09/02/14

Tropas e Boiadas (Contos), de Hugo de Carvalho Ramos

 Hugo de Carvalho Ramos - Tropas e Boiadas - Iba Mendes
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Tropas e Boiadas, de Hugo de Carvalho

Hugo de Carvalho Ramos nasceu em 21 de maio de 1895, em Vila Boa, então Capital do Estado de Goiás. Iniciou seus estudos na cidade natal e depois foi para o Rio de Janeiro, onde, em 1916, matriculou-se na Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais. Em 1917, publicou Tropas e Boiadas, que representa hoje a face da literatura goiana com maior destaque. Em 1920, estando prestes a concluir seu curso jurídico e, em crise de depressão, viaja ao interior de Minas Gerais e São Paulo. Em 31 de março de 1921, quando retorna ao Rio de Janeiro, suicidou-se, enforcando-se com uma corda de rede.

Assim, a identidade que Hugo nos apresenta do goiano é aquela com a qual ele conviveu. Sendo goiano de nascimento, pode perceber de perto as características do sertanejo e apresentá-las através de sua literatura, solidificando um regionalismo. Ainda nos primórdios do século XX, Hugo de Carvalho Ramos já adiantava traços da literatura regionalista que apareceria na década de 30. Assim, em seu projeto ideológico, ele apresenta-nos um sertanejo com sua face produtiva e, ao mesmo tempo, denunciando sua condição de vida, como bem salienta as palavras de Vicentini (1997, p.45-46)

(...) quando elabora a dualidade da autenticidade de um tipo de homem do sertão e a inautenticidade de outro, ideologicamente ele escolhe, seleciona. E, ao selecionar, aponta para o tipo de imagem que ele quis construir do sertão: imagem de um sertão economicamente viável, construída sobre a do sertanejo produtivo, o tropeiro, o boiadeiro e não sobre o roceiro.

É neste sentido que a identidade criada por Hugo é a identidade de um sertanejo produtivo e diferenciado por seu trabalho. As atividades exercidas por este sertanejo são importantes, sobretudo, para o desenvolvimento econômico do centro-oeste goiano. Por isso, em nosso recorte de estudo lexical preferimos destacar e enfatizar palavras relativas às atividades profissionais, já que esta atividade se destacou na identificação deste homem do sertão na literatura goiana.

É também através desta identificação lexical que poderemos identificar práticas culturais específicas do sertanejo. Observando com cuidado os elementos apresentados nas narrativas podemos perceber que o autor procura difundir e registrar um modo de ser, marcado no meio cultural do interior goiano. Assim, acreditamos que explorar tal vocabulário sistematicamente seria uma forma de conhecer melhor as palavras e expressões referentes ao trabalho profissional no meio rural, uma vez que língua é o reflexo desta complexidade social, como bem observa Coelho (2005, p.22),

(...) refletindo a complexidade mesma de que são constituídas as pessoas e o universo em que elas existencializam as suas experiências, uma língua não poderia ser um sistema semiológico simples, fechado em si mesmo e de limites estreitos.

A identidade apresenta-se, portanto, como um paradoxo, pois ela é, simultaneamente, o que é semelhante e o que é diferente. Ela oscila entre o semelhante e o diferente, o que faz do indivíduo um ser singular e ao mesmo tempo semelhante a outros. Assim, a construção da identidade é um processo dinâmico, influenciado por múltiplos fatores sociais. A identidade social caracteriza-se pela pertença do indivíduo a um grupo sexual ou gênero, grupo etário, classe social, etnia, nação, grupo religioso etc. É ela que permite ao indivíduo pertencer-se a um grupo social e ser referenciado pelos outros como membro daquele determinado grupo, através da depreensão dos valores, hábitos, formas de trabalho deste grupo. Assim, adquirir os costumes de um grupo é uma forma de se firmar como membro daquele grupo. Participar das conversas ao final da tarde, no paiol de milho, por exemplo, é uma forma do indivíduo se legitimar como um sertanejo autêntico, já que estas prosas eram um costume diário do sertanejo, como observamos nesta passagem:

Não era preciso tanto cuidado, agradeceu meio confundido. Tomou-lhe a bênção rápido, cumprimentou a moça e foi despedir-se do pessoal da casa, àquela hora, como de costume, reunida no paiol de milho, em comentários ao acaso do dia. (RAMOS, 1986, p. 122).

 Destaca-se também o fato de pedir a bênção ser uma atitude comum entre os sertanejos, demonstrando uma ligação forte com a religiosidade. Além disso, as rezas de terços, seguidos de procissões em volta do curral era uma forma de manifestar a cultura deste povo e, consequentemente, realçar mais um traço de sua identidade de povo simples, ligado a tradições religiosas do local.

A cultura é o conjunto de atividades e modos de agir, costumes e instruções de um povo. É o meio pelo qual o homem se adapta às condições de existência transformando a realidade. É um processo em permanente evolução, diverso e rico. É o desenvolvimento de um grupo social, uma nação, uma comunidade, fruto do esforço coletivo pelo aprimoramento de valores deste grupo. É o conjunto de fenômenos materiais e ideológicos que caracterizam um grupo étnico ou uma nação (língua, costumes, trabalhos, rituais, culinária, vestuário, religião, etc ), estando em permanente processo de mudança.

Falar de cultura é compreendera humanidade em toda a sua riqueza e toda a sua forma de existência. A cultura expressa o que une e o que diferencia os agrupamentos humanos. A manifestação cultural se faz muito importante para aqueles que a vivem, pois é através dela que um grupo social expressa sua existência. Assim, é necessário conhecer a realidade de um povo para compreender as práticas culturais e para que estas práticas façam sentido.

Há variações nas maneiras de praticar o trabalho e cada grupo humano o pratica de acordo com suas necessidades. Isto é uma manifestação cultural, uma vez que caracteriza um povo, diferenciando-o de outros grupos humano. É neste sentido que, como já salientamos, a identidade se constrói na oposição e na relação de práticas culturais diferenciadas.

O estudo da cultura de um povo contribui para combater o preconceito e para conhecer e dar sentido às diferentes relações humanas. Somente a partir do conhecimento dos costumes e valores criados por determinado grupo será possível compreender o sentido e valorizar tais manifestações naquele contexto específico. Os contos de Tropas e Boiadas retratam de forma intrínseca a vida social goiana e a natureza, recriando uma realidade verossímil, perfeita, reconhecível, possibilitando ao leitor o conhecimento dos valores de um povo. Há um trabalho com as palavras que contribui ainda mais para que o leitor possa depreender a cultura do sertanejo. Assim é que, por exemplo, ao se referir a uma mala de couro cru, para levar em viagem a cavalo, o narrador utiliza o termo “bruaca”, apresentando-nos aquela realidade, como podemos observar no trecho:

O cabra, atentando na lombeira da burrada, tirou dum sorrãozito de ferramentas, metido nas bruacas da cozinha, o chifre de tutano de boi, e armando duma dedada correu todo o lote, criando aqui uma pisadura antiga... (RAMOS, 1986, p.31)

Assim, a cultura nos fazer enxergar a nós mesmos como seres sociais, na relação com as diferenças e semelhanças. As discussões sobre cultura podem nos fazer pensar sobre nossa própria realidade social. Cada grupo social organiza e transforma a vida em sociedade para superar os conflitos e obstáculos diários. Cada cultura é resultado de uma história particular, de necessidades particulares e nisto podemos incluir o contato com outras culturas.



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Fonte:
Cristiano Curtis Eliassim e Braz José Coelho: “identidade, cultura e linguagem – léxico relativo às atividades profissionais em Tropas e Boiadas, de Hugo de Carvalho Ramos”. Universidade Federal de Goiás – Campus Catalão. Anais do SILEL. Volume 3, Número 1. Uberlândia: EDUFU, 2013, disponível em: http://www.ileel2.ufu.br/

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