02/03/14

O Turbilhão, de Coelho Neto

 O Turbilhão, de Coelho Neto
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Entre dois modus vivendi: arcaísmo e modernidade em Turbilhão

Interessante notar que o enredo de Turbilhão frustra, em certo sentido, as expectativas do leitor que espera ver, no romance, a transposição do que, na maioria dos casos, ocorre com as moças que, àquele tempo, resolviam traçar os rumos do seu destino fora da rotina do casamento ou da vida religiosa. Nesse sentido, até certo ponto, Violante, na medida em que é caracterizada como uma moça bela e tola, sonhadora, que passava os dias sorridente, debruçada à janela, configura-se, aparentemente, como uma moça que se dará mal após ter fugido com um homem, pois seria desvirginada e perderia, assim, a honra e o respeito. Engano: ela não fugira por amor, mas por um desejo de ascensão socioeconômica e por uma sede de liberdade, de ser dona de seu destino, mesmo que a contrapartida disso fosse a perda de sua suposta honra.

Outro ponto interessante é que Paulo, ao ver a irmã envolta em luxo e riqueza, prontamente deixa de julgar a atitude dela como inerente a de moças sem juízo: ela passa a representar o modelo de audácia e coragem de que ele mesmo se julgava incapaz. Além do que, algum dos figurões com quem ela mantinha contato poderia, mesmo, “arranjar-lhe alguma colocação...” (p. 102).

Talvez, se tivesse sido publicado cem anos antes, o enredo do romance poderia ser taxado de inverossímil. Mas, no Rio de Janeiro de meados do século XX, uma cidade que vivia a Belle Époque e que começava a se modernizar em ritmo acelerado, já é perfeitamente cabível que uma moça, mesmo às custas da “honra” de seu nome, possa traçar, por si mesma, os rumos de sua vida.

A respeito das transformações que a capital fluminense – e, à época,  capital do país – passava, José G. V. de Moraes, em seu Cidade e cultura urbana na primeira república (1994), registra aspectos responsáveis pelas mudanças inerentes ao modo de vida dos habitantes das cidades, quais sejam as transformações modernizadoras pelas quais os aglomerados urbanos passavam. O autor afirma que não só o espaço físico se transformava, mas também a mentalidade, os modos de agir e as concepções morais.

Desse modo, as personagens de Turbilhão plasmam, se não uma reabilitação, ao menos um novo olhar sobre o que é considerado como mundanismo e amoralismo numa sociedade que, embora cada vez mais afeita aos contornos de um modus vivendi cosmopolita, afinado com a modernidade, ainda se deixa marcar por estruturas arcaicas, típicas de uma civilização de molde e extração patriarcais e conservadores, controlada por uma oligarquia baseada na economia rural. Nesse sentido, as personagens do romance são modernas e individualistas, mas convivem numa sociedade que, mesmo em transformação, ainda é controlada por códigos de honra e de boa conduta – principalmente para as mulheres –, uma vez que toda sociedade de cunho patriarcal sempre cobra mais das mulheres do que dos homens.

De um ou de outro modo, as personagens de Turbilhão, vivendo um verdadeiro turbilhão de transformações, são egocêntricas e fortes: ousam romper códigos, ousam ser o que realmente querem ser. E nisso também reside a grandiosidade desse romance.

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Fonte:
Rafael Ferreira Campos Mendes (Bolsista PIBIC/UEG) / Ewerton de Freitas Ignácio (pesquisador-líder): “Entre dois modus vivendi: arcaísmo e modernidade em Turbilhão, de Coelho Netto”. Anais do VIII Seminário de Iniciação Científica e V Jornada de Pesquisa e Pós-Graduação - Universidade Estadual de Goiás. Disponível em: http://www.prp.ueg.br/

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