02/05/14

Os Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo (Tradução de Machado de Assis)

 Os Trabalhadores do Mar, de  Victor Hugo
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Machado e a obra hugoana

O acesso à leitura da tradução feita por Machado de Assis do romance de Hugo acontece no Brasil quase ao mesmo tempo em que na França. Nos anos de 1860, Hugo já é um ícone na sociedade brasileira, o que permitiu o rápido acesso a sua obra. Machado não faz uma adaptação do original hugoano ou um grande condensado do texto, o que não era incomum à época. Muito ao contrário, realizada quando Machado estava com 27 anos, sua tradução consiste em um trabalho de alta qualidade, respeitando o original, mas nele interferindo a cada vez que se fez necessário à compreensão do leitor brasileiro. Vale lembrar que Machado de Assis nunca saiu do Brasil, tendo como deslocamento máximo a distância entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais. Pelo que indicam os estudos biográficos sobre o autor, Machado não teve um professor de francês, sendo um autodidata no aprendizado da língua.

Mas Machado foi um ávido leitor da obra de Hugo e com ela manteve relações dialógicas. Como cronista em diferentes jornais, muito citou as representações do teatro hugoano no Brasil e, como crítico, alinhou os diferentes poetas brasileiros que vogaram no sulco aberto pelo poeta.

Em 2001, organizando o trabalho de atualização da pesquisa de Jean-Michel Massa realizada nos anos 1960, acerca do acervo machadiano (o que restou de sua biblioteca, hoje sob a guarda da Academia Brasileira de Letras), José Luís Jobim atesta que 55,53% dos livros do acervo machadiano são escritos em francês, contra 23,95 em português, o restante cabendo às outras línguas como o alemão, o inglês, o russo etc. (JOBIM, 2001, p. 16).

Jean-Michel Massa afirma que entre as obras de autores franceses lidos por Machado destacam-se “Lamartine, Victor Hugo, Alexandre Dumas, George Sand, Prosper Mérimée, Gustave Flaubert e as obras completas de Pierre Loti” (MASSA, 2001, p. 23)

Glória Vianna nos apresenta dados reveladores da revisão feita no acervo da biblioteca de Machado, na qual as literaturas ocupam 50% dos volumes. A literatura francesa é responsável por 19% deste total, sendo 8 volumes, títulos originais da obra hugoana (VIANNA, 2001, p. 99-274). Na biblioteca atual de Machado, segundo Vianna, 507 volumes são originais e 167 são traduções, totalizando 674 volumes. Dos originais, 237 são em francês e entre as traduções para o francês temos 146 volumes ao todo, o que atesta a presença majoritária da língua francesa (383 volumes), de seus autores e pensadores, o que justifica alguns diálogos e influências do universo francófono na obra machadiana, assim como o seu trabalho de tradutor de obras francesas ou de outras línguas traduzidas a partir da tradução francesa.

Alguns críticos e pesquisadores afirmam reconhecer a leitura de Hugo na obra de Machado desde os anos de 1850. Em 1857, ele teria publicado no jornal a Marmota um poema com uma epígrafe retirada do livro Odes e Ballades. [...] Os textos de crítica teatral escritos no decênio de 1860 estão repletos de citações da obra hugoana. [...] A crítica literária feita por Machado de Assis nessa época também faz alusões a Victor Hugo e a seus livros (CALLIPO, 2006, p. 20-21).

A professora Daniela Callipo destaca a crítica e as referências de Machado a propósito do drama Ruy Blas, do poema-épico “Colombo”, do ensaio Littérature et philosophie mêlées, do prefácio de Cromwell, entre tantos outros. Destaca principalmente a presença hugoana nas crônicas escritas ao longo dos quarenta anos de produção jornalística [...].Victor Hugo sobressai nos textos escritos para o jornal pelo escritor fluminense. São inúmeras as citações, as alusões a personagens, os comentários a respeito de poemas, romances, peças que indicam seu interesse pela obra hugoana.

Primeiramente, pode-se afirmar ser essa presença marcante: dentre as duzentas citações francesas feitas por Machado de Assis nas mais de seiscentas crônicas que escreveu, 27 são de autoria do criador de Fantine.

[...] Esse cálculo não inclui as dezenas de alusões feitas ao escritor francês ou a suas personagens, nem as citações hugoanas presentes nos volumes Crítica teatral e Crítica literária (CALLIPO, 2006, p. 23).

Somado aos interesses pessoais de Machado, Callipo afirma ainda que dados levantados pela Biblioteca Municipal do Rio de Janeiro e publicados na Gazeta de Notícias, de 2 de setembro de 1875, confirmam o interesse da própria população fluminense pela literatura francesa, de forma geral, visto que 25% das obras consultadas na referida biblioteca eram escritas em francês (CALLIPO, 2006, p. 23).

Eliane Ferreira, em seu estudo sobre a tradução no Brasil do século XIX, nos chama a atenção para o posicionamento do Machado tradutor:

A tradução no século XIX brasileiro, em uma sociedade pós-Independência pressionada pela modernização, funcionou como um veículo de transferência cultural e se revelou como componente da formação da identidade cultural da nação na medida em que, ao traduzir o outro, gerava o encontro do próprio. Machado de Assis, no decorrer de sua carreira literária, percebeu esse mecanismo e alertou para os perigos advindos da absorção de uma cultura exógena sem um posicionamento crítico. [...] A reflexão de Machado de Assis é a de que a tradução, embora constituindo um canal de modernização, pode representar um entrave ao surgimento de talentos nacionais, devido a sua onipresença no cenário cultural da capital do império, isto é, nos saraus literários, nos folhetins e nos tablados (FERREIRA, 2004, p. 28).

Apesar do interesse de Machado pela obra de Hugo parecer notório, tudo indica que os motivos que levaram o escritor a traduzir Les travailleurs de la mer estariam relacionados ao fato de a direção de o Diário do Rio de Janeiro, periódico para o qual trabalhava Machado, ter adquirido os direitos sobre a obra através de Lacroix, o editor francês de Hugo (MASSA, 2008, p. 30). Maiores detalhamentos a propósito da gênese do trabalho de tradução permanecem, portanto, não totalmente elucidados.

O estudo de Jean-Michel Massa, Machado de Assis tradutor, revela que foram quase 50 obras traduzidas por Machado, praticamente todas feitas a partir da língua francesa, mesmo no caso de textos originariamente em outras línguas como, por exemplo, no caso de Oliver Twist, de Charles Dickens, cuja versão brasileira foi feita a partir de uma tradução francesa, ou ainda o caso do poema O corvo, de Edgar Allan Poe, que Machado se baseia, sobretudo na tradução francesa de Baudelaire (MASSA, 2001, p. 92-97).

É preciso lembrar que Machado, ainda jovem, assumia grande quantidade de ofícios, escrevendo para diferentes periódicos da imprensa.

Muitos trabalhos, sobretudo o de tradução de peças teatrais, eram realizados sob encomenda, como a tradução de peças teatrais para o ator e empresário Furtado Coelho. Machado começou a traduzir por volta de 1857, aos 18 anos, e sua atividade nesse campo continuou até 1894, provavelmente um momento de vida em que não necessitava mais de qualquer complemento financeiro para assegurar seu orçamento.


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Fonte:

Junia Barreto (Universidade de Brasília): "Traições editoriais: Os Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo a Machado de Assis". Traduzires 1 – Maio 2012. Disponível em: http://repositorio.unb.br/

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