03/03/14

A doida do Candal, de Camilo Castelo Branco

 A doida do Candal, de Camilo Castelo Branco
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Camilo e a moral

Ao fazermos um conciso estudo acerca da recepção crítica sobre a obra de Camilo Castelo Branco observamos que, em geral, os críticos classificam-na de modo estanque e, além disso, recorrem à biografia do romancista, a fim de interpretá-la. Outra constante é atribuir ao escritor português o título de moralista. Vejamos a seguir algumas abordagens a respeito desse tema.

Em Introdução ao Estudo da Novela Camiliana, Jacinto do Prado Coelho (Cf. 1983, p.16-17) afirma que a obra de Camilo segue uma tendência moralizante, já que supostamente cede à moral burguesa, pregando a obediência aos padrões ético-morais, como a sujeição aos pais, a honestidade, a gratidão, a consagração do casamento e a submissão às autoridades civis e religiosas. Óscar Lopes (1991, p.5), a seu turno, acredita que o escritor de São Miguel de Ceide “desgosta pela pireza [sic] de uma axiologia, sobretudo daquilo que frequentemente lhe aparece, ou ele designa, como poesia, numa relação de amor, de enlevo familiar, de servil paz podre interclasses ou de relance paisagístico lamartiniano”. Essa moral seria oriunda, principalmente, de uma religiosidade resignada, assim como de uma sensação de culpa pela miséria alheia, mas antes de expressar algum desejo de reforma sócio-político-econômica, tal culpa se manifestaria apenas como um sentimento assistencialista.

 Em um estudo que desenvolve com Antônio José Saraiva, Oscar Lopes ainda atribui o suposto moralismo, ao fato de Camilo procurar constantemente adaptar-se ao gosto de seu público:

[...] Camilo nem supera ideologicamente o seu meio, nem pode profissionalmente dirigir-se a um público atualizado, e tem portanto de se adaptar de algum modo aos preconceitos morais, religiosos, estéticos, ideológicos em geral, mais difundidos. Daí, como veremos, profundas contradições e oscilações entre um idealismo e um materialismo, ambos moralizantes; daí um estilo freqüentemente azedo, sarcástico, sobretudo o auto-sarcasmo daqueles mesmos tipos morais e estéticos que quer idealizar na sua obra. (SARAIVA; LOPES, 1967, p. 779)

Carlos Reis e Maria da Natividade Pires também acreditam que alguns romances de Camilo têm intuito moralizante. Contudo, ressaltam que existe uma ambigüidade na representação dessa moral, já que os mesmos conceitos axiológicosdifundidos na diegese são, por vezes, refutados na heterodiegese:

[...] Camilo escreve A queda dum anjo em 1865, numa época em que, no entanto, aparecem também outros textos seus onde o esquema habitual é o do crime-remorso-expiação-redenção pelo sofrimento. O romance (ou a novela) tem, nestes casos, uma função altamente moralizadora, essencialmente informado por uma concepção cristã do
pecado e da culpa. Damos a palavra ao próprio Camilo, nos Textos Doutrinários, sobre o papel do romance na sociedade, já que ele assume mais uma vez uma posição ambígua, construindo muitos dos seus romances ou novelas segundo esse esquema “moralizador”, mas tecendo, com frequência, nas margens do texto, comentários sobre a ineficácia da intervenção do romance na sociedade e sobre os exemplos falhos de “sã moralidade” que a própria vida dá. (REIS; PIRES, 1999, p. 220)

Embora assintamos parcialmente com a opinião de Reis e Pires, cremos que - exceto por obras tais como O romance de um homem rico (1861), A bruxa do monte Córdova (1867) e O Santo da montanha (1866) - as narrativas camilianas não seguem, necessariamente, o esquema remorso-expiação-redenção pelo sofrimento. Se tomarmos como exemplo A mulher fatal (1870), veremos que esse percurso não se realiza. Como sabemos, Cassilda Arcourt era uma mulher devassa que levou muitos homens à ruína.

Quando conhece Carlos, opta por dedicar-se exclusivamente a ele, entregando-lhe tudo que tinha de valor, a fim de financiar suas despesas médicas. Poderíamos, então, concluir que a personagem, tomada pelo remorso e pelo amor, expiou as culpas do passado, por meio do sofrimento causado pela doença e morte do homem amado. No entanto, ao relatar o destino de Cassilda, o narrador nos surpreende com a afirmação a seguir:

Bravo, Cassilda!
Este livro acabaria mais ao gosto moderno, se tu morresses de saudade ou de fome. Como obra de arte seria o meu romance um primoroso desmentido à natureza; mas a tua catástrofe daria que pensar! E as tuas consócias entrariam em catequese de reabilitação, assim nociva para elas quanto ridícula para os assopradores do ephta restaurativo da pureza virginal. Tolheste-me a novela até certo ponto; mas aliviaste-me do remorso de ter profetizado que serias sempre abjecta.
Bravo, Cassilda! Tens um duque a teus pés...
(CASTELO BRANCO, 1987, p.1200)

De fato, o narrador rompe as expectativas da diegese que, aparentemente, culminaria no esquema remorso-expiação-redenção pelo sofrimento, mostrando que Cassilda, na verdade, consegue adaptar-se a qualquer posição, seja a de mulher libertina ou de honrada “esposa”. Nesse sentido, concordamos com Reis e Pires quando afirmam que Camilo constrói seus romances segundo o esquema moralizador, mas, ao mesmo tempo, questiona tal moralidade. Provavelmente, essa ambiguidade é resultado da estratégia empregada pelo romancista para conciliar a demanda do mercado editorial às informações que, realmente, deseja veicular.

Tendo em vista que o público camiliano era composto majoritariamente por mulheres provenientes da burguesia, é provável que o romancista tenha pretendido, em parte, afirmar os valores dessa classe, a fim de conquistá-la. Como sabemos, os conceitos morais figuravam dentre os preferenciais da geração pós-revolucionária. Mas, com a habilidade de um escritor que sabe manipular e conciliar todos os  planos da narrativa, ele é capaz de afirmá-los na diegese e impugná-los na extradiegese. Em geral, apesar de parecerem íntegras, as personagens camilianas têm sua moralidade constantemente questionada pelo narrador, cujas críticas não poupam a hipocrisia da sociedade oitocentista. Contudo, essa denúncia não significa que Camilo tenha tido necessariamente o objetivo de reafirmar e/ou difundir a moral burguesa, pois, como afirma Reis e Pires, por diversas vezes, sugere a ineficácia da intervenção do romance na sociedade.

Nesse sentido, o escritor de São Miguel de Ceide se afasta das concepções de Hegel, Kant e Schopenhauer, na medida em que não concebe a moral como instrumento promotor do progresso social, nem mesmo como característica inerente ao ser humano. Resguardadas as devidas distinções, poderíamos afirmar que as suas concepções a esse respeito se assemelham à filosofia nietzscheniana. É relevante ressaltar que Camilo não chega ao extremo de negar a figura da divindade; no entanto, bem como Nietzsche, ele denuncia que as virtudes oitocentistas são menos um resgate dos princípios religiosos e altruístas do que uma tentativa humana de efetivar suas relações de dominação, poder, força e conveniência.

De fato, a narrativa camiliana, em geral, não segue uma tendência moralizante. No entanto, não pode ser classificada de forma simplista, já que o escritor de São Miguel de Ceide, em raras ocasiões, retoma os preceitos morais sem rechaçá-los.

O mesmo ocorre com a estética romântica; ou seja, em situações bastante incomuns, Camilo se apropria dos pressupostos do romantismo sem desconstruí-los posteriormente, ou, se o faz, é de forma mais sutil. Nesse contexto, a ação do narrador irônico que comanda a narrativa do modo que lhe convém é atenuada. Aí, os constantes diálogos com o leitor – estabelecidos por meio dos paratextos, que normalmente desconstroem tudo aquilo que haviam atestado anteriormente - são reduzidos ou têm um
conteúdo menos corrosivo.

Assim sendo, pretendemos, nessa dissertação, desvincular Camilo Castelo Branco da imagem do escritor ultra-romântico de tendências moralistas, que encontrou na estética realista-naturalista um subterfúgio profissional. Mas, além disso, consideraremos a complexidade de seu vasto legado literário, incluindo tanto aquilo que pensamos se tratar de regras como das exceções. Partindo desse pressuposto, selecionamos como corpus, romances que dimensionam tal diversidade, são eles: O bem e o mal (1863), Eusébio Macário (1879) e A corja (1880). A partir da análise das obras mencionadas, pretendemos discutir questões, tais como Camilo trabalha, a fim de atender às necessidades do seu público moralista e quais conceitos axiológicos pretende veicular em suas narrativas.


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Fonte:
Tatiana de Fátima Alves Moyses: “Camilo Castelo Branco: a moral a serviço das conveniências”. (Dissertação apresentada ao Programa de  Pós-Graduação em Literatura Portuguesa  do Departamento  de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para a obtenção do título de Mestre em Letras. Orientador: Prof. Dr. Paulo Fernando da Motta de Oliveira). São Paulo, 2011.

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