19/04/14

Descrição da Ilha de Itaparica, de Manuel de Santa Maria Itaparica

 Descrição da Ilha de Itaparica, de Manuel de Santa Maria Itaparica
Para baixar este livro gratuitamente em formato PDF, acessar o site  do “Projeto Livro Livre”: http://www.projetolivrolivre.com/
(
Download)
Os livros estão em ordem alfabética: AUTOR/TÍTULO (coluna à esquerda) e TÍTULO/AUTOR (coluna à direita).


---

A Desripção da Ilha

O poema Descripção da Ilha de Itaparica vem, na edição príncipe, separado do poema Eustachidos por um frontispício divisório. Só aí se declara ser esta a ilha à qual se fez referência no canto V da narrativa da vida de Santo Eustáquio. As estâncias – oitavas-rimas – vêm numeradas com algarismos romanos de I a LXV. O poema, portanto, possui 520 versos. Antecedendo à primeira estrofe vem, à maneira de subtítulo, a expressão “Canto Heróico”. Essa designação diz respeito ao fato de os versos empregados na descrição seguirem o mesmo padrão do poema épico que a antecede – são versos decassílabos, em sua maior parte heróicos.

Começa o texto, como de praxe, pela proposição: diz o poeta que cantará em “heróico verso, e sonoroso” a sua pátria. Movido de “ânimo heróico, peito generoso”, faz uma apóstrofe ao leitor, argumentando que, por pior que seja o local de nascimento, não deve ninguém negar seu berço. Ele menciona lugares como o Ponto, a Líbia ardente, os Alpes gelados, o Etna comburente e o Píndaso – para dizer em seguida: “Nunca queiras Leitor, ser delinquente, / Negando a tua Pátria verdadeira”. A referência ao Píndaso ocorre em Camões (2002, v.III, p.257), na Écloga V, que começa pelo verso “A quem darei queixumes namorados”, em versos nada elogiosos ao lugar:

“Ou tu do monte Píndaso és nascida,
ou mármore te pariu, fermosa e dura:
que não pode ser seja concebida
dureza tal de humana criatura;
ou és quiçais em pedra convertida,
ou tens de natureza tal ventura;
porém não fez em ti boa impressão
tornar-te só de mármore o coração.

Pode-se inferir da queixa do pastor, na écloga, que o Píndaso não era lugar de se elogiar – exceto por seus naturais, já que ao elogio da pátria estão todos obrigados.

Segue-se, na terceira estância, a invocação à musa, com referência ao monte Hélicon, habitado por musas, onde ficavam as fontes Aganipe e Hipocrene, cujas águas conferiam inspiração poética a quem delas bebesse. Diferentemente da invocação que dá início ao poema Eustachidos, a referência na “Descrição da Ilha” é exclusivamente mitológica; naquele poema, para atender à natureza católica do assunto, eram invocados Deus Onipotente e a Virgem Maria. A esta, pede o poeta: “Sede a minha Calíope”.

Começa a descrição pela localização geográfica e pelo elogio mitológico da ilha e suas praias – estâncias IV a VIII. A situação geográfica da ilha é precedida de um rápido retrospecto histórico da descoberta do Brasil por Pedro Álvares Cabral. No recôncavo, situa-se Itaparica em frente à cidade da Bahia. Para descrevê-la, vale-se o poeta da mitologia: o mar que a rodeia é referido como abraço de Netuno, a formosura do lugar faria Citeréia trocar por ela a sua Chipre, e por suas praias de areia branca passeiam Galatéia e seu cortejo. A idéia de que Citeréia trocaria Chipre por Itaparica é, conforme aponta Sérgio Buarque de Holanda, (1991, p.54-55) apropriação de Manuel Botelho de Oliveira, que, no elogio à sua ilha da Maré, escrevera: “E se algum tempo Citeréia a achara, / Por esta sua Chipre desprezara” (OLIVEIRA, 1953, t.I, p.136).

Em seguida, volta-se o poema para as coisas do mar, o entorno da ilha, mencionando os pescados, os mariscos e a atividade dos pescadores – estrofes IX a XV. O poeta descreve o exercício da pesca, os artefatos usados nessa atividade – os saveiros, a rede, a tarrafa –; ressalta os perigos do mar – “E quando Áquilo, e Bóreas proceloso / Com fúria os acomete, eles ligeiros...” –; e compara os peixes na rede à mosca presa na teia da aranha. A influência de Botelho é evidente, como se pode constatar pelos seguintes versos

   IX.
“Aqui se cria o peixe copioso,
E os vastos pescadores em saveiros” (1- 2)

   XIII.
“Em canoas também de quando em quando
Fisgão no anzol alguns, que por golosos
Ficão perdendo aqui as próprias vidas,” (,5-7)

   XIV
Aqui se acha o marisco saboroso” ( 1)

   XIV
Em tudo cede aos polvos radiantes” ( 8),

quando comparados aos seguintes, do poema À Ilha da Maré:
  
“Aqui se cria o peixe regalado” (...)
“E os pobres pescadores em saveiros

(...)

Outros no anzol fiados
Têm aos míseros peixes enganados,
Que sempre da vil isca cobiçosos
Perdem a própria vida por gulosos”.
“Não falta aqui marisco saboroso
Para tirar fastio ao melindroso;
Os Polvos radiantes...” (OLIVEIRA, 2005, p. 128)

Parte importante do poema, que pode ser considerada seu núcleo, é dedicada à pesca da baleia – estrofes XVI a XLI. É nesse trecho que Itaparica imprime um tom peculiar ao poema. Ele começa essa parte retomando o episódio bíblico em que Jonas é engolido e depois vomitado por uma baleia. Após descrevê-la através de metáforas, o poeta a nomeia e afirma que esse mamífero “só a esta Ilha se sujeita” (XVIII, 2) – o que, para Coutinho (1968, p. 189), marca a intenção de assinalar um privilégio “de que não poderia louvar-se a Ilha de Maré” de Botelho de Oliveira. Nesse ponto, o poema, que tem descrição no nome, torna-se uma narrativa. A pesca inicia-se quando o vento traz a baleia para as proximidades da costa. Para alcançá-la, os pescadores, que são negros e mestiços, utilizam-se de lanchas leves e veleiros. Os instrumentos usados para a pesca são o arpão, lanças e cordas. A narrativa avança e são assinalados alguns contrastes, como a pequenez do homem diante da imensidão do mar e da monstruosidade da baleia:

   XXI.
Assim partem intrépidos sulcando
Os palácios da linda Panopea,
Com cuidado solícito vigiando
Onde ressurge a sólida Balea.
Oh gente, que furor tão execrando
A um perigo tal te sentencea?
Como pequeno bicho és atrevido
Contra o monstro do mar mais desmedido? (grifo nosso)

Os versos grifados lembram Camões: “Onde pode acolher-se um fraco humano, / Onde terá segura a curta vida, / Que não se arme e se indigne o Céu sereno / Contra um bicho da terra tão pequeno?” (Lusíadas, I, 106.)

Após a admoestação sobre os perigos enfrentados pelos pescadores e de algumas referências mitológicas, a pesca da baleia é narrada. Os homens seguem o cetáceo com cautela até que, quando estão bem próximos, um pescador, da proa, lança o arpão, ferindo-o. O animal nada velozmente, tendo a lancha presa em si pela corda do arpão, até se render aos repetidos golpes de lança. Depois de morta a baleia, um pescador salta ao mar e prende sua boca para que não se encha de água, até que seja rebocada para a praia. Logo após, lançam um sinal e outra lancha se aproxima para ajudar a puxar o cetáceo. Ao chegarem à praia, a baleia é içada através de uma “trusátil máquina”, que Itaparica descreve como sendo um sistema simples de roldanas, mas potente o suficiente para rebocar o enorme peso. Quando a baleia é depositada na praia, muitas pessoas se aproximam e os negros retalham-na. Sua banha é transformada em azeite, conforme se lê nestes versos:

   XL.
Em vasos de metal largos, e fundos
O estão com fortes chamas derretendo
De uns pedaços pequenos, e fecundos,
Que o fluido licor vão escorrendo:
São uns feios Etíopes, e imundos,
Os que estão este ofício vil fazendo,
Cujos membros de azeite andam untados,
Daquelas cirandagens salpicados.

Esse trecho também é recheado de alusões a passagens bíblicas. Quando o animal é ferido e o sangue tinge parte das águas, o poeta compara o mar de Itaparica ao famoso Mar Vermelho:

   XXIX.
Do golpe sae de sangue uma espadana,
Que vai tingindo o Oceano ambiente,
Com o qual se quebranta a fúria insana
Daquele horrível peixe, ou besta ingente;
E sem que pela plaga Americana
Passado tenha de Israel a gente,
A experiência, e vista certifica,
Que é o mar vermelho o mar de Itaparica.

Também o mito bíblico da Torre de Babel é citado no poema, quando é descrita a multidão que rodeia a baleia na praia:

   XXXVIII.
Qual em Babel o povo, que atrevido
Tentou subir ao Olimpo transparente,
Cujo idioma próprio pervertido
Foi numa confusão balbuciente,
Tal nesta torre, ou monstro desmedido
Levanta as vozes a confusa gente,
Que seguindo cad’um diverso dogma
Falar parece então noutro idioma.

Alguns autores chamaram a atenção para essa parte do poema – que trata da caça à baleia. Paes e Moisés (1980, p. 200) consideram o trecho da pesca como um dos mais interessantes. José Veríssimo (1969, p.72) cita a parte de preparação do azeite, que é feita pelos negros, e chama a atenção para a palavra “cirandagens”, que, de acordo com ele, foi “desviada do seu sentido vernáculo (= sarandalha) alimpaduras que se apartam cirandando (joeirando) e se lançam fora, tem já a acepção brasileira de restos imprestáveis, imundície miúda, guloseimas vis”. Para Coutinho (1968, p. 189) esse trecho da pesca é o mais pessoal.

Nesta monografia, três itens dessa parte do poema serão analisados: o realismo, a presença do trabalho e do negro.

Pode-se afirmar que todo o episódio da pesca da baleia é narrado minuciosamente, com um realismo impressionante. Para demonstrar essa afirmação, serão comparados trechos do poema com os estudos sobre a pesca da baleia no Brasil feitos por Myriam Ellis no seu livro A baleia no Brasil colonial. A precisão demonstrada por Itaparica está presente até na época do ano em que se praticava a pesca. De acordo com Ellis (1969, p 40) a temporada da pesca iniciava-se no dia de Santo Antônio ou de São João Batista, e a abundância da pesca dependeria de como soprariam os ventos do sul. É possível encontrar essa mesma informação nestes versos: “Tanto que chega o tempo decretado / Que este peixe do vento Austro é movido”. (XIX, 1-2) Ellis (1969) informa que os tipos de embarcação usados eram as lanchas baleeiras, saveiros e canoas, sendo que as lanchas eram caracterizadas pelo mastro e verga, vela de brim, algodão ou aniagem, fateixas e remos. A descrição das lanchas, que consta do poema, é equivalente: “E de todo preciso prevenido, / Estão umas lanchas leves, e veleiras, / Que se fazem cos remos mais ligeiras” (XIX, 6-8). De acordo com Ellis (1969, p.114-115), a tripulação compunha-se de seis remeiros, arpoador e timoneiro ou patrão do barco. O arpoador ficava no castelo da proa a vigiar a baleia e a controlar o mestre do leme com sua voz e gestos. A perseguição ao animal era exaustiva, exigindo, muitas vezes, ininterruptas horas de atividades, e cabia o arpoamento à lancha que mais se aproximasse do cetáceo. Ellis (1969, p-116-117) afirma que o espetáculo era empolgante: a caça a negacear e a frágil embarcação em evoluções, a segui-la, a cerca-la e a buscar posições para o ataque. Na proa, o arpoador de pernas afastadas como as pontas de um forcado, arpão em punho, aguardava o momento de, com uma ou ambas mãos, lançar o ferro e alvejar a presa. Difícil operação a exigir energia e destreza, golpe de vista, precisão, posto que o arpão teria que varar uma camada de toicinho de 20 a 50 centímetros de espessura, penetrar e cravar na carne de um animal dotado de vivacidade, vigor e ligeireza.

Assim que a baleia estivesse a uns 6 ou 8 metros da embarcação, o arpoador lançava o ferro no dorso do animal, que ficava preso à embarcação através da ostaxa, se espadanava e estrebuchava de dor e susto, e nadava mar afora à velocidade de 500 a 900 metros por minuto. Tudo isso pode ser constatado através dos seguintes versos de Itaparica:

   XXIV.
Mas enquanto com isto me detenho,
O temerário risco admoestando,
Eles de cima do ligeiro lenho
Vão a Balea horrível avistando:
Pegam nos remos com forçoso empenho,
E todos juntos com furor remando
A seguem por detrás com tal cautela,
Que imperceptíveis chegam junto dela.

   XXV.
O arpão farpado tem nas mãos suspenso
Um, que da proa o vai arremessando,
Todos os mais deixando o remo extenso
Se vão na lancha súbito deitando;
E depois, que ferido o peixe imenso
O veloz curso vai continuando,
Surge cad’um com fúria, e força tanta,
Que como um Anteo forte se levanta.

   XXVI.
Corre o monstro com tal ferocidade,
Que vai partindo o úmido Elemento,
E lá do pego na concavidade
Parece mostra Tétis sentimento:
Leva a lancha com tal velocidade,
E com tão apressado movimento,
Que cá de longe apenas aparece,
Sem que em alguma parte se escondesse.

   XXVII.
Qual o ligeiro pássaro amarrado
Com um fio subtil, em cuja ponta
Vai um papel pequeno pendurado,
Voa veloz sentindo aquela afronta,
E apenas o papel, que vai atado
Se vê pela presteza, com que monta,
Tal o peixe afrontado vai correndo
Em seus membros atada a lancha tendo.

   XXVIII.
Depois, que com o curso dilatado
Algum tanto já vai desfalecendo,
Eles então, com força, e com cuidado,
A corda pouco a pouco vão colhendo;
E tanto que se sente mais chegado
Ainda com fúria os mares combatendo,
Nos membros moles lhe abre uma rotura
Um novo Aquiles c’ũa lança dura.

Ellis (1969, p. 40) continua sua descrição, referindo-se às pessoas que se aglomeravam na praia para assistir à caça e aguardar o reboque do animal – que dependia, além das ferramentas, de eventos naturais como maré, vento, etc. A bandeirinha branca era o sinal da vitória dos pescadores sobre a baleia. Quando ela era içada, uma baleeira ia ao encontro dos pescadores levando

um cabo gurnido a cabrestante e que, enfiado no orifício aberto no bufador da baleia a reboqueava até a praia ou até um dos trapiches que avançavam mar adentro. Acionado o engenho- às vezes eram dois ou três – á ação do braço escravo, era a baleia içada vagarosamente fora d’água, aproveitado o impulso da maré, sem o qual inútil seria o forcejar do cabrestante a ranger e a retesar a corda ligada à massa inerte de toicinho e carne de dez, quinze, vinte ou mais toneladas. Guindastes completavam a tarefa de retirar da água o gigante. (ELLIS, 1969, p. 120)

Nada disso faltou ao espírito observador de Itaparica:

E o poeta continua: 

   XXXII
Tanto que a presa tem bem sojugada
Um signal branco lançam victoriosos,
E outra lancha para isto decretada
Vem socorrer com cabos mais forçosos:
Uma, e outra se parte emparelhada,
Indo a vela, ou cos remos furiosos,
E pelo mar serenas navegando
Para terra se vão endireitando.

   XXXIII
Cada um se mostra no remar constante,
Se lhe não tem o Zéfiro assoprado,
E com fadigas, e suor bastante
Vem a tomar o porto desejado.
Deste em espaço não muito distante,
Em o terreno mais acomodado
Uma Trusátil máquina está posta
Só para esta função aqui deposta. 

   XXXVII
O povo, que se ajunta é infinito,
E ali tem muitos sua dignidade,
Os outros vêm do Comarcão destrito,
E despovoam parte da Cidade:
Retumba o ar com o contínuo grito,
Soa das penhas a concavidade,
E entre eles todos tal furor se accende,
Que às vezes um ao outro não se entende.

Em relação à fabricação do azeite, é importante frisar que esse produto era muito importante na economia doméstica colonial. Era usado no preparo de sabão, na iluminação pública, na construção civil, dentre outros usos (ELLIS, 1969, p. 122). Em relação à sua fabricação, escreve a autora:

Descarregadas as enormes lascas de toicinho na oficina do açougue da fábrica de beneficiar o azeite, cortadores e picadores armados de facões que manobravam em cepos de madeira, reduziam-no a postas e depois a nacos de um quilo mais ou menos. Á medida que o picavam, removiam-no ao compartimento anexo, a oficina das fornalhas, onde fundia durante dez ou doze horas, em enorme tachos – caldeiras – de cobre ou ferro – de 50 ou mais arrobas as maiores – ao fogo contínuo e crepitante que luzia sob as grelhas.  

Itaparica resumiu o trabalho de feitura do azeite de forma surpreendente:

   XXXIX
Desta maneira o peixe se reparte
Por toda aquela cobiçosa gente,
Cabendo a cada qual aquela parte,
Que lhe foi consignada do regente:
As banhas todas se depõem à parte,
Que juntas formam um acervo ingente,
Das quaes se faz azeite em grande cópia,
Do que esta Terra não padece inópia.

   XL
Em vasos de metal largos, e fundos
O estão com fortes chamas derretendo
De uns pedaços pequenos, e fecundos,
Que o fluido licor vão escorrendo:
São uns feios Etíopes, e imundos,
Os que estão este ofício vil fazendo,
Cujos membros de azeite andam untados,
Daquelas cirandagens salpicados.

O realismo presente nessa parte do poema não se restringe apenas à pesca em si. A pena de Itaparica não parou nem diante de temas tabus durante muito tempo na literatura brasileira: o trabalho manual e o negro. Ambos, durante alguns séculos, foram simplesmente apagados dos textos literários. Ora, para se falar em trabalho, necessário era se falar nos negros que, como afirmou Antonil (1968, p.120) “Os escravos são as  mãos & os pés do senhor do engenho, porque sem elles não he possível fazer, conservar & aumentar fazenda, nem ter engenho corrente”. Como houve, durante muito tempo no Brasil, a tentativa de se apagar a memória e a importância dos negros no contexto econômico e social brasileiro, o silêncio foi a arma escolhida. Basta, também, lembrar que Rui Barbosa, ao tempo da abolição da escravatura, mandou queimar todos os documentos relativos à entrada de escravos no Brasil, para apagar os negros da história brasileira. A literatura, que está sempre relacionada à sociedade em que é produzida, o mesmo modo, ignorou os negros. O negro começou a aparecer em textos literários, com mais freqüência, apenas no final do Romantismo. A primeira personagem negra (mas que tinha todos os traços de uma européia) foi a Isaura do romance A Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães. Antes, porém, aparece, também, um negro  idealizado, o Quitúbia, de José Basílio da Gama (PICCHIO, 1977, p. 34). O negro “real” começará a ter relevo na literatura apenas a partir de Castro Alves, no final do século XIX. Afirma Picchio (1977, p. 33): “A transposição literária é lenta e só ocorre por conscientização social”. Entretanto no século XVIII, Itaparica aparece como uma voz dissonante e a frente de seu tempo em relação ao binômio trabalho/negro. Na Descripção da Ilha de Itaparica... estão os dois: trabalho e negro retratados sem idealização, sem juízo de valor. Quem enfrenta os mares para pescar a enorme e perigosa baleia é o negro e o mestiço, quem transforma a banha em azeite através de um árduo trabalho são os negros. Nesse aspecto, o poema tem um ar moderno, realista, que não se encontra em seus contemporâneos e que outros escritores posteriores como os primeiros românticos não conheceram. Essa característica peculiar da obra itaparicana não se poderia omitir neste trabalho.

Após o episódio da caça à baleia, o poeta retoma a descrição da ilha – estâncias XLII a LXIV –, agora em focalização mais aproximada, referindo-se à arquitetura (um forte e ruínas de um engenho de açúcar), às águas e suas fontes, ao relevo, aos animais que aí se criam, às flores (açucena, bonina, cravo e jasmim), às frutas (uva, coco, banana, limão, laranja, romã, melão, melancia, figo, ananás, jaca, caju, castanha, araçá, oiti, cajá, pitanga e maracujá), aos alimentos (mandioca, inhame, fava, cará, batata, milho, arroz e mangará) e, de um modo abrangente, à vegetação e às aves. Logo após comentar sobre as ruínas de um forte, o poeta na estrofe seguinte ressalta que na Ilha de Itaparica não há engenho de açúcar:

   XLIII
Não há nesta Ilha engenho fabricado
Dos que o açúcar fazem saboroso,
Porque um, que ainda estava levantado
Fez nele o seu ofício o tempo iroso:
Outros houve também, que o duro fado
Por terra pôs cruel, e rigoroso,
E ainda hoje um, que foi mais soberano
Pendura as cinzas por painel Troiano.

Quando ele faz essa afirmação, está dialogando com o poema À Ilha da Maré, visto que, nessa silva, Oliveira (2005, p. 135-136) dedica alguns versos a um próspero engenho:

Nesta ilha está muito ledo, e mui viçoso
Um Engenho famoso,
Que quando quis o fado antiguamente
Era rei dos engenhos preminente,
E quando Holanda pérfida, e nociva
O queimou, renasceu qual fênix viva.

Há, também, muitas outras referências ao poema de Botelho de Oliveira.

Quando são descritas as frutas, percebe-se nitidamente a influência da silva nos versos itaparicanos, como se pode constatar através dos seguintes exemplos: “As frutas se produzem copiosas, / De várias castas e várias cores, / Umas se estimam muito por cheirosas (XLVII)”, quando comparados a estes, da silva À Ilha da Maré:

“As fruitas se produzem copiosas,
E são tão deleitosas,
Que como junto ao mar o sítio é posto,
Lhes dá salgado o mar o sal do gosto” (OLIVEIRA, 2005, p.129).

Em relação à descrição das uvas, podem-se apontar dois intertextos: o primeiro é a silva e o segundo são textos dos primeiros cronistas coloniais que deram notícias sobre o Brasil. O ponto em comum é o fato de ambos afirmarem que em território brasileiro as uvas produziam duas vezes por ano. Seguem os trechos, sendo o primeiro de Santa Maria Itaparica:

   XLVIII
Entre elas todas têm lugar subido
As uvas doces, que esta Terra cria,
De tal sorte, que em número crescido
Participa de muitas a Bahia:
Este fruto se gera apetecido
Duas vezes no ano sem profia,
E por isso é do povo celebrado,
E em toda a parte sempre nomeado.

O segundo é de Manuel Botelho (2005, 130):

As uvas moscatéis são tão gostosas,
Tão raras, tão mimosas,
Que se Lisboa as vira, imaginara
Que alguém dos seus pomares as furtara;
Delas a produção por copiosas
Parece milagrosa,
Porque dando em um ano duas vezes,
Geram dois partos, sempre, em doze meses.

O terceiro trecho vem de uma carta, de 1549, do Padre Manuel da Nóbrega (2006, p. 32), da Companhia de Jesus:“Há nela diversas frutas de que comem os da terra, ainda que não sejam boas como as daí, as quais creio que dariam aqui, se se plantassem. Porque vejo dar-se parreiras, uvas até duas vezes por ano (...)”.

Fecha-se a descrição com a referência pormenorizada à divisão da ilha em duas grandes Freguesias (a da matriz dedicada ao Redentor e a de Santo Amaro), passando daí às capelas (São Lourenço, duas de São João, Senhora do Bom Despacho, Santo Antônio, Nossa Senhora das Mercês, Senhora da Penha e São José). Essa descrição casa perfeitamente com o relato de Pitta (1950) sobre a ilha: “Tem duas magníficas igrejas paroquiais, outros formosos templos e boas capelas particulares; teve alguns engenhos, que já não existem mais, mas permanecem outras fazendas de grande rendimento e muitas casas de sumptuosa arquitectura”.

Por fim, no epílogo, diz o poeta: “Não usei termos de Poeta experto, / Fui historiador em tudo certo.” – estrofe LXV. É interessante comentar um detalhe sobre esses versos finais. De acordo com Moisés (1985, p. 128) a denominação “poeta esperto” (sic) faz uma referência negativa aos metrificadores gongóricos – o que, para esse autor, faz com que a poesia de Itaparica seja anunciadora do Arcadismo e indique a superação do Barroco. Esse argumento, que interpreta “esperto” (sic) como “perspicaz, sagaz”, atribui ao poeta uma intenção crítica que não reconhecemos em seus versos – “esperto”, na verdade, tem no verso, o sentido de “especialista, que tem por fundamento sua própria experiência”.


---
Fonte:
Gracinéa Imaculada Oliveira: “Descripção da ilha de Itaparica, termo da cidade da Bahia, da qual se faz menção no canto quinto, de Frei Manuel de Santa Maria Itaparica: edição interpretativa e estudo.” (Monografia apresentada ao curso de Letras da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial para obtenção do Grau de Bacharel em Letras – Português. Orientador: Prof. Dr. José Américo de Miranda Barros). Belo Horizonte, 2007

Nenhum comentário:

Postar um comentário