08/06/14

Livro de Sóror Saudade, de Florbela Espanca

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A presença de Florbela Espanca no Modernismo Português

Se o Modernismo representa um momento de ruptura, talvez tenha sido Florbela Espanca a escolhida para ter essa “alma nova” que as mulheres começavam a reivindicar. Florbela D’Alma da Conceição Espanca nasceu a 8 de dezembro de 1894, em Vila Viçosa (Alentejo). Foi, portanto, contemporânea de Fernando Pessoa cujo centenário ocorreu em 1988. Seus primeiros versos datam dos anos em que fez o curso sencundário em Évora, e que somente viriam a ser reunidos em volume depois de sua morte, com o titulo de Juvenilia (!931). Malogrado seu casamento, vai para Lisboa, a fim de estudar Direito e nesse mesmo ano (1919) publica Livro de Mágoas, que passa despercebido. Igual destino teve a obra seguinte Livro de Sóror Saudade, publicado em 1923. Novamente infeliz no casamento, retira-se do convívio social, embora continue a escrever poesia e a publicá-la ao acaso. Recolhe-se a Matosinhos, já agora estimulada pelas renovadas esperanças de felicidade conjugal, mas seus nervos entram a dar sinal de exaustão. Morre, talvez de suicídio, em 1930.

A poetisa viveu em um tempo muito conturbado em que ocorre a Primeira Guerra Mundial (1914). Antes disso, em seu país, Florbela presenciou a Monarquia dar lugar à República (1910). Ademais, ela assistiu à implantação de uma ditadura fascista em Portugal, com o golpe militar de 28 de maio de 1926.

Politicamente, Florbela se mantinha conservadora. E não foi apenas em política. No momento em que surgia o Modernismo à procura de novos meios de expressão, novas perspectivas e diretrizes para a arte e a literatura, Florbela Espanca passava à margem de vanguardismos.

Para uma leitura em profundidade da obra de Florbela Espanca, devemos considerar que ela está em sintonia com o Romantismo e suas manifestações correlatas com as da dor, do amor, da morte, da melancolia, do gosto por cenários noturnos, do sonho, do pessimismo, da solidão, do saudosismo, do apego à natureza, de Deus.

É no lirismo finissecular que recaem as opções estéticas de Florbela. Há no percurso de sua evolução poética afinidades eletivas provindas dessa fonte.

Desse modo, Florbela faz, em seus poemas, referências expressas a Antônio Nobre, sintonizando-se com ele ao tratar da temática da mágoa, do neogarretismo que era típico dele, de um certo saudosismo que vigorava na época em Portugal, da coloquialidade freqüente nos sonetos, da solidariedade na dor.

Outra afinidade eletiva ocorre com Antero de Quental. Ela se identifica com o poeta na forma de vivenciar a dor existencial, no gosto pelas alegorias e, sobretudo, na escolha formal do soneto. Esta forma clássica provém também do lirismo camoniano. Um verso de Camões, “É um não querer mais que bem querer”, consta como tema de um ciclo de dez sonetos de Florbela.  

Ademais, a poetisa desenvolve os temas presentes no Simbolismo Português, como a busca amorosa, o sentimento de mágoa, o “carpe diem”, a fugacidade do tempo, revelando a influência de Camilo Pessanha.

Florbela usou em seus livros epígrafes de Eugênio de Castro, Paul Verlaine, Maeterlink, Rubén Dario, estabelecendo relações intertextuais com estes poetas.

Embora contemporânea do Modernismo Português, Florbela não se identificou com as suas ousadas experimentações. Há que se considerar, no entanto, a aproximação de Florbela com Mário de Sá-Carneiro na forma e no estilo: ambos constroem uma poética de excessos, conjugam o jogo heteronímico da ocultação e mantêm as afinidades das pretensões de fundir realidade e sonho: “optam pela ênfase nos mesmos núcleos temáticos: amor e morte, loucura e lucidez, luxo e sombras, plenitude e incompletude”, conforme nos diz José Rodrigues de Paiva em “O tecer da poesia em Florbela Espanca”.

Nos traços alegóricos, a presença do ouro, tantas vezes indicada de modo disperso em Florbela, também corresponde às imagens do universo semântico de Sá-Carneiro. E é nas alegorias que o recurso sinestésico, tão recorrente em ambos, ocorre em exuberâncias: “profusão de roxos, rosas, lilases, brancos, azuis, amarelo e ouro, é comum à imagética dos dois poetas”.

No plano existencial, representado poeticamente, instalam-se rompantes de um temperamento extremado que oscilam da euforia à mais profunda prostração:

(...) encontra-se nos dois o que pode ser lido como crise do sujeito, questionamento da identidade, dicotomia sinceridade/fingimento (à Pessoa) e que se representa pelo recorrente jogo entre “eu/não-eu, eu/outro, eu/outros”.

A presença de um outro, como duplo da personalidade enunciadora, constitui um traço fundamental que identifica o poema florbeliano e o poema de Sá-Carneiro. Nos versos do soneto “Eu não sou de ninguém”, do livro Reliquae, temos:

Há de ser Outro e Outro num momento!
Força viva, brutal, em movimento
Astro arrastando catadupas de astros!

E nos versos de “Eu”, soneto de Mário de Sá-Carneiro, temos:

Eu não sou eu nem sou o outro
Sou qualquer coisa de intermédio
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro

Como Mário de Sá-Carneiro, Florbela buscou a fusão entre a vida e a arte, o que, segundo José Rodrigues de Paiva, foi desastroso para ambos. Há neles a mesma ânsia de tocar as regiões limítrofes de suas identidades, um dos fatores que, segundo o mesmo teórico, podem conduzir à prática heteronímica, a mesma abordagem do tema da morte, o mesmo gosto pelos símbolos e cenários decadentistas.

Rodrigues Paiva conclui seu estudo acerca de Florbela, afirmando que a poetisa pertence a uma linhagem de poetas para os quais não se tem esteticamente uma classificação única e definitiva: “Aparentada a clássicos e românticos, saudosistas, simbolistas e modernistas, Florbela Espanca marca o seu lugar, naturalmente integrada à família do melhor lirismo português.  Desse modo, Florbela, no livro Charneca em Flor, retoma o verso camoniano “É um não querer mais que bem querer” como tema para um ciclo de dez sonteos de amor, aparentando-se aos clássicos.

Já no soneto “Sem remédio”, existe uma influência românctica, um estado de espírito baudelaireano que nos remete à dor:

Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou. 

No poema “Languidez”, do Livro de Mágoas, temos a existência de um lusitanismo que aproxima a poetisa do saudosismo, assim:

Tardes da minha terra, doce encanto,
Tardes duma pureza de açucenas,
Tardes de sonho, as tardes de novenas,
Tardes de Portugal, as tardes de Anto.
  
No que diz respeito à proximidade de Florbela à poetica decadentista, temos o poema  “Outonal” (Charneca em flor, p133):?

Caem as folhas mortas sobre o lago!
Na penumbra outonal, não sei quem tece.
As rendas do silêncio... Olha, anoitece!
Brumas longinquas do País Vago...
  
Finalmente, existe em Florbela Espanca a influência de Sá-Carneiro e de Fernando Pessoa.

Desse modo, no poema florbeliano “Eu” (Charneca em flor, p120), temos o jogo de  alteridade Eu/ Outro (s), o que aproxima Florbela de Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), sobretudo no poema “Eu”, já citado:

Até agora eu não me conhecia.
Julgava que era Eu e eu não era
Aquela que me meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia. 

Ocorre tanto em Florbela Espanca quanto em Mário de Sá-Carneiro um sinal de transbordamento dos limites da identidade, que me Fernando Pessoa é uma das vias de interpretação da prática heteronímica.


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Fonte:
Silvia Helena Miguel Trevisan: “A metapoesia na obra de Florbela Espanca e Cecília Meireles”. (Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação da área de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa do curso de Letras – FFLCH – Universidade de São Paulo – USP, como exigência parcial para obtenção do título de Doutora, sob a orientação da Prof. Dra. Maria Aparecida de Campos Brando Santilli). São Paulo, 2007.


Notas:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese. As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade. Disponível em: 
www.teses.usp.br

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