22/03/14

A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro

 A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro
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Lúcio e Ricardo e os mistérios da identidade

A obra é iniciada por uma declaração do protagonista justificando a sua não defesa contra as acusações, segundo ele, levianas, que o fizeram ficar dez anos preso acusado de ter assassinado seu grande amigo Ricardo de Loureiro.

O que levaria um homem aceitar passar dez anos de sua vida preso mesmo sem ser culpado? Lúcio aceitou a pena imposta a ele por não conseguir provar sua inocência, pois os fatos descritos posteriormente na obra, e que fariam com que ele fosse absolvido, fogem completamente da realidade. Surge, então, um jogo que tem como base o fantástico tornando-se regra e não a exceção e, o tom dado à narrativa passa a ser o do mistério. O tom de mistério, que permeia toda a obra, e que é explicitado no projeto de A confissão de Lúcio, aparece na epígrafe escolhida para iniciar o texto.

“... assim éramos nós obscura-mentedois, nenhum de nós, sabendo bem se o outro não era ele-próprio, se o incerto outro viveria...”

A epígrafe de Fernando Pessoa mostra a presença do duplo. Ao fazer esta escolha para iniciar seu texto, Sá-Carneiro opta por um poema de seu amigo cujo tema é a própria fusão da identidade e a dificuldade de conseguir separar o eu do outro - tema de inúmeras outras poesias de Sá-Carneiro, o que demonstra sua angústia e dificuldade para lidar com a questão da identidade.

É através da identidade que as interpretações do texto mudam de leitor para leitor. A partir de então, cabe a cada um direcionar sua leitura para aquilo que lhe pareça mais adequado, porque saímos do campo da realidade para entrar no espinhoso campo de determinar a existência e as características das três personagens centrais da narrativa.

Esta dissertação toma como mais adequada a leitura que acredita na existência real de Lúcio e Ricardo e, que considera Marta uma projeção do marido para poder possuir seu amigo. A crença de esta ser a leitura mais apropriada está sustentada no momento em que Ricardo confessa ao amigo que criou Marta numa
noite de insônia.

[...] Uma noite, porém, finalmente, uma noite fantástica de branca, triunfei! Achei-A... sim, criei-A! criei-A... Ela é só minha, entendes? , é só minha! Compreendemo-nos tanto, que Marta é como se fora a minha própria alma. Pensamos da mesma maneira; igualmente sentimos. Somos nós dois... Ah!, e desde essa noite eu soube, em glória soube, vibrar dentro de mim o teu afeto – retribuir-to: mandei-A ser tua! Mas estreitando-te ela, era eu próprio que te estreitava... Satisfiz a minha ternura: Venci! E ao possuí-la, eu sentia, tinha nela, a amizade que te devera dedicar – como os outros sentem na alma as suas afeições. Na hora em que a achei, tu ouves? foi como se a minha alma, sendo sexualizada, se tivesse materializado.       E só com o espírito te possui, materialmente! Eis o meu triunfo...Triunfo inigualável! Grandioso segredo!
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[...]

 Os teóricos escolhidos para sustentar a argumentação desta dissertação são partidários desta versão, mas ela não é única. António Quadros, por exemplo, defende a existência apenas de Lúcio na narrativa e que Ricardo e Marta seriam seus desdobramentos. Lúcio nesta leitura perde totalmente a lucidez e vive num mundo a parte. A prisão a que ele se refere é o manicômio que estaria supostamente internado.

Uma vez aceita que algumas são as possibilidades de leitura do texto isso comprova como o mistério é quem dá o tom para a narrativa. A vida de Lúcio, seu encontro com Ricardo, o casamento deste com Marta, o assassinato, o cárcere. Tudo é narrado envolto a uma névoa de mistérios. O próprio vocabulário utilizado mostra isto. O texto todo é permeado por expressões como “denso véu de bruma” que ocorre, por exemplo, duas vezes num espaço de pouco mais do que quinze linhas.

Hugo Friedrich escreve o que pensava Baudelaire a respeito do mistério: 

[...] Baudelaire fala muitas vezes do sobrenatural e do mistério. Só se compreende o que ele quer dizer com tudo isto quando − como ele próprio fez − se renuncia a dar a estas palavras outro conteúdo quenão seja o próprio mistério absoluto [...]

Em A confissão de Lúcio é exatamente assim. A única certeza que se tem é de que não existe uma única verdade, de que alguns são os pontos de vista e que as possibilidades de leituras não se esgotam, pois o que de fato a faz interessante é justamente o jogo que ela obriga o leitor de perceber o homem em suas nuances mais guardadas, mais interiorizadas, a vida narrada de Lúcio é um mistério e não existe mistério maior que a própria existência humana.

A ligação com Ricardo e o desdobramento deste em Marta, faz com que o protagonista busque incansavelmente desvendar o mistério que reside em cada um dos indivíduos envolvidos no caso. O que ele sabe de cada um não mais convence, não mais basta. Lúcio quer saber quem é, e com quem verdadeiramente se relacionava. O interesse decadente está justamente no universo interior das personagens, suas dúvidas, suas angústias, seus desdobramentos. A intimidade que adquiriu com o amigo fez com que Lúcio soubesse o desejo mais íntimo dele, o de possuir alguém do mesmo sexo. O leitor conhece, através de Lúcio, as inquietações e dúvidas dele próprio e de Ricardo.

A narração nos é trazida pelo próprio Lúcio, que se mostra um exímio contador da história, ele é capaz de usar de sua verbalização para envolver o leitor e dividir tudo que relata em dois planos distintos, embora fundidos na obra: o da realidade e o da idealidade, o do verossímil e do sobrenatural. No plano da idealidade temos o romance entre as personagens, as traições, o assassinato de Marta e a morte de Ricardo. Já, no plano da realidade fica impossível explicar que o tiro fora dado em direção a Marta, mas que quem caiu morto foi Ricardo. Lúcio recebe e aceita a culpa porque se sente incapaz de argumentar sobre algo num plano que não domina – o da realidade - e é nesta esfera que está o leitor, uma esfera em que o inverossímil não tem espaço.

Objetivamente Lúcio não se descreve durante a narrativa, era um jovem novelista, um homem ligado às artes, mas não tão sofisticado quanto Ricardo ou Gervásio Vila-Nova. Não tinha família, possuía apenas alguns poucos amigos e morava em Lisboa, mas passou um período em Paris. Pouco sabemos se ele sofreu mudanças físicas ao longo do texto, porque ele não oferece estas informações a seu próprio respeito. Mais detalhada que as informações a respeito de Lúcio, são as descrições de Ricardo. Ricardo de Loureiro fora apresentado o amigo numa noite de festa e imediatamente nutriu por ele uma simpatia ímpar.

[...] Pelo caminho a conversa foi-se entabulando e, ao primeiro contato, logo experimentei uma viva simpatia por Ricardo de Loureiro. Adivinhava-se naquele rosto árabe de traços decisivos, bem vincados, uma natureza franca, aberta – luminosa por uns olhos geniais, intensamente negros. [...]

Ricardo era poeta e Lúcio já conhecia sua poesia, pois a esta altura ele era razoavelmente conhecido entre os artistas da cena parisiense - a Americana, chega a comentar dele quando é apresentada a Lúcio - e, além disso, Ricardo era o único homem que possuía uma fala tão envolvente a ponto de calar Gervásio Vila-Nova – conhecido por sua capacidade de ser escutado e por não dividir atenção com ninguém. O cenário do primeiro encontro dos dois marcará o tom da história que viverão juntos: “tão estranho, tão perturbador, tão dourado...”.

Ricardo tinha vinte e sete anos e não se percebia na vida para trabalhar ou coisa que o valha. Estava ora em Paris, ora em Lisboa, sem ter nenhum tipo de compromisso formal - tal qual a Lúcio.

Fisicamente passa por uma significativa transformação. Seu rosto, num primeiro momento, foi descrito por Lúcio como um rosto árabe e, portanto, um rosto viril, mas que se modifica com o casamento. Lúcio percebe imediatamente a mudança quando reencontra o amigo na estação de trem por conta de seu retorno a Portugal. Assim, Lúcio nota Ricardo: “As suas feições bruscas haviam-se amenizado, acetinado – feminilizado [...]”

A amizade entre eles se desenvolveu porque além da simpatia que nutriam um pelo outro, tinham também vidas muito semelhantes. Ambos eram artistas, não trabalhavam, não tinham família, freqüentavam os mesmos lugares, divertiam-se com as mesmas coisas. Vidas de ócio e arte.

[...]


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Fonte:
Maria Carolina Vazzoler Biscaia: “A estética decadentista em A confissão de Lúcio de Mário de Sá-Carneiro”. (Dissertação apresentada ao Programa de  Pós-Graduação  em  Literatura  Portuguesa,  do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da  Faculdade  de  Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para obtenção  do  título  de Mestre  em Literatura Portuguesa. Orientador: Prof. Dr. Carlos Alberto Vechi). São Paulo, 2006.

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