30/03/2014

História Alegre de Portugal, de João Pinheiro Chagas

 História Alegre de Portugal, de João Pinheiro Chagas
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Pinheiro Chagas, da crítica ao romance histórico

Com a sensibilidade romântica, o romance histórico vai tanto ser instrumento de formação histórica, como ajudar na consolidação da literatura nacional. Fossem, portanto, nas veredas literárias de Scott, Dumas ou de Hugo, os autores do período oitocentista, cada qual a sua maneira, quase sempre com o olhar voltado para o período da fundação da nacionalidade, utilizaram-se do didatismo e dos ensinamentos históricos para estabelecerem um confronto binário entre passado/presente.

Apesar de centrarmos nossa discussão em romance histórico, o estudo sobre o drama histórico, realizado por Teófilo Braga (1871), nos informa mais elementos sobre as produções de cunho histórico no Portugal de Oitocentos. Neste, seu autor assevera que apesar de ter havido um empenho considerável da classe letrada na adoção do gênero literário, respeitando todas as suas especificidades, suas tentativas iniciais foram inexpressivas. Isto porque,  embora os escritores nacionais tivessem contato com um variado número de exemplares franceses traduzidos, para escrever romance de fundamentação histórica, era imprescindível um conhecimento apurado da História e, além disso, que a mesma estivesse consolidada. Desses volumes traduzidos, nenhum alcançou maior glória ante ao gosto popular do que os de Voltaire. Ainda, conforme os estudos de Braga (1871), as tragédias voltaireanas eram admiradas porque defendiam a liberdade de consciência contra despotismo e o obscurantismo religioso, e por isso tiveram muitos seguidores, principalmente no drama histórico.  

Essa precariedade de embasamento histórico levará ao surgimento, como adverte Ana Isabel Vasconcelos (2008), de dois grupos que tomaram a História em perspectivas diferentes, sendo que uma mais aproxima do referencial histórico e outra distanciada deste compromisso, ou seja, mais historicizantes. Esclarece, ainda, que o termo histórico vagamente associado a muitos escritos do momento não derivava particularmente de suas autorias, mas da crítica que, sem levar em conta a relação estabelecida entre História e ficção, englobava todas estas publicações num único conjunto, sem distinção.

Embora o cientificismo histórico tenha se originado no século XIX, não podemos nos esquecer que este período era de transição. Nesse sentido, a historiografia portuguesa oscilava ainda entre aquela feita na perspectiva liberal e científica e outra de cunho tradicionalista e conservador. Ser progressista era ter o máximo de compromisso com o discurso histórico na ficção, do contrário, não passava de uma descrição cênica do passado.  É curioso que embora se tenha produzido dramas históricos relativos à época medieval no interstício de 1846-1856, nenhum desses autores recorresse como fonte documental ao primeiro e mais importante estudo histórico de oitocentos, A História de Portugal, de Alexandre Herculano. Nem com a possibilidade de encontrarem um estudo coeso e sério sobre o período de formação de Portugal, os quatro volumes não foram atrativos para essa classe de literatos. Confirmando-se, portanto, certa resistência e incapacidade de manusear o novo saber histórico. Possivelmente, ao optarem pelas fontes mais remotas, especificamente as crônicas, os romancistas pretendiam conhecer a História feita no calor da ação do passado.

De interpretação mais digerida, o texto cronístico se destaca dos outros pelo estilo simples de narrar, pelo seu caráter sintético, realístico e urgente da escrita, bem como pelo tom lírico-reflexivo que se dá aos relatos dos fatos.

Antes de Herculano, a escrita da História, como asseverou Pinheiro Chagas, era ad narradum (para se narrar), tinha características tão próximas da poética que quase não havia comprometimento com a verdade histórica. De modo geral, suas censuras creditavam à maioria desses estudos os adjetivos de amadores, demasiadamente fantasiosos e declamatórios. A mais grave delas era a forma idealista com que se desenhavam as personalidades nacionais, engrandecendo-as nos feitos e qualidades, aspectos que comprovadamente nunca existiram na vida pregressa dessas individualidades. A outra reprovação era a forma erudita desses ensaios, no uso excessivo do latim, que produziam uma dificuldade de interpretação do fato.

Na avaliação final de Ana Vasconcelos (2008), os romancistas históricos românticos preferiram, por vezes, duas formas de conhecerem a História. No primeiro caso bem mais usual, temos as incansáveis leituras das crônicas, muito pelo seu aspecto narrativo, pitoresco e de realismo acentuado. Mas há, ainda, pesquisas isoladas feitas em documentos oficiais, manuscritos, relatos orais e publicações de artigos em periódicos, os quais são confidenciados aos leitores, por meio de notas finais, em suas introduções ou prólogos.

Com isso, houve por parte dos romancistas um furor na busca de fundamentação histórica, registros que esclarecessem a vida medieval nacional. O passado, então, funcionava como um script para o presente, lugar privilegiado para se conhecer as verdades religiosas e as intemporais paixões humanas. Mas como advertem Chaves (1979) e Marinho (1999), não foram todos os períodos históricos que os românticos privilegiaram. O medievalismo exagerado ocorreu somente na primeira fase romântica, atenuando-se a partir do segundo momento desta estética, conforme ilustra a obra de Rebello da Silva. Depois disso, houve um decréscimo do gênero, que passou a ficcionalizar um passado mais recente. Dessa lista se excetuam os romances históricos de Camilo que são elogiados pela crítica de Chaves, “[...] pela magia da linguagem em que estão escritos, pelo poder estético que possuem ali onde se fundem os elementos fictícios com elementos históricos, caldeados nas vivas paixões humanas” (CHAVES, 1979, p.54). Assim, o que importa, no final de contas, não é a descrição pormenorizada do ambiente, mas falar da essência humana, sem fazer parecer que é desta que se fala. Seja como for, romance histórico ou citadino, para Candido, o importante é reconhecer:

A ficção [...] [como] um lugar ontológico privilegiado: lugar em que o homem pode viver e contemplar, através de personagens variadas a plenitude da sua condição, e em que se torna transparente a si mesmo; lugar em que transformando-se de si mesmo, verifica, realiza e vive a sua condição fundamental de ser autoconsciente e livre, capaz de desdobrar-se, distanciar-se de si mesmo e de objetivar a sua própria situação. [...] Somente quando o apreciador se entrega com certa inocência a todas as virtualidades da grande obra de arte, esta por sua vez lhe entregará toda a riqueza encerrada no seu contexto (CANDIDO, [1968] s.d, p.38).

Posto isso, na próxima seção, pretendemos analisar as censuras feitas por Pinheiro Chagas a algumas obras de Arnaldo Gama, que sempre foi lembrado pela crítica pelo rigor histórico com que compunha os seus romances.


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Fonte:
Jane Adriane Gandra: “Pinheiro Chagas, um escritor olvidado”. (Tese apresentada ao Programa de Pós–Graduação em Estudos Comparados de Literaturas     de        Língua Portuguesa,     do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, como exigência para a obtenção do título de Doutor  em Letras. Orientador: Prof. Dr. Paulo Fernando da Motta de Oliveira). São Paulo, 2012.

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