04/05/14

Páginas recolhidas, de Machado de Assis (Contos)

 Páginas recolhidas, de Machado de Assis
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Missa do Galo: impressão e equívoco x veleidade de desejos

“Missa do Galo”, outro conto machadiano recortado na nossa pesquisa, focaliza oinsólito de uma situação, misto de conversa e insinuações. Narra o fato que marcou a lembrança do moço Nogueira. Trata-se do memorável encontro de uma senhora e um jovem e dezessete anos numa véspera de Natal, pouco tempo antes da missa do galo. A narrativa da conversação se faz sob o ponto de vista de Nogueira, que conta a história com certo distanciamento temporal que, no primeiro momento demonstra seu olhar de seduzido, comprometendo a narrativa: “Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, h muitos anos [...]” (2008, p. 199). Nogueira narra um fato ocorrido quando era jovem, ainda na fase de descoberta da vida amorosa, narrado em primeira pessoa, muitos anos depois. A personagem que narra, implica-se por envolver-se no contexto sensual sob a convicção de sua imaginação interpretativa. Assim, a crítica de modo geral concorda que em se tratando de um narrador machadiano, o leitor deve precaver-se, pois este narrador pode não ser confiável. “Missa do Galo” um conto retrospectivo, de uma força erótica extrema que confere ao texto a tradução digna da imaginação de um personagem-narrador embebido de sensualidade. O narrador personagem conduz a narrativa de modo que direciona o leitor a tirar suas próprias conclusões. Nogueira, já adulto com mais experiência de vida, rememora umfato ocorrido na sua mocidade, por isso, um narrador que oscila entre o tempo passado, o ocorrido e o presente no qual narra. Daí as vozes de narradores diversos contribuindo para os paradoxos do texto. Mesmo assim, o conto em estudo tem como perspectiva estruturadora da narrativa um núcleo centralizador, isto é, os elementos informativos são transmitidos pelo eu narrante (narrador), que ao mesmo tempo, representa o     eu narrado, um dos protagonistas. Disto decorre que entre o sujeito e os eventos narrados se instalem, por um lado a distância produzida pela passagem do tempo e, por outro lado, a proximidade das emoções, neste caso, um misto de insinuações e desejos, os quais uma vez experimentados foram retomados pela memória.

Os registros narrados, com indícios de egocentrismo, demonstram que a experiência deflagrada pelos fatos revividos na subjetividade de quem conta, se sobrepõem, conforme o narrador, aos próprios acontecimentos, centrando-se no sujeito (Nogueira) como seduzido e, em seu objeto de desejo (D. Conceição) a sedutora. Porém, há um falseamento na constância do índice de verdade pré-estabelecida, constituindo uma relação quer de ruptura, quer de continuidade entre o narrador e o protagonista. A apreensão subjetiva dos fatos reproduz essa divisão ambígua de possíveis verdades ou apenas impressões. Paralelamente, variam a qualidade e a quantidade da informação narrada, desde o momento em que o eu enuncia suas experiências pessoais, transpondo as alheias enquanto adulto expectador-reflexivo e o jovem enredado pela paixão sob a sua ótica constituída em um testemunho, no mínimo, falacioso.

O fato se deu quando aos dezessete anos, estava o jovem Nogueira agregado na casa do escrivão Meneses, com o objetivo de fazer os estudos preparatórios (seria hoje, uma espécie de preparação para o vestibular). Meneses vivia com Conceição, uma meiga senhora que o narrador considera “uma santa”, esposa, traída pelo marido. Vale observar que Conceição tinha conhecimento da infidelidade do seu cônjuge. A linguagem figurada inaugura o texto; basta lembrar que na casa todos sabiam, tanto que ao dizer que ia ao teatro, Nogueira por sua ingenuidade propõe ao dono da casa que gostaria também de ir. A sogra e as escravas riram com desdém da inocência do rapaz. Era noite de Natal do ano de 1861 ou 1862 e Nogueira combinou com um amigo que iria assistir a missa do galo na Corte. Sendo assim,comprovamos a inexperiência do jovem Nogueira aos códigos sociais masculinos do século XIX, que individualiza ao sexo masculino a malícia, o status de apreço e prestígio social caso sustentasse uma relação extraconjugal.

A linguagem figurada, no conto em questão, está estruturada como referencial denotativo subjetivo. Assim, quando organizada de forma explícita pelo narrador-personagem relata o ocorrido com vocábulos de sentidos, às vezes, vagos. Em cumplicidade com sua jovial inocência, Nogueira apossa-se dos elementos figurados para, na condição de adulto, requerer e aproximar a fantasia ficcional de uma realidade, no mínimo, perversa. Então, progressivamente desnuda o fingimento mascarado da família patriarcal oitocentista. Um exemplo legítimo dessa linguagem denotativa é a palavra “teatro” (2008, p. 199). Esta denota o simulacro das sutis mazelas do poder, cujo desvendamento requer a assimilação fidedigna do conjunto da narrativa. Disto podemos entrever que, para instituir no texto uma analogia dupla:

a auto-referencialidade implícita, o narrador coloca em jogo o dualismo da linguagem, fazendo do segmento referencial ou reflexivo o depositário de um sentido primeiro, literal e óbvio que, por sua vez, tem um sentido segundo e figurado (SARAIVA, 2007, p. 123, grifos da autora).

Ronaldes de Melo e Sousa assinala sobre a linguagem figurada como forma representativa de Machado que, através da interação dialética do narrador, exibe a perspectiva dual de encenação e concepção do narrado:

Como ator, irrompe no palco da representação dramática. Singularizado como mediador que se põe ironicamente em ação como dramaturgo que não se mantém nos bastidores e como ator que submete a atuação dos personagens a uma crítica corrosiva, o mediador ou narrador machadiano assume o estatuto metateatral de quem se representa em tudo que se apresenta. O aparecimento ostensivo do mediador crítico à cena dramática transforma o narrador machadiano no personagem principal do romance concebido como drama de caracteres (2006, p. 76).

Ademais, este segmento, para o narrador machadiano, não permite expressar diretamente no espaço contextual em que se encontra, o conhecimento da narrativa como um todo. Então, precisa ser encenada e lapidada pelo viés literário. Sobre este aspecto, devemos considerar a habilidade do autor do texto, que formula uma representação dramática ao possibilitar o leitor intervir ideologicamente como indicador de uma metassignificação, permitindo assim, recontextualizá-lo e ressignificar sua função ou atribuir-lhe outra. Todos foram dormir cedo e o rapaz permaneceu na sala aguardando a proximidade da meia-noite quando, de repente, Conceição entra no ambiente vestindo um roupão branco. Essa foi uma imagem nova. Para Bachelard em A poética do espaço “Ao recebermos uma imagem poética nova, sentimos seu valor de intersubjetividade. Sabemos que a repetiremos para comunicar nosso entusiasmo” (1993, p. 08). Assim, naquele momento os olhos de Nogueira, ao deparar-se com aquela figura fantasmagórica, vinda do corredor, prenunciam indícios de transformação ao olhar comum conforme a via até então. Conceição tinha um ar de visa romântica comparando-a ao livro de aventuras que lia. Nogueira lia Os Três Mosqueteiros, mas abdica da leitura diante da presença daquela senhora. Ambos conversam sobre leituras, missa do galo na roça e durante os diálogos ocorre um jogo de sedução. O leitor é levado a pensar que o adultério declarado do marido Meneses, propicia condições para que ela própria deseje também prevaricar.

Nesse contexto propício à sedução, se dá o encontro premeditado por Conceição, ao que tudo sugere o narrador adulto em consonância com a memória do ocorrido ao Nogueira jovem. Aqui o “olhar” come a a ganhar a dimensão que a presen a dela implicava. Bachelard assinala que “A poesia nos d não tanto a nostalgia da juventude, que seria vulgar, mas a nostalgia das expressões da juventude. Oferece-nos imagens como deveríamos associá-las no impulso inicial da juventude” (1993, p. 50, grifo nosso). Com base no que infere Bachelard, podemos entender que o jovem Nogueira por simplicidade e inexperiência, ou quem sabe, malícia, tenta captar e entender exatamente as intenções da pacífica, mas traída Conceição. Ela, com sua roupa, gestos, atitudes, andar e frases ambíguas parece disposta a seduzir o estudante pueril.

Então, fascinado pelo momento oportuno, Conceição cresce aos olhos de Nogueira: “Não estando abotoadas, as mangas, caíram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos braços, muito claros, e menos magros do que se poderiam supor” (2008, p. 203). Observemos que os braços novamente entram em cena. Esse fetiche por tal parte do corpo da mulher se faz presente em vários textos machadianos, sem no momento considerarmos os seus romances. Basta retrocedermos ao conto “Uns Bra os” e relembrarmos o fascínio do jovem Inácio seduzido pelos braços de D. Severina. A proximidade entre Nogueira e Conceição faz o moço lembrar que já havia passado por situações mais ou menos semelhantes, mas não era comum uma senhora ficar de bate papo com alguém do sexo oposto, sozinha, àquelas horas da noite, que não fosse seu marido: “naquele momento, por m, a impressão que tive foi grande. As veias eram tão azuis, que apesar da pouca claridade, podia contá-las do meu lugar” (2008, p. 203). O clima de envolvimento era tão forte que ambos as personagens confundem um lugar social de conversas amenas e cotidianas para se transportarem metaforicamente ao quarto, uma vez que a proximidade e a sedução que as envolviam não se adequava àquele lugar. Bachelard alude:

A consciência de estar em paz no seu canto propaga, por assim dizer, uma imobilidade. A imobilidade irradia-se. Um quarto imaginário se constrói ao redor do nosso corpo que acreditamos estar bem escondido quando nos refugiamos num canto (1993, p. 146).

Ambos se deixaram levar pela eventual sedução e assim, não distinguiam, ou melhor, não atinaram que esse evento era apropriado para outro canto e idealizaram o quarto na sala. Como acrescenta Bachelard: “A intimidade do quarto torna-se a nossa intimidade” (1993, p. 228).

Conforme Dirce Cortes Riedel no livro O tempo e metáfora em Machado de Assis (2008), quando trata do conto “Missa do Galo”, o conjunto de ideias que abrange a palavra e a significação propriamente ligada à celebração da missa do galo é, no mínimo, intrigante e contraditória. Pois, apesar de nomear o conto em discussão, a ideia da missa configura-se em uma presença inexistente, quando relacionamos ao seu efetivo significado. Neste conto, o que é proposto no início da narrativa, não é necessariamente o que o encerra. O narrador e personagem Nogueira propõe a um vizinho acordá-lo à meia noite para irem à missa do galo. Conforme o texto: “Havendo ajustado com um vizinho irmos missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite” (2008, p. 199, grifo nosso). Aqui, as antíteses ganham espaços em meio às forças contrárias, mudando o curso do conto. É só observarmos que o inverso ocorre. Quem o acorda é o vizinho e não de um sono real, já que pelo relato ele mesmo diz estar embebido pela pessoa de Conceição “Subitamente, ouvi uma pancada na janela, do lado de fora, e uma voz que bradava: “Missa do galo”! missa do galo!”(2008, p. 207). Se o vizinho não executasse determinada tarefa, a missa teria sido descartada naquele momento de sedução. Nogueira, no estado em que se encontrava, teria perdido a noção do tempo e, provavelmente, ao dar-se conta da missa já teria há muito tempo perdido o horário. Assim, nessa expectativa, a missa do galo é uma ideia metaforizada que não corresponde integralmente ao contexto tradicional, pois surge esvaziada de sentido:

O conto, como metáfora, dá a chave para se apreenderem possíveis significados em tensão, no jogo de relações entre o confessado “não entender” do narrador e a construção da narrativa, que tem a sua leitura interrompida pela senhora com quem ele conversa até que o chamem para a missa – é um enredo que, como ação, poderia ser de uma simplicidade sem complexidade (RIEDEL, 2008, p. 73).

A analogia do título do conto e a missa propriamente dita não é legítima. Entre a missa do galo que Nogueira ansiava assistir e a expectativa de uma missa diferente da Corte, há um distanciamento de descrição, do ambiente em que se encontravam, no que se refere à data. Mesmo incluída na conversa de ambos, dura o tempo de um final de conversa na concretização de um parágrafo. Pois, a missa é descartada pelo prévio envolvimento de sedução em que os dois se encontram. Deste modo, “H uma situação de humor construída pela relação (que é uma não-relação) entre o título do conto – “Missa do galo” – e a inexistência das tradicionais imagens natalinas, que são recusadas como base de emoções nobres” (RIEDEL, 2008, p. 73).

Portanto, a missa do galo, no contexto do conto, só é evidenciada pelo oportuno pretexto de um momento de espera, que ocasionalmente, desencadeia a cena de conversação com um misto de intenções lascivas que é o oposto do contexto religioso. A missa do galo, simbolicamente, inaugura a transição do tempo, da não inocência e igenuidade. Por isso, quando Nogueira assiste à missa não é envolvido pela homilia discursiva da celebração, considerando que ele mesmo revela uma confusão de sentidos ao substituir parte do sermão pela fantasmagórica imagem de Conceição: “Durante a missa, a figura de Conceição interpôs-se mais de uma vez, entre mim e o padre; fique isto à conta dos meus dezessete anos” (2008, p. 207).

É notória a ausência das alegorias natalinas que perdem em evidências em toda ambientação espacial do conto, tanto quanto na sensibilidade das pessoas. O clima natalino não é motivo de preocupação do narrador em momento algum do conto. Tal desinteresse é justificável avaliando o tipo de emoções que o rapaz experimentava. É fato, o que realmente lhe marcou a memória nada tinha a ver com o momento de festa proporcionado pela comemoração do nascimento de Jesus. O aspecto relevante é o elemento atenuante em que o narrador encontra-se em outro plano do tempo quando narra a história, ou seja, na idade adulta e, por conseguinte, pode ter anulado essa relação entre a missa e as emoções nobres de que trata Riedel. A emoção elevada pode ser interpretada, neste conto, como o nascimento de algo que combate entre um nascimento diferenciado de teor religioso de culto sagrado ou lascivo ao corpo dependendo da visão social ou religiosa. A ênfase é dada a um novo nascimento, o da maturidade advinda do aflorar da sexualidade.

É presumível esperar que o leitor aferisse a Dona Conceição à condição mínima de sensibilidade atribuída a uma senhora dona de casa, como em qualquer outra família. Essa probabilidade intensifica-se cada vez mais diante do que é narrado. Não há nada nas palavras da Senhora Meneses que promova o evento natalino. Entretanto, pressupõe que em momentos festivos dessa ascendência as pessoas tornam-se, por via de regra, saudosas. Portanto, é plausível ao leitor a expectativa com relação à Conceição, que esta tivesse, no mínimo, assoberbada de trabalho já que deveria, como dona de casa, organizar a ceia de natal, enfeitar a árvore e promover a troca de presentes. Costumes já do período oitocentista. Contudo, ignorando os apelos sociais que a data requer, há um silêncio aterrador na casa. Observemos a citação: “Sentei-me à mesa que havia no centro da sala, e à luz de um candeeiro de querosene, enquanto a casa dormia, trepei ainda uma vez ao cavalo magro de D‟Artagnan e fui-me às aventuras” (grifo nosso, 2008, p. 200). O que podemos aferir diante do enfoque narrativo, há um velado descuido pela conotação da data natalina. Talvez pelo fato de haver certa desilusão na família Meneses relegada aos agravantes do casal não ter filhos e, ainda, do marido ter um caso de amor extraconjugal.

A construção da narrativa se estabelece como metáfora que interroga com um caráter figurativo o seu próprio discurso. O narrador munido do recurso de rememorar as lembranças voluntárias, despista mascarando-as. Essa eventual figura de linguagem é, por antítese, algo intencional do autor Machado de Assis que tem por base desmascarar a insegurança e a incerteza do ser humano. Composto pela tinta machadiana, o narrador relembra e retoma o que necessariamente não sabe com veemência. Logo, se contradiz diante daquilo que afirma e, ao mesmo tempo desmente, pois se encontra incriminado na cena e só consegue reconstituir as supostas impressões daquela noite remota. Avaliando que “Há impressões dessa noite, que me parecem truncadas ou confusas” (2008, p. 206):

A busca do tempo perdido, como busca da verdade, deixa o narrador perplexo: são impressões “truncadas ou confusas”. O que faz Nogueira “contradizer-se” e “atrapalhar-se” a memória das sensações, aquela que intervém somente em função dos signos que a solicitam (RIEDEL, 2008, p.74).

Riedel ainda refere-se à busca de Nogueira por algo perdido no tempo que é de alguma forma, um tanto quanto, excepcional e efêmero. A contradição que envolve o eu que narra torna legítima a composição ilógica de tudo aquilo que se conta. A metáfora de que trata a autora nos leva a pensar que o narrador pode estar realmente a insinuar algo concreto principalmente quando ele diz que Conceição era “a santa” (2008, p. 200). Ao considerar este aspecto metafórico, o leitor encontra-se em dois dramas: se concorda ou não com o que o personagem-narrador sugere; e, se tal suposição tem algum fundo de verdade. A mesma santa adjetivada por quem narra é apregoada durante toda a narrativa pela possível intenção de seduzi-lo. A contradição é ainda maior quando deparamos com essa outra comparação figurada: “Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos. No capítulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um harém com as palavras salvas” (op. cit.). Essa afirmativa do narrador configura mais uma de suas contradições, considerando a comparação a uma mulher maometana; uma seguidora da doutrina pregada pelo profeta Maomé, o islamismo, na qual as mulheres têm direitos limitados e os homens podem ser poligâmicos.

Por conseguinte, se considerada sua sujeição diante da insubordinação do marido Meneses, a afirmativa pode ser aceitável, mas não satisfaz toda a ambiguidade do texto, principalmente porque na narração há uma série de outras afirmações, que sobrepõe no texto, antíteses por antíteses. Vejamos nessa suposta afirmação: “Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar” (2008, p. 200) e “Duas outras vezes parecia que a via dormir; mas os olhos, cerrados por um instante, abriam-se logo sem sono nem fadiga, como se ela os houvesse fechados para me ver melhor” (2008, p. 205). Nesse ínterim, a ideia de fechar os olhos para ver melhor, parece jocosa e cômica, pois fica a cargo de Nogueira que elege Conceição, através dessa insinuação, como um ser desprovido de qualquer sentimento. Sendo assim, o que torna o texto conflitante é o que se narra depois. Nogueira, primeiramente, apresenta Conceição com adjetivos de uma mulher virtuosa, porém, ao mesmo tempo, torna tais adjetivos contraditórios, considerando que infere, nesse contexto, um confronto de ideias quando a promove como sedutora e de intenções maliciosas, principalmente pelos atenuantes de, no outro dia, dissimular o que pretendia.

Os personagens são construídos como metáforas – impressões, metáforas sensações de seres “reais” na matéria narrada. O discurso do narrador os faz imagens. Os bastidores a descoberto não permitiram ao leitor do texto machadiano, preterir os personagens pelas pessoas na vida (RIEDEL, 2008, p. 75).


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Fonte:
Edinaldo Flauzino de Matos: “A multiplicidade narrativa e o jogo da sedução nos contos “Uns braços” e “Missa do Galo” de Machado de Assis”. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários – PPGEL, da Universidade do Estado de Mato Grosso – UNEMAT – como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Estudos Literários, na área de Letras sob a orientação Profª Drª Madalena Aparecida Machado). Tangará da Serra, 2011. Disponível em: ppgel.com.br

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