27/04/14

Noturnas, de Fagundes Varela

Noturnas, de Fagundes Varela
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Varela e o fantástico

Originalmente publicadas em folhetim, As Ruínas da Glória, A Guarida de Pedra e As Bruxas, assim como os contos de horror que em certo momento povoaram a literatura do outro lado do Atlântico, trazem consigo toda a atmosfera sombria e, em boa medida, enigmática que é própria do espírito romântico da chamada segunda fase.

Dessas três obras, pouquíssimo conhecidas hoje em dia, a que, a nosso ver, possui melhor realização no que diz respeito aos mecanismos de manutenção da narrativa fantástica é a primeira.

Nesse conto, podemos perceber alguns elementos que o ligam à tradição das narrativas fantásticas, além de ser também possível encontrar ali outros elementos que permitem reconhecê-lo como uma obra romântica. Afora o estilo próprio dos românticos, com longos períodos, sonoros adjetivos que pululam a todo o momento e com uma linguagem carregada de sentimentalismo característico da escola, esse conto de Fagundes Varela representa, ao lado de outras obras também pouco conhecidas, os primeiros passos, ainda vacilantes, da narrativa fantástica em solo brasileiro. É claro que o próprio fantástico sofreu alterações ao longo do tempo, resultando, no final do século XIX e início do XX, em obras distintas daquelas realizadas nos primórdios do Romantismo europeu, pois, da mesma forma, as expectativas do público leitor sofrem alterações ao longo dos anos, o que se dá, é certo, também por conta das obras que renovam o paradigma, ao mesmo tempo em que seguem uma tradição:

[...] não convém separar a repercussão da obra da sua feitura, pois, sociologicamente ao menos, ela só está acabada no momento em que repercute e atua, porque, sociologicamente, a arte é um sistema simbólico de comunicação inter-humana [...].

Ora, todo processo de comunicação pressupõe um comunicante, no caso o artista; um comunicado, ou seja, a obra; um comunicando, que é o público a que se dirige: graças a isso define-se o quarto elemento, isto é, o seu efeito. (CANDIDO, 2000, p. 21)

Assim, seria necessário refletir a respeito das condições em meio às quais se via
Fagundes Varela para podermos chegar não a um juízo definitivo – noção utópica, senão nociva – de qualquer uma de suas obras, mas nos aproximarmos de uma leitura válida, na medida em que se legitime mediante critérios que levem em consideração os elementos que, em conjunto, elucidam alguns de seus aspectos intrínsecos, da mesma forma que influem em outras obras do gênero ou em outras do mesmo autor.

Caracterizando-se pela divergência, o fantástico porventura teria uma recepção diferente, se comparado aos outros gêneros.

Uma constatação pertinente a ser feita nesse sentido é que, apesar de serem o conto ou a novela formas narrativas nas quais o teor fantástico encontraria terreno mais propício à sua construção – tanto pela questão da manutenção da atmosfera quanto pela intensidade do efeito pretendido –, o elemento fantástico não aparece com tanta frequência nas formas breves como vemos acontecer com outros temas, como o amor ou o heroísmo, os quais também encontramos tanto nos romances como nos poemas do período. Assim, ao contrário do que se poderia imaginar a princípio, o fato de ser a narrativa curta de mais fácil apreensão por parte dos leitores/ouvintes – por não possuir muitos personagens e se concentrar, via de regra, em uma única trama narrativa – não propiciou ao fantástico maior público do que os contos de outra natureza.

Está claro que, por nos concentrarmos no conto, não nos ocuparemos de narrativas de horror que integrem formas maiores, constituindo, pois, episódios que pertenceriam a uma trama complexa à qual estariam subordinadas. Por isso, quando tratarmos dos contos que aqui nos interessam, procuraremos não remeter a obras que se enquadrem numa perspectiva mais abrangente.

Restringindo dessa forma nosso paradigma, é evidente que, principalmente no caso do Brasil, poucas obras poderiam ser compreendidas como representantes do fantástico puro ou em suas variações. Do Romantismo brasileiro, interessam-nos de perto as obras de Álvares de Azevedo e as de Fagundes Varela. As deste, obviamente, por constituírem o objeto de nosso trabalho, e as daquele por terem exercido influência sobre a obra do escritor fluminense. Frisemos, no entanto, que, no tratamento dado à temática, Álvares de Azevedo estava mais ligado a motivos góticos do que Fagundes Varela. Este, certamente, procura situar sua obra ao lado de outras de mesmo teor, isso é o que se pode depreender da leitura de um de seus contos em especial, o já referido As Ruínas da Glória, pois são frequentes as referências ao universo gótico característico de algumas obras do Romantismo alemão.

Um fator que se deve sublinhar nesse contexto é que a narrativa fantástica não gozava do mesmo prestígio entre o público leitor do Brasil do século XIX que lá fora tinham os contos de E. T. A. Hoffmann ou E. A. Poe. Aqui, preferia-se algo mais suave; o aspecto muitas vezes grotesco das narrativas de algumas histórias ia de encontro àquilo que se acostumou a ler durante o período romântico. Outra pequena observação a ser feita é que tais aspectos levariam o leitor a um estranhamento, colocando-o em face de um “mundo alheado”, transformado em algo que escapa à compreensão (KAYSER, 2003, p. 159). A pertinência dessa observação se dá pela íntima relação entre o fantástico e o grotesco, apesar de este não se configurar como elemento essencial. O grotesco, tal qual a essência do fantástico na definição todoroviana, depende de certa atitude por parte do leitor; é preciso que se assine uma espécie de contrato, em que o leitor assume uma postura específica: o grotesco reside na periferia dos dois mundos, no “contraste indissolúvel, sinistro, o que-não-devia-existir” (KAYSER, 2003, p. 61).


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Fonte:
Frederico Santiago da Silva: “A narrativa fantástica de Fagundes Varela”. (Dissertação apresentada à Faculdade de Ciências e Letras de Assis – UNESP – Universidade Estadual Paulista, para a obtenção do título de Mestre em Letras. Orientador: Dr. Luiz Roberto Velloso Cairo). Assis, 2013.

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