16/02/14

O Matuto, de Franklin Távora

 O Matuto, de Franklin Távora
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O Matuto e Lourenço: irmãos de O Cabeleira

Prometido no final da carta-posfácio a O Cabeleira, o romance O Matuto é publicado dois anos depois do primeiro, continuando a série Literatura do Norte. Na carta-prefácio, o autor explica que a obra é fundamentada no argumento histórico da Guerra dos Mascates e que já teria a sua continuação concluída, a qual viria a público com alterações e acréscimos, somente em 1881, com o título de Lourenço. Junto com a produção de O Matuto, Távora teria escrito, ainda, uma carta na qual examina as objeções “de amigos e inimigos” à sua campanha literária. Esta fica reservada para mais tarde, juntamente com a publicação de Lourenço:

Nessa carta, além de examinar as objecções, estudo á luz do criterio historico, que me pareceu mais natural e justo, a rebellião da nobreza e posteriormente a dos mercadores em Pernambuco a qual trouxe a guerra que passou á história com o nome de – Guerra dos Mascates.
Para encurtar tempo e diminuir paginas deixo a carta na gaveta com a continuação, já prompta, da presente historia.
Si me resolver, sahirão a lume os dois escriptos na mesma occasião que, segundo suspeito, não tardará muito.

O terceiro romance da Literatura do Norte sai três anos depois do segundo, na Revista Brasileira, mas não se tem notícia da referida carta crítica.

O Matuto deixa mais um sinal de que as idéias literárias de Franklin Távora permaneciam no encalço das empreitadas romanescas de José de Alencar. À época da primeira publicação das Cartas a Cincinato, o autor de Iracema teria se empenhado na produção de mais um “romance histórico”, que novamente se vale da pesquisa nas “fontes do passado”, embora elas nunca fossem suficientemente reconhecidas pelo rival. Certamente sem acaso ou coincidência, este romance, levado aos prelos em 1871 e saído em 1873, recebe o título de Guerra dos mascates. Na nota que encerra o primeiro volume da obra, Alencar frisa exatamente o aspecto que a diferencia dos seus outros romances, cujo conteúdo teria sido “fornecido pela imaginação”:

É o Til desses livros que se compõem com material próprio, fornecido pela imaginação e pela reminiscência; e que portanto se podem escrever em viagem, sobre a perna, ou num canto da mesa de jantar.
Não sucede o mesmo com um romance histórico, e ainda mais em nosso país onde as fontes do passado nos ficaram tão escassas, senão muitas vezes exaustas.
Para descrever a nossa sociedade colonial é necessário reconstruí-la pelo mesmo processo de que usam os naturalistas com os animais antediluvianos. De um osso, eles recompõem a carcaça, guiados pela analogia e pela ciência.

Diferentemente de Til, tipo de ficção imaginativa que se poderia escrever “sobre a perna”, a Guerra dos mascates exigia lupa investigadora do autor, digna de um “naturalista” amparado pela precisão da ciência. Como uma sutil resposta de Alencar aos ataques das Cartas, a nota desculpa o livro como “inocente” em suas imperfeições e encerra um comentário sugestivo a respeito da imprensa, qualificada como um “gênio do bem e do mal”.
O mesmo episódio histórico tratado por Alencar serve de tema para o segundo romance da Literatura do Norte. Nesta obra, a “crônica pernambucana”, melhor vinculada à trama ficcional, conjuga-se ao enredo de forma a se misturarem personagens inventados e vultos históricos com maior coesão e conveniência, sem danos ao fio conectivo antes descuidado na história do bandido José Gomes e percebido pela primeira recepção crítica.

Lourenço, um dos protagonistas de O Matuto, que depois dará título à sua continuação, é, como o Cabeleira, uma espécie de “herói abortado”, no entanto, inteiramente fictício. Além disso, possui uma diferença fundamental em relação àquele: trata-se do exemplo de um indivíduo de maldade natural que é salvo pela educação, ao contrário do cangaceiro de índole boa, mas mal encaminhado. Este personagem, também envolvido pela atmosfera mística dos valentes e fortes, qual feras selvagens, é convincentemente infiltrado no conflito histórico entre a “nobreza” dos engenhos olindenses e os negociantes portugueses de Recife, chamados “mascates”. Trata-se do período histórico em que começam a se desenvolver as atividades urbano-comerciais por meio do promissor porto recifense e a decair a agricultura açucareira em virtude da concorrência internacional. Neste processo de transformações econômicas, os mercadores portugueses tornam-se cada vez mais numerosos em Recife, o que vai caracterizando o povoado progressivamente como centro comercial a ponto de elevá-lo à categoria de vila, desligada da subordinação à Olinda. Todos esses fatores geram disputas de natureza política e econômica entre senhores de engenho e comerciantes, que resultam na insurreição que ficou conhecida como a Guerra dos Mascates (1709-1711). A interpretação de Távora transforma o argumento histórico, no romance, em um dos primeiros e grandes enfrentamentos antilusitanos no Brasil, que confere aos senhores de engenho pernambucanos o papel de pioneiros insurgentes pela independência. A patente simpatia por esta aristocracia rural e pelas relações pessoais e de trabalho da sociedade patriarcal açucareira estão em acordo com a tese de um Nordeste positivamente “tradicional”, da região que conserva um passado definidor do caráter brasileiro. Esta tese será depois desenvolvida na obra sociológica de Gilberto Freyre, o qual, distanciado das teorias racistas que nortearam Sílvio Romero, também atribuirá importância fundamental à contribuição africana na cultura brasileira.
[...]
Como antes comentamos, esta continuação se realiza com o folhetim Lourenço, na Revista Brasileira, em 1881. Com O Cabeleira e O Matuto, o romance compõe uma trilogia de narrativas com cenários, informações históricas e personagens muito semelhantes. A temática apresentada nos dois primeiros livros, edições que são custeadas pelo autor e não ultrapassam os 500 exemplares, é aparentemente mal recebida pelo público. Talvez por isso, o autor revisa o manuscrito de Lourenço tentando agradar o gosto dos leitores:

Esta crônica, pronta há mais de dois anos para seguir em volume o Matuto, cujo é conclusão lógica e natural, acaba de sair a lume na Revista Brasileira, a que dedico afetos de natureza paternal.

Mudando-se o plano da publicação, tive por necessário adaptar o trabalho aos leitores da Revista, que eu não podia presumir fossem absolutamente os mesmos do Matuto. Fiz por isso muitas alterações neste manuscrito. Aumentei informações e minúcias, reproduzi idéias inúteis no primeiro caso, indispensáveis no segundo. Quem ler agora o Matuto e o Lourenço notará algumas repetições. É certo, porém, que, na leitura, pode ser este desacompanhado daquele. Pelo que respeita às repetições, passará as vistas por cima delas o leitor benévolo, sem enxergar matéria para corpo de delito contra o autor, atentos os motivos explicados.



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Fonte:
Cristina Betioli Ribeiro: “um norte para o romance brasileiro:  Franklin Távora entre os primeiros folcloristas”. (Tese apresentada ao programa de Teoria e HistóriaLiterária do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL)da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP),como requisito para obtenção do título de Doutor emTeoria e História Literária, na área de LiteraturaBrasileira. Orientadora: Prof.ª Dr.ª Márcia Azevedo de Abreu). Instituto de Estudos da Linguagem. Unicamp – FAPESP - Campinas / 2008

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