destacar que esta mesma voz narrativa não parece repreender as atitudes de Ângela, pois inserida neste contexto social (lembrem-se, o mesmo contexto já retratado na primeira parte do romance) a protagonista apenas reforça a supremacia do dinheiro.

Curiosamente, alguns meses depois da frustrada tentativa de reconciliação com o pai, Ângela aceita se casar com Hermenegildo, o brasileiro rico. Parece-me claro que a protagonista não tenha simplesmente esquecido a empreitada de enriquecer Francisco e a irmã. Seja oportunismo, estratégia, ou simples coincidência, definitivamente não é o amor que está em jogo nessa atitude da personagem.

Temos até aqui, ao contrário do previsto por toda a tradição crítica, um casal de protagonistas que, inserido em uma sociedade materialista e hipócrita, não possui outra saída que não o enquadramento social. Assim, Francisco, por conhecer a impossibilidade de seu amor perante a sociedade, embora apaixonado por Ângela, sai da cidade de Viana sem maiores padecimentos. O sofrimento ou dor que é, mais tarde, atribuído ao personagem está no fato de que este não possui dinheiro suficiente para prosseguir em seus estudos ou ainda ajudar a irmã Joana. Ângela, por sua vez, também parece se enquadrar nesta sociedade casando-se com um brasileiro rico como solução para sua vida sem recursos.

Esta história que, segundo o narrador, tanto se distancia da ficção, poderia muito bem acabar por aqui. Mas o acaso, a providência ou a necessidade do autor em atender às demandas do Mercado Editorial e de seu público leitor fará com que o casal volte a se encontrar.

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Fonte:
Juliana Yokoo Garcia
: “Amores contrariados, puros e abnegados?”.(Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em  Literatura  Portuguesa do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo para obtenção do título de Mestre em Letras. Orientador: Professor Doutor Paulo Fernando da Motta de Oliveira). São Paulo, 2008.
Notas
A imagem inserida no texto não se inclui na referida obra. As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da obra em sua totalidade. Disponível em:  www.teses.usp.br

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