03/05/14

Histórias e Tradições da Província de Minas Gerais, de Bernardo Guimarães

 Histórias e Tradições da Província de Minas Gerais, de Bernardo Guimarães
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A narrativa em A Cabeça do Tiradentes

E, entre as obras de Bernardo Guimarães que organizaram o tempo histórico, demarcaram espacialidades, deram sentido para certa coletividade, nota-se que também podem ser lidas como narrativas de fundação, e a que nos interessa aqui é a novela A cabeça do Tiradentes, publicada em um livro com mais dois romances, pela Garnier em 1872. Nessa obra, o autor mineiro trata de um dos símbolos da Inconfidência Mineira, Tiradentes, representando-o como mártir, promovendo vínculos entre ele e a cidade de Ouro Preto, e indicando também uma relação identitária entre aquele herói e as pessoas que ali viviam, e ainda com as que habitavam os outros lugares do país. Eis, um breve resumo da obra.

Escrita em maio de 1867, em Ouro Preto, essa obra é caracterizada como tradição mineira, cuja datação consta do século XVIII. Ao iniciar a narrativa, Guimarães comenta sobre o clima daquela noite, e diz se lembrar da história de uma caveira dos finais do século 18, que se passou em Vila Rica.

Em seguida, ele começa descrever como era Vila Rica naquele período, e que na praça da cidade havia uma cabeça pendurada que serviria tanto como símbolo de poder do Governo, quanto como de exemplo para o povo. A cabeça era de Tiradentes. E numa noite tomada pela neblina, a cabeça foi misteriosamente roubada e o guarda que estava de vigia naquele momento disse que o autor do roubo foi um fantasma, de tão rápido e sorrateiro que foi o roubo.

Após essa narrativa mais descritiva da situação de Vila Rica no século 18 e do roubo da Cabeça do Tiradentes, Bernardo Guimarães começa a descrever a rua das cabeças e explicar a origem desse nome. Em seguida, comenta que nessa rua, havia uma casa arruinada, onde morava um velho muito misterioso e que não falava com ninguém.

Despertadas pela curiosidade, algumas pessoas, espiando-o, viram que guardava um crânio com muita devoção. Os moradores achando que o velho era um feiticeiro o temeram por muito tempo. E, somente anos após a sua morte, é que alguém que sabia do segredo do velho misterioso, contou que o velho era o roubador da cabeça do Tiradentes. Guimarães termina a narrativa dizendo que o paradeiro da cabeça de Tiradentes continua sendo um mistério e que os fatos que ele acabou de narrar não foram inventados por ele, sendo fatos tradicionais.

Para facilitar o entendimento dessa obra vamos abordar a sua narrativa por meio de dois aspectos essenciais: o formal e o relacionado aos conteúdos. O aspecto formal está diretamente ligado ao texto e suas características estruturais. E o aspecto relacionado aos conteúdos tratados na obra discutirá quais foram os elementos mobilizados construir a narrativa.

Essa obra faz parte, junto com mais dois romances, de um livro chamado Histórias e Tradições da Província de Minas Gerais, o que já nos leva a perceber que não se trata de uma obra puramente ficcional e a compreendê-la como uma história ou tradição dessa província. O texto é dividido em uma parte inicial e mais quatro pequenos capítulos. Nessa primeira parte, Guimarães parece tentar levar e acomodar seu leitor ao ambiente de contação de histórias, e vai dialogando com seu leitor como se estivessem mesmo à beira do fogão de lenha, como na seguinte passagem, por exemplo, “Quereis, minhas senhoras, que vos conte uma história para disfarçar o enfado destas longas e frigidíssimas noites de maio?” (1976, p. 03). E nesse tom, ele continua até que esse diálogo o leva ao inicio da narrativa sobre a cabeça do Tiradentes, descrito na seguinte passagem.

E pois vou contar-vos a história de uma caveira memorável.
É uma simples tradição nacional, ainda bem recente, e da nossa própria terra.
Essa história eu a poderia intitular: História de uma Cabeça Histórica (1976, p. 04)

O restante do texto é estruturado em quatro pequenos capítulos que apesar de
não terem títulos, estão organizados pelo assunto que irão tratar: I. contexto que levou à Inconfidência Mineira; II. Descreve Vila Rica e a praça central, onde a cabeça ficava exposta; III. Narra o roubo dessa cabeça; IV descreve a rua das cabeças, a origem desse nome; e trata do suposto ladrão da cabeça do Tiradentes. E, certamente, essa divisão serviria para organizar a leitura e também facilitar a compreensão do leitor.

Outro ponto importante, que está relacionado ao aspecto formal da obra, está
no quarto e último capítulo, no trecho que Guimarães encerra a narrativa, dizendo que:

Os fatos, que acabo de narrar, posto que pouco conhecidos, são tradicionais.
Perguntem aos velhos, e mesmo a alguns moços mais curiosos, das coisas antigas da nossa terra, e se convencerão de que esta história não é de minha lavra. (1976, p. 12)

Assim, temos que a maneira como ele inicia e finaliza a narrativa dessa história
sobre a cabeça do Tiradentes, parece fazer parte de uma estratégia para conservar a característica das lendas e contos tradicionais, que devem ser assegurados somente pela memória e transmitidos oralmente, pois o autor estrutura o texto da forma como essas histórias tradicionais eram contadas. Dessa forma, o modo como ele conduziu a narrativa também parece condizer com o apelido de “contador de causos” que Guimarães recebeu de seus críticos contemporâneos.

E, para entender como a narrativa d’A cabeça do Tiradentes foi formada abordando desta vez seus conteúdos, vamos utilizar os estudos do lingüista russo Mikhail Bakhtin a respeito do cronotopo como unidade de sentido (de tempo e de espaço). O Cronotopo pode ser compreendido como “a interligação fundamental das relações temporais e espaciais, artisticamente assimiladas em literatura, (..) é uma categoria conteudístico-formal”. E, a “assimilação do cronotopo real e histórico na literatura fluiu complexa e intermitentemente: assimilaram-se alguns aspectos determinados do cronotopo acessíveis em dadas condições históricas, elaboraram-se apenas formas determinadas de reflexão do cronotopo real” (BAKHTIN, 1998, p. 212).

Nesse sentido, tem-se na obra literária em questão a articulação de tempo e espaço representada pela cabeça do Tiradentes, roubada e enterrada, que é um elemento que diz respeito à tradição de um lugar. Tal fato, em uma obra de fundação como esta, deve ser lido como um cronotopo, pois esse elemento mobiliza tempo e espaço específicos, contribuindo na composição de sentido da obra.

Ao mobilizar a história misteriosa da cabeça de Tiradentes, o autor traz à tona na narrativa um tempo e um espaço específico, caracterizado por um passado de opressão, vivido em Vila Rica, como Guimarães mesmo narra: “E nessa época de riqueza e opulência, de servilismo e degradação social, no meio da praça principal desta cidade se via uma cabeça humana dessecada, cravada sobre um alto poste. P.7”. É como se a cabeça mobilizasse todo o passado de opressão do Governo e da revolta do século XVIII, vivido não só em Vila Rica, mas também em outras localidades da Colônia portuguesa. E a cabeça do Tiradentes ao atuar como cronotopo nessa obra literária, mobiliza esse tempo e espaço que ela representa, e consegue estabelecer uma relação entre a Inconfidência Mineira e Tiradentes com os leitores, criando vínculos identitários entre esses, tanto na esfera local (Ouro Preto) quanto em uma mais abrangente como o Brasil.

Juntamente a isso, a narrativa é cercada de muito mistério e marcada pela adoração direcionada a cabeça e pelo seu sumiço, o que acaba despertando nos leitores uma curiosidade em relação a essa história e dando à própria cabeça um status de sagrado, e ao aumentar toda a mistificação que há em torno de Tiradentes, consegue envolver os leitores ainda mais.

Diante do que foi dito até agora se pode notar que o apelido de “contador de causos” de Guimarães contribuiu com seu projeto político para a literatura nacional. A obra tratada aqui faz parte desse projeto de se voltar os olhos para o interior do Brasil para ver ali o brasileiro. E, ao tratar, nesta obra, de fatos ligados a um importante evento histórico, ocorrido em Minas Gerais, e que refletiu em todo o território, por meio de uma tradição que já muito conhecida na região de Vila Rica, e elaborar cuidadosamente nessa obra literária os aspectos formais e o cronotopo, Guimarães contribuiu com a criação de vínculos identitários entre os leitores, e organizou o tempo imemorial, e essa obra fazendo parte da cultura histórica do oitocentos, elaborou uma memória e uma história tanto em uma esfera local quanto nacional.


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Fonte:

Gisela Morena de Souza (da Universidade Federal de Ouro Preto): “Entre a lenda e a história: a narrativa em A Cabeça do Tiradentes, de Bernardo Guimarães”. VI Simpósio Nacional de História Cultural Escritas da História: Ver – Sentir – Narrar Universidade Federal do Piauí – UFPI. Disponível em: gthistoriacultural.com.br

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