17/06/14

Auto de São Lourenço, de José de Anchieta

 Auto de São Lourenço, de José de Anchieta PDF
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Estrangeirização e domesticação na obra de Anchieta

Lawrence Venuti em seu trabalho The Translator´s Invisibility toma como ponto de partida para sua análise evidências da ocorrência de traduções estrangeirizadoras e domesticadoras na história e em estudos teóricos da tradução do Ocidente. Ele afirma que a estratégia de se domesticar uma tradução tem ocorrido pelo menos desde o Império Romano e a tradução por vezes tem se configurado como ferramenta de conquista. Como exemplo, cita que os tradutores romanos de obras gregas não apenas excluíam os marcadores culturais como também acrescentavam alusões à cultura romana, substituindo os nomes dos poetas gregos por nomes de poetas romanos, com a finalidade de dar a impressão que os textos haviam sido originalmente escritos em latim.

Fazendo um paralelo com textos traduzidos para o inglês na sociedade anglo-americana contemporânea, Venuti conclui que o método “domesticador” – o qual, na análise de Nida, pode corresponder à equivalência dinâmica - é uma redução etnocêntrica do texto estrangeiro na língua, cultura e valores de chegada e implica em uma tradução fluente. Tal tradução faz com que o texto seja reconhecido e compreendido, tornando-se um texto familiar e domesticado, registrado na linguagem padrão da cultura receptora e não em um discurso variante.

Quanto à tradução “estrangeirizadora”, Venuti afirma que ela pode apresentar “uma estratégia discursiva que se desvia da hierarquia prevalecente do discurso dominante na cultura de chegada. A escolha do texto a ser traduzido pode até mesmo desafiar o cânone de determinada época da literatura estrangeira na cultura receptora”. Venuti exemplifica sua afirmação através de traduções de Pound, de Newman e de suas próprias.

Em suas palavras, a tradução por ele feita de poemas do italiano Milo De Angelis desafiou a estética dominante anglo-americana por reproduzir a descontinuidade e a indeterminação inerentes ao texto original. Lê-se em De Angelis:

“Esseri dispotici regalavano il centro
distrattamente, com una radiografia,
e in sogno padroni minacciosi
sibilanti:
‘se ti togliamo ciò che non è tuo
non ti rimane niente’.”

A tradução de Venuti devido a sua quase literalidade, torna o texto estranho à sintaxe e à estética dominante na poesia em língua inglesa:

Despotic beings made a gift of the center
absentmindedly, with an X-ray,
and in a dream threatening bosses
hissing:
‘if we take from you what isn’t yours
you’ll have nothing left’.” 

(Seres despóticos ofereciam o centro
distraidamente, com uma radiografia
e em sonho patrões ameaçadoramente sibilantes:
‘se lhe tirarem o que não é seu,
não lhe sobrará nada)
Anchieta incorre em solução semelhante à encontrada por Venuti, através dessa estrangeirização, na manutenção da literalidade na transcrição para o tupi. Como comentada anteriormente, a comparação entre o fluxo de discurso das obras de Anchieta e o da carta de Diogo Camarão pode nos revelar uma estrangeirização semelhante, sob a luz dos parâmetros propostos por Crofts (1974), que diferenciam a língua indígena e o português. Ao analisarmos as poesias anchietanas anteriormente, encontramos evidências de estrangeirização na redação do jesuíta, como também nota João Hansen:

“Metrificar o tupi com a redondilha menor medieval impõe uma acentuação, um ritmo e a forma de respiração européia que o aculturam. Rimar o tupi submete a língua do indígena a um sistema musical de equivalências relacionadas ao principio de similitude e, portanto, ao princípio metafísico de identidade, Deus.”

Apesar de não defender indiscriminadamente a valorização da cultura estrangeira ou o conceito metafísico de elementos estrangeiros como valores essenciais, Venuti considera que o texto estrangeiro deve ser privilegiado em uma tradução estrangeirizadora apenas se ele permitir a ruptura de códigos culturais da cultura de chegada, de forma que o valor da tradução estrangeirizadora é estratégica, conforme a formação cultural na qual ela estará inserida. A tradução estrangeirizadora engloba a aproximação do texto estrangeiro e o distanciamento dos valores dominantes da cultura de chegada.

A "escolha de um texto estrangeiro a ser traduzido pode ser tão ‘estrangeirizadora’ pelo seu impacto sobre a cultura de chegada quanto pela invenção de uma estratégia discursiva”.

A estrangeirização na tradução, segundo Venuti, pode assumir formas variadas, tais como:
a) alta fidelidade ao texto estrangeiro;
b) preservação de marcadores culturais estrangeiros;
c) a criação de variações dialetais na linguagem da cultura de chegada, tais como jargões, terminologia técnica, inovações estilísticas, neologismos e figuras literárias (metáforas).

Podemos encontrar na obra anchietana a ocorrência das três formas acima. Contudo, Anchieta também utiliza a estratégia domesticadora, em especial quando ele recorre à equivalência dinâmica de Nida.

Sob a ótica de Venuti, a tradução domesticadora é tradução transparente e fluente. Ela elimina a diferença lingüística e cultural do texto original em relação à cultura de chegada e freqüentemente é reescrita com outras representações sociais, crenças e valores da cultura receptora.

Em consonância com a hipótese de Venuti, o teatro de Anchieta - ancorado na estrutura, ideologia e temática do teatro vicentino - em algumas passagens aponta para uma tradução “transparente”, proporcionando a seu expectador uma leitura fluente através de personagens reconhecidos pelo público formado por índios e colonos. O Auto de São Lourenço tem entre seus protagonistas Guaixará, Aimbirê e Sarauaia, chefes indígenas inimigos dos tupiniquins. No início do segundo ato, Guaixará é recebido por uma velha índia com a tradicional saudação lacrimosa dos tupis. Entre os personagens conhecidos pela platéia, desfilam outros apenas conhecidos pelos europeus, tais como São Sebastião e São Lourenço.  

Anchieta oscila entre estrangeirismo e domesticação. Similar à ótica de Venuti, a dicotomia proposta por Schleiermacher, que dispõe em pólos opostos autor e leitor, prega que estrangeirizar é levar o leitor até o autor. Esse último fica intacto, enquanto o leitor fica sujeito aos códigos da língua do autor. Considerando que no caso da catequização dos tagalos, bem como na dos silvícolas do Brasil, temos a relação leitor–colonizado e autor–colonizador, a tradução estrangeirizadora faz com que o leitor–colonizado se mova em direção ao autor. Analisemos algumas ocorrências de traduções estrangeirizadoras e domesticadoras nos seguintes trechos do Auto de São Lourenço e      Na aldeia de Guaraparim:

“Kûeîsé kó a-por-apiti
aîuruîuba îukábo,
ûi-nhe-moerapûã-ngatû-abo
T’a-só nde pyr-y, kori,
Aîpó t-ubixaba gû-abo”

(Eis que ontem trucidei gente,
matando europeus,
tornando-me muito famoso.
Hei de ir junto de ti, hoje,
Para comer aqueles reis)
  
Na fala do demônio Kaburé, Anchieta recorre ao termo “aîuru-îuba” para designar - em uma tradução domesticada - “europeus”. Tal expressão em tupi, que literalmente significa “papagaios amarelos”, era utilizada depreciativamente por certos índios ao referirem-se a franceses e ingleses.  

No trecho do auto a aldeia de Guaraparim, Anchieta opta pela estrangeirização, através da manutenção do termo português ‘cristão’, em vez de grafar alguma expressão explanatória em tupi:

S-emo’ẽ, oiobaupa.
Xe r-erok-eté pa’i.
A-royrõ-mbá t-ekó-poxy,
Abaré nhe’eng-endupa.
Xe cristão, xe karaí.

(Eles mentem, um de cara para o outro.
Batizou-me, verdadeiramente, o padre.
Detesto completamente o pecado,
Ouvindo a palavra do padre.
Eu sou cristão, eu sou virtuso.)

Um pouco mais adiante, no mesmo auto, notamos seqüencialmente uma tradução omesticada e estrangeirizadora:

“Tupã-eté r-erobîara
îa-î-poraká xe ybyîa.
Diabo 1 - Abá-pe nde r-erok-ara?
Alma – Akó Ana gûaîbĩ rainha,
pa’i Tupã r-aûsup-ara.”
  
(A crença no Deus verdadeiro
encheu meu interior.
Diabo 1 – Quem foi tua madrinha?
Alma – Aquela velha Ana, rainha,
que ama o Senhor Deus.)

A expressão ‘r-erok-ara’ significa ‘a que tirou o nome’ (com alusão ao fato de substituí-lo por um outro nome cristão) e faz referência direta ao papel de uma ‘madrinha’. Contudo, ao fazer referência a Santana, Anchieta não tem a preocupação de encontrar um equivalente em tupi para o termo ‘rainha’.

No corpus objeto de nosso estudo, as representações sociais, crenças e valores da cultura de chegada são reorganizados com o intuito de introduzir a cosmologia européia na vida do indígena. O Anchieta tradutor manipula esses elementos em prol de sua missão e os mesclam com elementos inéditos e alienígenas ao seu público.

Além das considerações teóricas de Nida, Lefevere e Venuti, acreditamos que muito nos serve a matriz proposta por Maria Tymoczko para classificarmos a obra de Anchieta, conforme analisaremos na seção seguinte.  

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Fonte:
Paulo Edson Alves Filho
: “Tradução e sincretismo nas obras de José de Anchieta”. (Tese apresentada ao Departamento de Língua Inglesa e Literaturas Inglesa e Norte-Americana da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, com vistas à obtenção do título de Doutor.  Orientador: Prof. Dr. John Milton. Universidade de São Paulo). São Paulo, 2007.

Notas:

A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese. As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade. Disponível em: www.teses.usp.br

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