05/02/14

O Judeu, de Camilo Castelo Branco

O Judeu, de  Camilo Castelo Branco
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História e ficção em O Judeu

Em meados do século XX, O Judeu de Camilo Castelo Branco veio a provocar certa confusão nos meios escolares portugueses, porque a obra fora tomada por alguns professores como rigorosamente biográfica. Entretanto, hoje não é difícil constatar que, depois da divulgação de informações biográficas sobre Antônio José da Silva e das pesquisas de João Lúcio de

Azevedo – e, mais recentemente, do professor português José Oliveira Barata e do jornalista brasileiro Alberto Dines –, muitos dos fatos narrados por Camilo são oriundos de seu talento como novelista e, portanto, não correspondem factualmente à vida do comediógrafo luso-brasileiro. Possivelmente, nem terá sido esta a intenção de Camilo; afinal, fica claro que as lacunas da vida do comediógrafo são preenchidas, nessa narrativa, por permenores de ações e diálogos facilmente identificáveis como ficcionais.

No século XVII, Jean-Pierre Camus, bispo de Belley, escrevia romances que misturavam acontecimentos verdadeiros e fatos puramente ficcionais. A intenção de Camus, por incrível que pareça, era desestimular a leitura de romances, que na época eram considerados contrários à moral e à religião. Entretanto, por escrever justamente romances, Camus foi acusado da mesma infração que ele tencionava combater com os seus livros. Por isso, em seu texto Le Cleoreste, o autor defende o seu trabalho romanesco, argumentando que, por mais que tenha inventado pequenos acontecimentos e situações em suas obras, a verdade não saíra, por isso, distorcida; ao contrário, ela ficara ainda mais clara e instrutiva para o leitor (Cf. CANDIDO, 1989).

Tal fato nos mostra que as discussões e controvérsias acerca da relação entre verdade e ficção já existiam bem antes de o romance se estabelecer como gênero “s rio” e alcançar seu atual status quo. É possível que Camilo, em pleno século XIX, acreditasse piamente que, escrevendo uma obra ficcional atravessada por diversos elementos históricos e biográficos, ele não estivesse infringindo a verdade factual, nem que tal obra pudesse suscitar alguma celeuma entre os leitores envolvendo a distinção entre o verídico e o inventado. Camilo (1919), aliás, à página 126 do segundo volume d’            O Judeu, depois de discutir e explicar um possível erro de datas em um dos documentos que consultara, adverte que procura evitar exatamente esse tipo de problema: “(...) a mim custava-me que, se algu m visse a errada data d’estes livros do cavalheiro [refere-se ao Cavaleiro de Oliveira], me arguisse de inventor de anachronismos inculcadamente históricos”.

Vários dos fatos narrados são comprovados através da citação de fontes bibliográficas, principalmente nas fartas notas de rodapé. Além disso, Camilo acrescenta trechos de documentos e de obras pesquisadas especialmente para a construção dessa narrativa. Por exemplo, à página 95 do primeiro volume, traslada-se o tomo nove do Gabinete histórico de fr. Claudio da Conceição; ou ainda, à página 219, há a reprodução da lista de pessoas condenadas no auto-de-fé de 18 de outubro de 1739, colhida numa obra de Inocêncio Francisco da Silva. Esses recortes ou cópias de documentos autênticos espalham-se por toda a obra, provavelmente para objetivar e conferir aspecto de realidade histórica à narrativa. Segundo Maria Teresa de Freitas:

Essa técnica, denominada colagem, que consiste em introduzir no instrumento de representação do mundo exterior [...] elementos preexistentes diretamente extraídos desse mundo — fragmentos de realidade dentro do discurso de ficção —, traduz sem dúvida a intenção de objetividade do autor; ela corresponde às citações do discurso histórico, que autentificam a palavra do autor remetendo às fontes. Por outro lado, a seleção de documentos denuncia a presença de um organizador do discurso que se mostra como tal, que se deixa localizar na sua informação em nome de um saber que deve ser justificado — como é o caso do historiador. Além do mais, a colagem impõe também uma leitura referencial, que apela para os conhecimentos extratextuais do leitor, e reveste o discurso de uma certa autenticidade, intensificando assim seu valor documental (FREITAS, 1986, p. 20)

Admitamos, pois, que Camilo, como historiador-biógrafo, foi um excelente ficcionista. O autor, buscando a coerência interna de sua narrativa e a boa recepção de seu público, recheia a obra de diversos lances folhetinescos e de peripécias envolvendo os pares românticos, além de sentimentalismo exacerbado, como mandava o figurino romântico. A colagem e as referências em geral a documentos e fatos históricos não desapropriam a obra de seu estatuto de ficção, pois os acontecimentos inventados por Camilo (geralmente aqueles que na obra são representados de modo mais detalhado) sobrepõem-se muito aos fatos que podem ser comprovados documentalmente.

No mais, podemos dizer que, antes de qualquer afirmação de autenticidade, o mais importante na leitura da obra é o pacto implícito entre o ficcionista e o leitor, pacto esse que reza que a narrativa em questão deve ser aceita mais pela sua verossimilhança do que pela sua veracidade. Afinal, estamos diante de um “romance histórico”, como o classifica o autor, e não de História romanceada.


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Fonte:
Eduardo Neves da Silva: Entre a biografia e a história, o folhetim: a vida e a obra de  Antônio José da Silva em O Judeu, de Camilo Castelo Branco. Revista Hispeci & Lema On Line — ano III – n.3 — nov. 2012 —Disponível em : unifafibe.com.br/hispecielemaonline — Centro Universitário UNIFAFIBE — Bebedouro-SP

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