16/02/14

O Cabeleira , de Franklin Távora

 O Cabeleira , de Franklin Távora
Para baixar este livro gratuitamente em formato PDF, acessar o site  do “Projeto Livro Livre”: http://www.projetolivrolivre.com/
(
Download)
Os livros estão em ordem alfabética: AUTOR/TÍTULO (coluna à esquerda) e TÍTULO/AUTOR (coluna à direita).

---


Aspectos naturalistas na construção do personagem n’O Cabeleira

Apesar do tom demasiadamente modesto e do permanente estado de defesa do autor (cf. ARAÚJO, 2008, p. 2), a carta prefácio do romance O Cabeleira – endereçada ao suposto amigo que mora em Genebra – já conduz o leitor na direção de quem vai ler uma denúncia: numa região específica do país, havia miséria, ignorância, injustiças, carências, entre outras situações que afetam diretamente a vida de homens, mulheres, jovens, crianças, brancos, negros, pardos, indígenas, mulatos. Uma região de gente desassistida e, por isso, sem acesso a nenhuma das mudanças prenunciadas pela civilização:

[...] O trabalho, o capital, a economia, a fartura, a riqueza, agentes indispensáveis da civilização e grandeza dos povos, teriam lugar eminente nesta imensidade onde vemos unicamente águas, ilhas, planícies, seringais sem-fim. (TÁVORA, 1993, p. 10)

Para Franklin Távora, a propensão à criminalidade era iminente dentro daquele contexto social. Não por acaso, o narrador d’O Cabeleira afirma que o menino José Gomes fora reduzido “a uma m quina de cometer crimes”. Assim, na opinião de Ana Márcia Siqueira (2010), Távora já demonstrava determinadas preocupações na carta prefácio:

As palavras indiciam preocupações relativas à reflexão sobre a criminalidade e suas causas, posto que não somente de benfeitores é feita a história, e tanto o Bem quanto o Mal transferem seus legados à sociedade. Sob essa óptica, embora as causas do comportamento criminoso de José Gomes [...] sejam pautadas na má educação imposta pelo pai violento, a despeito dos bons exemplos dados pela mãe, o bandido representa o resultado de um prognóstico, reiterado de modo diverso no segundo e no terceiro romance do projeto: de que a miséria e o abandono político-administrativo geram bandos de criminosos comprometendo o futuro do país. (SIQUEIRA, 2010, p. 212)

Motivado por essa perspectiva, Távora apresenta na trama do romance a trajetória do menino José Gomes (posteriormente Cabeleira) até o momento da execução pública do bandido, esta igualmente realizada contra o pai, Joaquim, e o comparsa Teodósio. Juntos, os três aterrorizam a região onde se passa todo o enredo, a então província de Pernambuco, no século XVIII. Eles cometem roubos, saques em armazéns, assassinatos, tudo sempre com muita violência e brutalidade, munidos de “bacamartes, parnaíbas, facas e pistolas”. Tanto a tradição popular como a história de Pernambuco atestam a existência do bandido sanguinário que deu origem à narrativa tavoriana. Ressaltando o que dissemos em capítulos anteriores, o escritor se valeu também de elementos históricos para reproduzir – por meio da criação literária de cunho regionalista – a trajetória do herói criminoso. Assim, o autor constituiu como matéria-prima as tensões, os dramas, as experiências afetivas, entre outras vivências de matutos, jagunços e sertanejos. Além disso, a construção desses personagens feita em torno da figura do “homem do mato”.

 No romance, a transformação do menino José Gomes no bandido Cabeleira ocorre por razões específicas, uma delas está ligada à noção de hereditariedade. Na composição do protagonista, percebe-se que o menino José Gomes herda o bom coração da mãe, mas sofre a perversa influência do pai Joaquim Gomes, “sujeito de más entranhas, dado à prática dos mais hediondos crimes”. Ao descrevê-lo, Távora diz:

Este homem era o gênio da destruição e do crime. Por sua boca falavam as baixas paixões que à sombra da ignorância, da impunidade e das florestas haviam crescido sem freio e lhe tinham apagado os lampejos da consciência racional que todo homem traz do berço, ainda aqueles que vêm a ser depois truculentos e consumados sicários. (TÁVORA, 1993, p. 19)

À medida que Joaquim Gomes consegue influenciar o filho, as ações do menino José ganham ares de crueldade, em clara contraposição aos ensinos e à bondade de sua mãe Joana. Paralelamente a isso, Cabeleira também é apresentado pelo narrador como alguém capaz de ter bons sentimentos, que vão de encontro àqueles manifestados durante a vida de atrocidades cometidas por ele. E quem desperta nele certo grau de benevolência é a amiga de infância, Luisinha, com quem se reencontra anos depois.

Ao inserir no enredo a relação entre Luisinha e José Gomes, Távora pretende sensibilizar o leitor e reforçar a ideia de que, em outras circunstâncias, o menino não teria se transformado em um criminoso, visto que ele tinha boa índole, porém, desde cedo, havia sido tiranizado pelo pai:

[...] Se alguma vez entrares em casa, como entraste hoje, apanhado, chorando, ouve bem o que te estou dizendo, dou-te uma surra de tirar a pele e cabelo, e corto-te uma orelha para ficares assinalado. (TÁVORA, 1993, p. 41)

Mesmo posteriormente identificado como violento, bruto e, em determinadas circunstâncias, impiedoso, Cabeleira oscila entre sentimentos de bondade e maldade, os quais teriam sido herdados da mãe e do pai, respectivamente:

Joana, a mãe boa e fraca, viveu em luta incessante com Joaquim, o pai sem alma nem coração. José foi sempre o motivo, a causa desse embate sem tréguas, José, o filho sem sorte que estava fadado a legar à posteridade um eloquente exemplo para provar que sem educação e sem moralidade é impossível a família. (TÁVORA, 1993, p. 37)

Em alguns dos episódios do romance, percebemos a contrariedade com a qual Cabeleira realiza certas ações. Por exemplo, há um momento da trama em que ele questiona o pai sobre a necessidade de matar determinado matuto, até mesmo porque as pessoas estavam com medo e, por isso, fugiam deles (“Para que matar se eles fogem de nós?”). Ao que o pai responde: “matar sempre, Z Gomes”.

Por essa razão, o personagem principal também passaria a agir de maneira bruta, agressiva, violenta, que, entretanto, contrastava com a descrição amena feita pelo narrador sobre a aparência física de Cabeleira:

José cresceu, reformou, pôs-se de todo homem. Perdeu a cor terrena e pálida com que o vimos da primeira vez na taverna, e tornou-se robusto de corpo e bonito de feições. Cabelos compridos e anelados, que lhe caíam nos ombros, substituíram a penugem que mal lhe abrigava a cabeça nos primeiros anos. (TÁVORA, 1993, p. 26)

O pai de Cabeleira e o seu comparsa Teodósio, ao contrário do protagonista, são descritos de forma bem diferente, que separa, pela constituição física, os bandidos do herói bandido:

Joaquim, que contava o duplo da idade de seu filho, era baixo, corpulento e menos feito que o Teodósio, o qual, posto que mais entrado em anos, sabia dar, quando queria, à cara romba e de cor fula, uma aparência de bestial simplicidade em que só uma vista perspicaz, e acostumada a ler no rosto as ideias e os sentimentos íntimos, poderia descobrir a mais refinada hipocrisia. (TÁVORA, 1993, p. 15)

A aparência física de Cabeleira, que destoava de suas ações violentas, parece conservar no bandido sanguinário algo que hereditariamente insistia em se manter na sua composição, isto é, a sua semelhança com a mãe. Apesar das formas vigorosas, a descrição física do “mancebo” mantinha algo do menino que ele fora. Essa herança materna se mostra em alguns aspectos físicos: os longos cabelos encaracolados; a languidez dos olhos; o nariz pequeno; os “lábios delgados”; a candidez:

Cabeleira podia ter vinte e dois anos. A natureza o havia dotado com vigorosas formas. Sua fronte era estreita, os olhos pretos e lânguidos, o nariz pouco desenvolvido, os lábios delgados como os de um menino. É de notar que a fisionomia deste mancebo, velho na prática do crime, tinha uma expressão de insinuante e jovial candidez. (TÁVORA, 1993, p. 14)

Curiosamente, a aparência do jovial mancebo, “velho na prática do crime”, evocava mais o estereótipo do poeta romântico que o do sertanejo. Essa constituição do personagem parece se identificar com um traço romântico que se mistura, na narrativa, às descrições dos crimes sanguinários do bando de Cabeleira. A imagem romântica do bandido está entremeada à da figura feminina, fortemente associada à possibilidade de redenção. A mãe de Cabeleira é a fonte dos bons sentimentos que ainda resistem no “músculo endurecido que ele trazia no peito”, e Luisinha, “menina branca, órfã, de índole benigna e de muito bonitos modos”, cheia de “encantos naturais que a todos cativavam com justa razão”, aquela que “pela primeira vez depois de tantos anos” dobrou o coração endurecido do bandido “a uma impressão profunda, a uma força irresistível e fatal, como a cera se dobra ao calor do lume”, provocando a inexplicável, a não ser pela lógica do amor romântico, total regeneração do bandido Cabeleira.

Aquele homem bruto e sanguinário reservava dentro de si a paixão pela amiga de infância, a doce Luisinha, que fora criada pela viúva Florinda, mulher assassinada por Cabeleira. Anos depois de ter saído de casa para acompanhar os intentos do pai, Cabeleira a reencontra. A essa altura, o bandido já está sendo procurado pela polícia, por ordem do governador de Pernambuco.

Conforme a deliberação tomada no senado da câmara pelo governador, capitães-mores e coronéis de ordenanças, a busca dos malfeitores tinha de ser dada ao mesmo tempo nas matas dos respectivos distritos. (TÁVORA, 1993, p. 88)

Luisinha acaba se escondendo pelas matas ao lado de Cabeleira. Após algumas palavras ditas pela amiga, Cabeleira se arrepende da vida que levara até aqui. A moça, excessivamente cansada e com febre, morre diante do menino que se transformara, ao longo da vida, em bandido. Ao final da história, depois de Joaquim e Teodósio serem capturados, Cabeleira, mesmo regenerado, é preso, julgado, condenado à pena de morte e executado
diante da mãe, que morre ao ver seu filho enforcado:

[...] O infeliz mancebo, que, mal acabara de falar tinha sido rudemente impelido do estrado para o vácuo, pendia da corda assassina, tendo sobre os ombros o carrasco que apertava com as mãos cobardes o laço sufocante. Cena bárbara que enche de horror a humanidade, e cobre de vergonha e luto, como tantas outras, a história do período colonial! (TÁVORA, 1993, p. 134)

Como se vê, sendo Távora “medularmente romântico”, para usar a imagem de Candido (2007a), a noção de hereditariedade no romance se diferencia da perspectiva naturalista, uma vez que nesta prevalecem os traços hereditários mais negativos, enquanto na narrativa de Távora, os elementos genéticos dominantes são os de Joana, “a mãe boa e fraca”, de quem a figura ideal de Luisinha é uma confirmação.

Para identificar o seu projeto de Literatura do Norte, o autor cearense insere em sua narrativa elementos que caracterizam o modo de vida do cangaceiro, considerando Cabeleira o antecessor de Lampião, sobretudo porque, assim, identificava o protagonista ao sertão nordestino. Távora, por exemplo, faz referências à culinária nordestina (arroz-doce, beijus, tapiocas); reproduz o vocabulário típico daquela região (vosmecês, pé-rachado, bacamartes, parnaíbas); inclui características de figuras pertencentes a essa localidade do Brasil (repentistas, cangaceiros, boiadeiros, matutos); além de apresentar a paisagem presente no Nordeste (caatinga, matos, sítios, juazeiros, cavalos, secas), entre outros aspectos.

Dentro desse cenário de peculiaridades regionais, o autor constrói (ou reconstrói) o personagem principal com a representação do pitoresco, do exótico e da cor local, características da tendência regionalista da época, de acordo com definições de Antonio Candido e Ligia Chiappini, das quais tratamos anteriormente. Essa necessidade de identificar personagem e região intensifica o papel do meio na composição do personagem. De certo modo, o meio social, com as suas características geográficas e históricas, determina a construção do personagem; o que exprime certo determinismo, pois a vida do personagem segue em direção a um destino que a sua vontade ou ação, mesmo quando regenerado, não pode evitar, por outro lado, isso é também índice da fidelidade de Távora à realidade, preferindo o desfecho trágico, que assume caráter exemplar, em lugar do final feliz romântico. A vida do personagem é então apresentada como uma espécie de exemplo ou ilustração. Trata-se de um “filho sem sorte que estava fadado a legar à posteridade um eloquente exemplo”. Nesse sentido, as a es violentas do personagem são reações imediatas ao meio que o cerca.

De acordo com Bariani, a história d’O Cabeleira é permeada de violência, encarnada pela maldade de alguns dos seus personagens, inclusive pelo próprio protagonista:

A maldade presente nas ações do protagonista é deveras chocante e, muitas vezes, embora motivada por ações alheias, sua reação é desproporcional às circunstâncias. Pressionado pelo pai e pelo contexto, Cabeleira não é deliberadamente mal, não exerce a maldade com volúpia e finalidade, não se guia – pode-se dizer, teleologicamente – pelo mal, responde aos estímulos de modo quase instintivo e, sem dúvida, atroz. Sua maldade caracteriza-se por uma relação condicionada, uma espécie de física comportamental que impele os corpos ao atrito, daí a resultante violência. (BARIANI, 2008, p. 2)

Uma das ações do Cabeleira que são desproporcionais às circunstâncias é a que envolve mais duas personagens: Timóteo, dono de um armazém (bodega), e a sua mulher, a mameluca Chica. O lugar era uma espécie de comércio ilegal, pois os produtos vendidos eram furtados pelos negros dos engenhos da redondeza, como descreve o narrador. Na cena em que José Gomes desce do cavalo e vai comprar aguardente no armazém de Timóteo, o animal começa a comer a grama do pátio. Irritada com a situação, Chica dá um golpe no cavalo, que foge em seguida. Depois disso, o que se segue é a violência do jovem contra Chica:

[...] As mãos de José porém pareciam, pela dureza e pelo peso, manoplas fundidas de propósito para esmagar um gigante. Demais, José havia posto um pé no pescoço de Chica, e com ele comprimia-lhe o gasnete, tirava-lhe a respiração, afogava-a sem piedade. [...] José montava-se literalmente na mameluca, e dava-lhe com os restos da raiz da gameleira já sem serventia. (TÁVORA, 1993, p. 24)

Naquele sertão de terras áridas, conforme o romance, alguns personagens apresentam características semelhantes aos aspectos climáticos da região, são brutos, de tratamento rude. Ou seja, a brutalidade com que os crimes e os assassinatos são cometidos espanta o leitor, que se vê diante da frieza de personagens que em nada contrastam com a paisagem e o ambiente físico descritos pelo narrador onisciente.

Para Távora, a pobreza – que decorre, entre outros fatores, da questão climática do sertão, – deve ser encarada como uma forma de degradação humana: “a fome obrigara o bandido a deixar o mato, como obriga as aves a emigrarem, e as feras cervais a deixarem seus covis”. Assim, a aridez do clima pode passar a ser condição de desumanidade, ausência de brandura e de amenidade, aspereza no trato com outros homens:

[...] que diremos nós para darmos a conhecer, não unicamente os efeitos da peste [contágio de Varíola, conhecida como bexiga], comum a todos os climas e a todas as regiões, mas juntamente com estes efeitos os da seca, flagelo especial de algumas de nossas províncias do Norte? (TÁVORA, 1993, p. 29)

Questões como as da seca integram também as preocupações de Franklin Távora, que já naquele momento parecia estar de acordo com o que, mais tarde, será discutido, por exemplo, em “Sertões e sertanejos: uma geografia humana sofrida”, do geógrafo Aziz Ab’Saber (1999), para quem há a necessidade de tratar com seriedade os assuntos especificamente relacionados ao povo sertanejo:

[...] para que não se cometam as injustiças sociais tão perversas quanto aquelas predominantes em todo o Nordeste seco. [...] Na luta contra as implicações das secas estará sempre em foco a luta para minimizar a pobreza de alguns milhões de nordestinos. (AB’SABER, 1999, s/n)

Franklin Távora entendia que somente a educação seria capaz de transformar o contexto regional e nacional daquele povo, mas é igualmente verdade que a sua crença na educação estava baseada na concepção de que o meio transformava o homem e interferia em seus instintos, ideia esta baseada nas concepções de Rousseau – de que o homem nasce bom e é corrompido pelo meio. Dessa maneira, a composição do personagem e a de seu destino obedece à lógica da relação direta entre as ações do personagem e o meio social e cultural atrasado em que ele está inserido:

Condena-se à forca o escravo que mata o senhor, sem se atender a que, rebaixado pela condição servil, paciente do açoite diário, coberto de andrajos, quase sempre faminto, sobrecarregado com trabalhos excessivos, semelhante criatura é mais própria para cego instrumento do desespero, do que competente para o exercício da razão. (TÁVORA, 1993, p. 135)

Existem muitos episódios no romance que evidenciam a violência como aspecto marcante da narrativa. No episódio em que Cabeleira, o pai Joaquim e o comparsa Teodósio surgem com o intuito de assaltar a vila pernambucana, que realizava uma festa, uma das pessoas presentes reconhece o bandido, despertando assim os soldados da infantaria e provocando a gritaria da multidão, que se dispersa com medo dos malfeitores. Após o tumulto causado na vila com a notícia de que o bando estaria por lá, Joaquim, pai de Cabeleira, aparece em mais outra cena de sangue e violência:

Joaquim, feroz por natureza, sanguinário por longo hábito, descarregou a parnaíba sobre a cabeça do primeiro que acertou de passar por junto dele. A cutilada foi certeira, e o sangue da vítima, espadanando contra a face do matador, deixou aí estampada uma máscara vermelha através da qual só se viam brilhar os olhos felinos daquele animal humano. (TÁVORA, 1993, p. 19)

Episódios como esse se repetem no romance. Mulheres morrem incendiadas, homens e crianças são brutalmente assassinados. O menino José Gomes já se torna conhecido pelas atrocidades e crimes, os quais – na opinião do narrador – tiveram a sua origem na “ignorância e na pobreza”:

Segundo o narrador, o comportamento dos personagens (e sua disposição para a maldade), sobretudo do herói, repousa nas condicionantes derivadas das eventuais presença e influência da natureza e, principalmente, da educação. Numa interpretação dessa assertiva, a natureza pode ser percebida como o ambiente físico e os fatores genético-biológicos, certa vivência ecológica do indivíduo; já a educação, em sentido lato, refere-se às formas culturais, sociais dessa vivência, desde a eventual existência e desempenho das instituições (Estado, família, escola, religiosidade), passando pelos modos de sociabilidade, até a influência de uns indivíduos sobre outros – enquanto modelo de ação a partir de seus papéis sociais e atuação individual, como o “exemplo” dado pelo pai ao filho. (BARIANI, 2008, p. 2)

Antes, porém, do término do livro, no episódio em que Cabeleira e Joaquim afrontam o crioulo Gabriel para lhe roubarem o cavalo, que era fundamental para o sustento da família do dono do animal, trava-se uma luta entre Cabeleira e o negro. O narrador, então, após descrever a cena, diz: “A esse combate surdo, medonho, dava lúgubre realce o deserto com sua profunda solidão” (TÁVORA, 1993, p. 34). A experiência negativa, que ninguém poderia ouvir, funesta, é a mesma que deu origem e forma à obra de Franklin Távora, o desejo de representar a região que faz com que ela seja apresentada como realce da ação, isto é, Távora pretendia fundir a ação romanesca e a realidade regional, mas, para ele, tal fusão dependia sobremaneira da observação direta do meio pelo escritor, o que limitava, em parte, a invenção necessária para a criação de um mundo vibrante e vivo no romance.

Na avaliação de Ana Márcia Siqueira, que estuda os romances vinculados à Literatura do Norte, Távora também investiga em suas obras, além da violência evidente, “os meandros interiores da alma humana”. Nesse sentido, o objetivo do romancista seria tentar compreender quais as forças que induzem e direcionam as escolhas individuais:

Os romances constitutivos da “Literatura do Norte” estão centrados na problemática relativa à presença do Bem e do Mal na vida humana. O autor busca discutir tal embate no contexto social e no espaço da subjetividade. Será no íntimo dos dois protagonistas que se desenvolverá o conflito entre a postura violenta e instintiva praticada em uma vida livre e a necessidade de um comportamento civilizado e dócil como condição para se viver o amor (caso de Cabeleira) ou viver no contexto familiar e comunitário, caso de Lourenço. (SIQUEIRA, 2010, p. 219)

Para a estudiosa, um dos aspectos naturalistas presentes na obra de Távora seriam as características animalescas atribuídas aos personagens (“homens que vivem como feras”, escreve o narrador). Segundo ela, esse tipo de atribuição “constituiu objeto de especial utilização pelos escritores naturalistas”:

O intuito de análise científica leva-os a criar uma espécie de animalização do homem como meio de se enfatizar a preponderância das funções fisiológicas ou dos instintos sobre a vontade ou a consciência humana. Esta visão, segundo Zola, é uma “consequência da evolução científica do século”, que “substitui o estudo do homem abstrato e metafísico pelo estudo do homem natural, submetido a leis físico-químicas e determinando pelas influências do meio””. (SIQUEIRA, 2010, p. 220)


---
Fonte:
Aline Jesus de Menezes: “Tensões, aridez e realidade no romance O Cabeleira, de Franklin Távora”. (Dissertação apresentada como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre, conferido pelo Programa de Pós-Graduação em Literatura e Práticas Sociais do Instituto de Letras da Universidade de Brasília. Orientadora: Profa Dra Ana Laura dos Reis Corrêa). Universidade de Brasília - Instituto de Letras - Brasília, 2012

Nenhum comentário:

Postar um comentário