15/03/14

Poemas de Fagundes Varella

 Poemas de Fagundes Varella
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Fagundes Varella, a imprensa e o comércio literário

Varella colaborou na redação do Correio Paulistano durante dois anos, retomando a carreira de poeta em 1869, com os livros Cantos Meridionais e Cantos do ermo e da cidade. Uso o termo “carreira”, na medida em que Varella pode ser considerado uma espécie de escritor em processo de profissionalização. Trata-se, na verdade, de uma gênese do comércio literário em São Paulo, que contou com a participação do escritor: desde 1861, Varella esteve envolvido com uma espécie de mercado literário, pois publicou um primeiro livro de poesias intitulado Noturnas (1861), editado e comercializado pela Tipografia Imparcial, dos donos do Correio Paulistano; depois saíram Vozes d’América (1862), O Estandarte Auriverde (1863), ambos pela Tipografia Imparcial, e Cantos e Fantasias (1864), pela Casa Garraux. A título de ilustração, devo dizer que Vozes d’América e Cantos de Fantasias foram recebidos pela crítica de Machado de Assis, que naquele momento ainda não era um escritor conhecido no Rio de Janeiro e, portanto, sua crítica não implicou uma espécie de consagração do escritor, embora represente uma testemunha de leitura de sua poesia, assunto para outro trabalho.

Partindo dessas ponderações, podemos afirmar que Varella teve sua obra poética gestada dentro e fora da faculdade e também na capital do Império, com Machado de Assis; entretanto, isso não pareceu suficiente para evitar sua saída do corpo acadêmico e a entrada na redação do jornal por motivos que precisamos conhecer: a mudança de capital simbólico decorreu de problemas financeiros e pessoais que o poeta vivenciou na época, o que o particulariza em relação a outros jovens brasileiros oriundos da elite: nem casamento rico, nem uma carreira no funcionalismo público; Varella passou muito longe das expectativas dos círculos dirigentes para rapazes teoricamente como ele, mesmo tendo adotado o ethos do novato e do bacharel.

Sua trajetória é bastante peculiar e para apresentá-la tomarei como ponto de partida aquilo que Marisa Lajolo e Regina Zilberman escreveram especificamente sobre ele: escritor romântico, tal como ocorreu com Garret, não teria experimentado a dificuldade de viver cotidianamente com pouco dinheiro, bem como nunca teria dependido de sua produção literária para sobreviver. Pensando nisso, até concordo que em alguns momentos de sua poesia e em diversos contos fantásticos a condição de poeta maldito e desafortunado – tanto na voz do eu lírico quanto na do narrador – não passa de figuras imaginárias sobre a pobreza e a banalização da poesia, que permitem compreender Varella ou outros escritores de sua época na chave interpretativa das tópicas literárias. Se nos voltarmos para sua biografia e fizermos algumas mediações necessárias, contudo, veremos que a publicação de seus livros de poesia e seu envolvimento na imprensa paulistana podem estar relacionados à sua dificuldade de sobreviver.

Entre 1859 (quando se matricula no curso preparatório da Faculdade) e 1862, Varella torna-se conhecido entre os estudantes, visto que colabora em diversas revistas acadêmicas, entre elas a Revista Dramática e a Revista da Associação Recreio Instructivo, já destacadas, e publica seu primeiro volume de poesia (Noturnas) pela tipografia dos donos do Correio Paulistano, no qual também saem seus contos fantásticos citados anteriormente. O ano de 1861 é marcado, além de sua estreia literária, pela entrada na vida adulta, pois Varella pede autorização para seu pai – o Sr. Emiliano Fagundes Varella – para se casar com Alice Guilhermina, filha de um dono de circo (Circo Equestre Ginástico) em temporada na capital da província. Com Alice muda-se junto com o circo para Sorocaba, perde o primeiro ano de faculdade, mas retorna no seguinte para o curso em São Paulo, com Alice grávida de três meses. Não tendo dinheiro para manter a vida de casado, como despesas para o aluguel, são despejados dos inúmeros endereços que alugaram na cidade. Levado pela dificuldade de sobreviver e de sustentar a família, Varella põe-se a escrever e tenta publicar mais um volume de poemas. Estamos em 1862 e sai pela Tipografia Imparcial O Estandarte Auriverde, cujos rendimentos chegam à casa dos quinhentos réis o exemplar. Entretanto, essa quantia parece insuficiente, tanto que nos contam os biógrafos que Varella e Alice, prestes a ganhar o bebê, vivem à custa dos amigos, dividindo espaços em repúblicas de outros estudantes, contando com a solidariedade dos colegas da faculdade. O resultado é que Emiliano, filho de Fagundes Varella, nasce e acaba morrendo três meses depois por causa das condições adversas em que se encontravam o poeta e a esposa, impossibilitados estruturalmente, e talvez emocionalmente (por conta da juventude), de criar o filho recém-nascido. A dor é inevitável e, somada às condições precárias de existência, obriga Varella a momentaneamente deixar São Paulo e buscar abrigo na casa dos pais em Rio Claro, província do Rio de Janeiro. Ele, a esposa e seus pais vivem juntos até meados de 1864, quando o Correio Paulistano anuncia a publicação de mais um livro de poesia de Varella (Vozes da América) – nesse livro, o leitor paulistano encontraria um sublime poema sobre a perda de um filho, “Cântico do Calvário”, enquanto o escritor expressaria seu luto e ganharia um pouco de dinheiro. E foi em meio a essa tragédia e à tentativa de sobreviver através da literatura que Varella escreveu uma peça teatral cômica, 39 Pontos, e decidiu abandonar São Paulo e a esposa, para se recuperar em Recife, para onde se transferiu a fim de cursar o terceiro ano da Faculdade de Direito, possivelmente com as economias obtidas com a venda do livro e rendimentos oferecidos pelos seus pais. Mas na Província de Pernambuco as adversidades continuaram acompanhando o estudante-escritor: apesar dos novos amigos e conhecidos, como o futuro poeta Castro Alves, Varella nãoconseguiu cursar as matérias da faculdade e foi surpreendido pela triste notícia de que sua esposa havia falecido. Decidiu, então, deixar Recife e voltar para São Paulo, onde publicou mais um livro de poesias, Cantos e Fantasias, cujos direitos autorais pertenceriam à Casa Garraux e Varella receberia por isso a quantia de 225$000 réis.

Estamos em 1865. Depois disso Varella desaparece do cenário da poesia e da faculdade, retornando à cena paulistana no ano seguinte com alguns poemas publicados durante o primeiro semestre na Revista da Associação Tributo às Letras (São Paulo, 30 de abril de 1866, nº. 7). Entre eles, “Nina” era uma espécie de homenagem a Alice, sua esposa recém-falecida. Depois de repassar sua última grande perda, Varella publica outros poemas nessa mesma revista e um intitulado “Estâncias” (Da esperança e da luz no temploaugusto), uma espécie de saudação a Francisco Policarpo de Oliveira, na ocasião do seu aniversário de 13 anos. Esse panegírico, publicado no Correio Paulistano no dia 28 de junho de 1866, não deixa de ser uma encomenda, um serviço; um sintoma daquilo que o poeta estaria prestes a viver: a “obrigação” de escrever a crônica de domingo no Correio Paulistano – com a diferença de que essa obrigação do dia parece estar fundada não nas prebendas de Alencar, mas em relações tipográficas, marcadas pelo dinheiro e pela necessidade de sobreviver.

Tendo em vista essa existência marcada por tantas adversidades, consideramos que o abandono do curso jurídico e a dificuldade de viver levaram Varella não somente a colaborar na redação do jornal Correio Paulistano, como a aceitar a pena de cronista no lugar de poeta do corpo acadêmico; aliás, não havia espaço no Correio Paulistano, em 1866, para sua poesia. Na verdade, antes disso o escritor até colaborava nas colunas do jornal, seus contos fantásticos dão notícia disso. A situação, no entanto, é outra, haja vista que Varella não é mais estudante da Faculdade de Direito e sua participação na redação do jornal denota a necessidade de trabalho para sobreviver. Não tenho nenhuma notícia dos rendimentos que pôde ter obtido, mas imagino que existiram e tiveram influência sobre o escritor: primeiramente porque, desde 1861, Varella, por suas experiências pessoais e literárias, prenuncia o valor que o dinheiro assumia para ele. Exemplo disso é o contrato de venda de Cantos e Fantasias: Varella abdicou durante seis anos de ter qualquer controle sobre a edição do livro. E não somente isso: segundo Marisa Midori, Garraux não somente adquiria o direito de editar um livro, sem limite de edição e tiragem, como podia ceder ou vender o direito de publicação sem o aval do escritor. Trata-se de uma situação de quase indigência, comenta Midori; entretanto, sabemos em que circunstâncias ela surgiu: na verdade, esse desespero do escritor em arrumar dinheiro é um forte indício da necessidade de sobrevivência e a busca por um espaço na redação do único jornal diário da província de São Paulo. Nesse sentido, concordamos com Marisa Midori sobre a fragilidade do sistema literário brasileiro em não permitir que os escritores conseguissem sobreviver de suas obras, através do seu público, submetendo-se a situações bastante precárias. Contudo, é preciso dizer também que, dentro desse sistema literário brasileiro precário, alguns escritores desenvolveram as estratégias mais diversas para continuar produzindo literatura, encontrando, quase sempre na imprensa periódica, a saída para a sua produção literária. Isso aconteceu com Manuel Antonio de Almeida, com Fagundes Varella e provavelmente com muitos outros escritores: o folhetim de domingo parecia ser um espaço de sobrevivência e consagração, na falta de um público literário autônomo que pudesse gestar a literatura desses escritores; porém, mais do que reconhecer um sistema literário precário, cabe à sociologia evidenciar quais estratégias pessoais e literárias eles escolheram para sobreviver e lidar com isso: Almeida recorreria aos amigos, conforme vimos nas cartas, enquanto Varella apelou para a redação do jornal de um conhecido seu, o Sr. Azevedo Marques, dono do Correio Paulistano e o primeiro tipógrafo a imprimir seu volume inaugural de poesia.

Para finalizar, quero lembrar que desde 1850 a província de São Paulo vinha passando por uma série de pequenas e lentas mudanças do ponto de vista do ambiente cultural. Além de algumas livrarias (as de Fernandes Souza, de Gravesnes e de Torres de Oliveira), existiam três gráficas, que não eram editoras, mas que imprimiam alguns livros, como aconteceu com a gráfica do jornal Correio Paulistano, a qual imprimiu os três primeiros livros de poesia de Fagundes Varella – Noturnas (1861); Estandarte Auriverde (1863) e Vozes da América (1864), entre outros escritores de São Paulo. Sobre as gráficas eram elas: A Liberal, anos mais tarde com o novo nome de Typografia Imparcial (e não “Imperial”, conforme cita Hallewell), de Azevedo Marques; Typografia Dous de Dezembro, de Antônio Lousada Antunes, e Typografia Litteraria.

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Fonte:
Alexandro Henrique Paixão: “Elementos constitutivos para o estudo do público literário no Rio de Janeiro e em São Paulo no Segundo Reinado”. (Tese apresentada ao programa de Pós-Graduação em Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para a obtenção do  título de Doutor em Sociologia.  Orientador: Prof. Dr. Leopoldo Waizbort). São Paulo, 2012.

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