17/05/14

Poema Mariano, de Domingos Caldas Barbosa

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Poemas líricos

Já no subtítulo de sua tradução da Ode I de Horácio, Caldas expressa o desejo de se tornar um poeta lírico. Nesse conjunto foram reunidos vinte e três poemas que revelam a faceta sentimental e íntima do Poeta. Abordam uns o tema da amizade, outros, o amor. Alguns são claramente autobiográficos, recuperando certos momentos da vida do escritor. Tendo sido uma constante na sua própria vida, a amizade é um dos temas favoritos de Caldas Barbosa. Dela trata o soneto Versos, qu’ Amor, e qu’ a Razão ditara, que abre o Almanak das Musas, ressaltando a importância primordial que este sentimento tem na concretização da Academia de Belas Letras, a mais importante agremiação de poetas portugueses do final do século XVIII. O mesmo valor é atribuído ao amor, tema lírico por excelência, como revelam os versos do soneto Com a terna Amizade, Amor lutava que traz à lembrança a justiça de Salomão:

Com a terna Amizade, Amor lutava,
Fora a primeira vez, que vira a terra
Destes meigos Irmãos a usada guerra,
E assustada tremia, e vacilava:

Longa trança da Deusa ao ar ondeava
Entre o sendal, que desatado erra,
E o véu fatal, que ao Nume os olhos cerra,
Em pedaços ao vento volteava:

Desce dos Céus fatídico Destino;
Ouve da boca de ambos a verdade;
Marfida os move a este desatino:

Decretou a infalível Divindade;
Parta-se o coração, de ambos é dino;
Dê-se uma parte a Amor, outra à Amizade.

As Doentes, poema em redondilha, trata do mesmo tema, desta vez discorrendo sobre o entendimento inédito do Amor e da Razão que, como prevê o Poeta, não perduraria.

Amor logo se desespera em busca da amada e cruel Alcina e, como em todo arrufo amoroso, o que salva é a razão, cabendo à amizade, tão prezada pelo poeta, apaziguar a tormenta:

Inda estava assim bradando
Esta meiga Divindade,
Eis qu’ pressa caminhando
A solícita Amizade
Vem o caro Irmão buscando.

À esperta Razão saúda,
Depois a Amor brandamente
Diz que à sua Alcina acuda,
Porque Alcina está doente; (v. 56 a 64)

Mas as explicações oferecidas pela Amizade não convencem Amor que tudo pode e, resoluto,

Já ia em tanta aflição
Armar-se de arco, e de aljava,
Sustem-lhe o braço a Razão,
E a Amizade suplicava
Precisa quietação. (v. 111 a 115)

Por entre a vereda estreita
Voa Amor ferindo as gentes,
A Razão seu vôo espreita,
E vê que às suas doentes
Vai preparar a receita. (v. 121 a 125)

Neste poema, Caldas Barbosa parece querer deixar uma lição ao mostrar que não se deve fiar no Amor, sempre impetuoso, ao passo que a esperta Razão talvez seja excessivamente fria. Sugere, pois, que nada se compara à temperança da Amizade. Ainda dentro do tema do amor e da amizade, a saudade, palavra tão cara aos portugueses, constitui assunto duma série de redondilhas reunidas sob o título A Ilustre O Neill pergunta que cousa sejam saudades.

Caldas Barbosa define esse sentimento, tido como português, mas que a todos pertence, faltando-lhes apenas palavras apropriadas para defini-lo.

Pois saber o que é saudade
Gentil O Neill careces,
Vou talvez dizer-te um mal,
Que sofres, e não conheces.

Dirão uns qu’ sentimento.
Que só Portugueses têm;
E qu’ importa falte aos outros,
Vozes qu’ o expliquem bem: (v. 35 a 42)

Nessa homenagem Sra. O Neill, inglesa de nobre clã irland s e radicada em Lisboa, Caldas mostra conhecer grandes nomes da cultura britânica, tais como Pope, Robinson, Swift e Newton (v. 12 a 19).

Aos críticos do autor da Viola de Lereno agrada de citar, em tom de velado desprestígio, uma quadra em que ele faz um paralelo entre a Sra. O Neill, um Cisne do Tamisa, e ele próprio, o Brasileiro Papagaio. A tendência desses críticos é subestimar essa ave tão valorizada fora do Brasil pela beleza de suas penas coloridas e por sua capacidade única de imitar a voz humana. Assim, o Poeta observa que não se ouve a voz do Cisne britânico mas a do garboso Papagaio do Brasil, que não é um pardaleco mas um pássaro altaneiro, sugerindo com isso o valor que ele próprio se atribuía.

Não é do Tamisa um Cisne,
Que vai soltar doce canto,
Brasileiro Papagaio
De arremedo a voz levanta (v. 23 a 26)
  
Caldas arrola várias definições poéticas de saudade, filha de cruel ausência que se nutre de ternas lembranças, desejos e esperanças, mencionando também a saudade que sentem os que estão ligados pelo amor ou pela amizade. Conclui com manifestações de encanto e sedução tão característicos dos poemas da Viola,  ao afirmar que, sem o saber, por ser tão amada e admirada, a O Neill ter ela própria causado muita saudade:

Basta, Senhora: já sabes,
Qu enfim saudade só
O sentimento que um sofre,
Quando o que estima não vê:

Tu qu onde quer qu apareces,
Causas Amor, e Amizade,
Terás dado (eu não duvido)
Motivo a muita saudade. (v. 99 a 106).


São dez os poemas cujo tema é amor propriamente dito dos quais, apenas três não citam os nomes das suas musas inspiradoras.

A Arminda, até hoje não identificada, são dedicados três poemas. No soneto Todos querem saber quem seja Arminda, Caldas Barbosa mostra a sua intenção de esconder ciosamente a identidade da sua musa, afirmando:

Talvez piedade o meu segredo seja;
Eu não lhe mostro Arminda, que não quero,
Qu eles morram de Amor, elas de inveja. (v. 12-14)

No sonetoDe uma gruta no seio cavernosoCaldas insiste na afirmação do seu grande afeto por essa musa, como se pode depreender do abandono de tudo para estar na sua companhia:

Acorda alegre o pescador; já vedes,
Que por sonhados bens da formosura,
Deixa o certo descanso, o barco, as redes. (v. 12-14)

E, finalmente, em Se eu vejo o forte, o impávido Tebano  confessa estar irremediavelmente preso a Arminda pois:

Não há que resistir, pobres amantes,
Porque contra o poder do Deus vendado,
Nem d Hércules as for as são bastantes. (v. 12-14)

O fato de Caldas Barbosa ter dirigido suas duas artes poéticas a Arminda131permite concluir que ela terá sido uma das musas mais queridas e supor que fosse alguma das senhoras de seu círculo de convivência, provavelmente uma bela poetisa. Nesse caso, estariam D. Joana Isabel de Lencastre Forjaz (c. 1745 -?), ou a Marquesa de Alorna (1750-1839) ou, ainda, D. Maria José de Meneses, Condessa de Soure, a quem chamavam de Márcia Bela.

Seguem-se outros três sonetos com tema amoroso e uma Carta em versos em que Caldas Barbosa cita os nomes de outras de suas musas inspiradoras: Tirce, Diana, Bela Márcia e Anfriza.


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Fonte
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Luiza Sawaya: “Domingos Caldas Barbosa: para além da Viola de Lereno”. Dissertação de Mestrado orientada pela Professora Doutora Vanda Anastácio. Universidade de Lisboa - Faculdade de Letras. Lisboa, 2011. Disponível em: repositorio.ul.pt.


Notas:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese. As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade.

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