03/03/14

Aventuras de Diófanes, de Teresa Margarida da Silva e Orta

 Aventuras de Diófanes, de Teresa Margarida da Silva e Orta
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---Aventuras de Diófanes: “lembre-te que é de mulher” 

Teresa Margarida da Silva e Orta nasceu em São Paulo, em 1711 ou 1712. Filha do  português José Ramos da Silva, que fez imensa fortuna no Brasil, e da paulista Catarina de Horta, mudou-se para Portugal aos cinco anos de idade. Já em Portugal, foi admitida no  convento, o qual acabou abandonando na adolescência, para casar-se, contra a vontade  paterna, aos 16 anos, com Pedro Jansen Moller. Dona de uma audácia inquestionável e de um espírito revolucionário, Teresa não mediu esforços, nem tão pouco comoveu-se com as  súplicas familiares  até conseguir, judicialmente, o direito de sair da casa do pai para casar-se.

Ernesto Ennes, ao referir-se a essa atitude ousada de Teresa Margarida,  aparentemente pouco relevante, revela a revolução que começava a operar-se nos meios  socioculturais e que já evidenciava a emancipação feminina: 

A verdade é que este conflito, na aparência sem importância, mas duma transcendência singular no fundo, atingia em cheio a autoridade patriarcal, que a partir desta data jamais se poderia impor às filhas insubmissas,  desobedientes e irrefletidas, na contingência do primeiro namorado que surgisse. Erma como que os primeiro alvores da revolução operada nos costumes, com que o advento do reinado de D. João V haviam de transformar a sociedade portuguesa do século XVIII. (ENNES, 1952, p. 34-35) 

Começava, assim, uma vida ousada e reveladora de uma mulher que, desde cedo,  rompeu regras, transgrediu normas em seu tempo. Devido à condição financeira e social de prestígio que a família de Teresa possuía, a autora acabou por receber uma educação  esmerada para seu tempo e que a fez destacar-se nos meios intelectuais. Como diz Bloem,  no estudo crítico apresentado na primeira edição brasileira da obra, de 1945, “a autora  revela com a obra, inteligência e cultura excepcionais para a época, sobretudo se se  considerar a orientação dada à educação feminina a esse tempo” (1945, p. XV). 

A importância de Aventuras de Diófanes como obra reveladora da insubmissão  feminina ganha consistência se pensado e lido sob a luz do Iluminismo, corrente filosófica  de suma importância, que predominou no século XVIII  e que, em Portugal, ganhou  proporções inusitadas, devido aos fortes preceitos religiosos, conservadores e moralistas  que o país mantinha.

Do Iluminismo a obra possui as alegorias e a valorização das ciências e da razão,  além de possuir o que  pode ser chamado de máscara, pois, a partir do efeito da alegoria e do uso de disfarces por parte dos personagens e, até mesmo, da própria autora, pelo uso de um pseudônimo, o romance ganha conotações expressivas, em um período em que a Igreja,  com a criação da Contra-Reforma, perseguia e proibia qualquer manifestação que julgasse  suspeita, impedindo que a intelectualidade ascendesse entre a classe média e pusesse em  risco a sua autonomia.

O que se percebe é que, ao longo de nossa História, a mulher viu-se obrigada a  ocupar um lugar que lhe foi destinado pelos homens. A caracterização como ser frágil e romântico que durante muito tempo prevaleceu sobre a figura feminina explica a definição  de que não cabe à mulher o papel de criadora, pois tal atitude não condiz com a formação fragilizada e sonhadora, próprias da condição feminina. A força e a razão pertenciam à  natureza masculina, enquanto que a sedução e a fragilidade eram fonte de poder para a  natureza feminina:

Para a maior parte dos filósofos iluministas, que à mulher falte razão ou tenha apenas uma razão inferior é de uma evidência tranquilizadora, mas que, no entanto, pretende apoiar-se em factos. Entre esses fatos, o mais freqüentemente citado é que não existem mulheres capazes de invenção, elas estão excluídas do génio, ainda que possam ter acesso à literatura e a certas ciências. Esta incapacidade é baseada numa psicologia "natural". A mulher é o ser da paixão e da imaginação, não do conceito. (DUBY E PERROT, 1991, p. 386)   

Por excesso de imaginação pode -se ficar doente, enlouquecer ou morrer. É por isso que a fixação do espírito feminino no estádio imaginativo  explica que ele continue a ser infantil, frágil e incontrolável. Um dos remédios indispensáveis mas sempre insuficiente para esta "loucura"  latente no ser feminino é proibir-lhe a leitura dos romances, essas obras de ficção de que somente a solidez do espírito viril pode fazer uso. (DUBY E PERROT, 1991, p. 387)

Definindo a mulher como o “ser da paixão, não do conceito” a figura feminina  adentra pelo século XVIII tendo a sua função restrita ao espaço do lar, no cuidado dos  filhos e do marido, pois sua condição frágil e sonhadora não lhe permitia outro papel.   

Embora o pensamento no século XVIII em Portugal tenha sido bastante "beato",  ligado a moralismos e comportamentos conservadores, uma obra destacou-se no processo  de formação do ideário setecentista português, revelando importância e interesse para a poesia:  O Verdadeiro Método de Estudar (1756), de Luís Antonio Verney. A obra caracteriza-se pelas  propostas pedagógicas inovadoras que apresenta e pela crítica às instituições pedagógicas tradicionais. Verney, nessa obra de combate e crítica, prima pela democratização do ensino e pela instrução das mulheres, como se pode notar  na transcrição, abaixo, de trechos do Verdadeiro Método de Estudar:   

Quanto à necessidade, eu acho-a grande que as mulheres estudem. Elas, principalmente as mães de família, são as nossas mestras nos primeiros anos da nossa vida. (...) Além disso, elas governam a casa, e a direcção do económico fica na esfera da sua jurisdição. E que coisa boa pode fazer uma mulher que não tem alguma idéia da economia? Além disso, o estudo pode formar os costumes, dando belíssimos ditames para a vida; e uma mulher que tem alguma notícia deles pode, nas horas ociosas, empregar-se em coisa útil e honesta, no mesmo tempo que outras se empregam em leviandades repreensíveis. (...) Persuado-me que a maior parte dos homens casados que não fazem gosto de conversar com suas mulheres, e vão a outras partes procurar divertimentos poucos inocentes, é porque as acham tolas no trato; e este é o motivo que aumenta aquele desgosto que naturalmente se acha no contínuo do trato de marido com mulher.  (VERNEY, 1746, p.  125) 

Nesse apêndice, em que Verney apresenta o “Estudo das Mulheres”, é perceptível a preocupação com esse aspecto da Nova Pedagogia que se pretendia implantar em Portugal  e que estabelecia um plano de igualdade entre homens e mulheres, em termos da educação  que ambos deveriam receber, ou seja, segundo Verney, a capacidade feminina dependia  apenas das oportunidades que durante muitos séculos foram negadas às mulheres:
  
(...)Parecerá paradoxo a estes Catões Portugueses ouvir dizer que as  Mulheres devem estudar; contudo, se examinarem o caso, conhecerão que não é nenhuma parvoíce ou coisa nova, mas bem usual e racionável. Pelo que toca à capacidade, é loucura persuadir-se que as Mulheres tenham menos que os homens. Elas não são de outra espécie no que toca a alma; e a diferença do sexo não tem parentesco com a diferença do entendimento. A experiência podia e devia desenganar estes homens. Nós ouvimos todos os dias mulheres que discorrem tão bem como os homens; e achamos nas histórias mulheres que souberam as Ciências muito melhor que alguns grandes Leitores que nós ambos conhecemos. (VERNEY, 1746, p. 123- 125)  

Em meio a esse pensamento filosófico divergente, surge, em 1752,  Aventuras de  Diófanes.       As idéias que norteiam as páginas do romance, na voz dos personagens,  demonstram que a autora era grande conhecedora do pensamento filosófico iluminista,  sobretudo no que se refere à figura feminina. A autora tinha "sutileza de espírito" suficiente para perceber que a diferença entre os homens e as mulheres existia porque a mulher,  durante toda a história, fora  objeto de representação masculina; por isso, as concepções,  criadas por homens, colocavam as mulheres em uma posição de inferioridade: "Eles vieram  primeiro ao Mundo, fizeram as leis, e tomaram para si as regalias" (ORTA, 1993, p. 95).

 Há, no romance, críticas à educação feminina da época, que, em pleno século de  combate às idéias que não se baseavam na razão, insistem em manter uma imagem  estereotipada da mulher, definindo-a pela sua beleza e pela sua coquetaria. A autora critica essa imagem da mulher ociosa e incapaz e destaca a importância da leitura e do trabalho  como meios para garantir a afirmação da capacidade feminina como veremos no capítulo  de análise do romance em questão. 

Percebe-se, portanto, que Aventuras de Diófanes é um romance consciente dos direitos femininos que busca, a partir de uma obra de cunho didático e moralista (pois só  assim o livro pôde ser publicado),  criticar o pensamento filosófico que continuava a definir a mulher a partir de sua condição sexual.

Teresa Margarida é, portanto, personagem de uma história que, seja na vida social,  ao enfrentar o pai, aos 16 anos apenas, e casar-se contra a sua vontade, seja na vida  literária, ao escrever um romance e discutir o papel da mulher, mostra-se audaciosa e  inovadora em uma época pouco acostumada a ver mulheres escritoras e, sobretudo,  escrevendo sobre a própria condição feminina.

É interessante observarmos as palavras iniciais do Prólogo, de Aventuras de  Diófanes, pois nos permite refletir sobre a alusão que a autora faz sobre a “razão particular” que a levou a escrever o romance:
  
Leitor prudente, bem sei que dirás ser  melhor método não dar satisfações; mas tenho razão particular, que me obriga a dizer-te, que não culpes a confiança de que me revisto, para representar a figura dos doutos no teatro deste livro... (ORTA, 1993, p. 56). 

Como esclarece Montez, será essa “razão particular” o “fato de ser mulher e  escrever, saindo do espaço restrito da ignorância para o espaço amplo do saber confirmado  pelas páginas de  Aventuras de Diófanes? Talvez...” (MONTEZ, 1993, p. 32). O fato,  porém, é que Teresa Margarida não se calou, mesmo vivendo em um momento histórico,  social e literário em que a figura feminina era pouco expansiva. Como lamenta Xavière  Gauthier: “enquanto as mulheres permanecerem em silêncio, elas estarão fora do processo  histórico” (GAUTHIER, In: Hollanda, 1994, p. 37). A autora de  Aventuras de Diófanes   conseguiu fazer parte desse referido “processo histórico”, sendo hoje reconhecida pela  crítica, por ter ido além do que lhe era permitido, não se calando mesmo numa sociedade  em que a mulher não tinha voz, mesmo sendo necessário escrever romance alegórico e  encobrir seu verdadeiro nome com o uso de um pseudônimo.

A crítica feminista ao discutir o papel da mulher escritora aborda questões  interessantíssimas que nos permitem refletir sobre a atuação da mulher ao se colocar no  espaço masculino e registrar a sua visão sobre a própria condição feminina, distanciando-se da “visão falocêntrica” que durante séculos prevaleceu em nossa cultura, já que toda a  imagem ou retrato que se fazia das mulheres na literatura, e na sociedade em geral, era fruto de uma sociedade machista, que insistia em marcar as diferenças entre homens e mulheres, apresentando as mulheres como inferiores, frágeis e  sonhadoras. É exatamente a visão  invertida que se tem em  Aventuras de Diófanes , pois, além de se ter uma obra de ficção  escrita por uma mulher, nela tem-se o retrato, através da escrita dessa autora, da própria  figura feminina:  

O estudo da imagem biológica na escrita das mulheres é útil e importante na medida em que compreendemos que outros fatores além da anatomia estão  envolvidos. As idéias a respeito do corpo são fundamentais para que se  compreenda como as mulheres conceptualizam sua situação na sociedade; mas não pode haver qualquer expressão do corpo que não seja mediada pelas estruturas lingüísticas, sociais e literárias. A diferença da prática literária das mulheres, portanto, deve ser baseada (nas palavras de Miller) “no corpo se sua escrita e não na escrita de seu corpo”. (BUARQUE DE HOLLANDA, 1994, p. 35). 

Assim, em  Aventuras de Diófanes, estaremos em contato com um documento que  nos permite uma visão diferenciada da mulher do século XVIII, pois é sob o ponto de vista feminino que as personagens do romance, sobretudo Hemirena, personagem principal,  serão retratadas. Até o século XVIII, a mulher, como já dito anteriormente, foi musa e  inspiração em muitos poemas e em prosa, porém, sob a visão masculina, pois eram os  homens os escritores. 

 É interessante observarmos, sobretudo, que o romance de Teresa Margarida, se por um lado mostra-se “atrasado”, como diz a crítica e como veremos no capítulo de análise,  por não apresentar as categorias narrativas com as mesmas abordagens que vinham  apresentando romances da Inglaterra, França e Espanha, por exemplo, desde o início do  século XVIII, ou, ainda por não se referir à “cor local”, por outro lado, merece destaque por ser a primeira obra de ficção escrita por uma mulher, de nacionalidade brasileira, a reivindicar os direitos femininos, em uma autêntica defesa da igualdade entre homens e mulheres.

Teresa Margarida faleceu aos 80 anos em Lisboa, depois de uma vida atribulada.  Assistiu a quase todos os importantes acontecimentos de Portugal no século XVIII: os  horrores da Inquisição e o terrível terremoto de 1755. Além disso, viveu sete anos de  cárcere no Mosteiro de Ferreira de Aves, por haver mentido ao Rei D. José, afirmando que seu filho engravidara uma rica moça de família portuguesa. Encerra-se, assim, em 1793,  uma vida de muita luta e insubmissão, que nos deixou como legado páginas de um  brilhante documento acerca da revolução social e da emancipação feminina em um período  marcado pela repressão.  

Embora o romance de Teresa não se enquadre perfeitamente  no modelo de romance que o século XVIII começava a apresentar e que está baseado nos princípios do “realismo  formal”, sua importância não pode ser negada.  Sob a máscara alegórica, esconde-se a  verdadeira intenção da obra e é ela que devemos valorizar ao lermos e analisarmos o  romance, sem esquecermos, é claro, das reais condições da ficção e da sociedade  portuguesa da época.


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Fonte:
Helaine Aparecida Hipólito: “Aventuras de Diófanes:   as “aventuras” do romance português”. (Dissertação apresentada à Faculdade de Ciências  e Letras de Assis – UNESP, para a obtenção do título de Mestre em Letras. (Área de Concentração:  Literaturas  de Língua Portuguesa. Orientador: Prof. Dr. Odil José de Oliveira Filho). Assis, 2004

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