20/04/14

História da Literatura Brasileira, de Sílvio Romero

 História da Literatura Brasileira, de Sílvio Romero
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Sílvio Romero: crítico e historiador da literatura

A obra de Sílvio Romero dá uma certa idéia de turbilhão, no sentido próprio e no figurado. Um movimento forte e agitado, que arrasta idéias e paixões, destruindo pelo caminho; um movimento circular que gira incessantemente sobre si mesmo e progride, parecendo permanecer. Não espanta, portanto, que bem cedo ele tenha parecido aos contemporâneos contraditório, impaciente, injusto, mais apto para a generalização do que para a análise. Alguns juízos a este respeito se fixaram com rapidez no tempo dele e vieram sendo repetidos quase como um ritual crítico pelos que se ocuparam da sua obra, e foram muitos, desde Antônio Herculano de Souza Bandeira, em 1879, passando por Araripe Júnior, José Veríssimo, Oliveira Lima, Capistrano de Abreu, Magalhães de Azeredo, até chegar à arraia bastante miúda dos Laudelino Freire e Fran Paxeco.

Todos tinham e não tinham razão. Ele foi incoerente em muita coisa, a começar pelo grande contraste que parece ter havido entre o seu ameno modo de ser como homem e a sua truculência como escritor. O testemunho dos contemporâneos mostra uma pessoa bonacheirona, de excelente humor, desinteressado, generoso, comunicativo; mas que de pena em punho preferia atacar, desfazer em tudo que o contrariasse, manifestando um ciúme que roçava pela inveja, uma vaidade que tocava na soberba, uma suscetibilidade vizinha da paranóia. No campo das idéias e convicções, não é difícil mostrar que primeiro foi positivista e depois atacou desabridamente o positivismo; que na política de Sergipe desancou um lado e depois se ligou a ele; que considerou Luís Delfino um poetastro e, em seguida, um dos maiores poetas brasileiros; que proclamou Capistrano de Abreu o maior sabedor de História do Brasil e, mais tarde, um medíocre catador de minúcias; que era evolucionista agnóstico e afinal aderiu à Escola da Ciência Social, de raízes católicas, e assim por diante. Não é difícil, ainda, mostrar como fazia e refazia as suas divisões de períodos, os seus catálogos de bons e maus escritores, com a mania classificatória e enumerativa que era um dos seus modos de ver a literatura. Mas a respeito, ele próprio diz o seguinte:

“(...) aí andam os meus livros, publicados no decurso de mais de trinta anos e que devem ser lidos na sua ordem cronológica para se compreender a evolução natural do meu pensamento, que, em filosofia, mudou do positivismo para o evolucionismo spencerista, chamado também por alguns agnosticismo evolucionista, pelo caminho natural do criticismo de Nageli, Du-Bois Reymond e Helmholtz, como tenho cem vezes exposto com a maior lhaneza; que no tocante ao rigorismo da análise, como tenho dito, passou do pessimismo da fase polemística dos primeiros tempos ao período de maturidade crítica iniciado na História da Literatura Brasileira, o que só para quem anda de má-fé, ou nada entende destas coisas, importa em contradição, porque a contradição supõe o choque de dois pensamentos contraditórios num mesmo tempo, ao passo que tudo aquilo vem a ser apenas a normal evolução de um espírito que caminhou, que progrediu.

Por outro lado, seria igualmente fácil mostrar que, no fundo, teve poucas idéias
centrais e lhes foi fiel pela vida afora, - como indicou José Veríssimo, vendo a coisa pelo lado negativo. Que fixou desde moço, com bastante acuidade, algumas obsessões intelectuais que nunca o deixaram. E que até no terreno passional das preferências foi inalteravelmente fiel às duas principais: a tocante, mas despropositada exaltação de Tobias Barreto e a birra obtusa contra Machado de Assis.

Virando contra ele o que costumava fazer com os outros, pode-se, portanto, simplesmente aceitá-lo ou rejeitá-lo em bloco, porque ele tanto irrita quanto desperta admiração: chama a atenção tanto para o que tem de bom quanto para o que tem de mau. Mas atitude correta é não ir na provocação do seu temperamento polêmico; não querer, por exemplo, reduzi-lo às suas contradições nem proclamar a sua perfeita umidade; e sim procurar compreender o seu ritmo de turbilhão.

Na verdade, a contradição era o seu modo próprio de viver o pensamento, tanto
assim que, em vez de paralisá-lo ou fazê-lo voltar atrás, ela o fazia ir para a frente. As suas idéias não se propunham como desenvolvimento linear e conseqüente, mas como vaivém, retomada incessante, tensão de opostos, visão simultânea do verso e do reverso, - o que pode ferir exigências lógica mas enriquece o senso da realidade. Sob este aspecto, havia algo dialético no jogo das suas idéias e opiniões, que, se não chegavam a uma síntese satisfatória, permitiam sempre alguma conclusão interessante, graças ao entrechoque por vezes antinômico mas vivo das proposições, jogadas como pedras.

Se disso vem a sua fraqueza, vem também muito da sua força. Mas é compreensível que os contemporâneos se assustassem com o espetáculo dessa agitação turbilhonar e lhe pedissem contas das idas e vindas, - sobretudo quando eram objeto do impacto. Hoje, é possível sentir quanto podia ser vivo e produtivo esse modo intelectual, porque a seu respeito pode-se falar realmente em movimento de idéias. Movimento de algumas idéias centrais de teor altamente crítico e contundente, reforçadas pela disposição agressiva do seu temperamento. A palavra “ crítica” tinha para ele não apenas um sentido amplo de análise e revisão geral dos valores de toda a cultura, mas também, quase inconscientemente, de força negativa, como se percebe em alguns textos; o de Doutrina contra Doutrina, por exemplo, transcrito adiante, onde se vê claramente, e quase por um ato de automatismo mental, “positivo” se opor a crítico, tomado este, portanto, como “negativo”.

Assim, para ele, o movimento de analisar, compreender e construir não se separava de um movimento simultâneo de destruir; e essa dualidade indissolúvel dá certo cunho revolucionário ao seu pensamento, mesmo quando surgem pela frente as antinomias conservadoras, que também compunham o movimento de ir-e-vir do seu turbilhão.

[...]


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Fonte:

Antonio Cândido: Sílvio Romero: Crítico E Historiador da Literatura. In: Sílvio Romero (1851/1914) - Bibliografia e Estudos Críticos. Centro de Documentação Do Pensamento Brasileiro. Salvador, 1999.

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