13/04/14

Histórias da meia-noite, de Machado de Assis

 Histórias da meia-noite, de Machado de Assis
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A Parasita Azul: Sagacidade relativa

O narrador também participa desse “jogo de enganos”, no qual a conduta utilitária é mascarada por chavões idealizantes. O enigma surge pelo contraponto entre sociedade e instinto, mas nem a identificação nem o contraste poderão dar à personagem a felicidade perseguida.

O narrador afirma que, dentre as moças da cidade, “Isabel era a única esquiva até então” (ASSIS, 1977, p. 65). A única que Camilo ainda não vira depois de chegar.  Mas logo se corrige: “Esquiva não digo bem” (ASSIS, 1977, p. 65). Eis um indício de que há algo para que o leitor descubra, pois a ambiguidade do narrador, a atitude de corrigir-se, não é comum.

Em outra passagem, o narrador novamente hesita, desta vez, sobre a intenção suicida de Camilo. Como observa Gledson (2008, p. 179):

Mesmo o narrador, parece, não sabe se isso é sério ou não, pois mais adiante refere-se ao “suicídio meio executado pelo filho” – um bom exemplo da falta de jeito do ponto de vista narrativo, em um momento negando a tentativa de suicídio por uma ironia desajeitada, em outro, aparentemente aceitando o que é certamente uma mentira.

Por outro lado, o narrador parece ter o poder de definir os rumos da narrativa. “Não há mistérios para um autor que sabe investigar todos os recantos do coração” (ASSIS, 1977b, p. 85). Então, se nada escapa a esse narrador, o leitor pode inferir que ele conhece o segredo de Isabel e que manipula essa informação de maneira a destacar o mistério.

O papel do narrador, neste caso, é mais do que contar a história; ele conduz a narrativa de maneira a sublinhar os aspectos mais relevantes e levar o leitor a tentar ler, nas entrelinhas do texto, o que se passa verdadeiramente entre as personagens. É como se ele fosse o anfitrião do mistério, levando o leitor a encontrar as pistas para desvendá-lo, ou, ainda, é como se fingisse não ter certeza, ou, finalmente, é como se quisesse que o leitor não tivesse certeza das intenções de Isabel. Parece que a real intenção do narrador é criar uma dúvida, já que não há possibilidade de engano ou mistério para quem “sabe investigar”.

Assim como Isabel e Camilo, o narrador de “A parasita azul” também é sagaz, ainda que munido de pouca astúcia, sobretudo, se comparado a narradores de obras posteriores. Ele narra a história da conciliação de dois ardilosos (também em termos, se comparados a personagens posteriores). A sagacidade do narrador, de Isabel e de Camilo parece estar ainda em forma de embrião em “A parasita azul” e, segundo a proposição de Gledson, refina-se e amadurece em obras posteriores, atingindo o ápice em livros como Memórias póstumas de Brás Cubas. O ardil é, no conto, uma tentativa; o mistério, uma novidade.

 “E o contista, também oblíquo e disfarçado, alivia com entremeios romanescos a dose de cálculo que vai disseminando na cabeça dos protagonistas” (BOSI, 1979, p. 120). Por isso, é preciso que o leitor use toda sua sagacidade para ler este conto e decifrar o discurso de Isabel e seus desdobramentos. É o narrador de “A parasita azul”, insatisfeito com os chavões da narrativa romântica tradicional, que avisa da importância dessa postura, ainda que apenas no final do conto: “Um leitor menos sagaz imagina que o namorado ouviu essa narração triste e abatido. Mas o leitor que souber ler adivinha logo que a confidência do desconhecido despertou na alma de Camilo os mais incríveis sobressaltos de alegria” (ASSIS, 1977b, p. 90, grifo nosso). Por isso, é preciso estar atento a detalhes, subentendidos e interditos. Tudo parece estar carregado de mensagens a serem compreendidas pelos leitores mais atentos. O narrador despista, desfaz do jogo de suspense e não satisfaz a curiosidade do leitor. Ele pontua a diferença entre mistério e segredo, conhece o mistério, mas não o revela ao leitor.

Ao final, não é possível afirmar se Isabel realmente acredita que Camilo teria tentado se suicidar ou apenas aceita essa condição para que se realize a conciliação desejada. Para conseguir atingir esse efeito de “dúvida”, as falas de Isabel são escassas e enigmáticas, mesmo quando a moça não fala “por si mesma”, ou seja, quando suas falas são referidas por meio do sonho de Leandro e daquilo que ele informa que ela dissera. Nesses dois casos específicos, a mediação de Leandro leva o leitor a compreender que o comportamento nebuloso de Isabel é tão próprio da personagem que se mostra até mesmo quando um terceiro se refere à fala dela.


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Fonte:

Renata de Albuquerque: “Senhoras de si: o querer e o poder de personagens femininas nos primeiros contos de Machado de Assis”. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Literatura Brasileira, do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para obtenção do título de Mestre em Letras. Orientador: Prof. Dr. Hélio de Seixas Guimarães). São Paulo, 2011. Disponível em: www.teses.usp.br

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